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MULHERES
NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO
Betania
Maciel
CESBAM-AESO
. Centro de Estudos Superiores Barros Melo- Ensino Superior de
Olinda
Desenvolvimento
Os
estudos sobre a participação das mulheres cientistas na produção
do conhecimento constituem uma área de pesquisa, em expansão,
dentro do programa mais geral das pesquisas sobre as relações
entre ciência e gênero.
O
termo gênero se utiliza, primordialmente, como gênero
gramatical; assim o dicionário de María Moliner o define nos
seguintes termos: “acidente gramatical pelos quais os nomes,
adjetivos, artigos e pronomes podem ser masculinos, femininos ou
(somente os artigos e pronomes) neutros. Tal divisão
corresponde à natureza das coisas somente quando essas palavras
se aplicam a animais, os quais podem ser machos (gênero
masculino), ou fêmea (gênero feminino) (ESTANY, 1996).
Mais
que colecionar nomes de mulheres que realizaram contribuições
relevantes, ou influentes ao desenvolvimento científico e
tecnológico contemporâneo, o que estes estudos tratam de expor
é a existência de práticas de exclusão, com sentidos duplos
e barreiras do tipo social, institucional, tradicional, que
dificultam o acesso das mulheres à carreira científica, ao
reconhecimento de seu trabalho e ao desempenho de funções de
responsabilidade, ou aos postos mais altos dos escalões acadêmicos.
Aqui podemos evidenciar a luta pela igualdade.
Estas
pesquisas sobre a presença da mulher na comunidade científica
situam-se como marco geral do surgimento dos trabalhos sobre ciência
e gênero, que incluem tanto aqueles sobre a construção social
dos estudos de gênero, como a dos conceitos científicos
aceitos geralmente e a objetividade do próprio conhecimento
científico. A teoria feminista da discriminação por sexo
conectava assim, nos anos setenta, quando surgiu esta área nova
de pesquisa, com outra linha de trabalho igualmente tão
emergente, baseada na consideração do conhecimento como crença
aceita mais que como crença verdadeira, ou seja, a prática da
ciência ser aceita pela sua adequação aos estudos e não
somente ao ponto de discussão onde ela é eticamente aceita.
A
teoria sociológica dos interesses, que buscava as causas
sociais das preferências dos cientistas através da relação
entre objetos e interesses da comunidade, mostrou a interação
entre atores cientistas e sociais e levaram a estudos etnográficos
sobre a produção do conhecimento. A sociologia do conhecimento
científico contribuiu para revisar estes estereótipos da ciência,
aceitos por historiadores e sociólogos, pelo qual a conexão de
caráter sexista resulta evidente.
Na
década dos anos oitenta surgiu no mundo acadêmico uma corrente
de pensamento cujo objetivo era estudar a relação entre ciência,
filosofia e gênero. Nos anos noventa os estudos sobre este tema
não diminuíram, mas aumentaram e se estenderam para fora dos
Estados Unidos, berço dessa corrente de pensamento (ESTANY,
1996) .
As
origens do chamado programa forte da sociologia do conhecimento
guardariam assim relação com o esforço coletivo de um
crescente número de pesquisadoras que decidiram dedicar-se ao
sexismo do próprio conhecimento científico em diversas áreas;
entre elas a antropologia, a sociologia, a literatura e a psicanálise.
Pondo
em questão a objetividade científica, este foi um dos mais
frutíferos pontos de partida do desenvolvimento da sociologia,
da filosofia e da história do conhecimento científico, que
obrigou a revisar os marcos sociais e políticos tanto como os
conceituais que conduziram à aceitação e à difusão de
teorias científicas (SANTESMASES, 2000).
É
na Universidade de Edimburgo na Escócia, onde se estabelece o
marco dos primeiros estudos organizados, com o objetivo de
elaborar uma sociologia do conhecimento científico.
A
história social da ciência tem suas bases na análise empírica
e socialmente contextualizada da ciência, defendida pela nova
sociologia do conhecimento científico. A história da ciência
praticada dentro da tradição marxista, tem antecedentes
vagamente esquecidos. Faremos uma retrospectiva para clarear um
pouco o tema: quando o soviético Boris Hessen apresentou em
Londres seu estudo sobre os Princípios de Newton em
1931, o qual defendia que as leis fundamentais da mecânica clássica
eram um produto das necessidades da burguesia inglesa do século
XVII, suas palavras não foram recebidas nem com escândalo, nem
com júbilo, mas preconizavam a sociologia da ciência, que começou
a se praticar nos anos 70. Outro historiador da tradição
marxista é o irlandês John D. Bernal, que em sua conhecida História
Social da Ciência propõe-se a analisar a “interação de
ciência e sociedade” (1964). Por sua parte, outros autores
britânicos da sociologia política da ciência de inspiração
marxista são Steven e Hilary Rose (1976), assim como Jerome
Ravetz (1971). Os autores marxistas foram tradicionalmente
relegados na consolidação institucional do movimento CTS. A
respeitabilidade acadêmica parece ter requerido, tanto na
Europa como nos Estados Unidos, o sacrifício de praticar a
ideologia e o compromisso social.
Barry
Barnes, diretor da Science Studies Unit (Unidade de Estudos
sobre Ciência) da Universidade de Edimburgo, empreende nos anos
70, a crítica teórica da imagem racionalista tradicional da
atividade científica, tomando como base o Winttgenstein das pesquisas
filosóficas, (especialmente sua discussão sobre “seguir
uma regra”), a antropologia cognitiva de Mary Douglas e o
trabalho de história e filosofia da ciência de T. S. Kuhn e M.
Hesse. Todas estas fontes indicavam um lugar comum: a relativização,
a contextualização e a ênfase no caráter convencional de
todas as afirmações de conhecimento que constituem as teorias
científicas aceitas. A fundamentação teórica do que se
chamou “sociologia do conhecimento científico”
concretizou-se no que se considera a declaração programática
da escola de Edimburgo: o Programa Forte (Stroong Programme) de
David Bloor (1976-1991), o autor mais carismático e
controvertido desta corrente.
O
Programa Forte visa estabelecer os princípios de uma explicação
satisfatória (científica) de natureza e mudança de
conhecimento científico. Neste sentido, não é um programa
complementar com respeito aos enfoques filosóficos tradicionais
(empirismo lógico), mas a constituição de um marco
explicativo rival e incompatível. Os princípios do Programa
Forte são os seguintes:
Causalidade:
a sociologia do conhecimento científico tem que ser causal, ou
seja, tem que se centrar nas condições que produzem o estado a
credibilidade do conhecimento. Também haverá outros tipos de
causas, além das sociais, que cooperarão nas produções de
crenças.
Imparciabilidade:
tem que ser imparcial com respeito à verdade e a
falseabilidade, a racionalidade e a irracionalidade, o êxito ou
o fracasso. Ambos os lados destas dicotomias necessitarão de
explicação.
Simetria: tem que ser simétrica em seu estilo de explicação. Os mesmos tipos
de causas explicarão tanto as crenças falsas, como as
verdadeiras.
Reflexibilidade:
tem que ser reflexiva. Em princípio, suas pautas explicativas
podem ser aplicadas a sociologia em si. A reflexibilidade é um
requisito inevitável porque, se não tem em conta, à
sociologia seria uma refutação permanente de suas próprias
teorias.
O
Programa Forte é apresentado como uma ciência da ciência. Seu
significado, tal como é defendido, implica na morte da reflexão
espistemológica tradicional e na reivindicação da análise
empírica: só uma ciência, a sociologia, pode explicar
adequadamente as peculiaridades do mundo científico. (BARNES e
BLOOR, 1982)
Os
esforços dos sociólogos do conhecimento científico
encaminham-se então, a partir de meados dos anos setenta, a
colocar em prática o programa de pesquisa fundamentado por
BARNES e enunciado por BLOOR (1982), aplicando-o a determinados
episódios da história da ciência. Contam com um precedente
cuja publicação, em meados dos anos trinta, teria passado
desapercebida. Nos referimos ao livro Gênesis e Desenvolvimento
de um Fato Científico, do médico alemão Ludwig Fleck (1935):
a primeira análise empírica sobre a construção social da ciência,
aplicada ao caso da sífilis. Alguns exemplos dos resultados
desta tarefa são os trabalhos de D. Mackenzie (1978) sobre a
estatística, de S. Shapin (1979) sobre a anatomia cerebral do século
XIX, de A. Pickering (1984) sobre os quarks, de S.Shapin e S.
Schaffer (1985) sobre a polêmica Hobbes-Boyle, etc.
O
programa teórico da sociologia do conhecimento científico
enunciado por Bloor foi posteriormente implementado por um
programa prático, nascido na Universidade de Bath (Reino
Unido), sobre a aplicação das propostas de Edimburgo: o EPOR (Empical
Programme of Relativism, Programa Empírico de Relativismo),
baseado no estudo empírico de desenvolvimentos científicos. O
EPOR, apresentado por H. M. Collins (1983) e desenvolvido, entre
outros por Pinch, Travis e Harvey, tem lugar em três etapas:
Na
primeira apresenta-se a flexibilidade interpretativa dos
resultados experimentais, ou seja, como os descobrimentos científicos
são suscetíveis a mais de uma interpretação.
Na
segunda etapa, como se descobrem os mecanismos sociais, retóricos,
institucionais, etc., que limitam a flexibilidade interpretativa
e favorecem o encerramento das controvérsias científicas ao
promover o consenso sobre o que é a “verdade” em cada caso
particular.
Por
último, na terceira etapa, tais “mecanismos de
encerramento” das controvérsias científicas se relacionam
com o meio sócio-cultural e político mais amplo.
O
EPOR apresenta a melhor representação do enfoque no estudo da
ciência, denominado “construtivismo social”. Enquanto o
enfoque da escola de Edimburgo era decididamente “macro
social”, explorando as conexões causais entre o conteúdo do
conhecimento e os “fatores sociais” no sentido mais amplo, o
EPOR desenvolve suas pesquisas a partir de uma perspectiva
“micro social”. Não obstante o EPOR não deixa de ter um
enfoque macro social, se levarmos em conta o último ponto do
seu programa: a relação dos “mecanismos de encerramento”
com o contexto social geral.
A
dificuldade do terceiro ponto do EPOR se agrava quando a análise
se aplica à ciência contemporânea. O próprio COLLINS (1985)
reconhece que, se existem alguns estudos históricos em que se
apresentam a influência de “interesses sociais” em episódios
científicos passados, então as pesquisas sociológicas que
relacionam episódios da ciência atual com o contexto social,
num sentido mais amplo, são mais escassas.
A
teoria feminista que enfatiza a discriminação por sexo
aplicada à história da ciência e a epistemologia elaboraram
novas questões, sobretudo está demonstrando que as instituições
e “uma multidão de fatores materiais e orgânicos que compõem
esse quadro que é conhecido também como tradição histórica
e sócio - cultural” (GARRIDO, 1993). Produziram normas e
construiram socialmente conceitos, como o de gênero, aplicados
à segregação social e profissional das mulheres. Muitas
pessoas que pesquisaram e ainda pesquisam sobre conhecimento
científico e gênero apresentam ambos os problemas de forma
estreitamente relacionada, (ciência e gênero e a comunidade
científica), estas constituem hoje duas linhas de trabalho
separadas, embora estejam mutuamente reforçadas.
Se
as mulheres não formassem parte da comunidade científica,
dificilmente suas visões de mundo, seus problemas (entre eles
podemos destacar os de saúde propriamente feminina) e suas
reflexões podiam ver-se refletidas na produção de
conhecimento filosófico e científico. Por isso, a ausência de
um número de mulheres cientistas e pesquisadoras comparáveis
ao de homens com essa profissão e a análise do conteúdo
desses conhecimentos manifestam os valores propriamente
masculinos transmitidos pelas principais correntes científicas
ao longo da história da ciência e da técnica. Os valores que
o processo cognitivo arrastou e arrasta pode ser considerado um
reflexo fiel das normas prévias das sociedades em que esse
processo tem lugar.
Assim
sugerem-se em numerosos estudos realizados a partir de uma
perspectiva feminista, igualdade e diferença de reivindicação
da inclusão das mulheres, não só na atividade científica
profissional, mas também na elaboração de teorias, através
da interpretação de dados experimentais de diversas áreas.
Investigações
sobre primatologia (HARAWAY, [1991], 1995), sobre
neuroendocrinologia (LONGINO, 1990). Sobre psicologia foram
detectados termos estritamente sexistas, androcêntricos, em
numerosas teorias amplamente aceitas.
1.Entre
a concepção do óvulo como célula “penetrada” pelo
espermatozóide o conhecimento mais recente de que este é
“absorvido”, aqui temos duas imagens distintas da natureza.
2.
O estudo de enfermidades e da ação de remédios no “homem
branco” (etnociência), e não na variedade de homens e
mulheres que podem sofrer uma enfermidade determinada e
responder à ação de um determinado remédio de forma
distinta, a partir daí podemos encontrar aspectos que conduzem
a perguntar pela fidelidade dos métodos experimentais que
derivam da diversidade.
Deve-se
considerar, portanto, esse desenvolvimento científico como
majoritariamente masculino, o que afeta também a objetividade
científica, que em parte deve ser questionada (SANTESMASES,
2000).
Este
pensamento correspondente às imagens construídas na ciência,
filosofia e religião sobre a natureza das mulheres (TUANA,
2001).
Esta
linha de pesquisa sobre ciência e gênero não é o objeto
principal da obra citada. Também estão incluídos estudos
sobre a presença da mulher nas comunidades científicas e que
apresentam um pouco dos aspectos cognitivos e sociais, de
maneira conjunta e estreitamente relacionada.
Foi
precisamente a partir dos anos setenta quando o conflito entre gênero
e ciência começa a ser objeto de pesquisa. O ressurgir do
movimento feminista e o aumento do número de mulheres na
comunidade acadêmica fazem destas sujeitos de pesquisas e se
constituem, elas mesmas, em objetos de pesquisa. Da sociologia a
história da ciência, humanidades e ciências sociais
existentes na sociedade “sob a aparência do consenso e da
liberdade” (DE MIGUEL ALVAREZ, 1996). O conflito de gênero
desenvolve –se assim, na intenção de resolver para as
mulheres cientistas a questão da visibilidade que os estudos,
até então realizados, pareciam evitar.
O
processo pelo qual a incorporação das mulheres à vida científica
pública em universidades e centros de investigação tem um
espaço de forma massiva no século XX, esta incorporação tem
sido estudada com detalhes especialmente nos Estados Unidos
(ROSSITER, 1982; 1995).
No
entanto, este excesso massivo não teve reflexo no acesso das
mulheres aos postos mais altos e aos mais afamados
reconhecimentos. Se a segregação dos trabalhos por sexo, o que
se conhece também, como discriminação por sectores
profissionais, resultaria paulatinamente amortecida, não ocorre
o mesmo na discriminação hierárquica. Ponto em que a análise
de conteúdo foi muito útil.
As
condições que produzem a entrada das mulheres na comunidade
científica têm sido acompanhadas por um conjunto de circunstâncias
próprias da segregação, ou discriminação (SANTEMASSES,
2000).
Este
ponto de vista existe em função de estudos estatísticos, também.
Segundo HARRIET ZUCKERMANN (1991), em primeiro lugar, as
cientistas são menos numerosas que os cientistas: segundo o
informe da National Science Foundation dos Estados Unidos,
uns 13% do total de pessoas dedicadas às ciências e às
engenharias nesse país, em 1984, eram mulheres. Estas têm mais
dificuldades que seus colegas homens para obter graus
superiores: 19% dos licenciados tornam-se doutores, enquanto que
as licenciadas são 11%. Não ascendem por igual em todas as áreas.
As cientistas se dedicam em sua maioria às ciências sociais e
naturais, segundo o informe citado, inclusive embora estas sejam
as áreas em que as mulheres são mais numerosas, o desemprego
destas é maior que o dos homens e seus salários menores.
Talvez seja por isso que a história profissional das mulheres
seja mais breve, menos intensa e menos reconhecida. A evolução,
desde então, se passa através das organizações e movimentos
em prol da maior participação no meio científico e isso se
realiza dentro das Universidades e Centros de Pesquisa.
A
participação limitada das mulheres na ciência tem sido
estudada com detalhe, como já havíamos mencionado, por
Margareth Rossiter em seus dois volumes históricos sobre
mulheres cientistas dos Estados Unidos, ao longo do século XX a
até 1970. O número reduzido de mulheres na ciência foi
explicado por ROSSITER, (1995), em termos sociais e econômicos,
as dificuldades encontradas pelas pesquisadoras para obter apoio
social ao seu trabalho.
Segundo
ROSSITER (1995) (...) As que trabalharam até 1940, estudadas no
primeiro volume da obra citada, que haviam recebido formação e
obtido o título de doutora, continuaram tendo grandes
dificuldades para encontrar emprego. Com a finalidade de
ajudarem-se, criaram alguns grupos, irmandades, ou sociedades
femininas, que serviram para se apoiarem, afrontando
dificuldades comuns e também para aceitá-las, mais que para
propiciar uma frente reivindicativa.
O
resultado foi a criação de prêmios especiais dedicados a
mulheres, que tiveram o seu papel
reconhecido pelos seus pares masculinos.
A
partir dos anos quarenta, quando se produz o grande
desenvolvimento da ciência nos Estados Unidos e de sua
comunidade científica, o número de homens dedicados a estes
trabalhos multiplica-se por 5 partindo dos 700 doutores em 1945,
(ROSSITER, 1995, p.34) e o número de mulheres apenas se
duplica, com um número de partida sensivelmente menor: 120. A
promissora inclusão das mulheres no desenvolvimento científico
e técnico durante a Segunda Guerra Mundial, devido à ausência
de homens, que na maioria se encontravam nas trincheiras, quando
por ocasião da volta, conduziu a uma progressiva masculinização
da ciência. Somente com o surgimento do movimento dos direitos
civis conseguiu-se que as mulheres cientistas dos Estados Unidos
obtivessem igual salário e vissem implantada uma política de
discriminação positiva para o acesso a postos acadêmicos por
lei, em 1972.
A
excepcionalidade já mencionada de mulheres cientistas
relevantes e reconhecida por seus pares é tema explorado e
analisado em biografias e autobiografias.
Suas
histórias pessoais colocam em manifesto as circunstâncias
especiais de seu êxito e a fragilidade deste. Também revelam
que o acesso à carreira científica está relacionado com a
situação social – política, enquanto a estratégias de
relacionamento - e com um marco institucional adequado, e também
estão dispostas a mostrar as discriminações em lugares e
momentos concretos.
O
acesso à carreira científica é caracterizado como um processo
complexo de redes pessoais, interesses, capacidades cognitivas e
de comunicação, de cooperação tanto como de competição, e
no que a acumulação de reconhecimento resulta numa situação
que o prestígio se retroalimenta com o próprio prestígio,
segundo o que há explicado Merton em seu “Efeito Mateus”,
baseada nas palavras do grande evangelista da sociologia da ciência
“ao que possui se lhe dará em abundância e ao que não
possui se acaba o pouco que tem” (MERTON, 1968).
Existem
várias formas de interpretar a influência na organização da
ciência e o reconhecimento dos cientistas. Até o início dos
anos setenta, a sociologia da ciência era baseada no pensamento
teórico de Merton, esta representa a corrente dominante e nessa
corrente dominante a noção de reconhecimento acadêmico ocupa
uma posição central.
O
reconhecimento se entende como o testemunho social, público, de
adequação às normas, o símbolo manifesto de ter realizado
bem a tarefa. Segundo
MERTON (1968), o interesse pelo reconhecimento é a
contrapartida para a motivação do indivíduo com relação ao
valor institucionalizado da originalidade. O sistema de
recompensas consiste na pluralidade de formas honoríficas (que
Merton expõe com bastante detalhe) mediante as que a comunidade
científica concede reconhecimento público aos indivíduos que
têm contribuído de modo significativo ao avanço da ciência.
Para
compreender qual é o sentido do reconhecimento, é preciso ter
também presente outra das noções básicas na corrente
mertoniana, sobre o sistema de recompensas, o intercâmbio,
segundo o qual o reconhecimento seria uma espécie de pagamento
que a comunidade realiza aos indivíduos por socializar seus
conhecimentos. O conhecimento se paga com reconhecimento, desta
forma o indivíduo e também a comunidade são beneficiados. A
recompensa que supõe o reconhecimento atua a serviço da
comunidade como incentivo para que os indivíduos continuem se
colocando à disposição dos demais seus conhecimentos. (MALTRÁS,
1996).
Por
outro lado a aplicação das novas tecnologias de informação e
comunicação dentro de publicação científica, sob a forma de
bases de dados e revistas científicas eletrônicas promete
causar alterações fundamentais nesse mesmo sistema, não
somente desde o ponto de vista
técnico e econômico mas com a criação de comunidades
virtuais e corpos de conhecimento digitalizados que modificarão
o próprio ciclo do conhecimento científico (SABBATINI, 2000).
A transição de um modelo de publicações baseado no papel
para outro digital assinala uma oportunidade de reestruturação
da ciência produzida nos países em desenvolvimento, mas também
pode contribuir para determinados grupos, como por exemplo, as
mulheres reorganizem seu protagonismo dentro desse sistema.
Este
reconhecimento, a valorização pública das contribuições à
ciência, pode-se acumular, assim dizendo, e o resultado é
traduzido no nível de prestígio, em outras palavras, se traduz
na construção de uma reputação de valor. Evidentemente, o
prestígio tem um valor comparativo com respeito aos demais
colegas, o que importa é ter mais prestígio que o outro. Por
isso, as conseqüências do funcionamento do sistema de
recompensas, especialmente enquanto a sua distribuição entre
os indivíduos, também atraiu a atenção de Merton e de sua
escola. (MALTRAS, 1996) O estabelecimento de uma estratificação
social (aparece especialmente claro em MERTON, 1957), deriva da
quantidade de prestígio que cada pesquisador consegue,
representa um foco de atenção principal a esse respeito.
Pertencer a um certo status , que se corresponde a um
certo nível de “honra e de estima”. Assim, dependendo do
prestígio alcançado, um cientista qualquer será considerado
eminente, excelente, bom, normal ou medíocre. As conseqüências
em pertencer a uma ou outra destas categorias transcendem a
psicologia de cada indivíduo, e incidem diretamente no
desenvolvimento da carreira científica.
Este
contexto sociológico do triunfo científico, da construção da
fama e da autoridade intelectual deve ser comparável ao das
mulheres. Acrescentando as dificuldades propriamente femininas.
ROSSITER (1993), buscou um nome para este efeito nas mulheres,
efeito pelo qual se desvaloriza a maneira tradicional e sistemática
da participação como da presença das mulheres na comunidade
acadêmica e científica, o que denominou de "Efeito
Matilda", por Matilda Joslyn Gage (1826-1898), sufragista
americana que publicou no final do século XIX várias obras
sobre mulheres inventoras, mulheres sufragistas e mulheres e
religião, e também participou com outras mulheres na elaboração
da Bíblia de Mulheres e que dá nome a um efeito que ela
mesma sofreu e denunciou.
O
efeito Mateus, segundo MERTON (1968), é conhecido como um dos
fenômenos estudados sobre o reforço que favorece aos que
conseguiram reconhecimento e respeito de quem não conseguiu.
Isto significa que é mais fácil ter respeito e prestígio por
parte de quem é valorizado, do que por quem necessita de
respeito. Quem já tem prestígio recebe mais meios e mais atenção,
porque já dispõe de uma vantagem comparativa. Trata-se de um
processo de retroalimentação do êxito social. Este efeito
pode parecer um desvio indesejável do sistema de recompensas,
sob a perspectiva de que o reconhecimento deveria ser
estritamente proporcional aos trabalhos de cada indivíduo;
Merton aponta algumas conseqüências deste efeito que resultam
funcionais para a ciência em seu conjunto. Também tem sido
estudado, dentro dessa visão, os desvios induzidos pela
excessiva ênfase institucional em valorizar a originalidade,
como por exemplo, a fraude, o plágio ou a calúnia de plágio e
as disfunções do sistema de recompensas.
O
efeito Matilda é muito similar ao efeito Mateus, este foi
elaborado com bases nos estudos de Merton, acrescenta todos os
pressupostos do conceito elaborado por Merton dentro de âmbito
estritamente competitivo comum à questão do gênero. Podemos
resumir da seguinte forma: a mulher para conseguir
reconhecimento e acumular prestígio, fazer uma reputação, ou
melhor, ser considerada pelos colegas, obrigatoriamente tem que
se afastar de seus compromissos familiares, pessoais e intrínsecos.
Para serem valorizados os méritos de pesquisadora, o que os
colegas definem como capacidade científica, mesmo sendo
original e possuindo autonomia acadêmica, é obrigatório
considerar as especificidades femininas (ROSSITER, 1993).
Os
cientistas perseguem o prestígio, guiados por uma espécie de
aspiração moral, inscrita nas normas sociais da comunidade
científica, a qual dispõe dos mecanismos (o sistema de
recompensa) para premiar o triunfo, dentro do seguimento destas
normas.
As
relações pessoais das mulheres e seu estado civil na sociedade
moderna e também na contemporânea são o marco social em que
se produz sua incorporação à investigação científica. O
desejo de muitas mulheres profissionais de ter filhos tem sido
denominado “conflito de papéis”. Se bem que para os homens
a descendência não é fator de conflito, argumenta-se que isto
surge, precisamente, quando as mulheres que trabalham fora de
casa desejam reproduzir-se: são elas as que criam o conflito na
sociedade que aparentemente, havia repartido as tarefas, de
maneira clara e sensível. Mas, na revisão das biografias
pessoais e profissionais de algumas mulheres cientistas, entre
outras profissionais, têm-se revelado as variadas formas em que
esse “conflito” tem sido superado. Mulheres médicas,
cristalógrafas eminentes, bioquímicas Nobels, tiveram descendência
sem abandonar suas carreiras. A exploração das reações entre
a vida pessoal e vida profissional, que influem nas histórias
científicas das mulheres, dificilmente é simplificada.
Resulta
assim, que somente o conhecimento detalhado das circunstâncias
individuais permite compreender e explicar as barreiras que as
mulheres tiveram de superar, para introduzirem-se em uma profissão
cujo domínio era masculino. Ampla diversidade de ambientes, períodos
históricos, disciplinas, problemas familiares, acadêmicos e
sociais demonstram-se imprescindíveis para analisar o processo
pelo qual tentaram as mulheres ascender à carreira científica.
A ausência de simplicidade, ou, o que é o mesmo, a
complexidade, caracteriza os estudos sobre essas mulheres,
demonstrando-se outra vez que essa complexidade é uma característica
principal, na hora de analisar os fatos, que concorreram e
concorrem para a igualdade de participação das mulheres na
produção da ciência.
Aprofundando
nesses marcos pessoais e sua influência nas carreiras científicas
de algumas mulheres célebres, detecta-se o papel primordial que
tinham desempenhado seus companheiros sentimentais valores mais
igualitários que seus contemporâneos, tornaram com seu apoio
possível, que elas levassem adiante seus projetos
profissionais, como o apoio das esposas aos homens cientistas.
Os casais cientistas são um caso especial dentro destes casos
em os que as mulheres encontraram incoveniências e vantagens,
entre estes o risco de serem reconheidas, independente de seu
companheiro. Geralmente, somente quando uma mulher torna-se
independente do marido em seu trabalho, separa-se dele
profissionalmente, conseguindo assim reconhecimento individual.
(SANTEMASSES, 2000).
Apesar
de terem sido publicados muitos trabalhos a cerca da participação
da mulher em comunidades científicas, o certo é que a maioria
dos estudos sobre o desenvolvimento científico contemporâneo
analisa as mulheres, freqüentemente, de forma separada.
Esta
segregação adicional à social e trabalhista, a analítica,
forma parte da necessidade de se explicar o tratamento diferente
que as mulheres recebem de seus pares e que a pouco conduz a
explicar seu acesso a uma área específica. As mulheres seriam
algo assim como as minorias étnicas, ou sociais: hispanos,
negros, grupos sociais e economicamente desfavorecidos.
(SANTEMASSES, 2000).
A
diferença fundamental entre essas minorias e as mulheres é que
estas não são uma minoria social, mas a metade da sociedade. A
divisão do trabalho em função do sexo está sendo posta em
questão por elas mesmas, ao menos implícitamente, ao tratar de
mudar sua função social. Sua atividade familiar e doméstica,
a maternidade, o hábito de casar-se jovem, todos esses valores,
que as normas sociais haviam atribuído às mulheres, estão
sendo mudados - por elas mesmas no momento em que ascendem a um
posto de trabalho extradoméstico remunerado e simultaneamente,
ou não, mudando esse panorama, ter descendência e ocupar-se da
criação dos filhos.
Os
problemas da discriminação por sexo na atividade científica têm
um significante número de antecedentes históricos, que sugerem
a existência de barreiras que as mulheres tiveram de superar e
permanecem tentando superar atualmente, para receber
reconhecimento de seu trabalho, o que supõe ocupar um posto
profissional entre seus pares masculinos. Os estudos mencionados
neste capítulo remetem a contextos sociais, às normas sociais
prevalecentes e às mudanças provocadas pelas mulheres enquanto
tornaram explícito seu interesse em participar das atividades
de pesquisa científica e da docência superior.
Recentemente,
um estudo europeu sobre a presença de mulheres cientistas na
docência, na pesquisa e na indústria aporta dados que indicam
até que ponto a desigualdade é mantida no acesso das mulheres
aos postos científicos mais altos. Um informe de 160 páginas
mostra que a Europa conta com uma média de uns 7% de mulheres
nesses postos, dado em que alguns países não alcançam nem 5%,
em um momento em que as mulheres estudantes são a metade do
alunado universitário europeu (SONNET Y HOLTON, 1995).
Sua
escassa presença nos comitês de decisão - quando chega a
produzir-se - propõe-se como uma das causas dessas cifras tão
baixas de mulheres, nos níveis mais altos de reconhecimento no
trabalho e científico e se recomenda medida da chamada
discriminação positiva (OSBORN, 2000).
O
que verificamos com relação a produção do conhecimento científico
é que no decorrer da história sempre houve mulheres que
seguiram trajetórias vitais fora das atitudes convencionais
estabelecidas, de seu tempo. Naturalizadas em um destino ligado
ao sexo e socializados nesse destino, suas vidas nem sempre
sucumbiram a esse modelo. Muito pelo contrário, por um ou outro
caminho, muitas romperam os modelos e mudaram os horizontes
vitais de seus iguais, e de nenhuma forma usaremos o termo idêntica,
por questões óbvias. Esse caminho de luta e atuação alcançado,
antes impensável é uma mostra de que a participação da
mulher na ciência alcançou um espaço que vem aumentando a
cada passo.
A
exposição e a análise desenvolvidas aqui nos conduzem a
pensar que as mulheres foram também grandes responsáveis pelo
conhecimento científico, a partir do momento em que tiveram
acesso às universidade em condições de igualdade com os
homens. O fato é que sua participação nas faculdades de ciências
cresceu em um ritmo maior que em faculdades de outras áreas. As
mulheres ingressaram nas sociedades científicas sem medir polêmica
e sua invisibilidade foi uma das características que mais se
sobressaíram nessa estratégia de penetração num meio
estritamente masculino, desde o início de 1900.
Particularmente,
as primeiras cientistas trabalharam ao lado dos homens, no desenvolvimento de suas
tarefas científicas. O incremento da participação das
mulheres no meio científico e da produção de conhecimento vem
ostensivamente se desenvolvendo desde então. Tornando-se visível
a parte do protagonismo que corresponde a estas mulheres na ciência
e a mudança dos padrões sociais, por outro lado, é importante
registrar a participação
que tiveram as mulheres na produção do conhecimento,
mulheres invisíveis, na maioria. No fundo a necessidade do
registro histórico está diretamente relacionada à esperança
de que um dia a ciência tenha um rosto humano, assim será mais
fácil a construção de uma ciência responsável.
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Trabalho apresentado ao GT 1: COMUNICACION, TECNOLOGIA Y
DESARROLLO – ALAIC 2004. La Plata – Argentina.
Betania
Maciel - betania_maciel@terra.com.br. Doutora em Comunicação
Social, Mestre em Comunicação Rural, Máster em Ciência,
Tecnologia e Sociedade: Comunicação e Cultura pela
Universidade de Salamanca, professora das disciplinas Teoria
da Comunicação e Teoria e Método de Pesquisa em Comunicação
nos Cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda
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