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O
Conceito de Mídia na Comunicação e na Ciência Política:
Desafios
Interdisciplinares
Liziane
Guazina - UFRGS[1]
Resumo
O
objetivo deste trabalho é discutir qual conceito de mídia vem sendo
utilizado nas pesquisas em Comunicação e em Ciência Política no
Brasil, especialmente nos estudos que inter-relacionam os dois campos,
como os dedicados à 'Comunicação e Política' e 'Mídia e Política'.
Na Comunicação, a palavra mídia é largamente empregada para
explicar os acontecimentos do processo político, com os mais variados
significados. Por outro lado, do ponto de vista da Ciência Política
praticada no Brasil, a mídia não alcançou ainda o status de
categoria ou variável importante nas análises mais tradicionais.
Qual a importância do conceito para os dois campos e, afinal, de qual
mídia nós, pesquisadores, estamos falando?
Palavras-Chave
Mídia;
Comunicação; Ciência Política.
1.
Introdução
O uso generalizado da palavra mídia é recente nas
pesquisas em Comunicação no Brasil.
A partir da década de 90 é que começou a ser amplamente
empregada. Em muitas das publicações especializadas, porém, mídia
é utilizada no mesmo sentido de imprensa, grande imprensa,
jornalismo, meio de comunicação, veículo. Às vezes, é citada
no plural, mídias, num esquecimento - deliberado ou não - de sua
origem latina como plural de medium (meio)[2].
A
palavra mídia é mais utilizada nos estudos que relacionam
os campos da Comunicação e da Política, e da Comunicação e
Economia Política; estudos estes que se constituem em subtemas
específicos da Comunicação e, ao mesmo tempo, temas
multidisciplinares, compartilhados por outros campos do
conhecimento.
As
pesquisas brasileiras
que acabaram por construir a subtemática Comunicação e Política,
por exemplo, tiveram seu turning point mais emblemático nas análises
sobre as eleições presidenciais de 1989. Foi a partir do fenômeno
Collor que acadêmicos de diversos campos de conhecimento passaram
a reconhecer a importância da comunicação de massa no processo
político brasileiro[3].
Para
dar conta da então 'novidade', foi necessário recuperar a
inter-relação teórica convergente entre as perspectivas da
Comunicação, Sociologia, Ciência Política e, até mesmo,
Psicologia Social[4].
Foram nestes estudos multidisciplinares que a palavra mídia
ganhou destaque, sendo empregada em análises que pretendiam
explicar o poder institucional e de representação dos meios de
comunicação no mundo político contemporâneo. Rubim e Azevedo
(1998) lembram o papel pioneiro que a revista Comunicação&política
teve ao aproximar os dois campos publicando artigos que se
preocupavam com a relação entre ambos a partir do tema eleições,
já na década de 80
Curiosamente,
é no encontro entre a Comunicação e as Ciências Sociais
(especialmente a Ciência Política) que a mídia tem sido mais
estudada - e citada - entre os comunicólogos do país,
ainda que não tenha sido objeto de uma conceituação mais
consistente, como veremos adiante.
Porém,
se na Comunicação a centralidade e influência do que chamamos
de mídia chega a ser 'senso comum'[5], da perspectiva da Ciência Política praticada no
Brasil, a mídia não alcançou nem mesmo o patamar de categoria
ou variável importante nas análises de Cultura Política ou de
Socialização Política.
A
importância que é atribuída à mídia nos dois campos de
conhecimento está intimamente relacionada com o que se entende
por mídia e qual seu
papel nos fenômenos políticos em ambos os lados. Qual conceito
de mídia é utilizado nos estudos da Comunicação e da Ciência
Política? De qual mídia estamos falando?
O
objetivo de nosso trabalho é colaborar para uma discussão mais
profícua sobre a relação entre a Comunicação e a Ciência Política
a partir do entendimento do conceito de mídia e de sua relevância
para a compreensão do processo político brasileiro.
2.
A Mídia sob os olhos da Comunicação
Apesar
do largo emprego, é difícil encontrar uma definição consensual
explícita do conceito de mídia entre os pesquisadores do campo
da Comunicação. Seu uso predominante atual parte de uma quase
extensão ou decorrência natural de conjunto de meios de comunicação.
Em
um rápido apanhado histórico, veremos que a origem do uso da
palavra mídia está nas pesquisas norte-americanas sobre mass
media, herdeiras (em sentido cronológico) dos estudos sobre voto,
comportamento eleitoral, propaganda e opinião pública nos períodos
pré e pós-guerras, entre os anos 20 e os 40, nos Estados Unidos
(a origem mesma da
Communication Research)[6] (cf. Wolf, 2003).
Estes
estudos oscilaram em seu objeto, dedicando-se a pesquisar
pontualmente às vezes os meios de comunicação de massa; outras
vezes, a cultura de massa ou sociedade de massa; mas sempre
constituiram-se em abordagens e teorias centradas na Sociologia e
na Ciência Política norte-americanas, influenciadas pelas
descobertas da Psicologia behaviorista.
Os
modelos teóricos de então se preocupavam em tentar delimitar os
efeitos da exposição do público às mensagens veiculadas pela
imprensa e propaganda. É a época da teoria hipodérmica, do estímulo-resposta,
do modelo de Lasswell, da persuasão; enfim, da
busca da relação causa-efeito, os chamados estudos sobre
os Efeitos Limitados
(Wolf, 2003, p. 3-49).
Gomes
(2003) identifica este momento inicial da literatura que denomina
'comunicação política' como a fase mais remota de
estudos que se concentram na influência e efeito, notadamente
negativos, dos meios/instrumentos de comunicação entendidos como
rádio, imprensa, cinema, sobre as pessoas.
Porém,
como observou Saperas (2000), a consolidação da televisão como
nova tecnologia e meio de comunicação hegemônico nos Estados
Unidos alterou o foco das pesquisas sobre comunicação e seus
efeitos no comportamento humano.
Por volta das décadas de 1950 e 60, a televisão já
detinha “influência notória na vida política ao colaborar na
criação da imagem dos líderes políticos e sociais, assim como
dos indivíduos influentes na esfera cultural” (p. 31).
Saperas
mostra que, naquele período, a televisão
centralizou
o interesse das novas formas de investigação comunicativa, e só
a partir deste interesse a investigação sobre a dimensão
cognitiva da atividade pública dos meios de comunicação se pôde
estender aos restantes (sic) media (muito especialmente à
imprensa) (grifo do autor, p. 31)[7].
Alguns
estudos começaram a apontar o papel de destaque da televisão,
sobretudo durante as campanhas eleitorais norte-americanas de 1960
e 1968 (White, 1962; McGinnis, 1970). Hoje existe um razoável
acervo de pesquisas sobre o tema, inclusive no Brasil,
constituindo-se em uma subárea das pesquisas sobre Comunicação
e Política.
Esta
alteração apontou para uma sofisticação das teorias sobre a
influência dos meios de comunicação de massa na política e na
democracia. Na década de 70, nos Estados Unidos, novos estudos de
comunicação buscaram compreender o real papel que as tecnologias
(rádio, imprensa, televisão, cinema), enquanto construtoras autônomas
de significado e conhecimento acerca da realidade, e não mais
meros meios/veículos, podem alcançar na vida dos indivíduos,
partindo para um entendimento no plano cognitivo. Foi um passo
considerável, levando-se em conta a tradição de pesquisa
existente até então que indicava que os efeitos de determinadas
mensagens veiculadas em meios de comunicação como rádio,
imprensa e cinema eram comportamentais, limitados e de curto
prazo.
Com
a mudança do paradigma, passa-se de pesquisas sobre campanhas
(eleitorais, presidenciais ou de consumo) ou sobre a opinião pública
(com autores como Lazarsfeld), para pesquisas preocupadas em
tentar reconstruir o “processo pelo qual o indivíduo modifica a
sua própria representação da realidade social” a partir do
que é apresentado pelos e nos meios de comunicação (Noelle
Neumann citada em Wolf, 1987, p. 124).
Com
a consolidação da indústria cultural, de uma cultura e comunicação
de massa, da conexão cada vez mais estreita entre o campo da política
e o papel da comunicação nas sociedades democráticas ocidentais
(assim como a constituição, a ferro e fogo, de um campo próprio
de conhecimento da Comunicação, em que a interface com a Política
já é uma especialidade relevante), as pesquisas desta área de
confluência não puderam mais ser dedicadas a estudos pontuais de
fenômenos relacionados a determinado meio, veículo ou
instrumento. Os meios de comunicação deixaram de ser entendidos
como canais e passaram a ser vistos como potenciais construtores
de conhecimento, responsáveis pelo agendamento de temas públicos
e formadores de compreensão sobre
mundo e a política.
Importante
destacar que as pesquisas realizadas nos programas de Pós-Graduação
(mestrado e doutorado) norte-americanos consolidaram o termo mídia
ao dividirem-se em três grandes abordagens: media effects (a
partir dos estudos empíricos a que nos referimos, realizados no
início por Lippman, Lazarsfeld e outros, sob influência da
Social Science, ainda que hoje tenham sofisticado métodos e
abordagens), media audiences and culture (estudos de recepção a
partir do aproach dos Cultural Studies na década de 70) e
political economy of media/media institutions (a partir de uma
perspectiva da crítica social e da análise do papel das instituições
da mídia no processo democrático). Segundo
David
L. Swanson, professor da University of Illinois (Urbana), o campo
da Comunicação nos Estados Unidos é composto por um número
diverso de subcampos "que são conectados não só
intelectualmente mas politicamente pela organização dos
departamentos de Comunicação, a maioria deles estabelecidos logo
após o fim da Segunda Guerra Mundial".
Para
Swanson, "os subcampos vão do rádio e da televisão,
passando pelas telecomunicações e a Internet e ninguém utiliza
o mesmo mapa, pois o número de subcampos é tão grande quanto é
variado o leque de abordagens para estudá-los". Na verdade,
para os pesquisadores dos EUA, o campo da Comunicação é menos
uma disciplina do que um campo híbrido das Humanidades e das Ciências
Sociais[8],
situação que tem sido enfrentada com muito debate também no
Brasil, a despeito dos contínuos esforços dos acadêmicos de
Comunicação em desenvolver aportes teóricos que constituam o
que seriam os limites deste campo.
O
fato é que, em tempos de globalização e pós-globalização, de
convergência tecnológica do setor de comunicações (que engloba
as telecomunicações, a informática - especialmente internet -,
além do rádio, televisão e cinema), passou-se a estudar o
conjunto de meios enquanto indústria da comunicação, com suas
empresas e rotinas próprias dentro da sociedade capitalista,
detentora de linguagens, formatos, estratégicas, processos, e
agentes múltiplos que envolvem a comunicação de massa, projetam
imagens e visibilidades e a constituem um poder no mundo contemporâneo[9]
(Rubim, 2000).
É
neste sentido que muitos dos autores brasileiros de Comunicação
e Política se referem à mídia quando a utilizam, ainda que a
maioria não a defina conceitualmente em seus trabalhos e prefira
o subentendimento do significado do senso comum. Porém, a falta
de uma discussão conceitual consistente sobre o termo mídia não
impediu seu uso, pelo contrário. As mudanças históricas na
Comunicação e a sofisticação do aparato tecnológico contribuíram
para o fortalecimento do uso do termo mídia como um conceito-ônibus[10]
que pode significar,
uma ampla gama de fenômenos, acontecimentos e transformações
que envolvem a política, o jornalismo, a publicidade, o
marketing, o entretenimento, nos diferentes meios[11].
A
despeito das dificuldades, é incontestável que estudar a relação
entre a Comunicação e a Política hoje no Brasil é, em grande
parte, estudar a mídia e suas influências, a 'comunicação
mediatizada' ou a 'cultura midiática', mesmo que nem todos os
pesquisadores da área concordem[12].
A onipresença da 'comunicação mediada' ou 'comunicação
mediatizada' nas sociedades democráticas contemporâneas levou a
inúmeras reformulações teóricas sobre como a mídia, e não
mais a Comunicação - note-se -
influencia a visão de mundo das pessoas, em especial, os
processos políticos. O termo transcendeu seu significado de
extensão de 'imprensa' ou 'meios de comunicação' e alterou o
sentido que eles tiveram até então nas sociedades do século 19
e grande parte do século 20[13].
Não são somente as mensagens que importam para os
estudiosos mas como a indústria da comunicação de massa se
comporta em todas as esferas: economia, política, comportamento,
etc.
Em
levantamento realizado por Rubim e Azevedo (1998), foi possível
identificar a presença do termo mídia em seis dos sete grandes
subtemas da agenda de pesquisa sobre Comunicação e Política no
Brasil. Mídia aparece em estudos sobre 'comportamento eleitoral e
mídia', 'discursos políticos midiatizados, 'estudos produtivos
da mídia', 'ética, política e mídia', 'mídia e reconfiguração
do espaço público' e 'sociabilidade contemporânea, mídia e política'.
Inúmeros
seminários e congressos realizados na década de 90 consolidaram
os estudos sobre mídia e política com destaque para a produção
dos programas de Pós-Graduação de universidades como UnB[14],
UFBA, UFRJ, UFRGS, UFMG e PUC-SP (nesta, cabe destacar a contribuição
relevante de grupos ligados às Ciências Sociais).
Rubim
(2000) cita uma série de termos relacionados à mídia que começaram
a ser utilizados em trabalhos que buscam compreender o lugar
ocupado pela Comunicação no mundo atual, tais como 'sociedade
dos mass media' (Gianni Vattimo), 'planeta mídia' (Dênis de
Moraes) e 'idade mídia', termo cunhado por ele mesmo para definir
uma 'sociedade como estruturada e ambientada pela comunicação',
onde ocorre uma "expansão qualitativa da comunicação,
principalmente em sua modalidade mediatizada" (p.35).
Lima[15]
consegue articular uma definição mais precisa do que mídia
significa hoje nos estudos a que nos referimos e esclarece um
pouco mais a íntima conexão entre comunicação e mídia.
Segundo ele, mídia pode ser entendida como
o
conjunto de instituições que utiliza tecnologias específicas
para realizar a comunicação humana. Vale dizer que a mídia
implica na existência de um intermediário tecnológico para que
a comunicação se realize. A comunicação passa, portanto, a ser
uma comunicação mediatizada. Este é um tipo específico de
comunicação que aparece tardiamente na história da humanidade e
se constitui em um dos importantes símbolos da modernidade. Duas
características da mídia são a sua unidirecionalidade e a produção
centralizada e padronizada de conteúdos. Concretamente, quando
falamos da mídia, estamos nos referindo ao conjunto das emissoras
de rádio e de televisão (aberta e paga), de jornais e de
revistas, do cinema e das outras diversas instituições que
utilizam recursos tecnológicos na chamada comunicação de massa
(2003) (grifo nosso).
Como
lembra Lima (2001), ao explicar a importância de se estudar questões
da economia política da comunicação como concentração da
propriedade e controle das comunicações no Brasil,
a
maioria das sociedades contemporâneas pode ser considerada como
centrada na mídia (media centered), vale dizer, são sociedades
que dependem da mídia – mais do que da família, da escola, das
igrejas, dos sindicatos, dos partidos etc. – para a construção
do conhecimento público que possibilita, a cada um dos seus
membros, a tomada cotidiana de decisões, políticas inclusive
(grifo do autor) (p.113).
Atualmente,
os estudos de Comunicação e Política reconhecem a crescente
"centralidade da mídia". E, para além do poder simbólico[16],
está se falando de poder político e econômico que a mídia
incorporou ao tornar-se elemento
fundamental da engrenagem da globalização econômica e
cultural e como o setor mais dinâmico da economia
internacionalizada" (idem).
Tal
reconhecimento se reflete, por exemplo, nos estudos sobre
jornalismo. Ainda que mídia e jornalismo sejam diferentes, como
nos apontou Traquina (2001), estão intrinsecamente ligados.
Parece, no mínimo, arriscado tentar entender o jornalismo sem
compreender o lugar da mídia no mundo. É exatamente a constatação
de seu crescente poder nas sociedades ocidentais que levou mais e
mais pesquisadores a se debruçaram em estudos sobre o jornalismo
nos últimos anos (p. 58)[17], com pesquisas sobre agendamento, enquadramento,
rotinas de produção, gatekeepers, critérios de noticiabilidade,
entre outras.
Do
ponto de vista da Comunicação, em especial das pesquisas sobre
Comunicação e Política e Mídia e Política, independentemente
da forma como se realiza uma possível intervenção da mídia no
comportamento das pessoas, o mais importante é compreender quais
conseqüências podem advir da influência da mídia na
‘organização’ do mundo da política para sua audiência.
Portanto,
apesar de ser caracterizado como um conceito-ônibus, o termo mídia
é essencial para a produção acadêmica da Comunicação. Porém,
como vimos, as pesquisas da Comunicação historicamente se
utilizam do termo mídia quase como senso comum, sem a preocupação
de delimitar as diferentes possibilidades de seu alcance.
De
outro lado, a pesquisa acadêmica em Ciência Política praticada
no país, com algumas honrosas exceções, prima pela ausência de
reflexão sistemática e reconhecimento da importância da mídia.
É o que veremos a seguir.
3.
A Mídia sob os olhos da Ciência Política
Em
um simples mapeamento dos programas de Pós-Graduação em Ciência
Política no Brasil, verificamos que dos nove atualmente em
funcionamento, apenas três contemplam de forma sistemática a mídia
como objeto em algumas de suas linhas de pesquisa. As exceções são
o programa de Pós-Graduação da UnB,[18]
o Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP)[19]
da PUC-SP, e o IUPERJ (este com um grande e bem organizado banco
de dados sobre os estudos de mídia e política no Brasil,
independente de sua origem ou campo de conhecimento)[20].
De
maneira geral, as pesquisas oriundas da Ciência Política
tangenciam a questão da mídia ao investigar temas como opinião
política, opinião pública, comportamento eleitoral/escolhas políticas
e cultura política. Sem corrermos o risco de simplificarmos a questão, pode-se
dizer que a mídia não é alvo da curiosidade científica na
tradição da Ciência Política, pois o cabedal teórico
sedimentado ao longo dos anos na constituição de seus modelos
investigativos foi desenvolvido, em grande parte, em período pré-mídia
(Miguel, 2002) .
Estudar
a política, para os cientistas políticos, ainda é estudar as
categorias tradicionais como Estado, governo, partidos políticos.
É fato que a partir da década de 90 ganharam força as chamadas
'novas institucionalidades', que trouxeram à luz questões
relacionadas a movimentos sociais, terceiro setor e gênero. Mesmo
assim, a problemática envolvendo a mídia, com toda a premência
que exige - vide os exemplos emblemáticos de sua influência nas
eleições presidenciais de 89, 94, 98 e 2002 -
ainda é ignorada em grande parte dos textos acadêmicos.
Quando a mídia é mencionada, em geral, é reduzida à função
de transmissora, disseminadora, instrumento, fonte, canal de
informações sobre a política.
Um
exemplo recente é o estudo sobre capital social e socialização
política dos jovens brasileiros feito por Schmidt (2003). Ao
analisar os níveis de confiança social dos jovens brasileiros
nas instituições políticas, em nenhum momento é citada a mídia
como variável no cálculo da participação socio-política e na
formação de uma cultura política híbrida, ainda que o baixo nível
de confiança nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário
tenha sido atribuído à ineficácia de tais poderes em responder
às denúncias de corrupção e ao tratamento negativo dado pela mídia
(p.129).
Porto
(1997) situa a ausência da mídia nos estudos sobre comportamento
eleitoral, por exemplo, como decorrente do paradigma da escolha
racional nas Ciências Sociais, e particularmente, na Ciência Política.
Ele reconhece que as formas pelas quais a mídia se relaciona com
a sociedade são difíceis de serem avaliadas e, por isso, a
literatura acadêmica - a despeito da percepção generalizada das
enormes conseqüências que a mídia pode causar nos fenômenos
políticos - não consegue sustentar teses compatíveis com este
impacto. Porto atribui esta dificuldade à tradição da teoria da
escolha racional, que não reconhece
o devido valor das emoções no comportamento político nem
as complexidades dos processos cognitivos.
Porto
também cita vários autores que tentaram delimitar o papel dos
meios de comunicação em períodos determinados como as eleições
e que, inclusive por problemas metodológicos, chegaram à conclusão
de que os meios eram apenas transmissores de informações
objetivas sobre a política.
Miguel
(2002) lembra que já em 1920, Walter Lippmann 'lamentava o fato
de que a ciência política é ensinada nas faculdades como se os
jornais não existissem'. "Oitenta anos depois, continua ele,
é possível dizer que a ciência política já reconhece a existência
do jornal, bem como do rádio, da televisão e até da
internet", mas não vê importância neles.
Falar
da influência da mídia, para alguns cientistas políticos, é em
certo sentido falar de seu efeito nocivo para o processo político
e para instituições políticas tradicionais, como o
enfraquecimento dos partidos. O cientista político italiano
Sartori teve o mérito de chamar a atenção para o papel que os
meios de comunicação, particularmente a televisão,
desempenhavam no processo político democrático. Ele chegou a
afirmar que as notícias, por exemplo, não se limitam a
transmitir informações:
a
maior parte das notícias e reportagens do vídeo não mentem, ou
não têm a intenção de mentir; no entanto, a televisão em si,
enquanto técnica, faz muitas coisas que, combinadas, implicam que
aquilo que é mostrado é muitas vezes uma meia verdade ou algo
inteiramente falso (1994 in Porto, 1997, p. 51).
Sartori
(1989), aliás, identificou, com certa suspeição, a transformação
pela qual a política estava passando com a crescente importância
da televisão. Ele chamou de 'videopolítica' o fenômeno na qual
a televisão estava englobando a política e transformando-se em
um videopoder.
Em
um estudo pioneiro e que traz esperança para uma mudança deste
quadro, Aldé (2004) mostra como 'as situações de comunicação
em que encontramos os indivíduos, em sua relação com a mídia,
influem em suas respectivas atitudes políticas' (p. 14).
A autora tenta mapear como a política é entendida pelo
cidadão comum a partir de sua relação com a mídia; para ela,
os meios de comunicação de massa se oferecem como uma estrada
sinalizada, propondo uma organização autorizada dos eventos
(p.17).
Um
reconhecimento importante desta relação é feito por Figueiredo,
quando diz que a
televisão e o rádio são meios de acesso à política cotidiana
contemporânea onde o cidadão comum participa. Nessa convivência
com o mundo público, ele encontra o repertório de exemplos do
fazer diário e de seus resultados, que constituem os principais
'mecanismos de construção da política (in Aldé, 2004, p. 12).
Independente
das razões das dificuldades dos cientistas políticos em tratar
da mídia e suas influências, a ausência da discussão implica
na também ausência de uma conceituação consistente para o
termo. Nos trabalhos citados até aqui, mídia significa
simplesmente conjunto dos meios de comunicação de massa, e
principalmente, a televisão.
Também
cumpre salientar que dos autores brasileiros de trabalhos de Ciência Política mencionados (Lima, Schmidt, Miguel,
Porto, Aldé, Figueiredo), três
tem formação original nas Ciências Sociais e na Ciência Política.
Porto, Miguel e Aldé têm formação de jornalistas e é deste
ponto de vista inicial que partiram suas investigações[21].
4.
Considerações Finais
Vimos
neste trabalho que, do ponto de vista da Comunicação, os estudos
sobre Mídia e Política constituem-se em uma subtemática ampla e
multidisciplinar, na qual a mídia (e sua influência sobre os
processos políticos) é o cerne das investigações. A
centralidade da mídia no mundo contemporâneo, seu papel de locus
importante de realização da política, e sua capacidade de
representar a realidade - constituí-la e ao mesmo tempo refletí-la
-, contribuindo para a formação de uma determinada visão de
mundo dos indivíduos e não somente informando sobre os fatos da
política para a construção de uma 'opinião pública', como
salienta Lima em vários textos (2001), é consenso entre os
pesquisadores do campo.
Porém,
também procuramos mostrar, que a despeito de sua importância
crucial, o conceito de mídia utilizado nestas pesquisas ainda é
caracterizado por múltiplos significados, constituindo-se em um
conceito-ônibus, que carrega sentidos ligados ao passado de mero
instrumento, canal ou meio de comunicação, insuficientes para se
compreender as complexidades de seu lugar de indústria e instituição
no mundo contemporâneo.
Por
outro lado, procuramos demonstrar que a mídia e suas influências
ainda não fazem parte das principais preocupações da Ciência
Política brasileira. Os cientistas políticos resistem em
utilizar a mídia como categoria importante em suas análises, em
parte por dificuldades teóricas, em parte por problemas de ajuste
à metodologia tradicional e desconhecem as implicações que o
conceito remete.
Esperamos,
porém, que o 'movimento' das novas institucionalidades, que
abriram caminho para investigações sobre movimentos sociais, de
gênero e etc. impulsionem os estudos também sobre a mídia no
processo político brasileiro e contribuam para uma inter-relação
mais produtiva com a Comunicação. Pesquisas como a de Aldé
indicam uma renovada esperança neste sentido.
5.
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Jornalismo do Instituto de Educação Superior de Brasília
(IESB), mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília
(UnB) e jornalista formada também pela UnB.
E-mail: lizianeg@uol.com.br.
[2]
Não é nossa intenção abordar os possíveis significados técnicos
no contexto das atividades de
Publicidade. Para isso, ver Tahara, 1998. Tampouco
contemplaremos reflexões sobre 'midiologia',' midiosfera'
(Debray, 1993), entre
outras propostas nesta linha.
[3]
Cf. Rubim e Azevedo, 1998.
[4]
Inter-relação que está na gênese dos estudos de Comunicação
nos EUA com a
famosa Escola de Chicago no inicio do século XX. Ainda hoje
é característica que
torna complexa a tarefa de constituição da Comunicação
como campo de conhecimento autônomo. Na Europa, ao contrário,
a Comunicação está ligada à tradição da Sociologia do
Conhecimento (Merton, 1949/1970).
[5]
Ver Rubim e Azevedo, 1998.
Gomes
(2003), ao tratar das transformações da política e do papel
dos meios de comunicação neste processo, afirma criticamente
que "a expressão mass media se monta (...) a partir de
uma concepção que não vê nessas formas da indústria da
cultura e da informação outra coisa a não ser os
dispositivos de emissão e a capacidade de difundir conteúdos
e mensagens para audiências massivas" (p.5).
Ele se utiliza do termo media para se referir ao conjunto de
meios de comunicação de massa. Autores que se filiam à
tradição francesa geralmente
mantêm a grafia latina.
Cf.
The Real Guide to Grad School, Robert E. Clark e John
Palattella (eds.), ed. LinguaFranca,
1997, cap. 21; tradução adaptada.
Na teoria norte-americana e liberal sobre jornalismo, o jornalismo praticado pela mídia seria o 'Quarto poder', o
cão de guarda fiscalizador dos poderes constituídos nas
democracias que exerce sua função em nome do 'interesse público
e como um fórum público'. Atualmente se discute o que
poderia ser chamado de 'Quinto poder': quem fiscaliza os
jornalistas e a mídia? (Cf. Ramonet, 2003)
Parodiando Bourdieu (1997), que se referiu aos fatos-ônibus
(omnibus no sentido de 'para todo mundo') apresentados na
televisão que 'formam consenso, que interessam a todo mundo,
mas de um modo tal que não tocam em nada importante' (p. 23).
[11]
A
isso se explica, em parte, a dificuldade em analisar o uso do
conceito a partir de um corte de conteúdo (ex.: mídia e política),
sendo necessário incorporar outras variáveis (no jornalismo,
no marketing, na publicidade; a partir da televisão, do rádio,
da internet; sob a ótica teórica dos efeitos, da recepção,
dos estudos culturais, da produção, do discurso, etc).
[12]
Mesmo ainda incipientes no Brasil, os estudos sobre Comunicação
e Política já nasceram divididos por inúmeras correntes teóricas
que constituem o campo da Comunicação. Certas vertentes
preferem nomear a área como Comunicação Política, e
desconsideram ou minimizam a importância de trabalhos que
estudam a mídia enquanto indústria ou instituição,
notadamente os estudos sobre Economia Política da Comunicação,
ao menos na perspectiva adotada aqui.
[13]
Já em 1910, Max Weber apresentou projeto de pesquisa no
Primeiro Congresso de Sociologia em Frankfurt dedicado a
investigar o poder da imprensa de tornar públicos
determinados temas e questões. Weber preocupava-se,
sobretudo, em compreender como uma empresa capitalista e
privada ocupava a posição de 'moldar a opinião pública'.
Seu objetivo, nunca realizado, era de investigar quais são as
conseqüências do fato de que o homem moderno tenha se
acostumado, antes de iniciar seu trabalho diário, a
alimentar-se com um cozido que lhe impõe uma espécie de caça
sobre todos os campos da vida cultural, começando pela política
e terminando com o teatro (...)" (in Lua Nova, n. 55-56,
2002). Ainda sobre este tópico, Gomes (2003) propõe entender
a relação entre política e comunicação a partir de três
diferentes modelos: o primeiro, onde a comunicação existiria
como imprensa e cumpriria função de discussão pública,
representando os interesses da sociedade civil e revelando os
'segredos da decisão política'; o segundo diria respeito ao
momento em que a burguesia assume o 'Estado e as esferas de
decisão política', quando 'os órgãos de imprensa
acompanham os grupos e partidos que se distribuem no espectro
político', porém, dotados de meios tecnológicos para produção
e emissão de mensagens. O terceiro momento seria o da
constituição da indústria da informação, da cultura e do
entretenimento, em que os meios não são mais meros
instrumentos ou dispositivos, mas indústrias. (p.3-9)
[14]
Em especial, o GT de Mídia e Política, então situado no
Departamento de Ciência Política, mais tarde transformado em
Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política - NEMP, localizado
no Centro de Estudos Multidisciplinares da UnB.
[15]
De formação original na
Sociologia, Lima caracteriza-se como um pesquisador 'híbrido'
com publicações tanto na Comunicação quanto na Ciência
Política.
Principalmente, seu poder de "construção da realidade
por meio da representação que faz dos diferentes aspectos da
vida humana" (Lima, 2001, p. 113).
[17]
Preocupados, sobretudo, com a questão da 'distorção' na
informação.
Ao qual, como já salientamos, o GT de Mídia e Política
fazia parte até 1997, quando se transformou em Núcleo.
[19]
Vinculado ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências
Sociais (que inclui a Ciência Política).
[20]
Algumas iniciativas têm sido feitas na Pós-Graduação em Ciência
Política da UFRGS. Um exemplo é a dissertação de mestrado
"Cenários de Representação: Mídia e Política nas
eleições municipais em Porto Alegre (2000), de Morgana
Camargo Foutoura. Saliente-se
também o papel da revista Lua Nova, ligada ao Centro de
Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), que tem publicado
textos sobre mídia e política.
[21]
Lima foi fundador do NEMP-UnB, Porto é seu atual coordenador
e Miguel teve uma passagem breve. Aldé é doutora pelo
IUPERJ, assim como Figueiredo.
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