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Os
Paradigmas da Comunicação
Luís
Carlos Lopes [1]
Resumo
Este
artigo é baseado no relatório final de pesquisa do pós-doutorado
(com bolsa do CNPq) de Luís Carlos Lopes na Sorbonne (Paris
1) sob a direção de Philippe Breton.
No texto que segue, há uma proposta de compreensão dos paradigmas do
campo de estudo comunicacionais, a partir da discussão dos
significados paradigmáticos das ciências de modo geral. O
autor discute igualmente as teorias e paradigmas propostos
por Philippe Breton, no que se refere à compreensão do fenômeno
comunicacional.
Palavras-chave:
paradigmas, comunicação, parole
Abstract:
This
article is based in the finally report of post-doctoral
investigation (with CNPq’s resources) make by Luís Carlos
Lopes in Sorbonne (Paris 1) by the direction of Philippe
Breton. Is possible to read in the text a proposal
comprehension of the communication paradigms camp, and the
others sciences theorist’s problems. The author tries to
talk about also the theories and the paradigms of Breton
about the phenomenon communication comprehension.
Key-words:
paradigms, communication, parole
Introdução
O
mapeamento do campo dos estudos comunicacionais e,
especificamente, da pesquisa em comunicação coloca o
problema dos paradigmas[2]
de onde partem os pesquisadores. Este ponto de partida, além
de ser sempre problemático, em qualquer área do saber
humano, condiciona os passos da investigação e influencia
suas conclusões. Se a percepção humana também se baseia
em dados apriorísticos aos sentidos, como já discutimos em
outro texto[3],
o pesquisador só pode ser compreendido, considerando-se os
locais de onde sua pesquisa emerge.
Obviamente,
os paradigmas não são artefatos naturais, pré-existentes
ou a serem descobertos. Trata-se de invenções do gênero
humano, criadas no plano do intelecto, para dar conta da
explicação ou compreensão (aí, já temos um problema
paradigmático) dos fenômenos da natureza e da sociedade.
Estes construtos precisam alcançar alguma credibilidade
entre os pares para serem usados no processo investigativo.
Ninguém procuraria os agentes infecciosos das doenças na
forma de bactérias ou vírus se, no século XIX, não
tivessem sido estabelecidos os paradigmas modernos da
biologia e da medicina investigativa. Assim como as doenças
ou mal-formações genéticas são assim entendidas por
efeito das descobertas paradigmáticas neste campo.
Há
sempre uma tensão entre os paradigmas estabelecidos e os
que ameaçam as certezas antes acreditadas. Por vezes, ainda
não se constituiu um novo paradigma, mas algumas novas idéias
põem em dúvida os paradigmas que são hegemônicos. Isto
termina por gerar apreensões, defecções e controvérsias.
Tal como ensina Feyerabend, novos pensamentos nascem, quase
sempre, de modo confuso e
incompleto, sendo preciso algum tempo para que
substituam as crenças pré-existentes.
Destaca-se
a convivência a longo termo de paradigmas que se excluem
mutuamente ou são incompatíveis entre si. Nas ciências
humanas, em que a prova laboratorial e o experimento são
difíceis e controversos, é ainda mais fácil a permanência
de velhos e novos paradigmas. Se não acreditamos em
verdades prontas e em superações absolutas do passado,
isto não é, em essência, ruim e negativo.
Em
muitos casos, na história das ciências, o que foi
demonizado como incorreto voltou à moda, foi reabilitado
como aproveitável, mesmo que parcialmente. Veja-se, por
exemplo, o retorno triunfal e renovado da retórica, hoje
compreendida como parte das novas teorias da argumentação.
Várias certezas inabaláveis foram, em outros exemplos
contrários, destruídas e consideradas inaceitáveis. Isto
não quer dizer que não possa ter havido exagero no
processo de substituição e que os novos paradigmas sejam
sempre melhores do que os anteriores. Numa abordagem do século
XXI, não são mais aceitáveis certezas absolutas e
pensamentos fechados a qualquer reconversão. Mas, isto não
seria também um paradigma – o do relativismo do saber – discutível e passível de correções?
O
exercício da hermenêutica crítica e de profundidade é
capaz de proteger o pesquisador de maiores exageros na busca
constante de compreender o mundo e as idéias. Para isto, é
preciso ver os paradigmas no seu contexto, atores
(sujeitos), consistência de suas formulações (argumentos
e discursos) e no exame do que realmente sabemos sobre os em
exame, antes de adotá-los acriticamente e acreditá-los
como uma espécie de ‘pomada maravilha’ capaz de curar
todos os males de nossa real ignorância.
Mesmo
a hermenêutica, que tem várias versões e pontos de vista,
pode nos trair na tentativa de compreender melhor a ambiência
circundante. Em algumas destas variações, a hermenêutica
é apenas um exercício de tautologia reificante,
glorificando o argumento da autoridade e os preconceitos,
como em Gadamer, ou acreditando,
como Habermas, que todo o ato comunicacional não-racional
é uma pseudocomunicação ou uma perturbação da mente
humana.
O
que se critica, ao modo de Feyerabend, é a idéia de que o
mundo é um construto matemático divino, tal como
acreditavam Galileu, Newton e Descartes, e que não se pode
sair de uma linha reta para se alcançar o saber, como na
famosa formulação cartesiana, encontrável no Discurso do
Método.
Se
já estava ou está tudo escrito, o pesquisador é, ao modo
positivista, um descobridor que não pode se afastar um milímetro
sequer da geometria da natureza e da sociedade. Deve aceitar
os fatos, descrevê-los nas suas aparências, prezar pelo
consenso e acreditar que é um artífice de Deus e não alguém
que cria, produzindo idéias individualmente e
coletivamente, fazendo isto como membro de uma sociedade e
nos limites de uma época.
Não
é casual que o positivismo tenha, em determinado momento
histórico, transformado-se em religião e que os seus
santos fossem os pensadores e cientistas consagrados. Lá
estão no panteão do positivismo, Galileu e Descartes.
Assim como temos, em nosso tempo, vários outros pensadores,
inclusive no campo das teorias da comunicação, deificados
e considerados acima do pecado e da vida mundana. A propensão
disto no campo das ciências humanas é notável,
especialmente na periferia do capitalismo central, onde são
necessários deuses e homens santos que sustentem uma nova
religiosidade, que não pára de se retroalimentar: a dos
intelectuais e outros acadêmicos.
A
libertação destes paradigmas, que organizaram o mundo em
que se vive, é tarefa das mais difíceis. Isto só pode ser
realizado abandonando-se toda e qualquer certeza apriorística,
isto é, não mais acreditar em nada que não provenha da práxis
e do leito comum e milenar da cultura humana. Talvez esteja
aí o sentido previsível da morte de Deus, anunciada por
Marx, e depois, com muito mais ênfase, por Nietzsche.
Aliás,
os paradigmas científicos hegemônicos que influenciam a
pesquisa em nosso tempo, baseados na idéia de razão,
universalidade e objetividade tiveram imensa importância
histórica. Liquidaram os seus antecedentes, eliminando,
inclusive, as variações especulativas que sempre margeiam
a construção de novos paradigmas. Nestas margens, por
vezes, estavam importantes sementes de visões mais precisas
sobre os problemas da natureza e da sociedade.
Hegel,
por exemplo, não deu importância maior à obra de Giordano
Bruno, acusando-o de não produzir um sistema de idéias
acabado. Galileu foi alçado, depois da incompreensão
inicial, como pai da ciência e Bruno, queimado vivo, em vários
sentidos, pela Inquisição. Este último foi quase
esquecido por todos, menos pelos amantes da liberdade e do
saber, que chegaram a compreendê-lo. Não é casual que o
processo respondido por Galileu tenha sido concluído pelo
atual Papa, no tempo presente. A fogueira que queimou o célebre
filósofo que queria ser “rigorosamente acadêmico de
nenhuma academia” continua acesa e sua obra pouco estudada
e, mesmo ainda, compreendida. Já é clássico o trabalho de
Frances Yates sobre o filósofo italiano e é meritória a
recuperação atual do problema feita por Alain Gras.
Se
quisermos entender os estudos comunicacionais no âmbito das
ciências de nosso tempo temos que, em primeiro lugar,
quebrar o muro que as separam e ver, como diz Boaventura dos
Santos, que toda ciência é uma ciência social, portanto,
todo o saber vem e provém dos homens. Se o homem não é a
medida de todas as coisas, como queria Protágoras, ele o é,
pelo menos, no momento em que analisa algum problema da
natureza e da sociedade. Qualquer conhecimento que se
pretenda para além da humanidade deve ser visto com alguma
suspeição.
O
campo de estudos da comunicação será mais ou menos científico,
ideológico ou burocrático, na medida em que for incorporável
ao conjunto das discussões sobre os significados do
pensamento científico hoje e ontem. Será sempre possível
discuti-lo em separado, atendendo às exigências ideológicas
ou burocráticas das modernas academias. Entretanto,
voltar-se-á sempre ao problema de como compreender o
importante fenômeno humano da comunicação, sem discutir
– comunicando – tudo que envolve as bases paradigmáticas
de sua epistemologia. Esta está ancorada aos problemas dos
demais saberes humanos. Ao se falar de uma epistemologia da
comunicação, estamos, mesmo que não o saibamos, falando
das epistemologias das ciências e dos fundamentos paradigmáticos
que as consubstanciam.
O
paradigma informacional
Se
considerarmos que os estudos comunicacionais conformam-se,
de modo mais evidente, após a Segunda Guerra Mundial, diríamos
que o paradigma informacional foi o responsável pela
abertura desta senda do conhecimento humano. Os estudos
sobre a propaganda política e sobre os efeitos dos meios
materiais de comunicação maquínicos de massa fundaram a
perspectiva comunicacional e deram origem à especialização
nestes estudos. Os trabalhos de Breton, Mattelart, Wolf e de
muitos outros recontam a história da fundação desta
perspectiva, ancorada, sob o ponto vista intelectual, nos
pressupostos do funcionalismo norte-americano.
De
acordo com Breton, que abordou o problema em alguns de seus
livros e, especificamente, em um de seus artigos, o
paradigma informacional deve ser compreendido como a base
para o desenvolvimento da internet, bem como dos demais
recursos informáticos atuais. Neste processo, o mesmo
paradigma teria contribuído na geração de um novo
pensamento religioso vinculado à idéia de uma sociedade da
informação planetária, de natureza pós-moderna, a qual
substituiria a ‘velha’ sociedade industrial. Tal reflexão,
urdida principalmente nos EUA do fim da Segunda Grande
Guerra, teria se generalizado, alcançando o resto
do mundo.
Este
paradigma – o da informação – ainda está presente em
inúmeras pesquisas e em posturas adotadas por inúmeros
intelectuais sobre o problema. Causa um certo estranhamento
o fato de se perceber que os elementos constitutivos deste
paradigma são curiosamente uma mistura das pesquisas e
projetos tecnológicos militares e civis, mas, sobretudo
militares, com uma certa visão liberal e, ao mesmo tempo,
autoritária da vida política e social. Breton,
possivelmente, foi o autor que melhor estudou sua genealogia[4],
levantando vários problemas e necessidades de pesquisas que
ainda precisam ser feitas.
O
paradigma informacional tem tudo a ver com a teoria matemática
da comunicação e da informação proposta por Shannon,
assim como com a idéia de Turing e Von Neumann de se
produzir uma máquina que pensasse. A utopia cibernética de
Wiener e outros, tal como Breton insiste em várias de suas
obras, foi a responsável pelo fato de hoje falarmos em
comunicação.
O
mesmo paradigma e todas as idéias a ele relacionadas
chegaram às grandes massas urbanas, devido à ampla veiculação
midiática das representações de um presente e, sobretudo,
de um futuro informacional e informático. Inúmeros livros,
periódicos, filmes, peças publicitárias, propagandas
governamentais adotam estes modos de ver o mundo sem
qualquer problematização. Nota-se que isto já fincou
fortes raízes nas crenças socialmente dominantes, fazendo
parte da atual cultura. Hoje, esta é, sobretudo, formada
por artefatos midiáticos que dialogam de modo contratual
com o grande público. Este
se transformou no grande auditório invisível do
mundo presente. Não é exatamente passivo, mas suas
possibilidades de intervir no que recebe são bem reduzidas.
Se,
em um passado recente, o automóvel, a geladeira e a TV eram
os principais sonhos de consumo popular, hoje, foram
acrescentados a estes, o computador, o telefone celular, os
serviços de acesso à Internet e a TV por assinatura,
entendidos como produtos essenciais à vida. Toda e qualquer
novidade de consumo pode se relacionar às novas
tecnologias, acreditadas como libertadoras e como signos de
integração social. Em exemplos recentes, destaca-se o
aumento das vendas das câmeras fotográficas digitais e dos
aparelhos de DVD. Dependendo do lócus social, é
estabelecida a ordem de prioridade de aquisição, que também
depende do modo como a sociedade, em seus vários segmentos,
organiza-se economicamente.
Do
ponto de vista intelectual, o paradigma informacional está
vivo, sobretudo na cibercultura atual, que ainda mistura
aspectos tecnológicos, ciência matemática e uma visão
política utópica e conservadora sobre os destinos humanos.
Se, no início, algum espírito libertário e anarquista
presidiu os primeiros esforços, com o tempo, a conversão
foi na direção de uma visão, sobretudo no caso específico
da cibercultura, da construção de uma sociedade
orwelliniana dominada pelas máquinas, onde o que menos
importa é a fraternidade entre os seus membros. Os homens e
as mulheres virariam, nesta concepção, simples objetos
governados de modo reificante pelas máquinas que se
apropriariam, inclusive, de suas inteligências e
capacidades de criação. Seriam iguais às máquinas, que,
por sua vez, seriam iguais aos homens.
A
tal da inteligência coletiva só poderia existir se as
pessoas fossem interconectadas, tal como uma rede de
computadores. Esta utopia, fortemente propalada e
naturalizada por vários autores, significaria o fim da
inteligência individual, por operar matematicamente,
somando, o que não pode ser somado e dividindo ou
multiplicando o que não pode ser fruto dos limites aritméticos.
A inteligência dos indivíduos nos brinda até hoje com
artistas, cientistas e filósofos que tornam nossa vida mais
suportável e nos permitem sobreviver na selva das máquinas,
tecnologias e em outros objetos de consumo de nosso tempo.
É
um mito pensar que muitas pessoas, mesmo que geniais,
interligadas por redes de computadores possam superar a
capacidade criativa individual. Obviamente, as redes
permitiram o aumento e a facilitação de troca de informações.
Todavia, não há qualquer prova que isto tenha aumentado a
inteligência humana. O atual uso banalizado dos recursos
informáticos permite que, em alguns casos, se tenha operado
o retardamento das inteligências. O mesmo se pode dizer do
uso atual dos meios técnicos de locomoção proporcionariam
um desenvolvimento desigual dos músculos e maior tendência
às insuficiências cardiorrespiratórias. Portanto, o uso
destes recursos pode, como no caso de qualquer outro objeto
social do campo da comunicação, fazer avançar ou recuar
as capacidades intelectuais e outros atributos humanos.
A
cidadania na comunidade virtual não pode passar de limites
precisos impostos pela cidadania na comunidade externa à
rede, bem como a virtualidade pode ser uma forma engenhosa
de se esconder problemas da materialidade. É mesmo muito
discutível a idéia da existência de uma cidadania virtual
que implicaria acreditar na existência de autênticas
cidades no éter. Pensa-se que isto pode ser aceito no plano
restrito do simbólico, que funcionaria mais ou menos assim:
existe a cidadania porque acredito que as coisas assim se
processam. O valor disto, em termos éticos e políticos,
pode levar, por exemplo, à retirada de direitos e à ampliação de deveres destes novos cidadãos pelo poder.
Tudo isto pode ser veiculado por correios eletrônicos ou
ser consultado em sítios específicos. De certo modo, fica
mais fácil dizer não quando não é necessário usar a voz
e se ter contato direto com o pleiteante de algum direito público
ou privado.
Em
alguns países ou em fatias de sociedades contemporâneas,
limita-se e até mesmo nega-se aos cidadãos o
direito de acesso à internet. Em outros, não há qualquer
interdição legal ou politicamente circunstancial.
Entretanto, há pessoas que não são cidadãos na
materialidade da vida e têm tantos problemas sociais e econômicos,
que o acesso à rede ou é impossibilitado de fato, ou
consiste em atividade pouco relevante. Em ainda outros
casos, os problemas para o acesso são muito menores ou
quase inexistentes. Todavia, ao entrarem na internet, as
pessoas não sabem necessariamente como melhor aproveitar os
reais benefícios deste tipo de comunicação. Perdem, em
muitos casos, um tempo enorme vendo ou discutindo o sexo dos
anjos...
Se
a representação matemática do mundo, tão criticada por
filósofos como Feyerabend ou matemáticos e físicos como
Roger Penrose, fosse a única solução possível para os
problemas humanos, mais da metade da humanidade já haveria
desaparecido, por estar quase ou completamente alheia a este
fenômeno. Não existiria qualquer possibilidade de termos
chegado até aqui, porque este é um fenômeno novo, tanto
do ponto de vista tecnológico, como também do
comunicacional. A comunicação eletrônica não tem como
substituir o contato direto entre os homens, que começa no
nascimento e vai até a morte. Bilhões de seres humanos
vivem sem terem acesso às máquinas digitais. É muito
arrogante pensar que o nosso acesso costumeiro a estes
engenhos nos torna mais humanos do que aqueles que não os
possuem ou não os desejam.
O
Paradigma Cultural
Este
paradigma está associado à escola de Frankfurt, também
conhecida pelo epíteto de ‘teoria crítica’. Esta teve
a pretensão de rever e humanizar o marxismo, a partir do
influxo e da crítica contundente ao modelo do socialismo
real, capitaneado pela antiga União Soviética. Produzindo
no mundo do capitalismo, os pensadores desta corrente, com várias
diferenças, tentaram entender o fenômeno de massas das
novas mídias, assim como os seus significados para o devir
humano.
O
uso do paradigma cultural seduziu inúmeros autores,
inclusive os que construíram suas obras, tal como
Martin-Barbero, a partir da crítica ao que foi chamado de
pessimismo de Adorno e Horkheimer. A idéia de que o fenômeno
comunicacional é um fenômeno de cultura data da mesma época
da construção do paradigma informacional. Portanto, ambos
conviveram e ainda convivem, respondendo, cada um ao seu
modo, o que é comunicação.
Em
ambos paradigmas, o contexto de surgimento está
inicialmente vinculado ao Estados Unidos, país onde as mídias
tecnológicas de nosso tempo avançaram mais rapidamente do
que em qualquer outro lugar do planeta. A presença dos já
citados intelectuais alemães nos EUA é a chave para
compreensão do livro intitulado Dialética
do Esclarecimento, de tanto sucesso editorial pelo mundo
afora. Sem esta presença física, possivelmente a teoria da
indústria cultural teria outra formulação. A guerra, a
expansão e a universalização dos meios tecnológicos de
comunicação de massa tais como a impressão massiva de
jornais, revistas e livros, o cinema, o rádio e, por fim, a
televisão suscitaram reflexões sobre a intervinculação
entre estes e a organização das sociedades contemporâneas.
A
obra de McLuhan, apesar de estar mais vinculada ao paradigma
informacional, de certo modo respondeu a partir deste, às
questões levantadas pelos adeptos da teoria da indústria
cultural. O terçar de armas entre estes dois paradigmas
percorreu a história das teorias da comunicação da
segunda metade do século XX. Paralelamente a este fato, as
tecnologias de comunicação cresceram enormemente e
configuraram aspectos muito significativos do mundo
presente.
A
teoria da indústria cultural, pedra de toque dos
frankfurtianos, serviu a dois propósitos. Em primeiro
lugar, esta visão descortinou o fato de que, no século XX,
os padrões comunicacionais humanos haviam se alterado através
de meios técnicos, antes inexistentes ou ainda frágeis.
Podia-se, pela primeira vez na história humana, falar ao
mesmo tempo com um número cada vez maior de pessoas. Era
mais fácil uniformizar o pensamento coletivo e isto era
facilmente aplicado ao controle social e político. Em
segundo lugar, esta visão também analisou em maior
profundidade o fato da existência do produto cultural de
massa, que significava a possibilidade de lucro através da
produção em série, tal como nas fábricas do capitalismo
industrial.
Para
os autores da teoria crítica, interessados em vencer a barbárie
das mídias, o mais importante não era a comunicação da
informação, porque eles abominavam a razão instrumental.
A vinculação entre a informação e a idéia de uma razão
vazia, sem preocupações humanistas, deve ter sido algo
evidente. Para eles a defesa da cultura erudita, do assalto
promovido pelas mídias, era essencial. Acreditavam que essa
era a única cultura legítima e civilizatória, em uma
clara abordagem etnocêntrica do problema das culturas
humanas.
Observando-se
os fatos ocorridos nos últimos cinqüenta anos pode-se
dizer que os adeptos da teoria crítica tinham razão em
parte. Se por um lado eram preconceituosos em relação às
possibilidades dos novos meios técnicos de comunicação,
por outro, estavam certos em apontar o surgimento de um
amplo mercado da cultura sem maiores preocupações estéticas
e também quanto à qualidade e a procedência ética de
seus produtos.
O
maior equívoco que cometeram foi o de atribuírem aos novos
meios técnicos, organizados como um sistema, a principal
responsabilidade por esses fatos. De certo modo, foram tecnófobos
avant la lettre. Sabe-se, hoje, que estes mesmos meios podem ser
usados em vários sentidos e apropriações, e que a cultura
erudita não responde a todas necessidades sociais. Não há
verdade absoluta na idéia de que o mundo erudito tenha
todas as respostas. Nas culturas e indústrias culturais
contemporâneas e de massa é possível encontrar alguns
valores positivos. Não são apenas lixos, ou, mesmo quando
o são, nestes espaços simbólicos se podem encontrar
importantes e significativas representações da realidade
material e simbólica.
Vindo
do seio da teoria crítica, a obra de Habermas
diferenciou-se. O autor reviu os postulados desta corrente,
fundando suas observações sobre o que é comunicação,
muito mais no estudo do comportamento humano do que
exatamente no estudo das culturas. Para Habermas, a comunicação
é um agir e este pode ser estratégico, quando é decidido
e posto em prática sem qualquer consenso; ou comunicativo,
quando fundamenta-se no consenso entre as partes envolvidas.
Sem
sair completamente do paradigma cultural, Habermas acabou
por criar condições para discutir a importância da
comunicação como estruturante da vida social e como meio
de se resolverem problemas entre os homens. Sua vinculação
de origem com a teoria crítica implicou a crença inabalável
na razão e na idéia de desvalorizar qualquer ato
comunicacional que não proviesse desta.
De
certo modo, a práxis dá razão aos dois paradigmas
citados. O da informação representa o desenvolvimento cada
vez mais efetivo de máquinas e de outros artefatos capazes
de substituir o papel direto do homem no processo de
transmissão e de alargamento das fronteiras
comunicacionais. O cultural relaciona-se à vigilância crítica
de intelectuais humanistas, ciosos de suas responsabilidade
morais e em busca da compreensão dos problemas da
modernidade. Por mais que tenham se equivocado, os adeptos
da teoria crítica contribuíram imensamente para a
fundamentação ética do que hoje chamamos de ciências da
comunicação.
Novos
Paradigmas da Comunicação
Obviamente,
a farta bibliografia sobre o fenômeno da comunicação contém
imensas variações paradigmáticas na resposta ao que seria
a comunicação. A pesquisa teórica implica sempre escolhas
e estas se referem às preferências e identificações
entre sujeitos e idéias. O caminho para a determinação de
novos paradigmas no campo das ciências da comunicação
relaciona-se às inúmeras possibilidades derivadas dos atos
comunicacionais. Um autor, aqui escolhido, que vem
apresentando uma série de novidades paradigmáticas é
Philippe Breton.
Em
um dos seus últimos livros, L'Explosion de la Communication à l'aube du XXI siècle, Breton e
Proulx dividem a comunicação em três gêneros:
informativo, argumentativo e expressivo.
O
primeiro – o informativo – refere-se, em um exemplo, à
imprensa e sua pretensão, jamais alcançada, de
objetividade e universalidade. Segundo os autores, a
comunicação informativa estaria, de fato, reduzida à
construção de artefatos que se pretenderiam capazes de
descrever, sem interpretar ou dar juízo de valor aos fatos
ou aos fenômenos observados. Noticiar um atentado, informar
a cotação de uma moeda, descrever determinado evento
seriam exemplos deste gênero. Neste caso, como nos demais,
o gênero informativo seria o dominante, não se excluindo a
possibilidade de, secundariamente, aparecerem os demais. Em
outro exemplo, a informação estaria nas formulações
diretas da conversação, tais como: está frio; faz calor;
fulano faleceu ontem: seu enterro é às 15 horas; etc.
O
segundo – o argumentativo – seria o mais genérico,
estando presente em quase todos os atos comunicacionais.
Sobre este, os autores têm um livro específico e menções
em vários outros textos, onde teoriza e cita outros autores
sobre as chamadas teorias da argumentação. Argumentar, em
uma definição breve, seria transportar aos outros idéias
que os convenceriam de algo. Tratar-se-ia, portanto, da
enunciação, isto é, para um pesquisador argumentar
referir-se-ia à valorização do conteúdo dos discursos e
da descoberta de suas funções sociais.
O
ato de argumentar estaria presente da fala à transmissão
televisiva, portando sempre uma mensagem e um juízo de
valor sobre determinado problema. Em um jornal, por exemplo,
a argumentação estaria mais presente em um artigo de fundo
ou em um editorial e, menos, em uma notícia. Tudo isto
sempre em termos e com ressalvas. Dizendo-se, por exemplo,
que fará frio hoje estaríamos informando. Se
acrescentarmos que ‘possivelmente’ fará frio hoje,
porque estamos no inverno, o tempo está nublado, a previsão
metereológica indicou isto no boletim do tempo e, ainda
porque, creio que fará frio hoje e quero convencer aos
outros desta minha verdade, estaríamos indo além da
informação e chegando à argumentação.
O
terceiro – o expressivo – seria o referente ao uso da
emoção, do sentimento, tal como nas telenovelas,
cancioneiro popular, programas de auditório, cerimônias de
casamento, funerais, festas comemorativas, declarações de
amor etc. Estaria, igualmente, vinculado ao gosto estético,
de se considerar bela ou não a obra de arte de qualquer
natureza. O grotesco e o sublime podem ser considerados
categorias da comunicação expressiva, contando com
apropriações muito diferenciadas, de acordo com as crenças
dominantes e esposadas pelas sociedades e seus vários
segmentos.
A
comunicação expressiva, simbolizada pelo uso do grotesco,
do sublime, da emoção e do sentimento, é muito usada nos
grandes meios técnicos de comunicação de massas. Está,
também, muito presente na conversação interpessoal.
Habermas chama de comunicação perturbada ou de agir não
racional, os atos comunicacionais expressivos baseados na
emoção e no sentimento. Estes significariam transportar
para os outros mensagens subjetivas, convencendo-os de
verdades da vida ou reafirmando certezas pessoais ou de
grupo. O cancioneiro popular mundial, em um exemplo, trata,
sobretudo, de temas subjetivos relacionados ao amor,
comemorando a conquista, lamentando a perda etc. Usando-se o
senso comum, é possível dizer que a comunicação
expressiva trata dos problemas do gosto, do coração e do
ideal de beleza, isto é, de tudo que nos afeta
subjetivamente.
Nas
mídias contemporâneas, não raro a informação é
combinada mais freqüentemente com a expressão do que com a
argumentação. Veja-se, por exemplo, o noticiário sobre
tragédias humanas, recorrente na imprensa escrita, falada e
televisada do Brasil. A dramatização midiática da vida
cotidiana é muito comum no mesmo país e em muitos outros.
Na internet, o uso da comunicação expressiva supera, em
alguns momentos chaves de seu funcionamento, o da comunicação
informativa, aliás, a principal razão de sua existência.
Será
possível a separação destes três gêneros? Será que em
todos não acaba existindo algum nível de argumentação?
Pensa-se que estas são as dúvidas que se colocam. Por
outro lado, não se deve confundir os gêneros citados com o
próprio ato comunicacional. Os gêneros são uma abordagem
do problema. Como em toda a pesquisa, as abordagens teóricas
não devem ser confundidas com a prática, sob pena de se
reinventar o real material e o simbólico. É certo que, de
algum modo, acabamos fazendo um pouco disso, mas se deve ter
o cuidado de se circunscrever este procedimento ao esforço
intelectual para compreender os objetos estudados. O que se
pode concluir é que em um mesmo ato comunicacional pode
haver elementos argumentativos, expressivos e
informacionais. Portanto, os gêneros seriam encontráveis
em cada ato e a situação comunicacional em modos de dominância
diferenciados.
Deslocando
a discussão em direção aos homens e às mulheres, Breton
fala em cinco meios de comunicação de base, que seriam o
gesto, a oralidade, a imagem, a escrita e o silêncio. Estes
meios poderiam ou não usar suportes físicos não-humanos e
a tecnologia para o transporte das mensagens, tais como, a
impressão, o rádio e a TV, as gravações em mídias
audiovisuais, as redes de computadores etc.
Há
um enorme progresso ao se deixar considerar, por exemplo, a
TV, como um meio de comunicação humana. Ela passa a ser
compreendida como suporte físico e em uma tecnologia específica
para o transporte de todos os meios de comunicação
humanos. Isto implica a compreensão de sua existência como
um objeto social, uma espécie de ferramenta de nosso
contexto histórico que serve para transportar à distância
o que antes era feito apenas com a presença física de
seres e objetos reais. O mesmo raciocínio pode ser aplicado
ao uso da internet, ao rádio e aos objetos impressos.
Sendo
objetos sociais, psicanaliticamente, diria Zizek, nós os
olhamos e eles nos olham e nos vêem como parte da mesma
sociedade. Fazem parte da vida, como seres inanimados, mas
contêm possibilidades efetivas de comunicar e de entrar em
contato com a própria subjetividade. Têm características
similares às ferramentas e utensílios que indicam
determinada profissão e permitem sua execução. São próteses
dos corpos, aumentando a expressão, ação e sentidos.
Mas,
a grande novidade paradigmática trazida por Breton é a idéia
da parole,
desenvolvida em seu último livro intitulado Éloge
de la parole. Neste texto, o autor retoma vários de
seus temas anteriores e defende a parole
como uma espécie de substância da comunicação, criando
com clareza um novo paradigma.
É
difícil uma tradução precisa do termo, no sentido que é
atribuído pelo autor. Literalmente, parole
quer dizer, em português, palavra. Pode-se também
traduzir parole por verbo ou parábola, nos sentidos bíblicos
destes termos. Para o autor, a parole
significa a transmissão de mensagens feitas por e entre
seres humanos, com ou sem o uso do oral. Ele exemplifica com
a 'fala' dos surdos. Eles falariam por meio de sinais
codificados em cada cultura. Um surdo francês levaria algum
tempo para entender o idioma dos surdos norte-americanos...
Como eles não ouvem, codificam sua língua em sinais
(gestos) que podem apresentar muitas diferenças de cultura
para cultura. Mas, como eles trabalham com sinais, de modo
similar a uma 'escrita' gestual, não têm o som para
'atrapalhar', conseguem facilmente reverter os sinais de uma
cultura para outra... Seria como se falássemos com uma
escrita gestual.
Sem
desqualificar os teóricos que o precederam, Breton, ao
eleger o paradigma da parole
como vetor de compreensão do que é comunicação, colocou
novos problemas e novas perspectivas para a pesquisa teórica
e aplicada no campo. A comunicação é a transmissão da parole
e esta é uma construção possível do corpo humano, que a
transmitiria e a receberia, salvo engano, por duas formas básicas:
a conversação e a leitura.
Entender-se-ia
conversação como qualquer troca de mensagens entre
pessoas, mediadas ou não por máquinas, usando-se qualquer
suporte, habilidade ou sentido. Quando vemos a multidão nas
ruas de uma grande cidade ocidental, movida pelo desejo do
consumo no momento de uma campanha publicitária de saldos
de balanço, fim de estação, liquidação de estoque, fica
nítido como a comunicação entre as pessoas é
fundamentalmente um problema do corpo.
Elas
buscam a semelhança ou a diferença pelas roupas, adereços,
pinturas, cabelos e atitudes; falam em suas línguas e
acentos natais com seus próximos ou com os vendedores;
balançam seus corpos na motricidade de cada grupo
sociocultural (gestualidade corporal), desenvolvem expressões
faciais altamente indicativas de seus estados emocionais;
agitam os braços; olham em determinadas direções ou para
lugar nenhum; esbarram uma nas outras; reclamam; olham os
cartazes; vêem as etiquetas; são ignoradas ou notadas por
alguns; falam aos celulares que não param de tocar; em
suma, comunicam-se o tempo todo, com os outros, consigo próprias
e, sobretudo, com a ordem social e simbólica onde estão
inseridas. Tudo isto, e muito mais, poderia estar na rubrica
da conversação e na do uso dos meios de comunicação
corporais.
Enquanto
a conversação está na ordem da produção ativa e
objetiva de sentidos, a leitura está na ordem na subjetivação.
Na vida prática, fazem-se as duas coisas ao mesmo tempo,
como no exemplo acima. Não há como separar a leitura da
conversação e vice-versa. Ambas fazem parte do uso da parole
como forma de comunicação. Quando se vê TV, se está
dominantemente na ordem da leitura. Ver TV, neste sentido,
se parece com as outras ‘leituras’ que fazemos das
mensagens recebidas dos meios de comunicação. A conversação
que se processa é a de natureza intersubjetiva. Se esta prática
é acompanhada da discussão com outros que estão fazendo a
mesma coisa, oscila-se o tempo todo entre a conversação e
a leitura.
Conclusões
A
parole caminha em
todos os sentidos e direções como um líquido que escorre,
anda, resvala e voa entre as pessoas e para dentro delas.
Trata-se de uma espécie de sangue da vida social, que nos
transforma em humanos e nos permite a vida em todos
sentidos. No princípio era o verbo, e todos nos
transformamos em seres humanos.
De
acordo com Breton, a parole existiria também de modo cristalizado em objetos feitos pela
humanidade. Nesta senda, quando vemos um automóvel, uma
vestimenta, um telefone celular, uma residência, uma
pintura, um livro etc, estaríamos, dentro da sua
perspectiva paradigmática da comunicação, vendo um ou
mais casos de congelamento na forma de objeto da parole
humana.
Na
seqüência deste raciocínio, é importante fazer a distinção
entre os argumentos, as informações, as expressões estéticas
e emotivas e as paroles.
Diz-se que estes existem no sentido das idéias que possam
ser interpretadas e compreendidas. As paroles
seriam os veículos que teriam o papel de transportar os
argumentos, as informações e as expressões de modo direto
ou indireto. As paroles
diretas seriam feitas sem nenhuma mediação por máquinas
ou outros objetos sociais. Elas seriam impossíveis nos
campos da informática, porque sempre neles há uma mediação.
Logo, as paroles
que se tem maior interesse neste estudo são as indiretas,
as que são construídas na relação entre os homens, as máquinas
e novamente os homens. A fórmula da parole
indireta seria, logo, a seguinte: HMH. Todavia, um
problema presente é a idéia muito freqüente de que não
existiriam diferenças enormes entre a parole direta e a
indireta.
Seguindo,
com algumas mudanças, a proposição de Breton, dir-se-ía
que a parole está
presente também no que Luhmann chamou de meios de comunicação
simbólicos, tendo como exemplo o caso do amor. Este, assim
como seus primos próximos, a amizade e o erotismo
(incluindo o seu filho bastardo, a pornografia), seriam
portadores da mesma, cristalizada na forma de crenças e
comportamentos socialmente codificados em contextos
diferentes.
A
noção de meios de comunicação simbólicos portadores da parole
humana é aplicável a praticamente toda a práxis, quando
vista da perspectiva comunicacional. Nas várias formas de
violências simbólicas, mesmo quando derivadas de violências
materiais, nas manifestações artísticas, na política, no
consumo, nos preconceitos sociais tais como o racismo e o
sexismo, nas religiosidades, nas ciências, inclusive nas da
comunicação etc, poder-se-ia, como neste texto, perceber a
manifestação da parole
humana, neste caso digitada e composta pelo programa de
computador. Do verbo se fez o homem, ou o homem construiu a parole
para se dizer humano.
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Professor do corpo permanente do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal Fluminense.
Existem várias acepções deste conceito. Feyerabend,
criticando Kuhn, nega que os cientistas partam
necessariamente de paradigmas, na sua interessante
proposição, por vezes exagerada, de um anarquismo
metodológico. Céline
Lafontaine compreende a noção de paradigma como uma
derivação de uma compreensão global do mundo, um
modelo de interpretação a partir do qual nos pensamos
sobre o mundo e sobre nós mesmos. Nossa visão,
de natureza similar, compreende os paradigmas
como construções hermenêuticas, com todos os
atributos que isto implica.
Luís C. Lopes, ver nas referências bibliográficas.
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