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Comunicação e Desenvolvimento Local: a recepção popular das incubadoras tecnológicas de cooperativas

 

Maria Salett Tauk Santos[1]

Conceição Maria Dias de Lima[2]

 

           

Palavras-chave: comunicação, desenvolvimento local, incubadoras tecnológicas

 

O cooperativismo tem sido apontado como estratégia viável à construção do desenvolvimento local. Nessa perspectiva as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas, mantidas por algumas universidades brasileiras, vem desenvolvendo um trabalho de assessoria a grupos de contextos populares, no sentido de possibilitá-los a criar e desenvolver os seus próprios negócios cooperativos.

A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares - Incubacoop é uma dessas iniciativas. Criada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE em 27 de maio de 1999, no âmbito do Programa de Associativismo para Pesquisa, Ensino e Extensão - Pape, a Incubacoop tem como missão incubar organizações populares no sentido de torná-las viáveis do ponto de vista econômico, social e humano, transformando-as em agentes do desenvolvimento local. O corte epistemológico da ação do Pape, e conseqüentemente da Incubacoop, se apóia em dois vetores fundamentais: o popular e o desenvolvimento local.

O conceito de popular que trabalhamos é o que considera as culturas populares na contemporaneidade nas suas formas ricas e peculiares de produzir sentidos, mas cujas populações desses contextos tem acesso desigual aos bens materiais e imateriais produzidos no mundo.

A concepção de desenvolvimento local apóia-se na definição do Région Alsace (1988) que, em tradução livre, considera que o desenvolvimento local apóia-se na mobilização local dos recursos e competências, na ênfase ao desenvolvimento das iniciativas locais, no reforço das solidariedades entre comunidades e municípios e na ação de considerar as aspirações e necessidades, da população envolvida, nos domínios econômico, social e cultural.

Segundo Augusto de Franco (2000), o desenvolvimento local compreende o acesso das pessoas não apenas à renda, mas também ao conhecimento e à proximidade de instâncias de poder e governos, dando-lhes instrumental necessário para influenciar as decisões políticas/administrativas em suas comunidades. Este processo possibilita, como ressalta Carlos Jara (1988), a participação dos atores locais na construção de uma nova cidadania, entendida como esforço para o desenvolvimento local.

A construção do desenvolvimento local a partir das Incubadoras representa um grande desafio tanto para a universidade, quanto para os grupos incubados, tendo em vista que pressupõe interações comunicacionais entre uma cultura técnica universitária e uma cultura popular, a dos cooperados.

Historicamente a avaliação do trabalho das Incubadoras de Cooperativas Universitárias tem sido iniciativa das próprias incubadoras, com o objetivo de adequar as suas metodologias de trabalho. Este texto utiliza dados de uma pesquisa que tem uma preocupação diferente: analisar os usos que as mulheres da Cooperativa de Costura de Abreu e Lima – Coopecal[3] fazem das propostas da Incubacoop no espaço onde a comunicação, entre Incubadora e cooperativa incubada, adquire sentido: na recepção.

As teorias dos Estudos de Recepção na abordagem das mediações culturais abriram uma importante perspectiva às pesquisas de Comunicação na América Latina. Para Martín-Barbero (1991) esses estudos se detiveram na pesquisa empírica das audiências e da recepção das mídias, em especial da televisão. O enfoque do estudo de recepção, segundo

esse autor, rompe com o modelo mecânico do processo de comunicação. A recepção passa a ser vista como um lugar de partida para se repensar o processo da comunicação por inteiro e não como um lugar de chegada de uma informação ou de um significado.

Tauk Santos (2001) amplia o campo dos estudos de recepção do domínio restrito dos estudos dos meios para o campo de outras interações de comunicação, onde se estabeleça um contrato de comunicação entre emissor e uma determinada população. Contrato este, que pode se estabelecer entre a mídia e uma dada população, assim como entre uma população e organizações governamentais e não governamentais.

No caso em estudo, a partir do contrato de comunicação que se estabelece entre a Incubacoop e a Coopecal, buscou-se compreender como essa cooperativa incubada recebe e representa as propostas da Incubacoop, considerando que essa relação se dá num contexto complexo no qual incide uma série de mediações das culturas envolvidas.

Martín-Barbero (1991: 222-223) chama de mediações culturais a presença e influência das diversas instituições, organizações, matrizes culturais, que atuam na produção do sentido. São as instâncias que ajudam o homem a elaborar e representar sua realidade, como o autor afirma: fascinados pelas inovações tecnológicas ou aterrados pela desublimação da cultura, nos esquecemos que a comunicação - suas mediações, suas instâncias - jamais foi exterior ao processo cultural: a comunicação é a dimensão constitutiva das culturas, grandes ou pequenas, hegemônicas ou subalternas.

Assim, segundo Martín-Barbero (1995: 35) a instância da comunicação não pode ser analisada partindo apenas de puros conceitos comunicativos, mas da observação dos modos de viver, fazer, modos de perceber na realidade os diferentes impugnadores, questionadores, ainda que essa impugnação e esse questionamento não sejam claros, diáfanos e estejam atravessados pela ambigüidade, pelo conflito.

O estudo adotou o modelo das múltiplas mediações desenvolvido por Guilhermo Orozco (1991), no qual o autor classifica as mediações em individuais, referentes aos aspectos cognitivos e comunicativos da individualidade do sujeito; institucionais, relativas às instituições, a exemplo da família, escola, trabalho, igreja, entre outras; mass-midiáticas, relacionadas às tecnologias massivas de comunicação; situacionais, que dizem respeito à situação da recepção; e as de referência, se referem a todas as características que estão inseridas num contexto ou num ambiente determinado como a idade, o gênero, a etnia, a raça, a classe social.

Tauk Santos e Nascimento (2000) analisando pesquisas empíricas de recepção desenvolvidas na perspectiva das mediações culturais demonstram que o modelo das múltiplas mediações, operacionalizado por Guilhermo Orozco, permite que cada objeto revele ao pesquisador as mediações culturais que estão interferindo no processo de comunicação. São as circunstâncias do objeto de estudo quem revela ao pesquisador as mediações que Tauk Santos chama de mediação por excelência.

Partindo dessa compreensão, os estudos sobre os usos que as mulheres da Coopecal fazem das mensagens da Incubacoop revelaram que o gênero, a temporalidade e as aspirações futuras são mediações que interferem na maneira dessas cooperadas interagirem com a Incubacoop. Desse modo, essas mediações foram consideradas mediações por excelência.

A mediação gênero influencia na interação que as cooperadas estabelecem com a Incubacoop, uma vez que a condição feminina interfere na maneira das cooperadas participarem do cotidiano da cooperativa. A condição de ser mulher obriga as cooperadas a conciliarem as rotinas de trabalho profissional na Coopecal com outras rotinas impostas pela condição de mãe, esposa e dona de casa.

A mediação temporalidade pareceu ser a mais adequada para compreender o descompasso existente entre os ritmos de tempos distintos: o tempo das mulheres, necessário à aprendizagem e apropriação dos ensinamentos da Incubacoop; e o tempo técnico da Incubadora, exigido para apresentação de resultados ao órgão financiador do Projeto.

E, finalmente, a mediação aspirações para o futuro, na tentativa de compreender se as expectativas das cooperadas para o futuro exerciam uma influência na maneira dessas mulheres se apropriarem das propostas da Incubacoop. A preocupação era a de identificar a possibilidade de que as aspirações para o futuro das mulheres da Coopecal poderiam ir em outro sentido que não fossem necessariamente o que a Incubadora propunha. Tal hipótese estava ancorada na observação empírica de que algumas mulheres abandonavam muitas vezes o trabalho na cooperativa trocando-o por outra atividade que as permitiam ganhar dinheiro de forma mais imediata.

A percepção de que o receptor é também um produtor de sentido resultou na escolha do cotidiano como lugar para a compreensão das interações entre Incubacoop e Coopecal, a partir do que recomenda Martín-Barbero (1995:59) ver a vida cotidiana como espaço em que se produz a sociedade não só onde ela se reproduz.

Na pesquisa utilizamos técnicas combinadas de coleta de dados: observação a partir do uso de técnicas etnográficas, depoimentos, diário de campo, análise documental, entrevistas com roteiro semi-estruturado e utilização da pequena história de vida.

A pesquisa foi realizada com as sete mulheres cooperadas que fundaram a Coopecal há aproximadamente 04 anos. De um contingente de vinte, apenas elas permanecem. Essas costureiras com faixa etária variando entre 20 a 40 anos de idade, não dispõem de outra fonte de renda, a exceção de duas cooperadas que comercializam informalmente produtos de beleza e roupas femininas. Em relação a escolaridade, as mulheres concluíram o nível médio, com exceção de uma cooperada que tem apenas o nível fundamental.

 

A Proposta da Incubacoop

O projeto Incubacoop foi inaugurado no dia 27 de maio de 1999. A iniciativa contou com apoio financeiro da Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Fundação Banco do Brasil.

A proposta da Incubacoop é capacitar/assessorar e prestar acompanhamento técnico às cooperativas populares para o processo de gestão do empreendimento, estimulando a identificação de oportunidades de negócio e trabalho, acesso à informação, estratégias de comunicação e de marketing e articulação em busca de parcerias junto ao poder local, constituindo-se num esforço de desenvolvimento local.

O projeto é destinado aos grupos populares que desejam desenvolver alguma atividade econômica através da formação de cooperativas. Dessa forma, a Incubadora empreende esforços em termos de apoio à sua formação, capacitação profissional e aos processos de gestão, adequação dos produtos ao público consumidor e construção da cidadania através da participação política dos cooperados junto ao poder público. O trabalho da Incubacoop é desenvolvido por professores, funcionários e alunos da universidade, além de instituições parceiras, como uma das alternativas à geração de trabalho e melhoria da renda.

O referencial teórico-metodológico da proposta da Incubacoop baseia-se na construção do conhecimento, a partir da valorização dos saberes dos participantes, enquanto sujeitos do processo. Essa abordagem parte do princípio desenvolvido por Paulo Freire e Juan Diaz Bordenave, no qual os conceitos são construídos a partir dos conhecimentos prévios dos participantes, onde busca-se, no senso comum e na problematização desse resultado, a sistematização do conhecimento (Incubacoop, 1999). O processo compreende duas fases: pré-incubação e incubação.

Pré-incubação

O processo metodológico da Incubadora inicia-se com à seleção dos grupos para participarem da pré-incubação (Incubacoop, 2002). Os critérios de seleção envolvem aspectos inerentes às características do grupo, assim como aqueles referentes às relações externas, compreendidas como articulações com organizações sociopolíticas (conselhos, associações, sindicatos, etc.). Entretanto, isso não quer dizer que o grupo tenha que, obrigatoriamente, atender a todas as condições, uma vez que esses critérios servem apenas como orientação e ordenamento das ações. Os critérios que orientam a seleção do grupo para a fase de pré-incubação são:

Situação socioeconômica: pessoas que tenham, preferencialmente, concluído o ensino fundamental e/ou ensino médio; grupos de pessoas predominantemente desempregadas, sem renda fixa (subempregadas) e profissionais autônomos e/ou assalariados em condições de trabalho precário; grupos com acesso precário aos serviços públicos (saúde, habitação, educação, etc.); e que tenham  experiência com trabalhos coletivos informais.

Organização/articulação do grupo: apresentar elementos que indiquem o mínimo de identidade coletiva; vislumbrar alguma atividade econômica que deseje empreender coletivamente; obter no mínimo 30 pessoas para participarem efetivamente de toda pré-incubação; desenvolver articulações com organizações sociopolíticas do tipo: conselho de moradores, associações, sindicatos, ONG’s dentre outras.

O objetivo da pré-incubação é proporcionar ao grupo uma melhor compreensão do funcionamento de uma cooperativa, através da sistematização do conhecimento sobre a atividade econômica que se deseja empreender, a partir da elaboração de um estudo preliminar do negócio e da minuta do estatuto da cooperativa. Para isso são realizadas três oficinas pedagógicas, em aproximadamente cem horas, em até quatro meses de trabalho.

A primeira oficina desenvolvida é denominada Iniciação à Cooperação Econômica e ao Cooperativismo e tem a duração de trinta horas. Essa oficina parte da análise da conjuntura e das experiências de produção dos participantes, abordando questões como cidadania, relações sociais e organização do trabalho, além de diferenças entre trabalho e emprego, distinções entre associação, cooperativa e empresas, entre outras (Incubacoop, 2002).

A segunda oficina trata do Estudo de Oportunidade e Criação de Negócios, com carga horária de quarenta horas. Nessa oficina, são discutidos alguns conceitos básicos como custos, investimentos, mercado, concorrência, empreendimento, preço, entre outros, na perspectiva de aprofundar a reflexão sobre o tipo de negócio que o grupo deseja empreender. O produto dessa oficina é um documento síntese do estudo preliminar de mercado desenvolvido pelos participantes sobre seus potenciais clientes, concorrentes, fornecedores, etc. (Incubacoop, 2002).

Na seqüência realiza-se a terceira oficina, a de Formação e Legalização de Cooperativa, com duração de trinta horas, voltada à elaboração do Estatuto e do Regimento Interno da cooperativa incubada, tratando também dos encaminhamentos necessários ao registro da cooperativa nos órgãos competentes (Incubacoop, 2002).

Após cumprir essas etapas, o grupo pode, então, decidir de formar ou não uma cooperativa, esse processo leva em conta não apenas a viabilidade econômico-financeira do empreendimento, mas as evidências de que o grupo demonstre uma confiança mútua em prol de um objetivo econômico e social comum.

Atendidas as condições da pré-incubação e caso o grupo opte por formar e legalizar a cooperativa inicia-se a etapa de incubação.

 

Incubação

A fase de incubação tem dois objetivos: promover o processo de formação dos cooperados, como um somatório de conhecimentos, habilidades e aptidões; e fortalecer a cooperativa como um empreendimento que desenvolve negócios, ações que pressupõem o apoio sistemático da Incubadora para que a cooperativa alcance sua sustentabilidade econômica e social.

Durante o período de incubação, doze meses aproximadamente, são proporcionados capacitações, assessorias especializadas e acompanhamento sistemático à cooperativa incubada. Esse período compreende três fases: implantação, desenvolvimento e  desincubação.

Na fase de Implantação são oferecidas, ao longo de quatro meses, algumas oficinas de curta duração referentes aos aspectos básicos de gestão, com o intuito de familiarizar o grupo com os processos de gestão, bem como aprimorar a estrutura organizacional da cooperativa. Além disso, trabalha-se os temas relacionados à estrutura organizacional, como os fatores de influência nessa estrutura, parcerias e redes de relações. Os componentes do grupo são levados a consolidar o capital social do grupo e desenvolver o capital natural. Também é estimulado o processo de aprimoramento das habilidades técnicas, com o intuito de que os indivíduos da cooperativa possam estar aptos a desenvolverem suas ações operacionais.

A fase de Desenvolvimento se constitui no período de ampliação da inserção da cooperativa no mercado, na qual são oferecidas três oficinas ao longo de seis meses, voltadas ao planejamento estratégico, operacional e de marketing da cooperativa. Privilegia-se, então, a construção de uma visão de futuro junto aos integrantes dos grupos cooperativos, propiciando instrumental para que se estabeleçam programas de acompanhamento, avaliação e aprimoramento dos resultados das respectivas organizações, estimulando a autogestão cooperativa em grupos populares.

Finalmente, a Desincubação, voltada à avaliação dos aspectos econômicos, político-institucional e social do negócio cooperativo. Essa avaliação permite identificar a existência de condições de sustentabilidade da cooperativa.

 

Incubacoop pelas Mulheres da Coopecal

Analisar como as mulheres cooperadas da COOPECAL se apropriam das propostas da Incubacoop foi a perspectiva do presente estudo. A seguir analisaremos como as três mediações por excelência identificadas: gênero, temporalidades e aspirações para o futuro afetam a maneira como as mulheres percebem e se apropriam das propostas da Incubacoop.

 

As cooperadas da Coopecal: entre a cooperativa e a luta doméstica

A cooperativa de costura de Abreu e Lima foi fundada em 1998, com a participação de trinta mulheres daquela comunidade. O fato de se tratar de uma cooperativa de mulheres coloca o gênero como uma mediação importante, na medida em que é a partir da condição feminina que elas vão se apropriar das mensagens da Incubacoop. Essa consideração nos aponta a necessidade de utilizar o gênero como mediação, partindo do que afirma Moema Viezzer que o gênero de um ser humano é o significado social e político historicamente atribuído ao sexo (Viezzer, 1998:112). Assim, consideramos, em nossa pesquisa, que esse significado social pertence à condição das mulheres. O seu papel de donas de casa, esposas e mães mediatizam a maneira como se apropriam das propostas da Incubacoop.

A exemplo disso, no estudo observamos que, apesar da Coopecal ser constituída por mulheres, o poder de decisão estava centralizado nas mãos do presidente, único homem da cooperativa. Tal aspecto revelou a aparente falta de autonomia dessas mulheres com relação ao trabalho na Coopecal, reflexo da relação paternalista mantida com o referido presidente, de uma cultura com características patriarcais, que parece afetar as mulheres cooperadas, tanto no processo de incubação, quanto no que diz respeito à consolidação do negócio coletivo.

Há que se considerar, também, a condição feminina no que se refere à combinação do trabalho na cooperativa com as atividades domésticas. Faz-se necessário, portanto, compreender o papel da mulher dentro da família para a análise da sua prática profissional. Ou seja, como os vínculos com as responsabilidades domésticas influenciam o tipo de participação na Coopecal, sendo essa uma opção possível de trabalho remunerado. A maioria das cooperadas entrevistadas justificava a escolha da costura na Coopecal como trabalho, exatamente, pelo fato da proximidade de suas residências, o que permitiria cuidar da casa e dos filhos. Tal aspecto, na vida dessas mulheres, é um ganho significativo para a combinação do trabalho de costura, na cooperativa, com o trabalho doméstico, conforme assinalam as cooperadas:

É melhor porque a gente tem mais tempo de fazer os serviços de casa antes de ir trabalhar. (MFS)

 

A jornada dupla, portanto, faz parte do universo dessas mulheres, segundo relatam:

Antes de sair para o trabalho eu tenho que deixar o almoço pronto e os meus filhos na escola. Quando volto para casa aí eu lavo as roupas e arrumo a casa. (MFS)

 

Percebemos, assim, que o gênero, entendido como um conjunto de idéias em uma cultura sobre o que é “próprio” dos homens e “próprio” das mulheres, é uma mediação cultural que interfere na forma de as mulheres atuarem na Coopecal. A condição feminina, neste caso, revela que são atribuídas às cooperadas tarefas paralelas – tarefas essas determinadas pelo sexo, que interferem na maneira como selecionam e usam as mensagens da Incubadora no cotidiano de seu trabalho na cooperativa.

Um outro aspecto observado no comportamento das mulheres diz respeito à dificuldade que desenvolvem em relação à gestão da cooperativa. Apesar dos esforços da Incubacoop promovendo capacitações para essas mulheres, quando elas voltam para o cotidiano de atividades da cooperativa, sentem dificuldade em assumir a cooperativa como proprietárias do negócio. Isso revela um aspecto da submissão histórica das mulheres à direção masculina, dificultando o envolvimento delas na gestão da Coopecal, conforme depoimentos das cooperadas:

No começo era mais reunião com Sr. João (antigo presidente), e ele dizia ‘deixe comigo que eu resolvo’. Quando a Incubadora começou, era para as cooperadas gerir a cooperativa. Mas, as dificuldades foram aparecendo e muitas pessoas foram saindo da cooperativa. (JVA)

 

O comportamento das cooperadas demonstra dificuldade para realizar um trabalho coletivo, como propõe a Incubadora, traduzido pela resistência das mulheres em gerir um negócio, aprender a participar de reuniões, construir um trabalho coletivo, dentre outros.

 

Coopecal e Incubacoop: tempos distintos

A mediação temporalidade é considerada a partir do que discute Canclini (1989) sobre as características das culturas populares, ressaltando que essas culturas vão a busca da satisfação de suas necessidades cotidianas imediatas. Para Canclini as culturas populares acatam, impugnam ou refuncionalizam a oferta de outra cultura, ou seja, atribuem uma nova função, um novo sentido, desde que isso venha ao encontro de suas necessidades materiais ou simbólicas cotidianas imediatas. Ou, ainda, as culturas populares reconvertem os seus códigos, intencional ou espontaneamente, objetivando participar da cultura massiva.

Tauk Santos (1994) chama a atenção para o caráter contingencial das culturas populares, ressaltando que essas culturas dada a contingência das suas condições materiais de vida, vão em busca da satisfação de suas necessidades cotidianas imediatas.

Nesse sentido o imediatismo, característico da cultura das mulheres da Coopecal, na perspectiva de alcançar resultados através da cooperativa gera uma certa tensão com relação ao tempo técnico da Incubadora, ou seja, uma cultura técnica, com ritmo de tempo mais a longo prazo.

Assim, elegemos essa mediação porque nos pareceu ser a mais adequada para compreender o descompasso pela coexistência de dois ritmos de tempo distintos, relativos à aprendizagem e apropriações dos ensinamentos da Incubacoop pelas cooperadas da Coopecal e o tempo técnico da Incubacoop para apresentação de resultados ao órgão financiador. Afinal como assinala Milton Santos (1994: 164): não há nenhum espaço em que o tempo seja igual para todos.

Nessa perspectiva, a mediação temporalidade foi analisada a partir do desafio que representa para as cooperadas da Coopecal o aprender e fazer ao mesmo tempo os ensinamentos da Incubadora. O descompasso entre o tempo de aprender os ensinamentos da Incubacoop e o de executá-los, traduzidos em diferentes temporalidades, explica, parcialmente, a maneira como as cooperadas da Coopecal se apropriam das propostas da Incubadora. Dois anos, o tempo determinado pela Incubacoop para se chegar a desincubação, certamente, não é tempo suficiente para a cooperativa andar com as próprias pernas, considerando que o ritmo de aprendizagem e trabalho dessas mulheres é mais lento.

Na Coopecal pudemos perceber que as mulheres cooperadas tinham tido apenas a vivência de trabalho em fábricas, ou seja, a cultura do emprego com carteira assinada, com uma relação de patrão e empregado, em que ainda se mantém a postura de acomodação e de subserviência ao patronato. Associado a isso, quando ingressaram na cooperativa havia um presidente, o único homem da cooperativa, que mantinha uma relação paternalista com as cooperadas, tomando para si todas as responsabilidades gerenciais da cooperativa.

No que tange a Incubacoop, podemos destacar os visíveis compromissos assumidos com o órgão financiador de construir uma metodologia de incubação que possibilitasse, num período de tempo determinado, resultados no âmbito político, econômico e social da cooperativa incubada, na perspectiva de sustentabilidade da Coopecal.

Assim, o estudo empírico evidenciou um certo descompasso entre o ritmo de tempo disponibilizado pela Incubacoop para que as cooperadas assimilassem os ensinamentos, e o tempo necessário para que deles se apropriassem, pondo-os em prática no cotidiano da Coopecal.

Assimilar uma cultura técnica pressupõe um processo de hibridização, que se estabelece entre a cultura técnica universitária e as culturas populares. Para compreender este processo é necessário entender, como informa Canclini (1996: 3), que a hibridização sócio-cultural não é uma simples mescla de estruturas ou práticas sociais discretas, puras, que existam de forma separada e ao combinar-se geram novas estruturas e novas práticas. A hibridização pode ocorrer de modo não planejado, entretanto, como assinala Canclini, freqüentemente surge da intenção deliberada de transformar uma cultura pré-existente para reconvertê-la em novas condições de produção e mercado. Neste sentido, a reconversão cultural das mulheres incubadas por mais intencional que se dê, na maneira de ser e de fazer, necessita de um tempo mais longo para que esta reconversão se faça plena.

Na perspectiva de aprender e fazer ao mesmo tempo percebe-se nas falas das cooperadas esse descompasso de tempo para reconversão da sua cultura numa cultura técnica. Conforme observamos nos depoimentos abaixo:

 

O tempo exigia que a gente aprendesse rápido sobre como adminstrar uma cooperativa, o que pra gente foi muito difícil. (IVA)

 

Quando partem para incorporar as propostas da Incubadora, portanto, as costureiras esbarram em condições concretas de limitações gerenciais e culturais que dificultam essa incorporação. Tal fato se relaciona, em parte, com o incipiente espaço de tempo disponibilizado para essas cooperadas aprenderem os ensinamentos da Incubadora e, ao mesmo tempo, pô-los em prática no cotidiano da Coopecal. A mediação temporalidade mostra-se importante quando se trata da relação entre culturas populares e cultura técnica, e quando o objetivo é instrumentalizar uma cooperativa de contexto popular, como é o caso da Coopecal, para a gestão em ambiente particularmente dinâmico e de alta competitividade.

 

Aspirações para o Futuro: consumo imediato

No estudo consideramos que as aspirações das cooperadas para o futuro constituem uma mediação que afeta a maneira como essas mulheres usam as propostas da Incubacoop. As pistas para essa hipótese partiram da observação de que apesar do esforço da Incubacoop de incentivar a construção de uma identidade coletiva através da cooperativa, as cooperadas pareciam não investir toda energia na Coopecal. Em seus depoimentos percebe-se que em muitos casos essas mulheres aspiram a abandonar a cooperativa na busca de trabalhar, em outras atividades, que permitam ganhar dinheiro de forma mais imediata, para que possam usufruir do consumo de bens. Anseio este que o rendimento através da cooperativa ainda não pôde lhes proporcionar.

Observa-se que as mulheres da Coopecal participam da proposta da Incubacoop, no entanto, suas aspirações para o futuro estão em outro sentido que não são, necessariamente, o trabalho coletivo e solidário que a Incubadora propõe, o que está relacionado às suas aspirações de consumo. Trata-se em muitos casos de mulheres que atuam como provedoras principais da família:

Eu sustento a minha família, não tenho marido para me sustentar. Então, não posso ficar apenas com o trabalho na cooperativa... (IVA)

 

Ou, ainda quando não são chefes de família, é com o seu dinheiro que garantem algum conforto para a família, melhorando o espaço doméstico através do consumo de bens como móveis e eletrodomésticos, conforme testemunhos abaixo:

 

Eu preciso ganhar dinheiro porque meu marido assume as despesas da casa, mas não tem condições de comprar um sofá novo, nem uma televisão... (JVA)

 

Ganhar dinheiro para elas é uma maneira de impor uma certa independência em face do companheiro, como pode ser observado nos discursos das cooperadas:

 

Eu gosto de ter dinheiro para comprar uma calça prá mim, ou uma roupa para minha filha. Deus me livre ter que pedir dinheiro ao meu marido para comprar minhas coisinhas. (RMS)

 

Vivem numa situação de contingência não dispondo de uma reserva para esperar os ganhos futuros da cooperativa. O tempo tem que ser agora, o que pode ser observado na fala de uma cooperada:

Eu era costureira e vice-presidente da cooperativa e saí porque não estava vendo o progresso da cooperativa. Saí por causa de dinheiro... (MBF)

 

O comportamento ambivalente das mulheres em relação à cooperativa explica-se igualmente pela contingência do negócio, pela dificuldade da Coopecal para captação dos serviços com uma certa regularidade, principalmente, porque a cooperativa não dispõe de setor voltado para a divulgação, um setor de marketing e vendas. O resultado é uma cooperativa com pequena escala de produção, com pouco volume de serviços, situação que contribui para que as cooperadas não obtenham uma renda satisfatória, culminando com o desejo de abandonar o trabalho na Coopecal por parte delas, ou arranjar uma outra atividade mais rentável, como pode-se observar nos depoimentos:

 

Às vezes eu tenho planos aqui para dentro, mas às vezes o que eu queria mesmo era ter um emprego seguro com carteira assinada e um dinheirinho certo todo mês. (MFS)

 

Meus planos, se a cooperativa não der certo, é ir trabalhar numa fábrica para ganhar dinheiro. (MFCS)

 

Assim, em relação aos planos para o futuro na Coopecal, percebe-se os sentimentos ambivalentes das mulheres que oscilam entre a crença na possibilidade da cooperativa se tornar um bom negócio para elas, mas ao mesmo tempo, sentem a necessidade de pensar uma alternativa para ganhar dinheiro, se a cooperativa não der certo.

 

Considerações Finais

As cooperadas da Coopecal encontram nas propostas da Incubacoop algo que lhes satisfaz e que vem ao encontro de suas necessidades cotidianas imediatas, por isso se apropriam dessas propostas, o que se materializa na participação no cotidiano de trabalho na cooperativa.

O estudo evidenciou que a Incubacoop contribui a construção do desenvolvimento local através das ações que desenvolve ao estimular a organização, promover capacitação para o trabalho e para autogestão, prestar assessoria técnica, fazer articulação institucional e mediar conflitos para apoiar as ações da Coopecal. Embora o processo metodológico da Incubacoop tenha possibilitado as tomadas de decisões e mudanças no modo de vida e na forma de pensar das costureiras, a condição feminina, as divergências de temporalidades e as aspirações para o futuro mostraram ser mediações da cultura dessas mulheres que interferem nas interações comunicacionais estabelecidas entre as costureiras e a Incubacoop, dificultando a consolidação da autogestão e da sustentabilidade da Coopecal.

Apesar das contingências dessas mulheres, considerando a história de vida delas e do contexto popular em que vivem, das interações entre Incubacoop e Coopecal ficou um saldo de capital humano e social que elas conseguiram construir juntas, materializado no trabalho, nas novas perspectivas de renda, no aprendizado e na experiência empreendedora. Além disso, no despertar do senso crítico, da importância de seu papel no contexto familiar, na cooperativa e na comunidade.

Podemos dizer que este estudo, apesar de não permitir generalizações, uma vez que se restringiu a um estudo de caso com um pequeno grupo de pessoas, vem a confirmar que a perspectiva das mediações culturais, dentro de sua complexidade, nos fornece pistas ou novos caminhos para uma compreensão mais aprofundada de como atuam as culturas populares nos processos de desenvolvimento local contemporâneo.

 

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[1] Doutora em Ciências da Comunicação, Professora do Programa de Mestrado em Extensão Rural e Desenvolvimento Local – POSMEX da UFRPE.

[2] Mestre em Administração Rural e Comunicação Rural, Professora da Fundação Universidade Estadual de Alagoas - FUNESA.

[3] A este respeito ver: LIMA, Conceição M. D. (2003). Comunicação e desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – INCUBACOOP pelas mulheres da COOPECAL – PE. 189 p. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural) Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.

 



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