|
|
BIOMIDIOLOGIA
DO SOM SUBLIMINAR NO AUDIOVISUAL
Sara
Melissa Müller
Unoesc
– Fundação Universidade do Oeste de Santa Catarina
&
Flávio
Mário de Alcântara Calazans
Unesp
– Professor Livre-Docente
Resumo
A
Biomidiologia analisa a aplicação de tecnologia subliminar
sonora no fundo musical (audição periférica), manipulando
fisiologicamente as emoções desde a China e Índia ancestrais
à Idade Média, como propaganda, jingles publicitários e
noticiários de telejornalismo.
Palavras-Chave
Biomidiologia,
som subliminar, jingles.
1.
Introdução
Objetiva-se
investigar a existência ou não de signagem subliminar sonora
que visa à manipulação emocional do ouvinte na comunicação
audiovisual, aplicando os conceitos da Biomidiologia, com
intencionalidade de obtenção de resultados fisiológicos
inconscientes/subliminares no receptor/ouvinte.
A
metodologia empregada será a Hipotético-Dedutiva (cf. o
"Modus Tolens" de Popper), buscando falsear a hipótese
de tipologia intuitiva proposta da "inexistência de toda e
qualquer signagem subliminar sonora no decorrer do Século
XX", por meio da coleta, identificação e análise de espécimes
midiáticos oriundos da Videosfera (Mídia Eletrônica), e
recorrendo-se a subsídios de referencial teórico dos
paradigmas Midiologia, Semiótica, Hermenêutica, Cibernética,
Gestalt, Neurofisiologia e Fisiologia Ocular, e à metodologia
antropológica da Observação Participante no decorrer de vinte
anos de pesquisa do objeto “subliminariedade” nas comunicações
e artes, segundo um enfoque multimídia aplicado ao estudo de
casos em uma pesquisa exploratória com coleta de peças
publicitárias e com apoio de base bibliográfica.
2.
Biomidiologia do som subliminar no audiovisual
2.1
Biomidiologia do Som
"Há
sons no silêncio, dando ordens, sugestionando,
manipulando" (CALAZANS,
1992, p. 54).
Ao
contrário de outros órgãos dos sentidos, os ouvidos são
expostos e vulneráveis. Pode-se fechar os olhos se assim se
desejar, mas os ouvidos estão sempre devassáveis aos estímulos
sonoros, pois se encontram sempre
abertos. Os olhos podem focalizar e apontar uma vontade,
enquanto os ouvidos captam todos os sons do horizonte, em todas
as direções.
A
audição é pura recepção. O ato de ouvir limita-se a receber
um sinal sonoro e a determinar-lhe um sentido. Ouvir é um
estado passivo e de contemplação, porém, no âmbito da percepção,
a audição é fundamental no contato com o mundo.
Os
efeitos da música têm sido registrados em diversas culturas.
Na antiga China, o LIKI (livro cerimonial de protocolo e
etiqueta) já discorre sobre harmonia e dissonância na música
ambiente e as relações entre os convidados. No LIVRO DA MÚSICA,
ao tempo de Wou Li (147-178 a.C.), há estudos sobre notas
musicais (escala pentatônica) e efeitos políticos, sociais e
psicológicos. Os indianos consideravam dois aspectos musicais:
MARGA (leis permanentes, arquétipos do inconsciente coletivo,
wolksgeist) e DESHI (modismos que variam, estereótipos,
zeitgeist), e registram efeitos da música como energia ou vibração
influenciando o crescimento das plantas e o temperamento dos
animais (mais tarde um tratado de cura pela música dos Persas
afirmaria que a música acalma as feras, e tal axioma corre
depois por todo o mundo grego).
Autores, como
o filósofo grego Pitágoras, também descreveram o poder do som
e seus efeitos sobre a psique humana.
Os
gritos de guerra (SLUARG GAURM-SLOGAN) refletem um arquétipo
musical proferido em um intervalo que corresponde a uma quarta
aumentada (Dó, Fá sustenido), que geraria medo no inimigo. Os
chineses o denominam de JWEI-PIN; os hindus o empregavam em
rituais noturnos; e os ocidentais reconhecem que tal intervalo
tem um aspecto angustiante, inquietante e desagradável. Este
intervalo chegou a ser proibido pelos musicistas religiosos católicos.
Denominado DIABOLUS IN MUSICA, foi empregado por Berlioz na
SINFONIA FANTÁSTICA e por Wagner nos momentos mágicos de suas
óperas com simbolismos maçônicos. Possui três tons: o TRÍTONO,
como entre fá e si, em efeito inverso ao da oitava; enquanto a
oitava é estável, o trítono é instável, baseado na relação
32/45 pulsos melódicos (Wisnik, 1999, p. 82, 83), e tal corte
separa, divide, desune – esta é a função teológica
do diabolus. Por tal efeito psíquico, o trítono é proibido no
canto gregoriano como o símbolo da dissonância, do desacordo,
da discordância e da rebelião, sendo censurado, calado,
evitado, omitido, esquecido à força, negado, reprimido,
ausente - in absentia.
Tal
preocupação evidencia a consciência e o cuidado com o poder e
os efeitos subliminares da música no corpo (biológico) e na
mente (psicológico) humana.
Bio em grego significa VIDA (como em Biologia) e MIDIOLOGIA é
uma teoria criada por Régis Debray, em 1993-Paris, como
releitura atualizada das teorias do pesquisador canadense
MacLuhan sobre as tecnologias da comunicação.
Já a BIOMIDIOLOGIA propõe-se a ser um campo de pesquisa
recortando os efeitos colaterais diretos ou indiretos da Mídia
em formas de vida. Pode ser definida como um ramo de
pesquisa derivado da Midiologia, o qual estuda as relações
Biossemióticas entre signos veiculados pela midiosfera, mídia
eletrônica (Videosfera-Televisão, Internet, etc.), que afetam
direta ou indiretamente as formas de vida biológica, quer seja
em sua fisiologia ou comportamento.
A
Biomidiologia permite compreender, por exemplo, como o desenho
animado Pokémon causou "epilepsia televisiva" e
internou em hospitais centenas de telespectadores pelo efeito de
um pisca-pisca de luzes subliminares ativando a glândula Pineal
e liberando a Melatonina, que realiza a síntese do
neurotransmissor Serotonina, quebrando cadeias de alcalóides do
sangue, e possibilitando evitar, deste modo, novas agressões
midiáticas à saúde pública.
De
acordo com Sanvito (1992), os sons seguem dois caminhos para
chegar ao cérebro: um chega ao centro auditivo do cérebro no 1º
lobo temporal, onde são captados e interpretados. Este mesmo
lobo cerebral alberga boa parte do sistema límbico, que lida
com as emoções, principalmente ao lado direito do cérebro, e
participa na memorização dos eventos no dia-a-dia. A outra
vertente conecta-se com o cérebro vegetativo, que controla funções
como a respiração, circulação, digestão, hormonal e outras.
Assim, fica mais fácil entender como as qualidades da música
podem nos afetar tanto física como psicologicamente.
O
ritmo é a qualidade dinâmica da música e o seu padrão lembra
a pulsação cardíaca. Há uma relação marcante entre ritmo e
emoções. Além da pulsação cardíaca, o ritmo é fundamental
em outras funções orgânicas: respirar, falar, andar, etc.
(SANVITO, 1992, p. 4).
Para
o médico e músico Wilson Luiz Sanvito (1992, p. 4), a música
afeta fisicamente, por possuir um ritmo (pulsações) e um tempo
(compasso), como as funções biológicas. O cérebro parece
analisar os estímulos sonoros através de padrões de referência,
tendo como modelo freqüências harmônicas, no caso da música.
Em experiências realizadas com anestesia dos hemisférios
cerebrais, ficou demonstrado que enquanto o hemisfério direito
controla os sons sem conteúdos lingüísticos, a altura do som
e a identificação dos acordes musicais, o lado esquerdo
controla o ritmo musical. Este fato contradiz o que se
acreditava até há pouco tempo, que os sons musicais fossem
inteiramente controlados pelo hemisfério não dominante para a
linguagem, geralmente o direito. Sanvito (1992, p. 4) faz a
seguinte observação:
O ritmo pode ser concebido como uma organização temporal de
uma seqüência de estímulos e este tipo de processamento é
uma especialidade do cérebro esquerdo. Então, o cérebro
direito é essencial para a apreciação da tonalidade musical,
da expressão melódica, do timbre dos instrumentos e de sua
reprodução, enquanto do cérebro esquerdo depende a leitura da
escrita musical, o ritmo e o reconhecimento das palavras de uma
canção [...] se a criatividade musical tem domicílio no lado
direito do cérebro, a linguagem musical, ou seja, a capacidade
de articular numa seqüência, uma nota após a outra, compete
ao lado esquerdo.
Portanto,
com uma certa hegemonia do cérebro direito para lidar com estímulos
sonoro-musicais, o processamento completo deles depende de uma
integração dos hemisférios cerebrais. Dessa forma, os sons
captados por sensores periféricos, que são órgãos receptores
localizados nos ouvidos, segundo Batan (1992), são veiculados
por nervos até certas áreas cerebrais, onde são analisados e
adquirem significado. O desenvolvimento deste sistema acústico-neurológico
exige uma maturação que ocorre desde a vida intra-uterina,
quando o feto está submetido a um ambiente sonoro. Como a máxima
intensidade sonora a que alguém pode se expor num período de
oito horas, sem sofrer dano de audição, é de 75 decibéis -
vale lembrar que um concerto de rock
"heavy metal" pode ultrapassar 90 decibéis -,
o corpo, para se proteger, precisaria filtrar uma ampla faixa de
sons incidentes e agir como um transformador vibratório.
(BATAN, 1992, p. 29)
Por
vezes, isto pode ser extremamente esgotante. Se uma música de
determinada freqüência, ritmo e tonalidade influencia os
ritmos elétricos do
cérebro, provocando relaxamento (ondas alfa) ou sonolência
(ondas delta),
outro tipo de música pode provocar hiperexcitabilidade do cérebro,
traduzida
por alerta, excitação dos nervos e mesmo um ataque epilético.”
(SANVITO,
1992, p. 4).
O
maior ou menor número de vibrações por segundo determina a
altura de um
som; estas vibrações por segundo são chamadas hertz.
O
ouvido humano tem capacidade de perceber, conscientemente, freqüências
que variam entre 20 e 20.000 hertz.
Um
som é considerado baixo ou grave quando sua freqüência é
baixa, e na medida em que sua freqüência aumenta, o som é
considerado alto ou agudo: "[...] som grave, como o próprio
nome sugere, tende a ser associado ao peso da matéria, com
objetos mais presos à terra pela lei da gravidade, e que emite
vibrações mais lentas, em oposição à ligeireza leve e lépida
do agudo" (WISNIK apud SALINAS, 1994).
A
música organiza os sons em uma seqüência de freqüências
determinadas, chamadas de notas musicais (Dó, Ré, Mi, Fá,
Sol, Lá e Si), como cânone ou convenção estabelecida desde a
Idade Média por Guido de Arezzo, no Século XI.
Nas
ocorrências sonoras dos audiovisuais, as alturas ganham importância
de acordo com as associações físicas e culturais dos sons.
Para
Salinas (1994), as vozes graves possuem um ar de respeito e
poder superior ao das vozes agudas. O tom grave é, na maioria
das vezes, uma voz masculina, das narrações esportivas, de
documentários, de apresentadores de notícias, de comerciais,
etc.,
revela. De acordo com as associações físicas das fontes
sonoras, como já assinalou Wisnik (1999), os objetos grandes e
pesados geram sons graves, enquanto os pequenos e leves geram
sons agudos. Pode-se citar um exemplo deste gênero que está
padronizado ao extremo máximo do associativo: toques graves
para acompanhar o andar do elefante, e toques agudos no andar da
formiga.
A
duração corresponde ao tempo de prolongação de um som. Uma
fonte sonora pode gerar um som contínuo, que varia de frações
de segundo até um determinado número de horas. Os súbitos
impulsos sonoros, de durações curtas, geram surpresa e chamam
a atenção; as ocorrências longas e contínuas são colocadas
rapidamente pelo cérebro na audição periférica e subliminar.
A duração dos sons está ligada também à velocidade, isto é,
quanto mais curta, maior a sensação de rapidez, quanto mais
longa, mais lenta.
Ainda
para Salinas, no mundo urbano moderno os tempos curtos
determinam o sucesso das coisas, os sons curtos apresentam-se
num estado de agitação. Já no mundo da meditação, da reflexão,
os tempos longos são os que levam aos estados ideais de calma e
tranqüilidade.
Nos
audiovisuais, as falas com durações fonéticas curtas
denunciam temperamentos ou estados de animo: agitação, ação,
tensão, perturbação, etc. Falas lentas e pausadas em durações
longas simbolizam tranqüilidade, sabedoria, racionalidade,
controle, preguiça. Novamente, para o andar do elefante os sons
graves e longos; para o da formiga, os agudos e curtos. O silêncio,
por sua vez, que representa a ausência de alturas, ganha
valores significativos em suas durações. As pausas silenciosas
podem trazer as sensações de medo, dúvida, espera e angústia,
por exemplo.
O
timbre determina a possibilidade de identificação e discriminação
auditiva das diversas fontes sonoras. Uma mesma nota, altura,
emitida por instrumentos diferentes, apresenta-se na mesma freqüência
fundamental acompanhada de uma série de outras freqüências
mais agudas, e determina a também chamada cor ou timbre de cada
instrumento. O timbre ou a cor denuncia o tipo de fonte sonora.
A capacidade de discriminação, aliada à memória auditiva,
nos permite reconhecer milhares de fontes sonoras somente pelo
timbre, sem necessidade de estar vendo a fonte. Quando a ligação
fonte-som é alterada, as coisas que vemos ficam falsas,
mentirosas, há um estranhamento sonoro, dissonância cognitiva
(Leon Festinger). Por isso é que nos audiovisuais existe um
cuidado especial na criação e reprodução dos sons de uma
paisagem sonora, já que uma cor dissonante de suas fontes
prejudica a veracidade do audiovisual. O timbre de um
instrumento ou da voz de uma pessoa pode remontar
instantaneamente o receptor a lugares e épocas determinadas; é
a memória involuntária pesquisada pelo filósofo francês
Bergson.
A
intensidade refere-se ao grau de energia de um som.
Independentemente da altura, duração ou timbre, um som pode
possuir intensidades fortes ou fracas. O impacto do som em
intensidades fortes pode danificar o ouvido, provocando perdas
irreparáveis na audição.
A intensidade prende a atenção com suas diversas variações,
moldando momentos de ação e repouso. Em uma fala, por exemplo,
as mudanças de intensidade podem ser tão ou mais
significativas que o que está sendo dito.
Um som com
amplitude constante gera um grau de tensão suspenso na dúvida
de se vai terminar, diminuir ou aumentar.
O
som que decresce em intensidade pode remeter tanto à fraqueza e
à debilitação, que teria silêncio como morte ou à extrema
sutileza do extremamente vivo, podendo sugerir justamente o
ponto de colamento e descolamento desses sentidos, o ponto
diferencial entre a vida e a morte, aí potencializadas. (WISNIK
apud SALINAS, 1994, p. 45)
Para
Sanvito (1992), a música alta pode levar ao arrebatamento e
chega a ser opressiva. E a música suave, além de intimista,
produz serenidade.
2.2.
Utilizando as propriedades do som no audiovisual
O
som audiovisual se aproveita dessa riqueza para criar figuras
auditivas, às vezes concordantes com a imagem, e, às vezes,
dissonantes desta. No adequado controle das intensidades reside
um dos segredos de uma mixagem sonora e talvez do encantamento
do receptor ao assistir um audiovisual. A partir do cinema
sonoro, as falas assumem o papel de melodia. Não é necessário
realizar uma pesquisa para concluir que as falas nos
audiovisuais transportam para si a missão do encadeamento
narrativo. O intuito dos realizadores é que a audição
focalizada se concentre nas falas, naquilo que é dito. Seria,
então, uma
melodia que em sua organização lingüística estaria
direcionada à sua compreensão racional. Porém, esse valor de
melodia dilui-se ao notar que os outros elementos sonoros,
inclusive os não lingüísticos das próprias falas, devem ser
ouvidos com a audição periférica, provocando respostas
emocionais inconscientes. Nesta relação de figura-fundo, a
figura dirige-se ao racional, e o fundo, ao emocional do
receptor. Apresenta-se, então, uma articulação na qual a
trilha sonora detém não uma linha melódica, mas sim um jogo
de várias linhas melódicas simultâneas. A trilha sonora se
define, dessa forma, como uma polifonia sonora estimulando
ininterruptamente, e por várias frentes, a atenção
auditiva do receptor.
A
música, sendo uma forma de expressão e comunicação não-verbal,
ao ser canalizada para o cérebro estimula a imaginação, a
fantasia, evoca recordações, enfim, dispara gatilhos
emocionais. E Manfred Clynes, músico e doutor em
neurologia/engenharia pela Universidade de Melbourne, citado por
Sanvito (1992, p. 4), postula que: [...] as emoções existem
por si mesmas como padrões potenciais do sistema nervoso e
podem ser desencadeadas pela música, independentemente de
associações específicas com pessoas ou eventos. Isto
significa que certas passagens musicais, de acordo com sua forma
ou estrutura, podem gerar respostas tais como alegria, amor ou
reverência.
Esta
padronização é capaz de descrever certos estados
afetivo-emocionais caracterizados pelas músicas no audiovisual:
Terror, medo, pânico: notas graves e com instrumentos que
produzam registros graves (trombones, contrabaixo, saxofone e
instrumentos de percussão); tristeza:
som de oboés, flautas, violinos ou clarinetes, que emitem
movimentos lentos
e
tempos longos;
alegria:
músicas 'brilhantes', de júbilo, às vezes com movimentos rápidos;
raiva:
escalas musicais rápidas, sons fortes, graves ou agudos e com
ocorrências surpreendedoras; momentos
românticos: similares aos da tristeza; violência:
movimentos rápidos, de caráter forte e sonoridade 'brilhante',
similares aos da
raiva; suspense:
instrumentos de registro baixo ou com notas agudas
intermitentes. (SALINAS apud BATAN, 1992, p. 31).
Salinas
apud Batan (1992, p. 32) ressalta que, como são raros os
estudos sobre a reação do espectador a determinadas músicas,
torna-se difícil a confirmação da "sabedoria empírica
dos emissores ao utilizar uma ou outra música, padronizada ou não,
para obter uma ou outra sensação da platéia, quanto aos seus
produtos fílmicos".
A
maioria dos indivíduos sob estimulação subliminar só sente
um ligeiro desconforto em nível consciente, se é que sente
algo. Poucos têm ciência de que algo ameaça ou atrapalha seu
bem-estar. No entanto, num período prolongado de tempo,
constante bombardeamento de estímulos subliminares pode levar a
mudanças permanentes nos sistemas orgânicos e em seus
complexos funcionamentos. A superestimulação constante dos
mecanismos fisiológicos de defesa pode acabar modificando ou
exaurindo estes sistemas. Tais mudanças podem dar início a uma
séria reestruturação no inter-relacionamento fisiológico
entre mente e corpo, que varia de intensidade e significação
conforme o indivíduo.
Em
seu livro “A persuasão e suas técnicas”, Bellenger (1987)
explica que recebemos múltiplas mensagens, e nossa atenção
seletiva filtra e focaliza um único canal sensório, deixando
todo o resto como subliminar. Tais informações entram "de
contrabando" e se depositam na memória subliminar ou
subconsciente. Os pensamentos e idéias não-iluminados,
esquecidos, não deixam de existir: estão latentes, adormecidos
num estado subliminar, além do limite da atenção consciente
ou da memória, o que não impede que a qualquer momento possam
surgir espontaneamente.
Subliminar
é abaixo dos limites; para Calazans (1992), onde houver
fronteiras e limites haverá sublimites, ou seja, subliminares.
Desta
forma, toda informação não focalizada com interesse seria um
fundo indiferenciado, um ruído subliminar acumulado na sombra
do inconsciente pessoal, alimentando as intuições. Tal afirmação
vem ao encontro da "Lei de Exclusão" de Poetzle apud
Calazans (1992), segundo a qual o conteúdo dos sonhos seria
composto de informações subliminares. Com base nesses
conceitos, pode-se estender a definição de subliminar como
todas as informações encontradas no fundo; tudo o que não
ultrapasse o limiar da consciência em estado de vigília.
3.
Considerações finais
Do
exposto, constata-se que o ouvido é um receptor sensorial contínuo,
que não é passível de uma voluntariedade ou escolha, nunca se
fecha ao estímulo acústico, às ondas sonoras propagadas pelo
ar.
Desde
os povos antigos, tais como os chineses, indianos e gregos,
tem-se a consciência dos efeitos biofisiológicos do som, dos
gritos de guerra tribais (SLUARG GAURMS-SLOGANS e das palavras
de ordem políticas e de torcidas esportivas) chegando até
mesmo à proibição do intervalo trítono nas partituras
medievais pelo efeito subliminar de rebelião ou dissonância
(Diabolos), o que confirma a Biomidiologia como abordagem válida
e sua viabilidade como hipótese plausível.
Os
ritmos afetam o ritmo cardíaco e influenciam,
biomidiologicamente, o hemisfério esquerdo do cérebro, ao
passo que a tonalidade, timbre e melodia afetam o hemisfério
direito.
A audição
pode ser focalizada ou de fundo (Gestalt), sendo a de fundo a
audição periférica ou subliminar - o locutor fala com voz
grave masculina no telejornal ou rádio, imprimindo
subliminarmente credibilidade e respeitabilidade, enquanto o
fundo musical é periférico-despercebido-subliminar da atenção,
criando o clima emocional (medo gerado por notas graves e
instrumentos de percussão; tristeza por melodias lentas e
longas; raiva e indignação induzidas por agudos, etc.)
comprovando a manipulação subliminar do ouvinte-telespectador.
Deste modo,
fica comprovada a existência de signagem subliminar sonora,
utilizando as propriedades do som, tais como freqüência,
ritmo, duração, intensidade, timbre, com o objetivo de
manipulação emocional do ouvinte na comunicação audiovisual,
aplicando os conceitos da Biomidiologia, com intencionalidade de
obtenção de resultados fisiológicos
inconscientes/subliminares no receptor/ouvinte.
4.
Bibliografia
BATAN,
Marco Antônio. Propaganda: o domínio através do som: o estudo
da influência do som nos comerciais de televisão. São Paulo,
1992. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) -
Escola de Comunicação e Artes), Universidade de São
Paulo.
BELLENGER,
Lionel. A persuasão. Rio de Janeiro:
Zahar, 1987. CALAZANS, Flávio Mário de Alcântara. Propaganda
Subliminar Multimídia. 6ª edição, São Paulo, Summus
Editorial, 1999. (Coleção Novas Buscas em Comunicação, vol.
42)-ISBN 85-323-0411. capítulo O SOM NO SILÊNCIO, p.44
-58.
Propaganda subliminar visual gráfica dos iconesos ao subtexto:
um estudo de caso. São Paulo, 1993. Tese (Doutorado em Ciências
da Comunicação) -
Escola de Comunicação e Artes), Universidade de São Paulo.
"Midiologia
Subliminar: marketing do pânico pokemon à pokemania". In:
LÍBERO - revista acadêmica da Faculdade de Comunicação Cásper
Líbero. São Paulo, Ano III, volume 3, n.5, primeiro
semestre de 2000, páginas 74 a 87. ISSN 1517-3283.
“Biomidiologia
aplicada ao Pokemón” in: Encontros culturais Portugal-Japão-Brasil,
editora Manole, São Paulo, 2002, ISBN 85-204-1759-0, páginas
69 a 122).
ECOLOGIA E BIOMIDIOLOGIA. São Paulo:Editora Plêiade, 2002.
ISBN
85-85795.
Subliminal for a new world . In: Communication for a new world:
Brazilian perspectives (Brazilian papers selected and presented
in the 18th Conference of the International
Association for Mass Communication Research. IAMCR.)
. Marques de Melo, José (Org.). Escola de Comunicações e
Artes da USP, 1993. p.77-87.
JUNG,
Carl Gustav. A dinâmica do
inconsciente. Petrópolis:
Vozes, 1984.
KEY,
J. Steven. Media sexploitation. Nova York: Signet Books, 1977.
KEY,
Wilson Bryan. A era da manipulação.
2ª ed. São Paulo: Scritta, 1996.
OS ASPECTOS SUBLIMINARES DO ÁUDIO NA COMUNICAÇÃO –
UMA
ABORDAGEM INTRODUTÓRIA. Trabalho de Conclusão de Curso
Apresentado ao Curso de Comunicação Social – Publicidade e
Propaganda, do Centro de Ciências Humanas e da Comunicação da
Universidade Regional de Blumenau – FURB. Orientadora: Profª
Clara Maria Von Hohendorff (MSc).2000.
SALINAS,
Fernando de Jesús Giraldo. O som na telenovela: articulações
som e receptor. São Paulo, 1994. Tese (Doutorado) -
Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo.
SANVITO,
Wilson Luiz. Ouvindo com o cérebro. São
Paulo, Jornal da Tarde, 12 set.1992. p. 4.
WISNIK,
José Miguel. O som e o sentido: uma outra história das músicas.
São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
A
BIOMIDIOLOGIA é um neologismo de propriedade intelectual de Flávio
Mário
de Alcântara Calazans. O termo BIOMIDIOLOGIA foi registrado na
Biblioteca
Nacional do Ministério da Cultura, em 16 de janeiro de 2002,
sob nº 249.607, livro 444, folha 267, como descoberta científica
de Flávio Mário de Alcântara Calazans.
Doutor pela ECA-USP
Livre
Docente pela Unesp
Professor
de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero
http://www.calazans.ppg.br
|