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ESPETÁCULO,
CULTURA E IDADE MÍDIA
Antonio
Albino Canelas Rubim *
A
caracterização da sociabilidade contemporânea tem
demandado complexos e multifacetados esforços de reflexão,
que apresentam muitas discrepâncias, mas, simultaneamente,
contém algumas convergências, dentre elas o reconhecimento
do significativo lugar ocupado pela comunicação e pela
informação na conformação da sociedade capitalista
contemporânea (Rubim, 2001). Tal caráter comunicacional ou
informacional tem sido associado a outras marcas, também
consideradas como constitutivas da contemporaneidade. Noções
como espetáculo e sociedade do espetáculo têm sido
utilizadas de modo recorrente por inúmeros autores para
nomear, decifrar e, muitas vezes, acusar o mundo atual. Este
texto busca desenvolver uma reflexão acerca de tais noções
em sua relação essencial com a cultura e a sociedade
contemporâneas, estruturadas em rede (Castells, 1996) e
ambientada pela comunicação, em uma situação de Idade Mídia
(Rubim, 2000 e 2001).
A
reflexão empreendida por Guy Debord, em seus livros La société
du spectacle (1967) e Commentaires sur la société du
spectacle (1988), sem dúvida, ocupa lugar de destaque. O
caráter inaugural do livro de 1967, seu impacto na época e
o renovado interesse pela obra de Debord e da Internacional
Situacionista na atualidade, de imediato, apontam a importância
desse autor como inaugurador de uma reflexão sobre o espetáculo,
realizada em sintonia fina com a contemporaneidade.
Ainda
que, em um livro, escrito ao estilo manifesto, seja difícil
exigir e buscar um conceito rigoroso e nitidamente formulado
de espetáculo, dois eixos interpretativos ganham destaque e
podem servir de âncora para compreender a concepção de
espetáculo, conforme a construção teórica de Debord.
Um
desses eixos aponta o espetáculo como expressão de uma
situação histórica em que a “mercadoria ocupou
totalmente a vida social” (Debord, 1997, p.30). Espetáculo,
mercadoria e capitalismo estão umbilicalmente associados.
Desse modo, a sociedade do espetáculo pode ser interpretada
como conformação avançada do capitalismo, como a etapa
contemporânea da sociedade capitalista. Guardadas
peculiaridades e diferenças, a elaboração de Guy Debord
pode ser aproximada, como muita probabilidade, àquela
trabalhada por alguns autores contemporâneos que pensam a
sociedade atual como a modalidade contemporânea do
capitalismo, marcada pela intensa presença e convergência
da comunicação, da informação, das telecomunicações,
da informática e pela aceitação de que elas tornaram-se
as mercadorias diferenciais, as zonas privilegiadas de
acumulação e os setores de ponta do desenvolvimento científico
e tecnológico dessa etapa do capitalismo.
O
outro eixo interpretativo, que interessa sobremodo à
escritura deste texto, a anunciada separação entre real e
representação. Tal cisão, consumada na contemporaneidade,
inaugura a possibilidade da sociedade do espetáculo. Nela,
as imagens passam a ter lugar privilegiado no âmbito das
representações. Nas palavras de Debord: “O espetáculo,
como tendência a fazer ver (por diferentes mediações
especializadas) o mundo que já não se pode tocar
diretamente, serve-se da visão como sentido privilegiado da
pessoa humana” (Debord, 1997, p.18). Entretanto, “o
espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação
social entre pessoas, mediada por imagens” (Debord, 1997,
p.14). A emergência de uma sociedade do espetáculo depende
assim desta “separação consumada”, mas requer uma
outra condição: a autonomização da representação
frente ao real. Com diz o autor: “Sempre que haja
representação independente, o espetáculo se
reconstitui” (Debord, 1997, p.18).
A
perspicácia das formulações, tornando-as capazes, em
afinidade eletiva, de vislumbrar atentamente os movimentos
do contemporâneo, sem dúvida, se constitui em um dos
pontos de destaque da obra de Guy Debord e reafirma a
atualidade de suas reflexões. Isto não pode significar, no
entanto, a aceitação integral, sem mais, de sua elaboração
teórica. Além da flutuação conceitual, natural em uma
obra-manifesto, a construção de Debord encontra-se
prejudicada, pois atribui ao espetáculo, como dispositivo
imanente, uma conotação sempre negativa.
Tal
visão prejudicada decorre de dois movimentos. O primeiro
diz respeito à redução do espetáculo a um determinismo
econômico, intrinsecamente mercantil e capitalista, que
interdita ao espetáculo qualquer outra alternativa de
realização – social, econômica e/ou ideológica –
fora de uma dinâmica capitalista e suprime até mesmo, no
limite, a perspectiva da existência de contradições em
seu processo de produção. O espetáculo, assim, seria
sempre prisioneiro do capital, nunca poderia se produzir em
suas zonas de fronteiras, fora de seus contornos ou em
manifesto antagonismo contra ele. O espetáculo de tal modo
estaria comprometido com a forma mercadoria e a ideologia
burguesa, que teria interditada qualquer possibilidade
libertadora.
O
segundo movimento está fundado em uma contraposição
questionável entre real e representação. Apesar de, em
certos instantes de sua exposição, Debord assinalar que
“a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é
real” (Debord, 1997, p.15), a composição majoritária do
texto e a interpretação prevalecente, inclusive para o
trecho antes citado, constroem-se com base em um problemático
confronto entre real - tomado em conotação positiva,
porque assegurando uma relação “direta” com o mundo -
e espetáculo, marcado por um viés pronunciadamente
negativo, porque representação que implica em uma relação
mediada, “não direta”, com o real. A valoração,
sempre positiva, da pretensa relação “direta” com o
real e a desvalorização constante da mediação, em uma
contemporaneidade marcada exatamente pela complexidade e
profusão de mediações, de antemão, fragilizam
enormemente uma reflexão que pretende pensar, de maneira crítica,
a atualidade.
Debord
vai adiante nessa trajetória e chega até a assinalar:
“As imagens que se destacam de cada aspecto da vida
fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma
vida já não pode ser restabelecida. A realidade
considerada parcialmente apresenta-se em sua própria
unidade geral como um pseudomundo à parte, objeto de mera
contemplação” (Debord, 1997, p.13). O estatuto de
“pseudomundo à parte” certamente não se configura como
o mais adequado para uma elucidação satisfatória do espetáculo,
nem do mundo contemporâneo. A noção de “pseudo-events”
de Daniel Boorstin parece ressoar fortemente aqui (Boorstin,
1987).
Emergem,
de imediato, vários problemas nessas formulações. Um:
pensar a representação como se ela não fosse uma parte
indissociável e construtora da realidade na contramão de
parcela razoável do pensamento contemporâneo (Bourdieu,
1989). Dois: conceber a representação como tendo um
estatuto de realidade inferior ao (restante do) real, posto
que ele estaria fundado na contigüidade presencial, tomada
como modalidade privilegiada de relacionamento para a
construção incisiva da realidade. Três: supor a
possibilidade de um acesso ao real sem o recurso obrigatório
de mediações, inclusive das representações.
Na
contramão das concepções deborianas, hoje parece
assentado teoricamente que não existe a possibilidade de
uma relação direta, não mediada, com realidade; que a
representação não só faz parte da realidade, como
aparece como dispositivo imprescindível de sua construção
social e que o estatuto de realidade da representação nada
fica a dever àquele atribuído ao restante da realidade,
aliás, só possibilitada através do recurso às mediações.
Outra limitação inscrita nas teses de Debord aparece na
insustentável assimilação entre espetáculo e
capitalismo. A
rigor, pode-se afirmar, sem medo de errar, o espetáculo
como um momento e um movimento imanentes a toda a vida
societária, de maneira similar às encenações, ritos,
rituais, imaginários, representações, papéis, máscaras
sociais etc. Portanto, o espetáculo deve ser compreendido
como inerente a todas sociedades humanas e, por conseguinte,
presente em praticamente todas as suas instâncias
organizativas e práticas sociais.
Tomando
em consideração tais premissas, pode-se revisitar a
sociedade do espetáculo, apontando suas limitações e
desenvolvendo algumas de suas intuições, mesmo em rota de
colisão como suas premissas e seus horizontes valorativos.
A
idéia da autonomização das representações como condição
da sociedade do espetáculo, demonstra, simultaneamente, a
perspicácia e abertura do autor ao novo que conforma o
contemporâneo, e os limites contidos em sua formulação teórica.
Considerar a autonomização das representações como um
processo imanentemente condenado, ao consolidar a cisão da
totalidade social em real e representação, termina por
obscurecer tal percepção, pois não a deixa entrever os
potenciais contraditórios, configurados pela autonomização
das representações. A superação de tais deficiências
exige que a temática seja reinterpretada em outra constelação
teórica.
Em
outro horizonte, a cisão e a autonomização das representações
poderiam anunciar e colocar em cena a questão da mediação
e midiatização crescentes da relação do homem como o
mundo e, mais que isso, demonstrar uma abertura à
atualidade e introduzir uma das problemáticas mais radicais
da contemporaneidade: a descoberta e a emergência de um
novo mundo, midiatizado.
No
rastro do pensamento original de Debord, mas sem a mesma
envergadura teórico-conceitual e imaginativa, o livro de
Roger-Gérard Schwartzenberg, L’État Spectacle (1977)
acolhe o poder político e a política no âmbito da discussão
do espetáculo no contemporâneo. Para ele, “Hoje em dia,
o espetáculo está no poder. Não mais apenas na sociedade.
De tão enorme que foi o avanço do mal. Hoje, nossas
conjecturas já não têm como único objeto as relações
do espetáculo e da sociedade em geral. Como as tecia Guy
Debord em 1967. Agora é a superestrutura da sociedade, é o
próprio Estado que se transforma em empresa teatral, em
‘Estado espetáculo” (Schwartzenberg, 1978, p.1).
Para ele, enfim, o Estado se transforma em
“produtor” de espetáculos e a política se faz
“encenação”.
O
livro de Schwartzenberg constrói-se, em razoável medida,
através de uma pretensa e até exaustiva descrição de inúmeros
fenômenos através dos quais aparentemente a “mediapolítica”
se mostra. Esta descrição vem acompanhada de uma “análise
comparativa” entre esse conjunto de fenômenos e o
funcionamento anterior da política, tomado quase sempre de
modo idealizado. Já na primeira frase do livro este
construto fica evidente: “A política, outrora, era de idéias.
Hoje, é (sic) pessoas. Ou melhor, personagens”. Apesar da
fragilidade teórica demonstrada pela incapacidade de
transpor o mundo das aparências, a potente descrição
realizada e caráter também inaugurador do livro, ao
associar espetáculo e política, asseguraram ao trabalho de
Schawrtzenberg significativo impacto e vigência sociais.
Depois
desse percurso, da visitação de alguns dos autores
fundadores da problemática e da enunciação de um conjunto
de premissas, parece possível avançar na elucidação de
conceitos de espetáculo e espetacularização, que possam
apresentar um potencial analítico e que superem uma
assimilação meramente valorativa das noções. A aproximação
valorativa pode percorrer um largo e ambíguo espectro,
desde uma significação negativa, quando os termos estão
associados a uma ênfase na forma em detrimento do conteúdo,
ao desvirtuamento pelo acionamento de expedientes externos
ao campo e ao predomínio de lógicas produtivas
formalistas, até a um teor positivo, quando o espetacular
situa-se no horizonte do admirável. A superação desse caráter
umbilicalmente valorativo apresenta-se como essencial para a
construção de um conceito com um bom nível de consistência
e valor, agora sim, operativo.
POR
UM CONCEITO DE ESPETÁCULO
Indo
às origens, busca-se traçar um mapa de sentidos e acionamentos que
constituem o conceito. Spetaculum, raiz semântica (latina) de espetáculo,
tem como significado tudo que atraí e prende o olhar e a atenção.
Recorrendo ao dicionário, três outras acepções de sentido podem
ser enumeradas: representação teatral; exibição esportiva, artística
etc e cena ridícula ou escândalo. De qualquer modo, todas elas
implicam em uma visão atenta a uma circunstância, em uma relação
entre espectador e evento, que chama a atenção e prende o olhar. Em
todos os casos, a interação evento-espectador se afirma e o sentido
do olhar comparece com prioritária menção.
Jesus
Requena faz uma preciosa investigação do uso e da participação dos
sentidos na construção do espetáculo. Conforme esse autor, o gosto,
o olfato e o tato possuem um vínculo estreito com territorialidade e
intimidade, inviabilizando a necessária distância e o estranhamento
requisitado como constitutivos da possibilidade do espetáculo. Já a
audição peca pelo excesso de distanciamento. A mera utilização do
ouvido apenas garante uma possibilidade de intuir a existência de um
espetáculo que se realiza ao longe. Somente em associação como o
olhar, o ouvido permite acesso ao espetacular. A visão, pelo contrário,
afirma-se como o sentido condutor, por excelência, do espetáculo.
“O olhar se nos apresenta então, em todos os casos, como o sentido
rei, como aquele sobre o qual o sujeito de constitui em espectador”
(Requena, 1988, p.57).
Esse
corpo que chama a atenção conforma-se como um ato, um evento social
e, excepcionalmente, natural. Mas de uma natureza carregada de sentido
e memória culturais, como, por exemplo, um pôr-do-sol, chamado de
“espetacular”. Mas a esse objeto exibido exige-se movimento,
trabalho que prenda o olhar do espectador e institua a relação
espetacular. Tal interação processa-se através de uma “dialéctica”
de sedução e desejo. Jesus Requena, por exemplo, observa: “Um
olhar, uma distância, um corpo que se exibe afirmado como imagem que
fascina. Tem-se aqui, então, os elementos necessários para uma situação
de sedução. Pois o que pretende o corpo que se exibe é seduzir,
isto é, atrair – apropria-se – do olhar desejante do outro”
(Requena, 1998, p.59). Desse modo, o espetáculo instala uma relação
de poder. E o poder, muitas vezes, afirma-se como e através da produção
de espetáculos.
O
caráter necessariamente público desse ato deve ser reivindicado de
imediato. Para chamar a atenção e prender o olhar, o evento visa
fisgar pessoas e para isso deve realizar-se publicamente. Mais que
isto, a magnitude reivindicada e, muitas vezes, alcançada pelo evento
espetacular requer a sua localização em um lugar, geográfico ou
virtual, necessariamente público.
O
espetáculo remete também à esfera do sensacional, do surpreendente,
do excepcional, do extraordinário. Daquilo que se contrapõe e supera
o ordinário, o dia-a-dia, o naturalizado. A instalação no âmbito
do extraordinário potencializa a atenção e o caráter público do
ato ou evento espetacular. A ruptura com a vida ordinária, condição
de existência do espetáculo, pode ser produzida pelo acionamento de
inúmeros expedientes, em geral, de modo intencional, mas, em alguns
horizontes, até mesmo de maneira não prevista.
A
produção do extraordinário acontece, quase sempre, pelo acionamento
do maravilhoso (Carpentier, 1987), de um grandioso que encanta, que
atraí e que seduz os sentidos e o público. Esse “maravilhamento”
produz-se pelo exarcebamento de dimensões constitutivas do ato ou
evento, da dramaticidade de sua trama e de seu enredo, através de
apelos e dispositivos plástico-estéticos, especialmente os relativos
ao registro da visão, mas também aos sonoros, em menor grau. A
plasticidade visual, componente essencial, e a sonoridade tornam-se
vitais: os movimentos, os gestos, os corpos, as expressões corporais
e faciais, o vestuário, os cenários, a sonoridade, as palavras, as
pronuncias, as performances; enfim, todo esse conjunto de elementos e
outros não enunciados têm relevante incidência na atração da atenção,
na realização do caráter público e na produção das simbologias e
dos sentidos pretendidos com o espetáculo.
Recorrer
a esse conjunto de dispositivos plástico-estéticos em movimento
potencializa a dramaticidade, a teatralidade e a encenação contidas
no evento espetacular. Daí a ênfase que alguns autores dão ao caráter
dramático, teatral e de encenação do espetáculo. Mas o
reconhecimento disso não pode fazer esquecer que a vida não
midiatizada também possui suas modalidades específicas de encenação
e que a dramaticidade e a teatralidade também estão umbilicalmente
presentes na convivência, como componentes imprescindíveis à existência
da sociedade.
O
recurso a todo esse conjunto de estoques e fluxos instala o espetáculo
em uma pertença nitidamente cultural, da qual depende para a definição
mesma do que se vive e se apresenta como espetacular em sociedades
determinadas. Sérgio Caletti assinala a relativização societária
da percepção do caráter espetacular. Esse autor anota: “Cada
marco sócio-cultural definirá o que é e o que não é, embaixo de
certas circunstâncias, denominável de espetáculo, assim como também
cristaliza gêneros, formatos, lógicas, suportes, regimes de
visibilidade (ad-mirativos) a partir dos quais se geram
deliberadamente séries de ‘produtos culturais’ de acordo com que
sejam, precisamente, seus parâmetros do espetacular” (Caletti,
2000, p.71).
O
acionamento do grandioso, a exacerbação de dimensões constitutivas,
o envolvimento de múltiplos apelos e dispositivos, o trabalho em
diversos registros, o caráter público, todo esse complexo conjunto
de fatores exige organização. A ruptura da vida ordinária propicia
não uma situação de caos, de ausência completa de normas sociais,
mas a suspensão temporária da vigência das regras cotidianas. Um
outro conjunto de normas produtivas, agora condizentes com o momento
extraordinário, impõe-se como necessidade. Mais que isso, a ruptura
com o cotidiano e seu saber de senso comum faz aflorar a exigência de
um saber e um conjunto especializado de técnicas para lidar com a
construção social do momento excepcional.
Não
por acaso, a “sociedade do espetáculo” apresenta forte tendência
à emergência de organizadores da cultura e de espetáculos, em seus
variados tipos, crescentemente profissionalizados. O surgimento dos
profissionais de criação, de transmissão e difusão, de preservação
e de “produção ou promoção cultural” apenas reafirma essa tendência.
Ela reforça uma outra vertente pronunciada dos espetáculos contemporâneos:
a tendência a uma distinção cada vez mais impositiva entre
protagonistas e platéia, impossibilitando uma participação plena
dos espectadores como, simultaneamente, atores e público, permitida
em alguns dos tipos de espetáculos, como se verá adiante.
A
envergadura do evento ou ato espetacular e seu caráter
obrigatoriamente público implicam igualmente, por tudo isso, em um
potente impacto social, com repercussões societárias tendencialmente
amplas. Mas esse impacto acontece com base em uma modalidade específica
de fruição social do espetáculo. Ela não implica em “perda de
intensidade, desatenção, leviandade”, mas apenas em “uma forma
diferente de viver” o ambiente sócio-cultural (Eco, 1984, p.217).
Enumeradas
os dispositivos que devem ser requisitadas para nomear algo como espetáculo,
cabe apontar uma tipologia que tenta dar conta de uma classificação
dos diferenciados tipos comportados na noção de espetáculo.
Jesus
Requena traça sua tipologia tomando como eixo de diferenciação o
lugar do olhar e do espectador que o sustenta em relação ao objeto.
O autor enuncia quatro modelos de espetáculos: o carnavalesco, o
circense, o da cena italiana e o da cena fantasma. O carnavalesco se
caracteriza, em sua possibilidade extrema, por uma cena aberta,
indefinida, na qual o sujeito que olha e o corpo que se exibe
constantemente se movem, intercambiando de modo contínuo os lugares
que ocupam e os ângulos de visão possíveis. Como exemplos desse
modelo, podem ser citados: as festas populares e os carnavais em que
os participantes não estejam plenamente distinguidos em espectadores
e em protagonistas.
Os
outros tipos de espetáculo já implicam, em menor ou maior graus, na
ruptura com essa simetria e como a reversibilidade dos lugares
ocupados pelo olhar e pelo objeto. Gravada no espaço, a distinção
demarca o lugar da cena e as posições determinadas para o olhar,
extrínsecas à cena, com variações notáveis nos três modelos
descritos a seguir.
No
tipo circense, a cena ocupa o centro e os espectadores, agora mais
afeitos a essa condição, ainda se dispõem de modo relativamente
arbitrário, pois a única (de)limitação essencial a esse modelo
decorre da centralidade da cena e de sua distinção espaço-cultural.
Em geral, os espectadores colocam-se em forma circular ou elíptica. O
circo romano, os hipódromos, os estádios de futebol e de outros
esportes, os torneios medievais, as execuções públicas, as corridas
de automóvel, as lutas de boxe etc inscrevem-se nesse modelo. Os
desfiles e cortejos aparecem como uma variante da desta tipologia,
pois se os espectadores podem se tornar itinerantes em sua disposição
retilínea, nem por isso deixam de obedecer aos parâmetros que
conformam esse tipo de espetáculo: o fechamento da cena, a assimetria
e a irreversibilidade dos papéis de espectador e protagonista, a
excentricidade e relativa arbitrariedade da posição do público.
O
modelo da cena italiana radicaliza ainda mais essas características
na produção do espaço e do evento espetaculares. Agora a cena se
dispõe em termos perspectivistas, pois seu espaço especializado, o
palco, passa a ser construído em função de um centro óptico
exterior, definido pelo lugar ocupado pelo espectador na platéia.
Assim o espectador ocupa um lugar privilegiado para olhar o
evento-espetáculo, sendo reconhecido seu direito a um domínio visual
o mais pleno possível do espetáculo. O divórcio entre (esse tipo
de) espetáculo e rua torna-se evidente. Além do teatro; a opera, a
missa, o concerto, a conferência etc. podem ser instalados nesse
modelo (espacializado) de espetáculo.
Por
fim, Requena propõe um último tipo: o modelo da cena fantasma,
destinado a incorporar os espetáculos conformados pelo acionamento
dos contemporâneos aparatos sócio-tecnológicos, como o cinema, a
televisão etc. Conforme o autor, esse modelo supõe o “reinado
absoluto da configuração concêntrica do espaço espetacular”
(Requena, 1988, p.72), dado que não só submete as salas cinematográficas
ao modelo da cena italiana, mas traz embutido na própria tecnologia
de produção de imagens a ordenação perspectivista do espaço,
ainda que nela a localização potencial do espectador se realize de
modo virtual. A potência espetacular das mídias deriva da complexa e
paradoxal conjunção entre essa unicidade do lugar concêntrico do
olhar e a multiplicidade de pontos de vista permitidos pelos aparatos
sócio-tecnológicos. Já não se trata de assegurar o melhor lugar
possível para ver, mas de possibilitar, no limite, o olhar total,
recorrendo a uma multiplicidade de câmeras que, por intermédio de
todos os ângulos de visão, permita olhar todos os detalhes do corpo
(desmaterializado) em exibição. A profusão de olhares possíveis
torna-se ela mesma um espetáculo.
Após a enunciação da tipologia, cabem algumas rápidas observações
acerca de determinadas demarcações e constrangimentos
tendencialmente impostos ao espetáculo.
A primeira, anotada por Requena, diz respeito à certa
associação, realizada historicamente, entre modelo excêntrico
de configuração do espaço espetacular e cultura popular e entre
modelo concêntrico e espetáculos cultos das classes dominantes
(Requena, 1988, p.71). Essa demarcação se aproxima da
anteriormente assinala por Umberto Eco, quando observa a não
aceitação do espetáculo como manifestação cultural,
“elevada”, com C maiúsculo, porque instalada na zona,
levemente culpada, do divertimento (Eco, 1984, p.214). Nas situações
observadas transparecem o elitismo cultural e a mitificação do
trabalho, próprias da desigual e unilateral sociedade
capitalista. Contra todas elas, faz-se necessário, mais uma vez,
afirmar o espetáculo e a diversão, por certo, como imanentes e
imprescindíveis à vida e sociedades humanas, demasiadamente
humanas, e confirmar o caráter universal dessas dimensões da
experiência social.
Outra
demarcação intentada relaciona-se as distinções entre espaços
midiáticos e sua imediata associação à possibilidade ou não
de prevalência do espetáculo. Desse modo, os programas de
informação supostamente estariam distantes do espetáculo. Já
os de ficção e de fantasia seriam, por excelência, os seus
registros adequados. Desnecessário mobilizar grandes argumentações
para demonstrar a relatividade e a fragilidade das fronteiras
instituídas. Inúmeros estudiosos insistem na afirmação de que
a contemporaneidade tem se caracterizado por um potencial
imbricamento entre real e ficção e pela metamorfose acontecida
entre ambos. Não bastasse isso como argumento convincente para
elucidar a questão, inúmeros trabalhos buscam demonstrar a invasão
de procedimentos do espetáculo, tais como os anotados acima, na
produção da informação na mídia (Arbex Jr., 2001; Froio, 2000
e Requena, 1989).
Formulada uma noção de espetáculo, torna-se necessário ir
adiante e tentar pensar o termo derivado: a espetacularização.
Antes de tudo, espetacularização pode ser definida como um
processo, através do qual, pelo acionamento de dispositivos e
recursos dados, produz-se o espetáculo. Ou melhor, o espetacular.
Assim, tal processo seria guiado pelos parâmetros anteriormente
anunciados como pertinentes à definição de espetáculo. O
processo de espetacularização, midiática ou não, pode abarcar
todos as áreas e campos sociais, ainda que, antes da modernidade,
tenha se concentrado na religião e na política. Esta última
atividade humana, a política, em um mundo ainda não
desencantado, não moderno, encontra-se estreitamente vinculada e
cúmplice da religião. Enfim, a espetacularização aciona,
simultaneamente, uma multiplicidade de dimensões – emocionais,
sensoriais, valorativas e também cognitivas – para fabricar e
dar sentido ao espetacular. Nessa perspectiva, o espetacular deve
ser sempre encarado como construção, social e discursiva, como
enfatiza Murray Edelman em seu livro sobre a construção do espetáculo
político (1988).
Requena,
além de assumir o caráter de construção do espetacular,
reconhece a possibilidade do espetáculo ser portador de sentido.
Em uma dicção lacaniana, ele diz da necessidade que dispositivo
da simbolização se introduza entre o espectador que olha e o
corpo que se exibe para que o espetáculo adquira um determinado
sentido (Requena, 1998, p.66). Assim, a multiplicidade de dimensões
concorre, mas não inviabiliza a produção de sentido. Caberia,
então, questionamento acerca de qual o leque possível de
sentidos que podem ser acolhidos pelo espetáculo. Antes disto,
faz-se necessária uma digressão sobre as relações entre espetáculo
e mídia para buscar uma redefinição rigorosa da noção de
sociedade do espetáculo.
O
(FABULOSO) ESPETÁCULO DA MÍDIA
O
espetáculo antecede historicamente em muito o surgimento da mídia,
em sua conformação contemporânea de aparato sócio-tecnológico
de comunicação, acontecido de modo substantivo em meados do século
XIX. Antes da existência de uma sociedade ambientada pela mídia,
o espetáculo tinha sua produção associada quase sempre à política
e/ou à religião. Somente na modernidade e, mais intensamente, na
contemporaneidade, o espetáculo vai poder se autonomizar dessas
práticas sociais, pois passa a ser majoritariamente produzido com
inscrição nos campos cultural e/ou da mídia, recém-formados na
modernidade, assimilada aqui como momento por excelência do
movimento de autonomização de esferas sociais (Weber) ou de
campos sociais (Bourdieu). Assim, diferente do que acontece no
passado, o espetáculo no mundo contemporâneo situa-se no
registro do olhar laico e secular, configurado no processo de
desencantamento do mundo e de inauguração da modernidade, de
acordo com Max Weber. Hoje, o espetáculo encontra-se em medida
significativa associado aos campos cultural e midiático, que
apresentam interfaces crescentes, a partir da emergência de uma
cultura cada vez mais “industrializada”. Isto é, midiatizada.
A
conexão entre mídia e espetáculo torna-se, por conseguinte,
privilegiada na atualidade. Tal enlace recobre a fabricação e
veiculação, como programação, de espetáculos pela mídia e a
transmissão de espetáculos culturais, políticos, religiosos e
de outros tipos forjados por outros entes sociais. Mas certamente
os espetáculos do contemporâneo, por excelência, porque
realizados em afinidade eletiva com a nova sociabilidade,
apresentam uma tal envergadura, que só podem ser operados através
do acionamento conjunto da mídia com outros atores sociais, ambos
produtores notórios de espetáculos. As copas do mundo de
futebol, os mega-festivais de música, as olimpíadas, as grandes
festas populares exemplificam glocalmente, com enorme exatidão,
as celebrações espetaculares do contemporâneo.
As
Olimpíadas, em sua conformação atual, podem ser tomadas como um
espetáculo do contemporâneo, por excelência. Christian Nielsen
em seu estudo sobre as Olimpíadas, após afirmar seu caráter de
megaevento, taxativamente vincula a possibilidade de produção de
um megaevento à mídia. Os números acionados pelo autor são
contundentes. Um quadro comparativo, da primeira olimpíada
contemporânea (Atenas, 1896) e a realizada cem anos depois
(Atlanta, 1996), demonstra cabalmente a espetacular transformação
propiciada pela midiatização do evento.
Quadro
comparativo entre as Olimpíadas de Atenas (1986) e Atlanta (1996)
|
Itens
|
Atenas
(1986)
|
Atlanta
(1996)
|
|
Dias
|
5
|
17
|
|
Esportes
|
9
|
26
|
|
Eventos
realizados
|
32
|
271
|
|
Países
envolvidos
|
13
|
200
|
|
Atletas
participantes
|
311
|
+10.000
|
|
Ingressos
disponíveis
|
60
mil (estimativa)
|
11,2
milhões
|
|
Fontes
de recursos
|
Doações
67%
Selos
22%
|
Televisão
34%
Patrocinadores
32%
Ingressos/outros
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Fonte:
NIELSEN, Christian. Turismo e mídia. São
Paulo, Contexto, 2002, p. 242.
Além
de ser componente essencial da viabilização econômica das Olimpíadas
na atualidade, como pode ser observada no quadro comparativo, seja
através dos direitos de transmissão pagos (1,7 bilhões de dólares),
seja pela via da atração de patrocinadores, a mídia tem um
lugar imprescindível na globalização do evento, tornando-o um
megaevento, um espetáculo do contemporâneo, por excelência. A mídia
possibilita que um espetáculo antes apenas presencial como as
Olimpíadas de Atenas, com um público estimado em 60 mil
espectadores, seja transformado em um espetáculo mundial,
desterritorializado, disponível em rede eletrônica para um público
cumulativo estimado em 20 bilhões de pessoas, distribuídas nos
214 países que transmitiram as Olimpíadas em 1996 (Christian,
2002, p.248). Em suma, produz-se um megaespetáculo da
contemporaneidade.
Mas
quais as outras especificidades do processo de espetacularização,
desenvolvido na nova circunstância societária? Um primeiro fator
a ser considerado deve atentar para uma outra marca do contemporâneo:
a cultura como espetáculo. Eduardo Subirats, em seu livro sobre a
temática, aponta o “maravilhoso milagre do espetáculo” e o
paradoxo de uma sociedade que, simultaneamente, decreta a morte da
arte e a transforma em princípio organizador do mundo social, da
política à vida cotidiana (Subirats, 1989). A estetização do
social convive e, em medida razoável, se alimenta da enorme
proliferação de espetáculos possibilitada pelas mídias. Elas,
assumidamente na contemporaneidade, tornam-se os lugares
primordiais de fabricação do espetacular.
Esse
“fenômeno totalmente desconhecido na história do espetáculo”
(Requena, 1998, p.81), não só constitui gigantescas máquinas
midiáticas de espetacularização, que potencializam a capacidade
intrínseca ao espetáculo de abarcar todos os campos sociais, mas
desenvolve uma competência ímpar que habilita a mídia, em
especial a televisão: a de fagocitar mesmo todos os demais espetáculos,
originados fora do ambiente midiatizado. Jesus Requena, que
considera esse fenômeno “o mais relevante para a sociologia do
espetáculo”, constata a radicalidade do processo e,
contundente, chega a escrever: “Enunciando-o de maneira brutal:
(a) televisão tende a converter-se não só no único espetáculo
– pois se apropria de todos os demais, os devora e os
desnaturaliza – senão no espetáculo absoluto, permanente,
inevitável” (Requena, 1998, p.73 e p.81).
Uma
sociedade com tais características pode e deve ser nomeada como
uma “sociedade do espetáculo”, mas certamente não em um
sentido de vertente debordiano. Nela, de modo indiscutível, a
tendência ao espetacular encontra-se extensivamente enraizada. A
rede de mídias e a dimensão da sociabilidade pública
midiatizada, além de outros campos, como a política, a religião
e a cultura, concorrem profundamente para a existência e a
realização sociais da espetacularização, pois toda essa
maquinaria sócio-tecnológica está predisposta a chamar e
disputar a atenção de todos. Mas, em uma sociedade do espetáculo,
em que tudo tende ao espetacular, a espetacularização,
paradoxalmente, como se verá, também encontra obstáculos para
deslanchar e operar.
Pode-se
então redefinir os termos da formulação da contemporaneidade
como “sociedade do espetáculo”. Ela está em sintonia com a fase atual do capitalismo, na
qual a informação e a comunicação tornam-se mercadorias
privilegiadas e a economia do espetáculo aparece como cada vez
mais relevante. Mas ela também pode ser caracterizada como a
sociedade em que, diferente do que acontecia nas anteriores,
quando o espetacular era algo da esfera do extraordinário e da
efemeridade, agora o espetáculo potencialmente está
(oni)presente, no espaço e no tempo, e afeta radicalmente toda a
vida societária. O espetáculo, depois de se tornar autônomo em
relação ao religioso e ao político e ser acolhido na esfera
cultural, como cerimônia artística competição esportiva ou
festa popular, ocupando locais e ocasiões privilegiadas,
transforma-se em algo com pretensões a colonizar todo o mundo da
vida.
Ao
assumir esse pretendido caráter cotidiano, fortemente ancorado no
funcionamento tentacular das redes de mídias, a sociedade do
espetáculo faz aflorar suas contradições, instituindo algumas
situações paradoxais. Requena assinalada que “o preço da
onipresença, da cotidianização do espetáculo, é sua
dessacralização” (Requena, 1998, p.92). A desaparição da
singularidade do instante e o desaparecimento dos espaços
especializados concorrem para essa dessacralização e para a
banalização, enfim, do espetáculo. Tempo e espaço parecem
sucumbir ao espetacular. Com isso, a obviedade e a redundância
fazem o espetáculo perder potência. O paradoxo pode ser
sintetizado no permanente conflito imanente à sociedade do espetáculo:
em um mundo em que tudo pode e tende a ser transformado em
espetacular, nada mais parece ser espetacular. Em suma: na
sociedade do espetáculo, a banalização da espetacularização,
produz e destrói, simultânea e incessantemente, espetáculos. A
singularidade de tal sociedade deriva exatamente dessa alucinada
dinâmica.
UM
OUTRO MUNDO POSSÍVEL
A
mídia - compreendida como campo que promete visibilidade social
(Rodrigues), que pode conferir valor de exposição (Benjamin) ou
que destina poder de publicização - não deve ser, sem maiores
indagações, identificada ao espetáculo. Se a mera veiculação
na mídia conferisse a todos os seus produtos o caráter de espetáculo,
então o conceito mesmo de espetáculo perderia a validade, devido
à abrangência excessiva assumida por esse signo.
Cabe
então distinguir conceitualmente, mesmo de modo provisório,
midiatização e espetacularização como procedimentos
diferenciados. Midiatização designa a mera veiculação de algo
pela mídia, o trabalho de mediação ativa desenvolvido na
atualidade pelo campo das mídias; enquanto espetacularização,
forjada pela mídia ou não, nomeia o processamento, enquadramento
e reconfiguração de um evento, através dos inúmeros
expedientes anteriormente analisados neste texto. Assim, a mídia
pode ser associada a processos de midiatização e espetacularização,
mas tais dispositivos longe estão de elucidar os fantásticos
imbricamentos entre mídia e contemporaneidade.
A
mídia ou, com mais precisão, a rede de mídias institui, a
rigor, uma nova dimensão pública, própria da sociabilidade
contemporânea. Esta dimensão está constituída por espaços
eletrônicos, sem territórios e potencialmente desmaterializados,
que se transformam em suportes de televivências – vivências à
distância e não presenciais –, planetárias e em tempo real. A
conjugação entre espaços eletrônicos em rede e televivências
possibilitadas viabiliza os fluxos globalizantes e institui a
telerrealidade. O amalgama entre telerrealidade e realidade contígua,
com seus espaços geográficos, suas convivências e seus fluxos
locais, possibilita a singular experiência da contemporaneidade:
viver glocalmente. Isto é, vivenciar em conjunção, combinada e
desigual, todas estas marcações e possibilidades sociais
oriundas do global e local, vividas em mestiçagem simultânea.
O
novo mundo pode ser imaginado como a criação de uma nova dimensão
pública de sociabilidade, própria da sociabilidade moderna e
mais especificamente contemporânea, que se agrega, não sem
complicadas fricções, com a dimensão pública anteriormente
existente, derivada principalmente de relacionamentos permitidos
pelo compartilhamento presencial de idéias, emoções,
sensibilidades etc. A nova dimensão pública constituída pelas
redes de espaços eletrônicos que dão suporte e viabilizam
televivências, vivências à distância, em espaço planetário e
tempo real, ambos cada vez mais mediados. Na contemporaneidade,
essa televivência ao se conjugar, para o mal e para o bem, ao
mundo compartilhado, portanto público, conformado pela convivência
e pelos espaços geográficos, sem dúvida, vem colocar imensos
problemas novos e complexos para a existência e a experiência em
sociedade e para a luta humana por outros mundos possíveis.
Mas
o desafio colocado e a complexidade da questão não podem, sem
mais, fazer como que o problema afinal advindo com a autonomização
das representações, seja “resolvido” com um olhar nostálgico
de um idealizado mundo convivencial. A compreensão aberta e
rigorosa, expondo todas as contradições, de uma
contemporaneidade resultante da convergência tensa entre espaços
geográficos e eletrônicos, convivências e televivências, local
e global, realidade contígua e telerrealidade aparece então como
algo essencial para, goste-se ou não, enfrentar os dilemas
colocados pelas novas circunstâncias sociais.
O
estudo do desempenho – com suas tensões, conflitos e
complementariedades – dos protagonistas dos processos de
espetacularização emerge, não resta dúvida, como momento analítico
privilegiado da investigação sobre o espetáculo. A mídia
aparece como o outro agente potencial da espetacularização.
Quatro quadros possíveis se desenham para a investigação: 1.
eventos não espetacularizados nem por outros agentes, nem pela mídia;
2. eventos espetacularizados por agentes de outros campos sociais
e apenas midiatizadas, isto é, divulgados pela mídia; 3. eventos
não espetacularizado por outras agentes e transformados em espetáculo
pelo campo midiático e, por fim, eventos espetacularizados pelos
agentes de outros campos sociais e pela mídia. Este duplo
procedimento de espetacularização, da mídia e de outros agentes
envolvidos no acontecimento, configura, em toda sua potência, os
espetáculos do contemporâneo. Isto é, aqueles espetáculos, a
exemplo das Olimpíadas, nos quais estão condensadas todas as
linhas de força dos procedimentos de espetacularização que
caracteriza o mundo atual.
Do
mesmo modo que nem todo evento realizado no espaço geográfico
(realidade contígua) transfigura-se em espetáculo, nem todo
evento produzido no espaço eletrônico em rede (telerrealidade)
conforma-se em espetáculo. Somente aqueles submetidos aos
dispositivos produtivos de espetacularização devem ser nomeados
e incluídos nessa modalidade específica de evento. Outra vez
mais: afirma-se que a midiatização não pode ser tomada como
processo correspondente ao de espetacularização. Mas a contemporânea
sociedade ambientada pela mídia, em especial em seus espaços
eletrônicos em rede, contém, não se pode esquecer, uma potente
tendência ao espetacular. Tal tendência deriva de variados eixos
de força que perpassam e parecem convergir na atualidade. Dentre
eles, três, pelo menos, devem ser destacados. A existência de
uma sociabilidade caracterizada por uma acentuada complexidade,
porque conformada pelas inúmeras conjunções já assinaladas e
por uma profusão crescente de acontecimentos que disputam
visibilidade. A proliferação numérica e a multiplicidade de
modalidades de mídias - verdadeiras máquinas de espetacularizar
- conjugada ao processo de secularização do espetáculo, em
curso desde a modernidade. A emergência na sociedade capitalista
tardia de uma significativa economia da cultura e do espetáculo,
subordinada a uma lógica de produção mercantil-entretenimental.
Entretanto,
do mesmo modo que o pensamento, desde os “filósofos da
suspeita” (Marx, Nietzsche e Freud) até os frankfurtianos
Adorno e Horkheimer e, mais recentemente, Foucault, impossibilita
uma ingênua identidade entre razão, verdade e emancipação,
também se torna improvável uma simplificadora identificação
entre espetáculo, falseamento e dominação, sem mais. Os espetáculos
e os procedimentos, enfim, tornam-se novos e essenciais campos de
disputa, desiguais, como a sociedade capitalista em que ainda
vivemos.
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WOOD
Jr., Thomaz. Organizações
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*
Professor e Diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade
Federal da Bahia. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de
São Paulo. Pesquisador do CNPq. Ex-presidente da Associação
Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação –
COMPÓS.
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