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ANÁLISE QUALITATIVA SOBRE OS ESPAÇOS NOTICIOSOS DA INTERNET E AS  CONSEQÜÊNCIAS PARA OS ATORES DO PROCESSO INFORMATIVO

 

 

Juçara Brittes

 

 

A convergência entre os aportes das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) com os que se processam nas estruturas sociais, trazendo revisões de conceitos e de paradigmas, produzem alterações significativas no processo comunicativo, com conseqüências importantes para o campo do jornalismo. Ambas vertentes promotoras de mudanças  ainda não estocaram conhecimentos suficientes para precisar, com exatidão, as origens e as conseqüências de tais mutações, e nem tentaremos seguir este caminho. Preferimos alinharmo-nos a  Octávio Ianni (1999),  quem já alertou para o fato de não estar muito claro se a era que estamos vivendo se caracteriza melhor pelos mitos e metáforas construídas para descrevê-la (sociedade da informação, sociedade cabeada, sociedade em rede,  sociedade globalizada, aldeia global, civilização da informação) ou pelas crises que suscita, levantando polêmicas sobre rupturas e erradicação de paradigmas, surgimento e exumação de utopias. Serão os interesses teóricos que sugerirão a metáfora mais cômoda para identificar a novidade, pois muitas vezes só ela, tomada enquanto um mecanismo cognitivo de transposição de uma realidade à outra, e de estabelecimento de algo quase equivalente entre uma e outra realidades, será capaz de explicar os horizontes que se descortinam neste momento.

Estes argumentos  justificam  tratarmos o tema apenas em seus aspectos mais gerais, atendo-nos às conseqüências para o jornalismo. Vamos perceber que se trata de algo que mobiliza países e continentes e  enseja projetos como o Programa Sociedade da Informação (Socinfo)[1], tutelado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro. Estimula vários autores a se debruçar sobre essas mudanças, seja para explica-las, descrevê-las ou para oferecer-lhes visões proféticas. Nesse quadro, o que é válido para explicar os fenômenos decorrentes de uma comunicação massiva não é mais suficiente para um modo de comunicação que já não obedece mais à lógica que direciona os fluxos informativos de um para muitos.

As especificidades da comunicação de massa, a relação desta com os meios de comunicação que a veiculam, o modo de processar informações, os elementos da cadeia informativa e todo universo de fenômenos que a circundam não se aplicam ao modo de comunicação ciberespacial. Também se alteram os sistemas de comunicação determinantes das políticas de usos e acessos aos meios. Podem, ainda, estimular formas de interação social inéditas e potencializar tendências, tais como as que vemos nascer no jornalismo praticado no ciberespaço.

Temos, hoje, a presença de uma  estrutura virtual, transnacional de comunicação interativa, que é a Internet, a qual representaria, nas palavras de Eugênio Trivinho, um terceiro processo de comunicação - o ciberespacial. Seria “a modalidade mais avançada de teletransporte individualizado, por mediação de máquinas informáticas capazes de redes interativas”. Antes desse processo viria o interpessoal, que se efetiva em encontros in loco ou à distância e se desenrola no tempo ordinário da vida cotidiana, com a mediação da linguagem verbal ou não verbal. Na continuidade, surge o processo de comunicação de massa, que pressupõe a transmissão e a recuperação à distância de produtos imagéticos e informativos, em geral de uma via apenas, com a mediação de formas culturais (telenovela, jornalismo, programas de auditório) e máquina eletrônica (rádio, tv). O processo de comunicação atual, portanto, seria o ciberespacial. O trecho a seguir expressa bem o que o autor identifica como um mal-estar da teoria neste momento de transição:

Um balanço teórico sensato [...] constata [...] que, no contexto do ciberespaço, todos os elementos convencionais do esquema comunicacional, assimilando inéditas características, experimentam um processo imanente de inflação e de comutabilidade de funções antes jamais observado. Na situação on line, o princípio de realidade interna de cada um adquire, por assim dizer, um mais-volume funcional inesperado, uma elasticidade pragmática radical que obriga seus representantes conceituais à prova de um excesso de si mesmos, ou melhor, a uma expansão e redimensionamento semântico-epistemológico compulsórios tais que, em reverso, minam o significado dos próprios conceitos até um ponto irreversível em que, na impossibilidade de o processo comunicacional ser mais abarcado, eles se deparam, fatalmente, com seu próprio colapso. É bem um desmoronamento em cadeia por inchaço inadministrável. (TRIVINHO, 2000:187)

Vamos nos deparar, neste universo, com um modelo de comunicação mediada pelo computador, o qual se concretiza em plataformas ciberespaciais, onde aqueles que estiverem habilitados para navegar podem comunicar-se utilizando recursos próximos aos convencionais, como o correio eletrônico, até formatos inéditos de oportunidades comunicativas, como os babbles , frutos de programas complexos que passam a oferecer experiências cada vez mais completas para comunicação online.  O Aqui os Meios de Comunicação de Massa dão lugar às Plataformas Comunicativas Multimidiáticas Ciberespaciais (PCMC)[2]. Elas surgem da convergência de habilidades próprias a este novo médium (hipertextualidade, sincronia, assincronia, interatividade, conectividade, dinamismo, velocidade)[3]  com as ferramentas oferecidas nos espaços ciberespaciais, as quais, por sua vez, são geradas pela astúcia  e criatividade de uma verdadeira falange de  designers surgida no alvorecer do século XXI.

Em tal situação vamos observar radical alteração em todos os elementos do processo informativo: do emissor ao receptor, passando, necessariamente, pelos conteúdos e pelos fluxos que percorre para abranger os atores do processo. No caso do receptor, seu papel ora se mescla à figura do emissor, ora na própria mensagem, tornando-se um novo elemento. Trivinho (2000) sugere a existência de um “indivíduo teleintegrante ciberespacial”, cujo traço marcante seria a capacidade de participar e, ao mesmo tempo, intervir nos conteúdos. Ele verá sua participação no processo comunicativo aumentar, dada sua condição de pesquisador compulsório, e capacidade de penetrabilidade, pois é competente para  acessar sempre novos conteúdos por meio do hipertexto. Mas ele também pode confundir-se com o emissor, ao ver-se acolhido pela rede, ou com as fontes, produzindo e distribuindo informações sem que para tanto necessite estar vinculado a uma instituição jornalística.

Os conteúdos das mensagens veiculadas pelas PCMC, principalmente os de natureza informativa, estão entre as variáveis  do processo informativo mais atingidas. As PCMC libertam-na da rigidez das formas, da camisa de força dos gêneros informativos encapsulados pelos MCM. Os conteúdos, anexados a e-mails, editados em jornais online, nas mais variadas formas (as quais nos referiremos mais adiante) ficam liberados dos constrangimentos editoriais e das rotinas jornalísticas, alterando sobremaneira os fluxos informativos.

No modo de comunicação massivo os conteúdos partem de uma fonte em direção a seus destinatários. Ainda que respeitadas as particularidades das segmentações e consideradas as teses que revelam situações atenuantes dos efeitos desse fluxo sobre os públicos, os meios de comunicação de massa não estão dotados de mecanismos que favoreçam a participação equilibrada dos atores implicados no processo. O que poderá garantir esta posição serão as políticas públicas disciplinadoras dos usos dos media. Mas o modelo predominante no modo massivo é o comercial. Está edificado em forma de rede, envolve todos os continentes  e engloba interesses que extrapolam as fronteiras da comunicação em seu aspecto informativo. O fluxo informativo massivo, apesar do crescimento quantitativo surpreendente, não mudou de direção. É vertical. De cima para baixo. De um para muitos. A rede mundial de computadores tem outro formato e o novo conferirá um caráter multidirecional ao percurso dos conteúdos. Peter Dahlgren (2000) acrescenta o fato de um usuário poder comunicar-se com muitos ao mesmo tempo (one-to-many), por meio de sites que, em princípio, cada um pode criar para si. O usuário aqui não é uma instituição midiática, mas um indivíduo. Além disso a Internet oferece a possibilidade de uma pluralidade de usuários comunicarem-se mutuamente (many-to-many) por meio de fóruns de debates e outras formas de comunicação em rede, que estão nas Plataformas Comunicativas Multimidiáticas Ciberespaciais (PCMC).

Como já ficou bem acentuado,  as conseqüências para o campo da comunicação são intermináveis e atingem em cheio o jornalismo. Passa a haver dúvida se os textos informativos que encontramos na rede mundial de computadores podem ser classificados nesta rubrica dos gêneros narrativos. Muitos pesquisadores vêm se dedicando a  sistematizar  tais espaços, sem que haja consenso a respeito.

Podemos citar, entre os primeiros estudos classificatórios no jornalismo no ciberespaço, os de  Mannarino (2000) o qual analisou 147 jornais com edições na Internet, publicados por 16 países, tendo detectado, à época, 22 características próprias à versão online. Para ele essas publicações têm em comum um Sistema de Recuperação de Informação (SRI), correspondente ao arsenal teórico que a Ciência da Informação utiliza para disponibilizar pesquisas científicas, sendo este o principal diferencial entre as publicações informatizadas e as impressas. Seu trabalho referiu-se aos jornais impressos da grande mídia mundial com versões online.

Estudos mais recentes referem-se a essas publicações como  Jornalismo Assistido por Computador (JAC), a partir de contribuição inglesa de Computer Assisted Journalism (CAJ), buscando traduzir as inovações e alterações que o computador veio trazer ao jornalismo nas suas diferentes vertentes,  desde a captação de notícias até o respectivo tratamento e distribuição das mesmas.

“O computador por si representa já um instrumento extraordinário de fazer Jornalismo, mas um computador ligado à Internet será cada vez mas imprescindível na profissão. Em rede um computador acede a fontes de informação, diversas e longínquas, que contextualizam as informações obtidas de fontes directas e próximas. Receber notícias directamente das agências noticiosas, buscar informação na Internet é algo trivial que um computador possibilita, trivialidade que, no entanto, altera radicalmente, a forma  de investigar, tratar e redigir as notícias próprias.” (FIDALGO, 2002:2)

A definição indica  que JAC se refere ao modo sui generis de fazer jornalismo com os recursos da Internet e, obviamente, do computador, o que se estende, também, às novas formas de distribuição. Há, ainda, carência de paradigmas para estes estudos e os denominados JAC situam-se na esfera da emissão, considerando o público leitor como um destinatário mais exigente, tendo evoluído pelo poder que a Internet lhe confere.

Outros autores sugerem a palavra webjornalismo para expressar as alterações estruturais no jornalismo que encontramos na Internet, argumentando ser  um conceito mais completo por incluir outros elementos do processo jornalístico. Assim defende Canavilhas, afirmando que o jornalismo na web, ou o webjornalismo pode ser muito mais do que o atual jornalismo online.

“Com base  na convergência entre texto, som, imagem em movimento, o webjornalismo pode explorar todas as potencialidades que a Internet oferece, oferecendo um produto completamente novo: a webnotícia” (CANAVILHAS, 2002: 1)

Nilson Lage aborda a questão do ponto de vista do profissional referindo-se à reportagem assistida por computador (RAC)[4], que conferiria um grau maior de precisão nas informações, principalmente no atinente a coleta de dados.

“A RAC baseia-se no emprego de técnicas instrumentais: a navegação e busca na Internet, a utilização de planilhas de cálculo e de bancos de dados. Trata-se de colher e processar informação primária ou, pelo menos, intermediária entre a constatação empírica da realidade e a produção de mensagens compreensíveis para o público” (LAGE, 2001:156)

Trata-se de um texto absolutamente enriquecido pela convergência de linguagens, somando aquelas anteriormente exclusivas de outros meios como o rádio e a televisão tendo, ainda, outros acréscimos. Acrescente-se  mudanças na forma de ler as notícias, pois o jornalista tem agora o desafio de levar o leitor a quebrar o hábito de uma leitura linear que lhe foi imposto pelo antigo suporte, respondendo, também,  ao desafio de encontrar uma linguagem que responda às exigências de um público  que deseja maior rigor e objetividade na redação dos textos informativos. Tal comportamento é explicado, entre outras razões, pela disponibilidade que o internauta tem de acesso a outras fontes de notícias, consultando as próprias agências, o que antes era privilégio dos profissionais do ramo.

O jornalismo colaborativo é outro conceito que começa a ser construído para dar conta das transformações em curso desses modos de mediar informações tendo como plataforma física o computador ligado à Internet, a qual origina as PCMC. Identifica mais do que recursos tecnológicos para enriquecer um noticiário, tratando-se de um novo processo jornalístico, se comparado ao convencional. Neste jeito de fazer jornalismo prescinde-se de organizações formais nos moldes das empresas jornalísticas que se estabeleceram desde o século XVII, estruturando-se  como as conhecemos hoje,  a partir do século XX,  até  chegar às mega corporações jornalísticas mundiais como a CNN. Organizados em torno de moderadores, que podem ser comparados a editores, muitas vezes anônimos, os internautas são, ao mesmo tempo, repórteres, editores e leitores. A definição ao seguir  ajuda a entender este novo formato de jornalismo:

“Jornalismo colaborativo é uma forma de jornalismo em que o processo noticioso é  distribuído pelos próprios leitores, que escolhem a notícia, apresentam os factos e as opiniões relevantes. De preferência, deve ser feito num fórum aberto em que todos os leitores têm as mesmas oportunidades de expressar opiniões,  mas em que as opiniões e os factos mais pertinentes tenham visibilidade. A escolha dos artigos que merecem mais visibilidade deve ser feita pelos leitores que no passado tenham mostrado que merecem mais confiança pra realizar esta tarefa” (http://explicaoes.com)

No ponto de vista de Catarina Moura  a filosofia peer-to-peer (a partilha de recursos e serviços  através de troca direta entre sistemas) associada ao sistema operacional open source[5] é responsável pelo aparecimento deste processo totalmente novo de praticar jornalismo. A autora prefere a denominação “jornalismo open source” para identificar o fenômeno que  implica  permitir que várias pessoas (não apenas os jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem  sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único, como pode ser aquele difundido pela maioria dos jornais, cuja objetividade e imparcialidade são muitas vezes máscaras de um qualquer ponto de vista que serve  interesses mais particulares que apenas o de informar com honestidade e isenção o público que lê. (MOURA, 2002:2)

A partir destas considerações, bem como da análise qualitativa de espaços informativos divulgados pela Internet,  detectamos alguns modelos recorrentes, que podem ser classificados em três grandes grupos de jornalismo praticado na Rede Mundial de Computadores: Jornalismo Assistido por Computador; Jornalismo Colaborativo e Jornalismo Segmentado.  O esquema a seguir demonstra as subdivisões classificatórias que propomos:

 

1. Jornal Assistido por Computador (JAC)

2. Jornal Colaborativo

2.1 Multimidiáticos

2.2 Referenciais

3. Jornal Segmentado

3.1 Crítica de mídia / mídia-watching

3.2 Organizacionais / House organ

4. Outros formatos

4.1 Temáticos

4.2 Científicos

4.3 Pessoais

4.4 E-newsletter

 

Reservamos a denominação Jornal Assistido por Computador às edições online de jornais já estabelecidos em plataformas impressas, com todas as variantes que a tecnologia pode oferecer. Seus conteúdos são de natureza generalista, cuja eleição obedece ao modo convencional de agendamento.

Os jornais Colaborativos,  referem-se às publicações pela Internet que apresentam alto grau de interatividade, de modo que os conteúdos são construídos em parceria entre

editores (ou moderadores) e os interessados. Percebemos níveis distintos de colaboração entre editores, fontes e público, podendo variar de acordo com cada publicação, conforme já explicado. Diferente dos jornais impressos, onde o leitor tem direito a expressar-se na seção de cartas, ou participa do processo de agendamento por mecanismos tais como as medições de opinião pública, aqui a interatividade é a razão de ser do espaço. Sites ou páginas da natureza a qual nos referimos só têm sentido com a intervenção direta do

usuário. Caso contrário poderá ser identificado como mais um feixe de dados e informações a disposição na Internet. Nesta fronteira estão os Wikies , sistemas de páginas web usados para projetos colaborativos, que tanto podem ser jornalísticos quanto ter outro interesse qualquer.

Encontramos basicamente dois formatos de jornal colaborativo, os quais denominamos multimidiátícos e referenciais. Os primeiros estampam os conteúdos em suas próprias páginas, utilizando linguagens escritas, televisivas ou radiofônicas. Os outros remetem o leitor aos sites de origem da notícia, sendo que, na maioria dos casos, trata-se de convites à participação em alguma ação (engajar-se em uma campanha, integrar um abaixo-assinado, inscrever-se em evento etc). Ambos são colaborativos porque, ainda que em graus distintos, emissor e receptor mudam radicalmente de status, passando a construir o texto em conjunto. Os jornais colaborativos referenciais são  periódicos que apresentam regularidade em suas edições, incluem notícias, manifestos, convocatórias e abaixo-assinados de Movimentos Sociais Organizados. Configuram-se como um fórum por onde esses temas, de pouca repercussão nos jornais convencionais, são expostos.

Outro modelo recorrente de jornal na Internet é o que classificamos como Jornal Segmentado, isto é, que dirige seus conteúdos a grupos de interesse específico. Tais

interesses podem ser temáticos, científicos ou assumir aparência de house-organs, aquelas publicações organizacionais, provenientes de instituições, dirigidas a seu público alvo. A relativa facilidade de distribuição favoreceu o surgimento desses jornais na rede.Separamos neste estudo os jornais segmentados que praticam crítica de mídia, os house-organs, os temáticos e os científicos. Os house-organs ou jornais organizacionais assim são identificados porque pertencem a uma instituição e objetivam ser um elo de ligação com os públicos com os quais esta se relaciona.  Nesta rubrica também podem inserir-se jornais oficiais de órgãos públicos, como os ligados a Prefeituras Municipais. Estes sites costumam oferecer serviços aos habitantes daquela região, integrando, na maioria dos casos, o rol de iniciativas dos chamados e-governs. Não confundir com a presença dos municípios na Internet, pois esta participação pode, ou não, incluir Plataformas Comunicativas Multimidiáticas Ciberespaciais (PCMC).  Temáticos são os jornais segmentados cujo elo entre seus leitores é o assunto.  Os jornais científicos aqui considerados não são exatamente as versões eletrônicas de revistas científicas, que publicam artigos e pesquisas. Têm o formato jornalístico porque se servem de linguagem acessível a leigos interessados em temas ligados à ciência. Inovam por fazer uso de habilidades próprias aos fóruns de debate público para difundir temas ligados à ciência. Por esta razão estão alinhados na rubrica jornal segmentado, pois se dirigem a um público específico, o interessado naquele ramo da ciência .

Na fronteira entre jornais e agrupamento de informações variadas está a experiência que vem sendo chamada de Jornais Pessoais. Denominadas em inglês self-journalism, como o nome indica, nem sempre são espaços noticiosos, mas costumam ser providenciados por pessoas privadas, podendo assumir o formato de um weblog. Estão mais para registros publicados na Internet do que para jornalismo.  As E-newsletters também são textos informativos online, que circulam, em geral, por ocasião de eventos, desaparecendo assim que estes se realizam. Assumem, também, o aspecto de manifesto de determinados grupos, quase sempre de ativistas políticos que vivem na clandestinidade.

Advertimos que a classificação proposta é de natureza qualitativa, tendo sido criada a partir do congelamento fictício deste momento da Internet, cujo dinamismo não permite mais que a indicação de tendências.

 

 

Conclusão

O espaço de um artigo não é suficiente sequer para arrolar todos os questionamentos que a aplicação das  TIC provocam nos processos informativos, os quais têm no jornalismo  a principal fonte de interação social. Há polêmicas desde o papel que a tecnologia desempenha neste universo, até a respeito da identidade do profissional de imprensa no modelo jornalístico praticado no ciberespaço. Se é possível detectar-se competências reservadas a um segmento profissional para o exercício de certas rotinas no âmbito de uma organização jornalística convencional, a permissão de participar da elaboração de notícias, oferecida ao leitor, pelos jornais colaborativos, por exemplo, traz indagações pertinentes para a profissão.

Nossa sugestão classificatória para os jornais editados nas PCMC tem o propósito de demonstrar as alterações no jornalismo  enquanto parte de um processo comunicativo em mutação. Os formatos discriminados, os que aqui não foram contemplados, e os que surgiram e surgirão desde então, importam menos, no processo de mudança que ora nos ocupa, do que a  aproximação que promovem entre os núcleos de emissores e os usuários. Merece destaque a ampliação do leque de informações que a rede propicia, assim como a profunda alteração nos fluxos informativos, constrangidos, no modo massivo de comunicação, por processos de agendamento obedientes a interesses políticos e econômicos, favorecendo, em geral,  segmentos historicamente bem sucedidos naqueles setores.

O modo de comunicação ciberespacial, que dá nascimento  a formatos inéditos de jornalismo, permite aos usuários conectarem-se instantaneamente entre si, produzir seus conteúdos, acessar outros tantos, distribuir, rápida e gratuitamente, informações  de todos para todos os quadrantes, leva a uma reviravolta nos processos de agendamento, que ditam, no modo massivo, os temas sobre os quais formam-se  opiniões. No ciberespaço há influências  recíprocas mais contundentes e as habilidades (ver nota 3) potencializam a autonomia dos públicos .

           

   

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COMISSÃO EUROPÉIA. Livro Verde relativo às Convergências. Para uma abordagem centrada na sociedade da informação. Bruxelas, 1997.

DAHLGREN, Peter. L´espace public et l ´Internet- Structure, espace et comunication. IN Reseaux nº 100, Paris: CNET/Hèrmes Science Publication, 2000.

DERTOUZOS, Michel. O Que será? Como o novo mundo da informação transformará nossas Vidas. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

FRANCO, Marcelo Araújo. Ensaio sobre as tecnologias digitais da inteligência. Campinas: Papirus, 1997.

KERKHOVE, Derrik. Inteligencias en Conexión. Hacia una sociedad de la web. Barcelona: Gedisa Ed., 1999.

LAGE, Nilson. A Reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro/São Paulo:2001.

LÉVY, Pierre. A conexão planetária. O mercado, o ciberespaço, a consciência. São Paulo: Ed.34, 2001.

MANNARINO. Marcus Vinícius Rodrigues. O papel do web jornal. Veículo de Comunicação e Sistemas de informação. Porto Alegre: Edipucrs/Famecos, 2000.

MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Sociedade da Informação no Brasil. Livro Verde. Brasília: 2000.

TRIVINHO, Eugênio. Epistemologia em ruínas: a implosão da teoria da comunicação na experiência do ciberespaço. In MARTINS, Francisco Menezes et all. Para navegar no século 21. Tecnologias do imaginário e da cibercultura. Porto Alegre: Edipucrs/Sulina, 2000. Pp 179 a 192.  

TRIVINHO, Eugênio. O mal-estar da teoria. A condição da crítica na sociedade tecnológica atual. Rio de Janeiro: Quartet, 2001.

WOLTON, Dominique. L’internet, et après? Une histoire critique des nouveaux médias. Paris: Flamarion, 2000.

Referências eletrônicas

ARANHA, Jayme. Tribos eletrônicas: Usos e Costumes,  http://www.alternex.com.br/~esocius/t-jayme.html

CANAVILHAS, João Messias. Webjornalismo. Considerações gerais sobre jornalismo na web. Capturado em 16/11/2002 em www.bocc.pt

CORREIA, João Carlos. Novo Jornalismo CMC e Esfera Pública. Capturado em 11 de novembro de 2002 em www.labcom.ubi.pt/agoranet

DONATH, Judith. Identity and deception in the virtual community, http://smg.media.mit.edu/people.Judith/Identity/ IdentityDeception.html

FIDALGO, Antônio. JAC ou Jornalismo Assistido por Computador. Capturado em 10/11/2002 em http://www.labcom.ubi.pt/jac/0-que-e-jac.htm

MOURA, Catarina. O jornalismol na era do slashdot. Capturado em 8/11/2002 em www.bocc.ubi.pt/pag/moura-catarina-jornalismo-slashdot.pdf

NICOLAI-DA-COSTA, Ana Maria. Na Malha da Rede: os impactos íntimos da Internet. http://www.dc.peachment.edu/~mnunes/jbnet.html

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RHEINGOLD, Howard. The virtual community. Homesteading on the electronic frontier. New York:Harper perennial, 1994 http://www.rheingold.com/vc/book

VIANNA, Hermano. As tribos na Internet, 1995 , http://www.alternex.com.br/~esocius/t-herman.html

 



[1] O Programa Sociedade da Informação foi lançado em dezembro de 1999 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia brasileiro, com a pretensão de incluir o país na era da informação por meio de ações que favoreçam a competição da economia nacional no mercado global obedecendo a princípios e metas de inclusão e eqüidade social e econômica, de diversidade e identidade culturais, de sustentabilidade do padrão de desenvolvimento, de respeito às diferenças, de equilíbrio regional, de participação social e de democracia

política. O projeto está disponível em www.socinfo.org.br, tendo dado origem ao texto “Sociedade da Informação no Brasil – Livro Verde”. Assim têm sido intitulados os textos sobre políticas de comunicação, havendo muitos edições de livros Verdes na Europa.

[2] Em tese de doutorado (Internet, Jornalismo e Esfera Pública. Estudo sobre o processo informativo do ciberespaço na formação da opinião- ECA/USP- 2003) a autora defende que no modo de comunicação ciberespacial não existem Meios de Comunicação de Massa (MCM), mas Plataforma Comunicativa Multimidiáticas Ciberespaciais, abarcando mais do que veículos de comunicação, mas espaços complexos de troca de opiniões, com habilidades tanto para o convívio entre os usuários quanto para o surgimento de formatos inéditos de jornalismo.

[3] As habilidades funcionam como traços sensoriais dos espaços de convivência na Internet, produzidos pela evolução dos softwares. A sincronia permite que os interlocutores se comuniquem em tempo real. Na assincronia, a comunicação se dá sem que os atores estejam conectados à rede ao mesmo tempo. A Interatividade, que pode englobar as outras habilidades, leva a uma relação das pessoas com o entorno digital, cuja extensão leva a formação de redes, nas quais formam-se novas concentrações de atores. A conectividade distancia-se sutilmente da interatividade por ser a tendência de juntar entidades separadas e sem conexão prévia, através de redes, mediadas por softwares e hardwares. O dinamismo é a capacidade que cada unidade de rede tem de alargar-se e reduzir-se o tempo todo, impossibilitando a quantificação dos espaços de interlocução na Internet. A velocidade é responsável por uma das principais distinções entre o modo de comunicação massivo e o ciberespacial, alterando profundamente os esquemas distributivos de informações.

[4] S.Squirra se referiu a esta prática adotando a expressão em inglês Computer-assited reportimg (Car). SQUIRRA.S. Jornalismo online. São Paulo: CJE/ECA/USP, 1998, p 83 e seguintes)

[5]Termo aplicado  ao software que algumas pessoas criam e disponibilizam  gratuitamente na rede, com qualidade semelhante aos serviços oferecidos por grandes empresas. (MOURA, 2002:1)

 



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