| Volver al Indice |

| Atras |

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ensino e Pesquisa na Rede Internet: o caso brasileiro

 

 

Cynthia Harumy Watanabe Corrêa [1]

Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS

   

Resumo

Com a disseminação do uso das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TICs) na comunidade científica brasileira, o processo de comunicação científica se incrementou de forma significativa.  Neste artigo, trazemos informações visando comprovar o estabelecimento de uma cibercultura científica no Brasil, a partir da apropriação crescente das TICs nas atividades acadêmicas e científicas, otimizando a produção, a avaliação e a difusão do conhecimento.  O trabalho foi realizado com base em revisão teórica e na descrição de tecnologias utilizadas pela comunidade científica brasileira.

Palavras-chave: cibercultura; comunidade científica; Brasil.

   

1 Introdução

O ponto de partida para compreendermos o comportamento social que marca uma determinada época é termos consciência que sempre existe uma relação simbiótica entre o homem, a natureza e a sociedade, sendo que em cada momento da história da humanidade prevalece uma cultura técnica particular (LEMOS, 2002b).  Uma série de acontecimentos, como o aperfeiçoamento das Tecnologias de Informação e de Comunicação (TICs), a disseminação da Comunicação Mediada por Computador (CMC) e da rede Internet, tem alterado profundamente a organização dos sistemas sociais, políticos e econômicos em âmbito mundial.

A cultura contemporânea se caracteriza pela apropriação crescente das tecnologias digitais no cotidiano da sociedade, criando uma nova relação entre a técnica e a vida social em que surgem novas formas de agir e de conviver socialmente no ambiente virtual ou ciberespaço, a chamada cibercultura.

Embora seja indiscutível que as diversas esferas da sociedade tenham seus hábitos modificados pelas tecnologias de comunicação, em destaque a Internet, vista como um meio de comunicação, de interação e de organização social (CASTELLS, 2003b), o estudo tem como foco investigar o uso social da rede Internet pela comunidade científica brasileira.  Neste trabalho, definimos comunidade científica brasileira como a formada por profissionais dedicados a uma área específica do conhecimento, incluindo membros do setor acadêmico e da pesquisa científica e tecnológica, e que mantêm vínculos com sociedades científicas, academias e associações de pesquisadores.

Autores como Meadows (1999a), Costa (2000) e Pinheiro (2003) afirmam que o processo de comunicação científica se incrementou com a utilização da Internet.  A comunidade científica tem seus hábitos e costumes alterados pela inserção das tecnologias nas atividades diárias, que promovem novas formas de comunicar e de produzir conhecimento em ambientes virtuais.  Além disso, não podemos ignorar que na chamada era da informação, era do conhecimento ou da sociedade em rede (CASTELLS, 1999a, 2003b), a informação é vista como objeto mais valioso.

Desta forma, nosso objetivo é apresentar dados que comprovem o estabelecimento de uma cibercultura científica brasileira marcada pela apropriação das tecnologias do ciberespaço no cotidiano de professores, estudantes, pesquisadores e cientistas espalhados em todo país.  A opção por estudarmos este grupo de profissionais deve-se por entendermos que o uso social da rede varia de acordo com cada internauta.  A utilização da Internet em países como o Brasil não se restringe ao fato de ter ou não acesso, mas a uma questão de cunho educacional, pois é preciso ter capacidade educativa e cultural para usar a rede, e essa capacidade é socialmente desigual.

O trabalho foi realizado com base em revisão teórica e a partir da descrição de tecnologias da Internet usadas pela comunidade científica brasileira, assim como algumas iniciativas governamentais de disseminação da rede.  Este estudo inicial faz parte de uma pesquisa de dissertação de mestrado que investiga o processo de interação social numa lista de discussão on-line formada por pesquisadores da área de recursos hídricos.  

 

2 A informação como produto de mercado

A era da informação é caracterizada por uma mudança profunda no modo de comunicar da sociedade, uma vez que a circulação de informações flui a velocidades e em quantidades até então inimagináveis.  Essa revolução tecnológica que se alastrou a partir dos anos 70 e 80 ganhou intensidade na década de 90 com a disseminação da comunicação em rede por meio do computador, que passou a ser visto como um ícone dessa revolução informacional.  A informação passa a reinar absoluta e a ocupar uma posição estratégica no novo contexto social, pois adquiriu um status comparado à entrada da energia elétrica que caracterizou a Segunda Revolução Industrial, reconfigurando a vida das cidades (SILVEIRA, 2001).

Diante deste cenário em que a informação se torna o elemento fundamental do processo produtivo e de extrema importância para o capitalismo mundial, temas relacionados ao campo da ciência são vistos cada vez mais como relevantes.  Acreditamos, portanto, que a sociedade da informação traz novas responsabilidades para os atores sociais nela inseridos e, principalmente, para os que atuam com ensino, ciência e tecnologia, cujo produto principal é a geração de conhecimento visando melhorar a qualidade de vida das populações.

De acordo com Silveira (2001, p. 42-43), as revoluções tecnológicas costumam configurar a produção, a economia e a sociedade.  Assim aconteceu com a primeira e a segunda Revolução Industrial, respectivamente nos séculos XVIII e XIX, que serviram para aumentar a capacidade do emprego da força física humana e a sua precisão.  Por sua vez, a atual revolução tecnológica veio aumentar a capacidade de se produzir, armazenar e processar informações, ou seja, ampliou o potencial do pensamento humano.

As tecnologias de comunicação e as redes de computação ampliam as possibilidades de reprodução e transmissão de informações entre os indivíduos que podem se beneficiar das potencialidades oferecidas para aumentar sua capacidade de pensar, sua criatividade, pois se trata de uma tecnologia que torna possível o armazenamento, o processamento e a análise de informações num intervalo de segundos.

Assim, estar conectado às redes de informações e saber manusear tecnologias faz uma diferença significativa no movimento de construção de uma sociedade com qualidade de vida.  Além disso, o interesse do homem em desenvolver técnicas e tecnologias que pudessem lhe trazer benefícios e facilidades em diversos aspectos da vida cotidiana o acompanha desde o aparecimento das primeiras sociedades.  Foi assim com a invenção do fogo, do cultivo da terra, da criação dos meios de transporte, entre tantas outras criações, até alcançarmos o nível atual de desenvolvimento tecnológico.

   

3 O ensino e a pesquisa e as redes de computação

A memória foi ampliada pelos bancos de dados, pelos documentos em hipermídia e pelos arquivos digitais.  A imaginação teve nas tecnologias de simulação um enorme avanço.  O raciocínio pode atingir complexidade inimaginável nos modelos matemáticos estocásticos e nos mecanismos de inteligência artificial.  A pesquisa dá saltos com o saber compartilhado entre cientistas espalhados pelo planeta (o Projeto Genoma é o exemplo mais destacado), e a dedução lógica e a indução vão sendo secundarizadas pelas simulações de hipóteses com a realidade virtual.  (SILVEIRA, 2001, p. 28).

O surgimento da Internet e a conseqüente disponibilização de variadas tecnologias de comunicação facilitaram o encontro, a organização, o intercâmbio, o debate e a visibilidade de grupos, agregações eletrônicas ou comunidades virtuais com interesses particulares.  Neste contexto, destaca-se na rede a participação marcante de grupos pertencentes à área acadêmica e de ciência e tecnologia que, inclusive, foram os primeiros a se beneficiar com a Internet em todo o mundo.  De acordo com Lemos (2002a), as primeiras formas de agregações eletrônicas foram constituídas a partir do momento em que pesquisadores e alunos começaram a trocar mensagens pela então incipiente Internet.

Nos últimos tempos, a presença marcante das tecnologias de comunicação tem provocado alterações no modo e no tempo de comunicar fatos científicos.  Segundo Meadows (1999a), o computador já era empregado no processamento de informações na década de 1960, e sua evolução o transformaria em ferramenta cada vez mais eficaz para a comunicação científica.

Na visão de Russel (2000), não há dúvidas que o desenvolvimento e a disseminação da tecnologia da informação das últimas décadas revolucionou a forma pela qual os cientistas se comunicam, assim como o crescimento exponencial do uso das redes eletrônicas abriu novas possibilidades para a comunicação de informações sobre pesquisas.

Esta iniciativa de promover a comunicação também está de acordo com uma das características principais da filosofia do método científico: dar maior publicidade a experimentos e achados de pesquisadores; permitindo a ampla troca de informações entre os pares e acelerando o avanço da ciência, uma vez que o fazer ciência está relacionado à ação de comunicar.  Por outro lado, sabemos ainda que enquanto a pesquisa não é publicada, ela não existe para o mundo científico.

Dito de outra forma, o avanço do processo de investigação científica depende sobremaneira da circulação de informações entre os pares, pois a teoria proposta por um pesquisador deve ser testada e avaliada criticamente por outros cientistas para ter sua validade reconhecida.  Neste aspecto é que Meadows (1999a) afirma que a comunicação situa-se no próprio coração da ciência.  Existe uma necessidade intrínseca por parte do cientista de manter um intercâmbio e trocar informações entre os pares para dar continuidade a seus projetos de pesquisa.

Um estudo realizado por Costa (2000) para conhecer o uso das redes de computadores por economistas e sociólogos brasileiros e ingleses indicou que a facilidade em contatar colegas via redes eletrônicas globais tornou a interação nesse nível mais real.  Houve um aumento da realização de trabalhos em parceria e a publicação de trabalhos em co-autoria com colegas geograficamente distantes e que, em muitos casos, jamais se encontram.  Costa (2000) conclui que um dos principais impactos do uso de computadores e redes eletrônicas no grupo observado foi o aumento da dinâmica nas interações (com os pares – interações sociais – e com os recursos de informação) dentro das comunidades científicas (COSTA, 2000, p.101).

Neste sentido, a Internet une o mundo científico à medida que pode colaborar para diminuir as disparidades de acesso aos resultados de pesquisas divulgados a todo instante em vários países.  Assim, cientistas que atuam em locais considerados periferias em se tratando de iniciativa científica, hoje encontram facilidade de acesso ao processo da ciência (HOKE, 1994, apud RUSSEL, 2000).

A comunicação via redes de computação ignora significativamente a barreira espacial e temporal que tanto tornava lenta a circulação de informações acadêmicas e científicas, além da capacidade de armazenamento de dados que está disponível em formato digital, podendo abranger arquivos contendo livros inteiros, assim como fotos e mapas.

Um livro contém uma quantidade limitada de informação que só pode ser extraída por um número limitado de maneiras.  A informação eletrônica equivalente pode ser ligada a uma quantidade virtualmente ilimitada de informação adicional, a qual o usuário pode ter acesso de várias maneiras, de acordo com o seu desejo.  Assim, ser “alfabetizado em computador” implica maior leque de atividades do que é necessário para ser alfabetizado. (MEADOWS, 2000b, p. 25).

De acordo com Meadows (2000b), consideramos a comunidade científica, especialmente no caso brasileiro, como uma das parcelas privilegiadas da sociedade por apresentar um certo nível educacional que lhe confere capacidade para selecionar o material de qualidade disponível na rede.  Além de ter conhecimento para manusear adequadamente as diferentes possibilidades oferecidas pelo computador e pela Internet que, enquanto meio de comunicação, proporcionam uma maior integração, cooperação e troca de conhecimento e experiência entre os usuários.

   

4 A cibercultura científica brasileira

No contexto de disseminação das redes de computadores para a comunidade científica brasileira, destaca-se o papel da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) fundada em 1989, inicialmente chamada Rede Nacional de Pesquisa.  Somente em 1995, a Internet brasileira foi regulamentada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e pelo Ministério das Comunicações como um serviço aberto a todos, sendo que num período de cinco anos cerca de cinco milhões de pessoas tiveram acesso à rede.

Desde a sua criação, a RNP é a organização social responsável pela infra-estrutura de rede nacional de alto desempenho para colaboração e comunicação em educação e pesquisa, dando suporte para a manutenção de sites institucionais de universidades, unidades de pesquisa, museus e agências de fomento.  A implantação e difusão da rede Internet no país via RNP é promovida por meio do programa interministerial de redes dos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação (MEC).

Essa rede acadêmica nacional alcança todos os 27 estados brasileiros e interliga mais de 200 universidades, centros de pesquisa e escolas tecnológicas que, por meio de seus sites, passam a contar com um espaço permanente e de acesso público para divulgar informações gerais sobre produtos e serviços.  Espaço este mais do que necessário porque disseminar notícias sobre ensino e pesquisa é um dever dos órgãos governamentais, que são fontes primárias de informação acadêmica e científica.

Atualmente essas mais de 200 organizações fazem uso da rede RNP2, uma infra-estrutura de rede Internet avançada (Internet2) concebida para atender com excelência de qualidade à comunidade de ensino e pesquisa brasileira, interconectando instituições e redes regionais em nível nacional e oferecendo links internacionais próprios.

Segundo notícia divulgada no site da RNP, praticamente todas as unidades de pesquisa e instituições públicas de ensino superior brasileiras fazem uso desta infra-estrutura de rede de alta velocidade.  Outras organizações de ensino e pesquisa públicas e privadas, inclusive universidades particulares, escolas técnicas do MEC, alguns hospitais e instituições de fomento à pesquisa fazem parte da rede, beneficiando-se de um canal direto de comunicação entre pesquisadores, com suporte a aplicações e serviços avançados.

A qualificação das organizações usuárias da RNP2 é feita por uma comissão formada por membros do Comitê Gestor do Programa Interministerial de Implantação e Manutenção da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa e com base em critérios estabelecidos na política de uso da rede.

Foram definidas três categorias de instituições usuárias da RNP2: primárias – instituições vinculadas aos MEC e ao MCT; secundárias – outras organizações que solicitarem colaboração em atividades permanentes de educação ou pesquisa com usuárias primárias; e temporárias – instituições que colaborem com usuárias primárias e/ou secundárias em projetos com prazo determinado.

O MCT também lançou, em 1996, o programa Sociedade da Informação para integrar e coordenar o desenvolvimento e a utilização de serviços avançados de computação, comunicação e informação e de suas aplicações na sociedade, de forma a impulsionar a pesquisa e a educação, bem como assegurar que a economia brasileira tivesse condições de competir no mercado mundial (TAKAHASHI, 2000).

Um estudo de Pinheiro (2003) sobre o uso de recursos eletrônicos de comunicação por pesquisadores brasileiros revela que esses profissionais precisam estar conectados à rede para se manter atualizados, conhecer os avanços do seu campo e os pesquisadores nele atuantes.

Quanto aos objetivos dos pesquisadores ao usarem a Internet para fins de atividades científicas, destacam-se: a própria comunicação científica entre pares, o encaminhamento de trabalhos a congressos, a submissão de artigos para periódicos e a circulação de trabalhos científicos antes de sua publicação, as pré-publicações ou preprints (PINHEIRO, 2003, p.68).

Entre as outras formas de uso mencionadas pelos cientistas estão a busca de bibliografias, a pesquisa em base de dados, buscas de informações sobre eventos científicos, a consulta a bibliotecas virtuais e a participação em newsgroups e em conferências eletrônicas.  Ainda segundo Pinheiro (2003), o correio eletrônico aparece como o meio de comunicação predominantemente mais utilizado pela comunidade científica brasileira, seguido pelas listas de discussão on-line e salas de bate-papo (Chats).  Embora não tenha sido abordado pelo estudo de Pinheiro (2003), sabemos que o contato via lista de discussão contribui para a formação de comunidades virtuais de caráter científico.

Também já se disseminou o uso do ambiente virtual para a realização de curso a distância, publicação eletrônica de revistas científicas e livros, consulta de sites institucionais e pessoais sobre ensino e ciência e de portais de periódicos e acadêmicos.  Ainda é bastante comum a utilização de serviços on-line oferecidos pelo MEC, MCT e pelas demais instituições de ensino, pesquisa e agências de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

É o caso do Portal de Periódicos da CAPES que é visto como uma ferramenta de valor para a comunidade científica brasileira.  Segundo notícia divulgada no site do Portal, em 2003, o Portal de Periódicos atingiu o total de 7.4 milhões de textos baixados e 6.5 milhões de acessos a bases referenciais, representando 40 mil acessos diários.

O Portal oferece acesso a mais de 8.000 títulos de periódicos nacionais e internacionais, com texto completo, e a cerca de 80 bases de dados com resumos de documentos em todas as áreas do conhecimento.  O uso do Portal, lançado em 2000, é livre e gratuito para professores, pesquisadores e alunos de 130 instituições de ensino superior e de pesquisa.

No site da CAPES também podem ser obtidas informações sobre os programas de pós-graduação existentes no país e sobre bolsas de estudo, consultas a banco de teses e  ao conceito Qualis de publicações científicas - periódicos, anais, jornais e revistas.  O Qualis é o resultado do processo de classificação dos veículos utilizados pelos programas de pós-graduação para divulgar a produção intelectual de seus docentes e alunos.

Como portal acadêmico voltado para a área da comunicação, destaca-se o Portal de Ciências da Comunicação da Rede de Informação em Comunicação dos Países de Língua Portuguesa, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (PORTCOM/INTERCOM).  O objetivo do PORTCOM é desenvolver metodologias de trabalho para alimentação descentralizada de informações bibliográficas e de texto completo na área, além de servir como um local único de divulgação da produção acadêmica, incentivando a troca de experiências entre pares.

Outro serviço muito utilizado são consultas à base de dados como o Scientific Electronic Library Online SciELO (Biblioteca Científica Eletrônica em Linha), que é um modelo para a publicação eletrônica cooperativa de periódicos científicos na Internet.  O modelo foi criado para responder às necessidades da comunicação científica nos países em desenvolvimento e particularmente na América Latina e Caribe, proporcionando uma solução eficiente para assegurar a visibilidade e o acesso universal a sua literatura científica.  O modelo SciELO contém ainda procedimentos integrados para medir o uso e o impacto dos periódicos científicos.

O SciELO é produto da cooperação entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME), instituições nacionais e internacionais relacionadas com a comunicação científica e editores científicos.  Desde 2002, o Projeto conta com o apoio do CNPq.

Em maio deste ano foi implementado o projeto Diálogo Científico em Ciência da Informação (DICI), de responsabilidade do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).  Trata-se de um espaço de livre acesso para o armazenamento de diversos tipos de documentos digitais, incluindo a publicação de artigos científicos sem avaliação prévia, os chamados open archives, visando facilitar a divulgação e discussão pela comunidade científica na área de Ciência da Informação.

No site do CNPq estão disponíveis serviços como consulta a editais, prestação de contas de projetos, cadastro e atualização da Plataforma LATTES - Base Nacional de Informações em Ciência e Tecnologia.  A Plataforma é um conjunto de sistemas de informações, bases de dados e portais que facilitam e integram as atividades de fomento, gestão e planejamento em ciência e tecnologia.  Entre os sistemas disponibilizados na Plataforma estão: o sistema de Currículo Lattes, o Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, o Diretório de Instituições e o Sistema Gerencial de Fomento.

O Currículo Lattes é uma base de dados produzida pelo MCT, CNPq, Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e CAPES/MEC para cadastro de pesquisadores, com objetivo de oferecer subsídios à avaliação da pesquisa e da pós-graduação brasileiras.  Possui mecanismo interno de busca com recuperação por nome do pesquisador e assuntos que o mesmo tenha publicado ou produzido.  O preenchimento do Currículo Lattes é obrigatório aos estudantes e pesquisadores participantes do Diretório dos Grupos de Pesquisa do Brasil e a todos os orientadores credenciados e bolsistas.

O Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil registra todos os grupos de pesquisa em atividade no país, uma espécie de mapa contendo informações sobre quem estuda o quê e onde.  A consulta é realizada por grupos, linhas de pesquisa, pesquisadores, estudantes, técnicos e produção científica.

Entre as sociedades científicas que utilizam serviços on-line está a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), uma entidade civil, sem fins lucrativos nem associação político-partidária e que há mais de 50 anos promove o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.  A SPBC reúne representantes de todas as áreas da ciência e está aberta a participação de professores, pesquisadores, jovens e não-especialistas.

Na área eletrônica, a SBPC produz e divulga, por e-mail, diariamente e de forma gratuita a qualquer pessoa, o Jornal da Ciência (JC e-mail) e no site institucional há links para revistas como a "Ciência Hoje On-Line", que apresenta artigos selecionados de revistas de divulgação científica.

   

5 Vantagens e desvantagens da rede para a comunidade científica

A comunicação via redes de computadores agilizou e facilitou a troca de informações entre professores, alunos e pesquisadores, colaborando para aumentar a visibilidade e o intercâmbio de informações entre os pares.  Paralelo às vantagens decorrentes do uso das tecnologias da Internet pela comunidade científica brasileira, surgiram desvantagens, tais como: a inconsistência, instantaneidade e efemeridade das informações; a complexidade de armazenamento; a dificuldade do controle bibliográfico; a banalização da autoria e o desrespeito à propriedade intelectual (TARGINO, 2002).

Diante da quantidade de informações disponibilizadas na rede por praticamente qualquer pessoa capaz de produzir um texto e munida de equipamentos técnicos, que passa a ser ao mesmo tempo autor e editor, cada vez mais se exige do internauta discernimento e competência para selecionar o material de qualidade.  Neste sentido, o fluxo maior de informação não significa necessariamente fator gerador de conhecimento.

Muitas vezes, textos disponibilizados com o intuito de receberem feedback (à semelhança dos preprints e prepapers) para o aprofundamento das posições iniciais dos autores e/ou como forma de garantir a autoria, estão sendo utilizados como referencial teórico de novos estudos.  Na maioria das vezes, não há autorização ou sequer conhecimento do usuário-autor.  (TARGINO, 2002).

Este tipo de utilização aleatória revela despreocupação com a natureza das informações, fidedignidade e consistência dos dados, talvez, por sua instantaneidade e efemeridade, aliadas à complexidade de armazenamento.  Além disso, sabemos que da mesma maneira que artigos, publicações e sites são disponibilizados em rede instantaneamente, também deixam de existir com a mesma facilidade, endereços de publicações e de sites são perdidos a todo instante no ciberespaço.

Outro fator que colabora para a disseminação de material sem muita qualidade é a própria pressão do sistema de ensino e pesquisa brasileiro que obriga os pesquisadores a publicarem uma certa quantidade de artigos a cada ano, conforme ressalta Targino (2002).  Esta exigência prejudica a produção científica uma vez que não existe relação direta entre quantidade e qualidade de informações.  Para atender a esta demanda, as pessoas passaram a produzir mais artigos em co-autoria ou a publicar fragmentos de resultados de pesquisa em diferentes meios e publicações.

Por outro lado, a disponibilização de um mesmo material em sites diversos colabora tanto para aumentar a visibilidade de determinado autor como causa congestionamento no tráfego da rede.  A própria perda de controle do material publicado pelo autor dá margem para que se utilize um artigo de forma aleatória, aumentando a possibilidade de haver plágios e cópias.  De acordo com Targino (2002), esta realidade deixa em alerta a comunidade científica que se questiona quanto à propriedade intelectual e ao processo de distribuição da informação no ambiente virtual.

Assim, concordamos com Targino (2002) ao afirmar que encontramos na Internet uma variedade de publicações científicas, mas que não necessariamente são consideradas contribuições científicas.  Para a autora, o casamento novas tecnologias versus produção científica representa não uma relação de causa e efeito, mas uma relação de muitos efeitos, que se confundem e se entrelaçam, sem que possam ser categorizados como bem ou mal. 

Na verdade, este tipo de relação meio conflituosa passa a ser vista como natural no momento em que vemos o ciberespaço como um espelho da sociedade, reproduzindo inclusive problema como o plágio que sempre existiu antes do surgimento da rede, pois se trata de uma atitude do comportamento humano.  

 

6 Considerações finais

A utilização crescente das tecnologias de comunicação da Internet pela comunidade científica brasileira possibilitou a consolidação de uma cibercultura científica em nosso país, caracterizada pela apropriação das tecnologias na prática de ensino e pesquisa de estudantes, professores, pesquisadores e cientistas espalhados em todo Brasil.  Nesse aspecto, consideramos a comunidade científica brasileira como um dos grupos mais representativos da chamada sociedade da informação no Brasil, por ter acesso aos recursos técnicos necessários e competência educacional para selecionar informações de qualidade na Internet.

A comunicação via redes de computadores trouxe vantagens e desvantagens para a comunidade científica brasileira.  A rede agilizou e facilitou a troca de informações entre professores, alunos e pesquisadores, colaborando para aumentar a visibilidade e o intercâmbio de informações entre os pares.  Entre as desvantagens figura uma preocupação com a propriedade intelectual, embora problemas de plágio sempre tenham existido, faz parte do comportamento humano.

De um modo geral, a adoção de mecanismos de comunicação científica via redes colabora para dar visibilidade à produção científica de países em desenvolvimento, como o Brasil, que também são produtores de informação científica, porém, sua própria comunidade não a valoriza.  Ao contrário, é comum a subutilização da produção nacional.  Desta forma, o incentivo, o investimento e a manutenção de tecnologias de comunicação voltadas para divulgar e ampliar o processo de comunicação científica em nosso país deve ser constante, principalmente, por parte do governo que é o grande responsável pela implantação do sistema de redes no Brasil.

Outro aspecto interessante de se mencionar é que foi somente por meio da Internet que as universidades e demais instituições de ensino e pesquisa passaram a dispor de um espaço permanente e de acesso público para divulgar informações sobre produtos e serviços.

Além disto, estas informações disponíveis na Internet podem ser acessadas por pessoas interessadas em acompanhar discussões sobre temas que vão desde a reforma universitária até a produção de alimentos transgênicos, que antes ficavam restritas à comunidade acadêmica e científica.  Neste caso, o ambiente virtual e seus diversificados recursos podem ampliar e muito o círculo de receptores potenciais de informações sobre ensino e pesquisa no Brasil e em outros países.

   

Bibliografia

BRASIL.  Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.  Disponível em : http://www.cnpq.br.  Acesso em: 20 mai. 2004
_____.  Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. Disponível em: http://www.capes.gov.br.  Acesso em: 22 mai. 2004.
_____.  Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT.  Disponível em: http://www.ibict.br.  Acesso em: 22 mai. 2004.
_____.  Modelo Scientific Electronic Library Online - Scielo.  Disponível em: http://www.scielo.org/model_pt.htm.  Acesso em: 22 mai. 2004.
_____.  Portal de Ciências da Comunicação da Rede de Informação em Comunicação dos Países de Língua Portuguesa - PORTCOM.  Disponível em: http://www.portcom.intercom.org.br/frame.php?canal=portcom2&conteudo=portcom_hist.htm .  Acesso em: jul. 2003.

_____. Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - RNP.  Disponível em: http://www.rnp.br  Acesso em: 21 jun. 2004.

_____.  Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - SBPC.  Disponível em:  http://www.sbpcnet.org.br/sobre/oque.htm .  Acesso em: 21 jun. 2004.

CASTELLS, Manuel.  A sociedade em rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura, v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 1999a.

_____.  Internet e sociedade em rede.  In: MORAES, Dênis de (Org.).  Por uma outra Globalização.  Mídia, mundialização cultural e poder.   Rio de Janeiro: Record, 2003b.
COSTA, Suely M. S..  Mudanças no processo de comunicação científica: o impacto do uso das novas tecnologias.  In: MUELLER, Suzana Pinheiro Machado [e] PASSOS, Edilenice Jovelina Lima (Orgs.).  Comunicação Científica.  Brasília: Departamento de Ciência da Informação Universidade de Brasília, 2000.
LEMOS, André.  Agregações eletrônicas ou comunidades virtuais?  Análise das listas Facom e Cibercultura.  2002a.  Disponível em: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/agregacao.htm.  Acesso em: 8 fev. 2004.
LEMOS, André.  Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea.  Porto Alegre: Sulina, 2002b.
MEADOWS, Arthur Jack.  A comunicação científica.  Brasília: Briquet de Lemos, 1999a.
_____.  Avaliando o desenvolvimento da comunicação eletrônica.  In: MUELLER, Suzana Pinheiro Machado [e] PASSOS, Edilenice Jovelina Lima (Orgs.).  Comunicação Científica.  Brasília: Departamento de Ciência da Informação Universidade de Brasília, 2000b. P.23-34.
PINHEIRO, Lena Vania Ribeiro.  Comunidades científicas e infra-estrutura tecnológica no Brasil para uso de recursos eletrônicos de comunicação e informação na pesquisa.  Revista Ciência da Informação: Brasília, v.32, n.3, set./dez. 2003.  Disponível em:  http://www.ibict.br/cienciadainformacao/include/getdoc.php?id=168&article=46&mode=pdfAcesso em: 10 abr. 2004.
RUSSEL, Jane M.  Tecnologias eletrônicas de comunicação: bônus ou ônus para os cientistas dos países em desenvolvimento?.  In: MUELLER, Suzana Pinheiro Machado [e] PASSOS, Edilenice Jovelina Lima (Orgs.).  Comunicação Científica.  Brasília: Departamento de Ciência da Informação Universidade de Brasília, 2000. P.35-49.
SILVEIRA, Sérgio Amadeu da.  Exclusão Digital: a miséria na era da informação.  São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.
TAKAHASHI, Tadao (Org.). 
Sociedade da informação no Brasil: Livro Verde.  Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000.
TARGINO, Maria das Graças.  Novas Tecnologias e Produção Científica: uma relação de causa e efeito ou uma relação de muitos efeitos?  DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.3, n.6, dez. 2002.  Disponível em: http://www.dgz.org.br/dez02/Art_01.htm. Acesso em: 15 jun. 2004.



[1] A autora é jornalista e especialista em Cultura e Midiologia das Sociedades Contemporâneas pela Universidade Federal do Pará/UFPA, atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS e bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior/ CAPES.  E-mail: cynthia.correa@pop.com.br .

 

 



Todos los derechos reservados Facultad de Periodismo y Comunicación Social de La Plata.
Programación y diseño: 
PaulaRomero |Hernan Rodriguez Azpiazu
La Plata | Buenos Aires
| Argentina.
- 2004 -