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Ensino
e Pesquisa na Rede Internet: o caso brasileiro
Cynthia
Harumy Watanabe Corrêa
Universidade
Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS
Resumo
Com
a disseminação do uso das Tecnologias de Informação e de
Comunicação (TICs) na comunidade científica brasileira, o
processo de comunicação científica se incrementou de forma
significativa. Neste
artigo, trazemos informações visando comprovar o
estabelecimento de uma cibercultura científica no Brasil, a
partir da apropriação crescente das TICs nas atividades acadêmicas
e científicas, otimizando a produção, a avaliação e a difusão
do conhecimento. O
trabalho foi realizado com base em revisão teórica e na descrição
de tecnologias utilizadas pela comunidade científica
brasileira.
Palavras-chave:
cibercultura;
comunidade científica; Brasil.
1
Introdução
O
ponto de partida para compreendermos o comportamento social que
marca uma determinada época é termos consciência que sempre
existe uma relação simbiótica entre o homem, a natureza e a
sociedade, sendo que em cada momento da história da humanidade
prevalece uma cultura técnica particular (LEMOS, 2002b).
Uma série de acontecimentos, como o aperfeiçoamento das
Tecnologias de Informação e de Comunicação (TICs), a
disseminação da Comunicação Mediada por Computador (CMC) e
da rede Internet, tem alterado profundamente a organização dos
sistemas sociais, políticos e econômicos em âmbito mundial.
A
cultura contemporânea se caracteriza pela apropriação
crescente das tecnologias digitais no cotidiano da sociedade,
criando uma nova relação entre a técnica e a vida social em
que surgem novas formas de agir e de conviver socialmente no
ambiente virtual ou ciberespaço, a chamada cibercultura.
Embora
seja indiscutível que as diversas esferas da sociedade tenham
seus hábitos modificados pelas tecnologias de comunicação, em
destaque a Internet, vista como um meio de comunicação, de
interação e de organização social (CASTELLS, 2003b), o
estudo tem como foco investigar o uso social da rede Internet
pela comunidade científica brasileira.
Neste trabalho, definimos comunidade científica
brasileira como a formada por profissionais dedicados a uma área
específica do conhecimento, incluindo membros do setor acadêmico
e da pesquisa científica e tecnológica, e que mantêm vínculos
com sociedades científicas, academias e associações de
pesquisadores.
Autores
como Meadows (1999a), Costa (2000) e Pinheiro (2003) afirmam que
o processo de comunicação científica se incrementou com a
utilização da Internet. A
comunidade científica tem seus hábitos e costumes alterados
pela inserção das tecnologias nas atividades diárias, que
promovem novas formas de comunicar e de produzir conhecimento em
ambientes virtuais. Além
disso, não podemos ignorar que na chamada era da informação,
era do conhecimento ou da sociedade em rede (CASTELLS, 1999a,
2003b), a informação é vista como objeto mais valioso.
Desta
forma, nosso objetivo é apresentar dados que comprovem o
estabelecimento de uma cibercultura científica brasileira
marcada pela apropriação das tecnologias do ciberespaço no
cotidiano de professores, estudantes, pesquisadores e cientistas
espalhados em todo país. A
opção por estudarmos este grupo de profissionais deve-se por
entendermos que o uso social da rede varia de acordo com cada
internauta. A
utilização da Internet em países como o Brasil não se
restringe ao fato de ter ou não acesso, mas a uma questão de
cunho educacional, pois é preciso ter capacidade educativa e
cultural para usar a rede, e essa capacidade é socialmente
desigual.
O
trabalho foi realizado com base em revisão teórica e a partir
da descrição de tecnologias da Internet usadas pela comunidade
científica brasileira, assim como algumas iniciativas
governamentais de disseminação da rede. Este estudo inicial faz parte de uma pesquisa de dissertação
de mestrado que investiga o processo de interação social numa
lista de discussão on-line formada por pesquisadores da
área de recursos hídricos.
2
A informação como produto de mercado
A
era da informação é caracterizada por uma mudança profunda
no modo de comunicar da sociedade, uma vez que a circulação de
informações flui a velocidades e em quantidades até então
inimagináveis. Essa
revolução tecnológica que se alastrou a partir dos anos 70 e
80 ganhou intensidade na década de 90 com a disseminação da
comunicação em rede por meio do computador, que passou a ser
visto como um ícone dessa revolução informacional.
A informação passa a reinar absoluta e a ocupar uma
posição estratégica no novo contexto social, pois adquiriu um
status comparado à entrada da energia elétrica que
caracterizou a Segunda Revolução Industrial, reconfigurando a
vida das cidades (SILVEIRA, 2001).
Diante
deste cenário em que a informação se torna o elemento
fundamental do processo produtivo e de extrema importância para
o capitalismo mundial, temas relacionados ao campo da ciência são
vistos cada vez mais como relevantes. Acreditamos, portanto, que a sociedade da informação traz
novas responsabilidades para os atores sociais nela inseridos e,
principalmente, para os que atuam com ensino, ciência e
tecnologia, cujo produto principal é a geração de
conhecimento visando melhorar a qualidade de vida das populações.
De
acordo com Silveira (2001, p. 42-43), as revoluções tecnológicas
costumam configurar a produção, a economia e a sociedade.
Assim aconteceu com a primeira e a segunda Revolução
Industrial, respectivamente nos séculos XVIII e XIX, que
serviram para aumentar a capacidade do emprego da força física
humana e a sua precisão. Por
sua vez, a atual revolução tecnológica veio aumentar a
capacidade de se produzir, armazenar e processar informações,
ou seja, ampliou o potencial do pensamento humano.
As
tecnologias de comunicação e as redes de computação ampliam
as possibilidades de reprodução e transmissão de informações
entre os indivíduos que podem se beneficiar das potencialidades
oferecidas para aumentar sua capacidade de pensar, sua
criatividade, pois se trata de uma tecnologia que torna possível
o armazenamento, o processamento e a análise de informações
num intervalo de segundos.
Assim,
estar conectado às redes de informações e saber manusear
tecnologias faz uma diferença significativa no movimento de
construção de uma sociedade com qualidade de vida.
Além disso, o interesse do homem em desenvolver técnicas
e tecnologias que pudessem lhe trazer benefícios e facilidades
em diversos aspectos da vida cotidiana o acompanha desde o
aparecimento das primeiras sociedades.
Foi assim com a invenção do fogo, do cultivo da terra,
da criação dos meios de transporte, entre tantas outras criações,
até alcançarmos o nível atual de desenvolvimento tecnológico.
3
O ensino e a pesquisa e as redes de computação
A
memória foi ampliada pelos bancos de dados, pelos documentos em
hipermídia e pelos arquivos digitais.
A imaginação teve nas tecnologias de simulação um
enorme avanço. O raciocínio pode atingir complexidade inimaginável nos
modelos matemáticos estocásticos e nos mecanismos de inteligência
artificial. A
pesquisa dá saltos com o saber compartilhado entre cientistas
espalhados pelo planeta (o Projeto Genoma é o exemplo mais
destacado), e a dedução lógica e a indução vão sendo
secundarizadas pelas simulações de hipóteses com a realidade
virtual. (SILVEIRA,
2001, p. 28).
O
surgimento da Internet e a conseqüente disponibilização de
variadas tecnologias de comunicação facilitaram o encontro, a
organização, o intercâmbio, o debate e a visibilidade de
grupos, agregações eletrônicas ou comunidades virtuais com
interesses particulares. Neste
contexto, destaca-se na rede a participação marcante de grupos
pertencentes à área acadêmica e de ciência e tecnologia que,
inclusive, foram os primeiros a se beneficiar com a Internet em
todo o mundo. De
acordo com Lemos (2002a), as primeiras formas de agregações
eletrônicas foram constituídas a partir do momento em que
pesquisadores e alunos começaram a trocar mensagens pela então
incipiente Internet.
Nos últimos
tempos, a presença marcante das tecnologias de comunicação
tem provocado alterações no modo e no tempo de comunicar fatos
científicos. Segundo
Meadows (1999a), o computador já era empregado no processamento
de informações na década de 1960, e sua evolução o
transformaria em ferramenta cada vez mais eficaz para a comunicação
científica.
Na visão
de Russel (2000), não há dúvidas que o desenvolvimento e a
disseminação da tecnologia da informação das últimas décadas
revolucionou a forma pela qual os cientistas se comunicam, assim
como o crescimento exponencial do uso das redes eletrônicas
abriu novas possibilidades para a comunicação de informações
sobre pesquisas.
Esta
iniciativa de promover a comunicação também está de acordo
com uma das características principais da filosofia do método
científico: dar maior publicidade a experimentos e achados de
pesquisadores; permitindo a ampla troca de informações entre
os pares e acelerando o avanço da ciência, uma vez que o fazer
ciência está relacionado à ação de comunicar.
Por outro lado, sabemos ainda que enquanto a pesquisa não
é publicada, ela não existe para o mundo científico.
Dito de
outra forma, o avanço do processo de investigação científica
depende sobremaneira da circulação de informações entre os
pares, pois a teoria proposta por um pesquisador deve ser
testada e avaliada criticamente por outros cientistas para ter
sua validade reconhecida. Neste
aspecto é que Meadows (1999a) afirma que a comunicação
situa-se no próprio coração da ciência.
Existe uma necessidade intrínseca por parte do cientista
de manter um intercâmbio e trocar informações entre os pares
para dar continuidade a seus projetos de pesquisa.
Um estudo
realizado por Costa (2000) para conhecer o uso das redes de
computadores por economistas e sociólogos brasileiros e
ingleses indicou que a facilidade em contatar colegas via redes
eletrônicas globais tornou a interação nesse nível mais
real. Houve um
aumento da realização de trabalhos em parceria e a publicação
de trabalhos em co-autoria com colegas geograficamente distantes
e que, em muitos casos, jamais se encontram.
Costa (2000) conclui que um dos principais impactos do
uso de computadores e redes eletrônicas no grupo observado foi
o aumento da dinâmica nas interações (com os pares – interações
sociais – e com os recursos de informação) dentro das
comunidades científicas (COSTA, 2000, p.101).
Neste
sentido, a Internet une o mundo científico à medida que pode
colaborar para diminuir as disparidades de acesso aos resultados
de pesquisas divulgados a todo instante em vários países.
Assim, cientistas que atuam em locais considerados
periferias em se tratando de iniciativa científica, hoje
encontram facilidade de acesso ao processo da ciência (HOKE,
1994, apud RUSSEL, 2000).
A
comunicação via redes de computação ignora
significativamente a barreira espacial e temporal que tanto
tornava lenta a circulação de informações acadêmicas e
científicas, além da capacidade de armazenamento de dados que
está disponível em formato digital, podendo abranger arquivos
contendo livros inteiros, assim como fotos e mapas.
Um
livro contém uma quantidade limitada de informação que só
pode ser extraída por um número limitado de maneiras.
A informação eletrônica equivalente pode ser ligada a
uma quantidade virtualmente ilimitada de informação adicional,
a qual o usuário pode ter acesso de várias maneiras, de acordo
com o seu desejo. Assim,
ser “alfabetizado em computador” implica maior leque de
atividades do que é necessário para ser alfabetizado. (MEADOWS, 2000b, p. 25).
De
acordo com Meadows (2000b), consideramos a comunidade científica,
especialmente no caso brasileiro, como uma das parcelas
privilegiadas da sociedade por apresentar um certo nível
educacional que lhe confere capacidade para selecionar o
material de qualidade disponível na rede.
Além de ter conhecimento para manusear adequadamente as
diferentes possibilidades oferecidas pelo computador e pela
Internet que, enquanto meio de comunicação, proporcionam uma
maior integração, cooperação e troca de conhecimento e
experiência entre os usuários.
4
A cibercultura científica brasileira
No
contexto de disseminação das redes de computadores para a
comunidade científica brasileira, destaca-se o papel da Rede
Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) fundada em 1989,
inicialmente chamada Rede Nacional de Pesquisa.
Somente em 1995, a Internet brasileira foi regulamentada
pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e pelo Ministério
das Comunicações como um serviço aberto a todos, sendo que
num período de cinco anos cerca de cinco milhões de pessoas
tiveram acesso à rede.
Desde
a sua criação, a RNP é a organização social responsável
pela infra-estrutura de rede nacional de alto desempenho para
colaboração e comunicação em educação e pesquisa, dando
suporte para a manutenção de sites institucionais de
universidades, unidades de pesquisa, museus e agências de
fomento. A implantação
e difusão da rede Internet no país via RNP é promovida por
meio do programa interministerial de redes dos ministérios da
Ciência e Tecnologia e da Educação (MEC).
Essa
rede acadêmica nacional alcança todos os 27 estados
brasileiros e interliga mais de 200 universidades, centros de
pesquisa e escolas tecnológicas que, por meio de seus sites,
passam a contar com um espaço permanente e de acesso público
para divulgar informações gerais sobre produtos e serviços.
Espaço este mais do que necessário porque disseminar
notícias sobre ensino e pesquisa é um dever dos órgãos
governamentais, que são fontes primárias de informação acadêmica
e científica.
Atualmente
essas mais de 200 organizações fazem uso da rede RNP2, uma
infra-estrutura de rede Internet avançada (Internet2) concebida
para atender com excelência de qualidade à comunidade de
ensino e pesquisa brasileira, interconectando instituições e
redes regionais em nível nacional e oferecendo links
internacionais próprios.
Segundo
notícia divulgada no site da RNP, praticamente todas as
unidades de pesquisa e instituições públicas de ensino
superior brasileiras fazem uso desta infra-estrutura de rede de
alta velocidade. Outras
organizações de ensino e pesquisa públicas e privadas,
inclusive universidades particulares, escolas técnicas do MEC,
alguns hospitais e instituições de fomento à pesquisa fazem
parte da rede, beneficiando-se de um canal direto de comunicação
entre pesquisadores, com suporte a aplicações e serviços avançados.
A
qualificação das organizações usuárias da RNP2 é feita por
uma comissão formada por membros do Comitê Gestor do Programa
Interministerial de Implantação e Manutenção da Rede
Nacional de Ensino e Pesquisa e com base em critérios
estabelecidos na política de uso da rede.
Foram
definidas três categorias de instituições usuárias da RNP2: primárias
– instituições vinculadas aos MEC e ao MCT; secundárias
– outras organizações que solicitarem colaboração em
atividades permanentes de educação ou pesquisa com usuárias
primárias; e temporárias – instituições
que colaborem com usuárias primárias e/ou secundárias em
projetos com prazo determinado.
O
MCT também lançou, em 1996, o programa Sociedade da Informação
para integrar e coordenar o desenvolvimento e a utilização de
serviços avançados de computação, comunicação e informação
e de suas aplicações na sociedade, de forma a impulsionar a
pesquisa e a educação, bem como assegurar que a economia
brasileira tivesse condições de competir no mercado mundial
(TAKAHASHI, 2000).
Um
estudo de Pinheiro (2003) sobre o uso de recursos eletrônicos
de comunicação por pesquisadores brasileiros revela que esses
profissionais precisam estar conectados à rede para se manter
atualizados, conhecer os avanços do seu campo e os
pesquisadores nele atuantes.
Quanto
aos objetivos dos pesquisadores ao usarem a Internet para fins
de atividades científicas, destacam-se: a própria comunicação
científica entre pares, o encaminhamento de trabalhos a
congressos, a submissão de artigos para periódicos e a circulação
de trabalhos científicos antes de sua publicação, as pré-publicações
ou preprints (PINHEIRO, 2003, p.68).
Entre
as outras formas de uso mencionadas pelos cientistas estão a
busca de bibliografias, a pesquisa em base de dados, buscas de
informações sobre eventos científicos, a consulta a
bibliotecas virtuais e a participação em newsgroups e
em conferências eletrônicas.
Ainda segundo Pinheiro (2003), o correio eletrônico
aparece como o meio de comunicação predominantemente mais
utilizado pela comunidade científica brasileira, seguido pelas
listas de discussão on-line e salas de bate-papo (Chats).
Embora não tenha sido abordado pelo estudo de Pinheiro
(2003), sabemos que o contato via lista de discussão contribui
para a formação de comunidades virtuais de caráter científico.
Também
já se disseminou o uso do ambiente virtual para a realização
de curso a distância, publicação eletrônica de revistas
científicas e livros, consulta de sites institucionais
e pessoais sobre ensino e ciência e de portais de periódicos e
acadêmicos. Ainda
é bastante comum a utilização de serviços on-line
oferecidos pelo MEC, MCT e pelas demais instituições de
ensino, pesquisa e agências de fomento como a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq).
É
o caso do Portal de Periódicos da CAPES que é visto como uma
ferramenta de valor para a comunidade científica brasileira.
Segundo notícia divulgada no site do Portal, em
2003, o Portal de Periódicos atingiu o total de 7.4 milhões de
textos baixados e 6.5 milhões de acessos a bases referenciais,
representando 40 mil acessos diários.
O
Portal oferece acesso a mais de 8.000 títulos de periódicos
nacionais e internacionais, com texto completo, e a cerca de 80
bases de dados com resumos de documentos em todas as áreas do
conhecimento. O uso
do Portal, lançado em 2000, é livre e gratuito para
professores, pesquisadores e alunos de 130 instituições de
ensino superior e de pesquisa.
No
site da CAPES também podem ser obtidas informações
sobre os programas de pós-graduação existentes no país e
sobre bolsas de estudo, consultas a banco de teses e ao conceito Qualis de publicações científicas -
periódicos, anais, jornais e revistas.
O Qualis é o resultado do processo de classificação
dos veículos utilizados pelos programas de pós-graduação
para divulgar a produção intelectual de seus docentes e
alunos.
Como
portal acadêmico voltado para a área da comunicação,
destaca-se o Portal de Ciências da Comunicação da Rede de
Informação em Comunicação dos Países de Língua Portuguesa,
da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da
Comunicação (PORTCOM/INTERCOM).
O objetivo do PORTCOM é desenvolver metodologias de
trabalho para alimentação descentralizada de informações
bibliográficas e de texto completo na área, além de servir
como um local único de divulgação da produção acadêmica,
incentivando a troca de experiências entre pares.
Outro
serviço muito utilizado são consultas à base de dados como o Scientific
Electronic Library Online SciELO (Biblioteca Científica
Eletrônica em Linha), que é um modelo para a publicação
eletrônica cooperativa de periódicos científicos na Internet.
O modelo foi criado para responder às necessidades da
comunicação científica nos países em desenvolvimento e
particularmente na América Latina e Caribe, proporcionando uma
solução eficiente para assegurar a visibilidade e o acesso
universal a sua literatura científica.
O modelo SciELO contém ainda procedimentos integrados
para medir o uso e o impacto dos periódicos científicos.
O
SciELO é produto da cooperação entre a Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o Centro
Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde
(BIREME), instituições nacionais e internacionais relacionadas
com a comunicação científica e editores científicos.
Desde 2002, o Projeto conta com o apoio do CNPq.
Em
maio deste ano foi implementado o projeto Diálogo Científico
em Ciência da Informação (DICI), de responsabilidade do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
(IBICT). Trata-se
de um espaço de livre acesso para o armazenamento de diversos
tipos de documentos digitais, incluindo a publicação de
artigos científicos sem avaliação prévia, os chamados open
archives, visando facilitar a divulgação e discussão pela
comunidade científica na área de Ciência da Informação.
No
site do CNPq estão disponíveis serviços como consulta
a editais, prestação de contas de projetos, cadastro e
atualização da Plataforma LATTES - Base Nacional de Informações
em Ciência e Tecnologia. A
Plataforma é um conjunto de sistemas de informações, bases de
dados e portais que facilitam e integram as atividades de
fomento, gestão e planejamento em ciência e tecnologia.
Entre os sistemas disponibilizados na Plataforma estão:
o sistema de Currículo Lattes, o Diretório dos Grupos de
Pesquisa no Brasil, o Diretório de Instituições e o Sistema
Gerencial de Fomento.
O
Currículo Lattes é uma base de dados produzida pelo MCT, CNPq,
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e CAPES/MEC para
cadastro de pesquisadores, com objetivo de oferecer subsídios
à avaliação da pesquisa e da pós-graduação brasileiras.
Possui mecanismo interno de busca com recuperação por
nome do pesquisador e assuntos que o mesmo tenha publicado ou
produzido. O
preenchimento do Currículo Lattes é obrigatório aos
estudantes e pesquisadores participantes do Diretório dos
Grupos de Pesquisa do Brasil e a todos os orientadores
credenciados e bolsistas.
O
Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil registra todos os
grupos de pesquisa em atividade no país, uma espécie de mapa
contendo informações sobre quem estuda o quê e onde.
A consulta é realizada por grupos, linhas de pesquisa,
pesquisadores, estudantes, técnicos e produção científica.
Entre
as sociedades científicas que utilizam serviços on-line
está a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), uma entidade civil, sem fins lucrativos nem associação
político-partidária e que há mais de 50 anos promove o
desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.
A SPBC reúne representantes de todas as áreas da ciência
e está aberta a participação de professores, pesquisadores,
jovens e não-especialistas.
Na
área eletrônica, a SBPC produz e divulga, por e-mail,
diariamente e de forma gratuita a qualquer pessoa, o Jornal da
Ciência (JC e-mail) e no site institucional há links para revistas como a "Ciência Hoje
On-Line",
que apresenta artigos selecionados de revistas de divulgação
científica.
5
Vantagens e desvantagens da rede para a comunidade científica
A
comunicação via redes de computadores agilizou e facilitou a
troca de informações entre professores, alunos e
pesquisadores, colaborando para aumentar a visibilidade e o
intercâmbio de informações entre os pares.
Paralelo às vantagens decorrentes do uso das tecnologias
da Internet pela comunidade científica brasileira, surgiram
desvantagens, tais como: a inconsistência, instantaneidade e
efemeridade das informações; a complexidade de armazenamento;
a dificuldade do controle bibliográfico; a banalização da
autoria e o desrespeito à propriedade intelectual (TARGINO,
2002).
Diante
da quantidade de informações disponibilizadas na rede por
praticamente qualquer pessoa capaz de produzir um texto e munida
de equipamentos técnicos, que passa a ser ao mesmo tempo autor
e editor, cada vez mais se exige do internauta discernimento e
competência para selecionar o material de qualidade.
Neste sentido, o fluxo maior de informação não
significa necessariamente fator gerador de conhecimento.
Muitas
vezes, textos disponibilizados com o intuito de receberem
feedback (à semelhança dos preprints e prepapers) para o
aprofundamento das posições iniciais dos autores e/ou como
forma de garantir a autoria, estão sendo utilizados como
referencial teórico de novos estudos.
Na maioria das vezes, não há autorização ou sequer
conhecimento do usuário-autor.
(TARGINO, 2002).
Este
tipo de utilização aleatória revela despreocupação com a
natureza das informações, fidedignidade e consistência dos
dados, talvez, por sua instantaneidade e efemeridade, aliadas à
complexidade de armazenamento. Além disso, sabemos que da mesma maneira que artigos,
publicações e sites são disponibilizados em rede
instantaneamente, também deixam de existir com a mesma
facilidade, endereços de publicações e de sites são
perdidos a todo instante no ciberespaço.
Outro
fator que colabora para a disseminação de material sem muita
qualidade é a própria pressão do sistema de ensino e pesquisa
brasileiro que obriga os pesquisadores a publicarem uma certa
quantidade de artigos a cada ano, conforme ressalta Targino
(2002). Esta exigência
prejudica a produção científica uma vez que não existe relação
direta entre quantidade e qualidade de informações.
Para atender a esta demanda, as pessoas passaram a
produzir mais artigos em co-autoria ou a publicar fragmentos de
resultados de pesquisa em diferentes meios e publicações.
Por
outro lado, a disponibilização de um mesmo material em sites diversos colabora tanto para aumentar a visibilidade de
determinado autor como causa congestionamento no tráfego da
rede. A própria
perda de controle do material publicado pelo autor dá margem
para que se utilize um artigo de forma aleatória, aumentando a
possibilidade de haver plágios e cópias.
De acordo com Targino (2002), esta realidade deixa em
alerta a comunidade científica que se questiona quanto à
propriedade intelectual e ao processo de distribuição da
informação no ambiente virtual.
Assim,
concordamos com Targino (2002) ao afirmar que encontramos na
Internet uma variedade de publicações científicas, mas que não
necessariamente são consideradas contribuições científicas.
Para a autora, o casamento novas tecnologias versus
produção científica representa não uma relação de causa e
efeito, mas uma relação de muitos efeitos, que se confundem e
se entrelaçam, sem que possam ser categorizados como bem ou
mal.
Na
verdade, este tipo de relação meio conflituosa passa a ser
vista como natural no momento em que vemos o ciberespaço como
um espelho da sociedade, reproduzindo inclusive problema como o
plágio que sempre existiu antes do surgimento da rede, pois se
trata de uma atitude do comportamento humano.
6 Considerações finais
A
utilização crescente das tecnologias de comunicação da
Internet pela comunidade científica brasileira possibilitou a
consolidação de uma cibercultura científica em nosso país,
caracterizada pela apropriação das tecnologias na prática de
ensino e pesquisa de estudantes, professores, pesquisadores e
cientistas espalhados em todo Brasil.
Nesse aspecto, consideramos a comunidade científica
brasileira como um dos grupos mais representativos da chamada
sociedade da informação no Brasil, por ter acesso aos recursos
técnicos necessários e competência educacional para
selecionar informações de qualidade na Internet.
A
comunicação via redes de computadores trouxe vantagens e
desvantagens para a comunidade científica brasileira.
A rede agilizou e facilitou a troca de informações
entre professores, alunos e pesquisadores, colaborando para
aumentar a visibilidade e o intercâmbio de informações entre
os pares. Entre as
desvantagens figura uma preocupação com a propriedade
intelectual, embora problemas de plágio sempre tenham existido,
faz parte do comportamento humano.
De
um modo geral, a adoção de mecanismos de comunicação científica
via redes colabora para dar visibilidade à produção científica
de países em desenvolvimento, como o Brasil, que também são
produtores de informação científica, porém, sua própria
comunidade não a valoriza.
Ao contrário, é comum a subutilização da produção
nacional. Desta
forma, o incentivo, o investimento e a manutenção de
tecnologias de comunicação voltadas para divulgar e ampliar o
processo de comunicação científica em nosso país deve ser
constante, principalmente, por parte do governo que é o grande
responsável pela implantação do sistema de redes no Brasil.
Outro
aspecto interessante de se mencionar é que foi somente por meio
da Internet que as universidades e demais instituições de
ensino e pesquisa passaram a dispor de um espaço permanente e
de acesso público para divulgar informações sobre produtos e
serviços.
Além
disto, estas informações disponíveis na Internet podem ser
acessadas por pessoas interessadas em acompanhar discussões
sobre temas que vão desde a reforma universitária até a produção
de alimentos transgênicos, que antes ficavam restritas à
comunidade acadêmica e científica.
Neste caso, o ambiente virtual e seus diversificados
recursos podem ampliar e muito o círculo de receptores
potenciais de informações sobre ensino e pesquisa no Brasil e
em outros países.
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Acesso em: 15
jun. 2004.
A autora
é jornalista e especialista em Cultura e Midiologia das
Sociedades Contemporâneas pela Universidade Federal do Pará/UFPA,
atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em
Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul/UFRGS e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior/ CAPES.
E-mail: cynthia.correa@pop.com.br
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