Comunicação,
Amorosidade e Autopoiese
Profa
Dra Maria Luiza Cardinale Baptista
Professora
e pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(UNISINOS)
Professora
da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS) e Diretora da Pazza Comunicazione, Brasil.
O
artigo discute a complexidade interacional do processo de
comunicação, como um jogo de amorosidade e autopoiese.
Resgata a noção de comunicação-trama, onde há interação
de sujeitos a partir de fluxos intensos, de elementos
significantes e a-significantes, mediados ou não por
tecnologias da comunicação. Fundamenta-se em
pressupostos da teoria sistêmica e da complexidade.
Apresenta a trama processual da Comunicação, com seus laços
intrínsecos à lógica da amorosidade e da reinvenção
dos universos de referência existenciais, a partir do
‘encontro-abraço’ discursivo amoroso. Ilustra as
questões teórico-conceituais com exemplos de práticas
comunicacionais cotidianas. Por fim, propõe o acionamento
da amorosidade autopoiética do processo, através de
dispositivos múltiplos e do esmero insistente, na busca
da constituição da arte da relação comunicacional.
Palavras-chave:
comunicação, amorosidade, autopoiese, processo.
Para
iniciar o ‘abraço’
O
amor – ou a condição amorosa, os sentimentos amorosos
- é algo ao mesmo tempo muito presente no mundo e
inteiramente démodé
para a intelectualidade. Esta
foi uma das razões, talvez a razão fundamental,
objetiva, pela qual eu quis me interessar pelo assunto.
(Roland Barthes)
[...]
o Ocidente favoreceu a dissociação entre a cognição e
a sensibilidade, assentando-a como um dos seus axiomas
filosóficos. [...] Os sentimentos não podem continuar
confinados ao terreno do inefável, do inexprimível,
enquanto a razão ostenta uma certa assepsia emocional,
apatia que a coloca acima das realidades mundanas. A
separação entre razão e emoção é produto do torpor e
do analfabetismo afetivo a que nos levaram um império
burocrático e generalizador que desconhece por completo a
dinâmica dos processos singulares.
(Luís
Carlos Restrepo)
Proponho,
neste momento, que você, leitor, ‘me escute’, que se
disponha para um encontro, através desse dispositivo –
a escrita. Encontro com suas intensidades possíveis. O
que tenho pra dizer não é simples, mas, na sua
complexidade, é quase óbvio. A temática central deste
artigo é a comunicação, como resultado de processos de
amorosidade e de autopoiese. Resulta, antes de tudo, de
uma vivência de amorosidade derramada, que me
caracteriza. Amorosidade generalizada e, em especial,
amorosidade por processos comunicacionais.“Vem daí esse
meu jeito afetivamente afetado, que me faz ir sempre em
frente, avançar” eu disse em outro texto (BAPTISTA,
2000). Além disso, como jornalista, teórica, professora
de Comunicação, pesquisadora, empresária, vivo
refazendo perguntas óbvias como estas: Como a comunicação
efetivamente se produz? O que faz com que a Comunicação
aconteça ou não? Por que, tantas vezes, há fluxo
intenso de dados informativos, mas não há comunicação?
Amorosidade e autopoiese. Estas são as pistas que trago.
A estratégia de diálogo, aqui, parte de um conceito de
comunicação e do seu desmonte, para chegar a abordar a
amorosidade e, posteriormente, a autopoiese.
Eduardo
Peñuela Canizal, há algum tempo, analisava, em banca,
minha dissertação de mestrado.
Disse que chamava a atenção o fato de que eu conceituava
a comunicação como algo relacionado a renascimento, à
reinvenção. Na época, achei importante o que ele
pontuava e que, realmente, estava explícito no meu texto,
mas não era, efetivamente, algo profundamente refletido.
Essa noção estava dispersa, em meio à discussão sobre
a especularidade da comunicação. Posteriormente, em
outros processos investigativos e, portanto, em outros
textos, mantive a linha de abordagem do fenômeno Comunicação
e o defini da seguinte forma:
Comunicação
é interação de sujeitos, através do fluxo de informações
entre eles, numa espécie de trama-teia complexa, composta
tanto de elementos visíveis quanto invisíveis, corporais
e incorporais, significantes e a-significantes, podendo
ser ou não mediada por dispositivos tecnológicos, na
constituição de algo como um campo de força de encontro
de energias, decorrente dos universos de referência de
cada sujeito envolvido. Quer dizer, encontro de universos
de sujeito, universos subjetivos.(BAPTISTA, 2000, p.33-34)
Tomo
esse conceito como guia. Vamos, então, ao seu desmonte.
“Comunicação é interação de sujeitos”. Muito bem.
Considero aqui um aspecto fundamental, no sentido de
indicar que a ação de tornar comum, significado intrínseco
ao termo Comunicação, acontece a partir da interação
de sujeitos. Esse sujeito, convém dizer, não é alguém
que existe individualmente, isoladamente. “O sujeito só
existe em relação ao Outro e o Outro é tudo o que é não
eu”. Essa é uma frase que vivo repetindo para os
estudantes de Comunicação, tentando deixar claro que o
sujeito de que falo é considerado uma espécie de campo
de forças múltiplo, complexo, marcado por múltiplas
influências. Influências de todos os tipos, desde sua
família, suas tribos, sua musicalidade, suas preferências
alimentares, suas manias, sua relação com o corpo, sua
capacidade de expressão, sujeito pensado de uma maneira
holística. Sujeito considerado no seu todo. Sujeito maquínico,
decorrente da constituição do ser em uma sociedade
capitalística, que – como bem nos explicam Guattari E
Rolnik (1986) – são forjados em série, marcados por
uma ordem capitalística mundial, seguindo tendências do
mercado, ao mesmo tempo em que se aventuram em processos
de singularização.
A
interação do processo comunicacional ocorre por meio do
fluxo de informações entre os sujeitos e isto, por sua
vez, realiza-se em uma “teia trama complexa”. A noção
de Comunicação-Trama foi detalhada em um outro texto
(BAPTISTA in BECHELLONI e LOPES, 2002). Resgato, aqui,
apenas a idéia de que ela envolve tanto o estabelecimento
complexo dos entrelaçamentos da comunicação
interpessoal direta, quanto o processo, na malha das
grandes redes midiáticas da contemporaneidade.
Igualmente, quero frisar que o termo interação não
remete a um processo harmônico, amistoso. Interação,
então, é uma noção pensada como ‘encontro de
corpos’. Há sujeitos que se encontram, como espécie de
‘corpos-existência’ e, nesses encontrões,
transformam-se, misturando-se na informação partilhada.
Produção múltipla, produção conjunta, ‘inter-ação’,
‘trans-form-a-ção’.
Nesse
ponto, nos aproximamos do que eu trago, neste artigo, como
complemento ao conceito apresentado. Esses encontrões, o
fluxo informativo, não ocorre de qualquer maneira. O
aspecto a salientar é justamente o caráter transformador
dos sujeitos envolvidos. Retomo, então, as perguntas
iniciais: Como a comunicação efetivamente se produz? O
que faz com que a Comunicação aconteça ou não? Por
que, tantas vezes, há fluxo intenso de dados
informativos, mas não há comunicação? Elas ecoam em
mim. Nesse momento, convido-o para avançar e conhecer o
que eu percebo dos processos, sejam eles interpessoais ou
midiáticos, considerando que os diferenciais passam pela
amorosidade e autopoiese.
A
amorosidade e a comunicação
O
termo amorosidade está sendo usado, como uma palavra
escolhida, entre tantas, para representar um traço intrínseco
ao processo de comunicação. “Amorosidade – qualidade
ou virtude do que é amoroso”. “Amoroso.1 Que ou
aquele que sente amor, que tem inclinação para o amor;2
relativo ao amor; que contém ou demonstra amor;3 propenso
ao amor; que demonstra ternura, afeto;terno, meigo,
carinhoso...” (HOUAISS, 2001, p.194). Parto, então, da
palavra para compartilhar a idéia de que a comunicação
se efetiva, onde há amorosidade. Os laços amorosos a que
me refiro não são laços de concordância, de idealização,
de anulação do eu, em relação ao Outro, mas de aceitação
na convivência. Diferente da paixão, o amor implica em
aceitar o Outro, no reconhecimento das diferenças e
limitações. Aceitar, não concordar. Esforçar-se por
entender e, acima de tudo, querer compartilhar. Neste
sentido, os fluxos informativos não podem ser
‘mornos’, têm que estar suficientemente aquecidos de
afeto, no sentido de desacomodar o sujeito para o
reconhecimento do lugar do Outro, do fluxo que vem do
Outro – seja esse Outro uma outra pessoa, grupos,
instituições, mídias...
Comunicação
amorosa implica também em investimento, em lançar mão
de tempo, de recursos e capacidades para estar junto,
buscando coexistência no campo da produção de significações.
Assim, representa mais do que não abandono, mas a busca
de ações comuns nos fluxos informativos, de tal modo que
estas possibilitem a manutenção dos vínculos que vão
se estabelecendo. Um receptor de um programa de televisão,
por exemplo, precisa se encontrar nos fluxos informativos
e decidir manter-se ligado. Decidir manter o laço que une
emissão e recepção é uma tarefa de depende do processo
de encontro de existências, que, por sua vez, torna-se
decisivo quanto ao fato de que este sujeito vai ter que
deixar de fazer outras coisas, de dedicar-se a outros
‘Outros’ – pessoas, canais de tevê, instituições....
Assim, é preciso que se estabeleça um campo de significação,
em que os laços intensos vão tramando a relação e
garantindo a permanência. “Não vá embora. Não me
abandone. Me ame!” São essencialmente, os apelos das
emissões midiáticas cotidianamente. Uma das dificuldades
é que são muitas as possibilidades de encontros amorosos
e, aí, surge um outro desafio, que é sobreviver e ser
amado, neste caos de ofertas de processos comunicacionais.
Bem,
mas vamos voltar à questão da amorosidade,
conceitualmente falando. Ela está fundamentada, aqui, em
Humberto Maturana (1998), por um lado, e Luís Carlos
Restrepo (1998), por outro, bem como, claro, em Roland
Barthes (1986). Maturana, neste sentido, é alguém
especial em sua teoria. Encantador mesmo. O biólogo
chileno, que aprendi a admirar pelos seus textos, fala do
amor, como o fundamento do social. É bastante
significativo, por exemplo, o seguinte trecho:
O
amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em
que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como
legítimo outro na convivência, e é esse modo de convivência
que conotamos quando falamos do social. [...] Sem a aceitação
do outro, não há fenômeno social. (MATURANA, 1998,
p.23-24)
Em
outro momento, ele define o amor, argumentando sua relação
direta com o surgimento da linguagem, que se estabelece na
convivência. “As interações
recorrentes no amor ampliam e estabilizam a convivência;
as interações recorrentes na agressão interferem e
rompem a convivência. Por isso, a linguagem, como domínio
de coordenações consensuais de conduta, não pode ter
surgido na agressão, pois esta restringe a convivência
[...]” (MATURANA,
1998, p.22-23)
O
autor deixa claro que sua argumentação não é cristã,
mas de um biólogo que reconhece as características intrínsecas
do ser humano. Ele lembra que há traços do
humano-animal, que permanecem em nós até hoje. São
eles: somos animais colheitadores, compartilhadores,
vivemos na operação consensual de ações; somos animais
cujos machos participam do cuidado com os bebês, construímos
a vida em pequenos grupos; somos animais sensuais, que
vivemos espontaneamente no tocar e acariciar mútuo; e,
por fim, vivemos a sensualidade no encontro personalizado
com o outro (MATURANA, 1998, p.24-25). Ele salienta, neste
sentido, que somos animais dependentes do amor. E
justifica:
O
amor é a emoção central na história evolutiva humana
desde o início, e toda ela se dá como uma história em
que a conservação de um modo de vida no qual o amor, a
aceitação do outro como um legítimo outro na convivência,
é uma condição necessária para o desenvolvimento físico,
comportamental, psíquico, social e espiritual normal da
criança, assim como para a conservação da saúde física,
comportamental, psíquica, social e espiritual do adulto.
(p.25)
Ora,
se entendemos as palavras de Maturana com relação ao
amor, fica fácil perceber que amorosidade e comunicação
são termos intrinsecamente ligados. Os processos de
compartilhar implicam no acionamento das ações
recorrentes, que se processam através da coordenação de
ações consensuais. Os processos de tornar comuns planos
de intensidades significacionais só são possíveis com o
acionamento de linguagens e, assim, de coordenação de ações
consensuais, ou seja, em que o amor garante a aceitação
do outro, como legítimo outro na convivência. Em outras
palavras, não há comunicação sem o acionamento de
planos amorosos, de disposição de estar junto, de
respeitar-se mutuamente, os tempos, os silêncios, os
ritmos, as diferentes ‘miradas’ para as cenas
partilhadas. Não há comunicação, sem que o sujeito
invista a si mesmo na disposição de compreender o lugar
do outro, o campo de produção de universos
significacionais.
É
preciso aceitar que o encontro interacional comunicacional
a que me refiro é um encontro intenso, inteiro, em que,
mais do que a decodificação formal dos traços semânticos
e sintáticos do discurso, os sujeitos conseguem
apreender-se mutuamente em planos de intensidade,
a-significantes, incorporais, encontros afetivos,
resultado de afecção mútua. Isto tudo ocorre, sem que,
necessariamente, haja concordância. Este é um aspecto
central que precisa ficar claro: a relação amorosa é de
aceitação do outro como legítimo outro na convivência;
não implica, como salientei anteriormente, em anulação
de si mesmo e, portanto, na submissão ao outro, típica
apenas da “vassalagem do amor romântico” – que não
é o amor a que me refiro aqui (MATURANA, 1998; BARTHES,
1986).
Trazendo
um pouco essa discussão para exemplos do cotidiano, posso
afirmar que o que produz comunicação no anúncio
publicitário, por exemplo, não é seu título, o jogo de
cores, a relação claro-escuro, os personagens e ou o
ambiente representado. Não é uma coisa ou outra, mas
tudo somado, alinhado cuidadosamente para o acionamento de
planos de intensidades afetivas. O encontro com o
consumidor/ receptor tem que ser avassalador, impetuoso,
como a paixão, mas, mais que isso, precisa conseguir
alcançar a serenidade e segurança, que só o amor
possibilita. O receptor, então, não deve apenas ser
excitado com a emissão. Ele precisa ser envolvido, de tal
forma, a acolhê-la como parte dele mesmo, acreditando,
confiando nas sensações acionadas, como uma verdade
amorosa, plena. Para isso, claro, os produtores da
comunicação publicitária precisam também investir no
reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência.
E reconhecê-lo, na sua dimensão ética.
O
receptor, nesta perspectiva, não é alvo, em quem se
dispara. O receptor é o ‘ser amado’ a quem nos
dirigimos, visando sua afecção e consenso, na conduta de
ações de compartilhar. O receptor é o nosso sustento
existencial, no sentido de que o comunicador vive, em essência,
para tentar construir esses encontros
amorosos-comunicacionais. Assim, o contrato de significação
surge no contrato da relação amorosa, de aceitação do
outro como legítimo na convivência. A comunicação,
neste sentido, não manipula o sujeito. Ela o envolve em
seus próprios afetos, gerando a trama de laços de
confiança. No caso, o vínculo é com um ‘espelho’
que realmente conhece o sujeito e conhecendo-o, o enlaça
em seus próprios sentimentos.
Talvez
a metáfora que mais explique o processo seja a do abraço,
o abraço terno, envolvente. Sim, porque o abraço acolhe,
é aceito, dá segurança. Aciona os planos de
intensidades afetivas, que contém o sujeito nas suas
inseguranças existenciais e, também, nos casos dos
processos de que tratamos, aqui, informacionais. O verbo
conter, utilizado há pouco, merece algumas considerações.
Conter é, ao mesmo tempo, “frear o ímpeto de; impedir
de avançar, dominar” e “ter capacidade de abrigar, de
receber” (HOUAISS, 2001, p. 817). Assim,
psicologicamente, a contenção – como o abraço, por
exemplo – oferece limites ao movimento e,
simultaneamente, abriga, acolhe. Os limites no abraço
relacionam-se à própria existência-corpo do outro e,
diga-se de passagem, essa noção é fundamental para a
comunicação. Encostar-se, tocar o outro com o próprio
corpo, percebendo-se no limite de si através do encontro
também limítrofe com o outro e ter a vivência do abraço
que acolhe é condição ideal para troca, para fluxos
afetivo-informacionais e, claro, existenciais.
Quem
abraça, dispõe-se a manter o abraçado ali, sob o enlace
terno dos braços. Oferece isto. Quem recebe o abraço,
aninha-se cumplicemente, no recebimento do gesto do Outro,
também se oferecendo para a convivência, para a relação
comum, comunicação. “O gesto do abraço amoroso parece
realizar por um momento, para o sujeito, o sonho de união
total com o ser amado”, (BARTHES, 1986, p.12). Em livro
clássico, sob o título Fragmentos do Discurso Amoroso,
esse autor aciona, através do discurso – dos fragmentos
- universos de intensidades afetivas, para expressar a lógica
da amorosidade. Resgata a expressão “Na doce calma dos
teus braços”, de uma poesia musicada por Duparc, e
sintetiza a condição dos sujeitos no momento do abraço:
“[...] estamos no sono, sem dormir; estamos na volúpia
infantil do adormecer: é o momento das histórias
contadas, o momento da voz que vem me imobilizar, me
siderar, é a volta à mãe.” (idem)
Assim,
parece fácil perceber que a disposição de quem agencia
processos comunicacionais é a do abraço amoroso, numa
proposta de encontro de acolhimento mútuo, de sentidos
contratados e de determinação para manter o enlace. É
possível pensar, também, que é no ‘jogo do abraço’
que experimentamos a aproximação com o outro, testando,
no ‘encontro de corpos’, o jogo do Eu-Tu, de que fala
Buber (1974). No abraço, os sujeitos vão meio que se
encaixando e vivendo a experiência de existir no
encontro, aceitando o corpo do outro e imprimindo-se como
corpo-sujeito do enlace.
Igualmente
interessante, nesta linha de pensamento, é o conceito de
carícia, apresentado por Restrepo (1998). Ele faz uma
distinção entre agarrar e acariciar e explica que: “A
carícia é uma mão revestida de paciência que toca sem
ferir e solta para permitir a mobilidade do ser com quem
entramos em contato.” (p.51). Nessa dinâmica, vive-se o
encontro com o outro, não para possui-lo, mas para
acariciá-lo, para abraçá-lo no encontro de existências.
É justamente isso que possibilita os processos autopoiéticos
nas relações comunicacionais, que abordo a seguir.
Comunicação
e autopoiese
Vou
me deter, agora, na discussão do termo autopoiese, para
relacioná-lo à comunicação e à amorosidade.
Autopoiese é uma palavra que me tem sido muito cara, nos
últimos tempos. Daquelas que a gente carrega no
dia-a-dia, que vai assumindo como nossas. Entrei em
contato com a idéia, pela primeira vez, a partir das “máquinas
autopoiéticas”, abordadas por Guattari, no livro
Caosmose (1992). Neste texto, Guattari remete a Francisco
Varela, parceiro de Maturana, para explicar que as máquinas
autopoiéticas diferem substancialmente das mecânicas. Não
se trata de pensar a máquina coisa, mas essencialmente a
máquina em produção, agenciada para produzir. Assim,
parti de Guattari e, depois, busquei a fonte. De Maturana
e Varela, encontrei o livro De Máquinas e Seres Vivos.
Autopoiese, a Organização do Vivo (1997). A
‘com-versa’ que proponho agora está baseada nestes
textos e na minha vivência nos processos comunicacionais
cotidianos, bem como nas minhas aventuras investigativas
na área.
O
termo autopoiese é um neologismo que nos remete à idéia
de autoprodução. O dicionário apresenta poiese-poese do
seguinte modo: “[...] el. Comp. Pospositivo, do gr. Poíesis,
eos, ‘criação, fabricação, confecção; obra poética,
poema, poesia’” (HOUAISS, 2001, p. 2246). Assim,
quando pensamos em autopoiese, devemos nos remeter a uma
espécie de motor interno ao sistema, que faz com que ele
esteja em processo de produção. A palavra foi cunhada
por Maturana, na tentativa de responder, em suas investigações,
à pergunta: “O que é que começa quando começam os
seres vivos sobre a terra, e que tem se conservado desde
então?” (MATURANA;VARELA, 1997, p.11). Observe-se, então,
que está em jogo o processo de produção de vida, quando
relacionamos o termo ao ser humano. Processo de criação,
de autocriação. Maturana refere-se, então, aos seres
vivos como “[...] sistemas nos quais, seja em seu
acontecer solitário de sua atuação como unidades autônomas
ou no que se refere aos fenômenos da convivência com os
outros, surgem e neles se dá em/e, através de sua relação
individual, como entes autônomos” (MATURANA;VARELA,
1997, p.11). Então, é possível destacar os seguintes
aspectos: ‘acontecer solitário’, ‘unidades autônomas’
e ‘finalidade de convivência com os outros’.
Fico
pensando que, em princípio, a concepção poderia parecer
contradizer a minha visão de ‘sujeito que só existe em
relação ao Outro’. Ocorre que a noção de Maturana,
compartilhada por Varela, precisa ser entendida como
associada à percepção do caráter sistêmico do ser
humano e suas formas de agregação, de convivência. Sua
constituição, neste sentido, é processual e o caráter
autopoiético surge do acionamento, decorrente do
encontro, de ações compartilhadas. Junção de células,
espécie de contaminação do Outro, desencadeando
processos de transformação, recriação, autopoiese e,
assim, constituindo a autonomização de um outro ser,
que, por sua vez, vai reinventar o sistema todo em que
esse sujeito está inserido.
[...]
o ser vivo não é um conjunto de moléculas, mas uma dinâmica
molecular, um processo que acontece como unidade separada
e singular como resultado do operar, e no operar, das
diferentes classes de moléculas que a compõem, em um
interjogo de interações e relações de proximidade que
o especificam e realizam como uma rede fechada de câmbios
e sínteses moleculares que produzem as mesmas classes de
moléculas que a constituem [...] (MATURANA in
MATURANA;VARELA, 1997, p.15)
Maturana
dá o nome de autopoiese a essa rede fechada de produção
de componentes, em que os componentes geram as próprias
dinâmicas de produção que os produzem, num fluxo contínuo
de elementos. Fica, claro, então, o caráter sistêmico,
portanto, processual, mutante, de engendramentos múltiplos
na constituição dos seres autopoiéticos. Tudo isso pode
parecer muito complexo. De certa forma o é, de fato, mas,
também, pelo fato de ser algo inerente à natureza, beira
à simplicidade do óbvio. Poderia dizer, então: o
sujeito se autoproduz e se reinventa a cada instante, nas
múltiplas interações-relações, a partir dessa espécie
de ‘motor interno autonomizador’, e dos vínculos com
outros sujeitos autopoiéticos – esses outros podem ser
tanto pessoas quanto sistemas grupais, institucionais e,
mesmo, mídias. É o que ensina Guattari (1992, p.14), ao
ressaltar o caráter heterogêno dos componentes que
concorrem para a produção da subjetividade. Segundo ele,
esses componentes são os seguintes:
1.componentes
semiológicos significantes que se manifestam através da
família, da educação, do meio ambiente, da religião,
da arte, do esporte; 2. elementos fabricados pela indústria
dos mídia, do cinema, etc. 3. dimensões semiológicas
a-significantes colocando em jogo máquinas informacionais
de signos, funcionando paralelamente ou independentemente,
pelo fato de produzirem e veicularem significações e
denotações que escapam então às axiomáticas
propriamente lingüísticas.
A
partir da compreensão da heterogênese na constituição
dos sujeitos, acredito, então, ser possível avançar.
Assim, é importante que o processo autopoiético seja
mantido como premissa do processo comunicacional, para que
continue sendo produzida a vida dos sujeitos envolvidos,
em sua dimensão autonomizadora. Não há como produzir
comunicação, sem que os sujeitos mantenham sua
capacidade autocriadora. Assim como ressaltei em relação
ao amor – no que este se diferencia essencialmente da
paixão – é fundamental que o outro continue sendo
inteiro na relação.
“Para
ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê
todo em cada coisa. Põe quanto és, no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive”
(PESSOA, 1976, p. 146). O poema de Fernando Pessoa é
ilustrativo. Se queremos o processo comunicacional
existindo, precisamos empreendê-lo de tal modo que os
sujeitos envolvidos sejam inteiros, possam se colocar na
relação, não como máquinas reprodutoras, repetidoras,
mas como seres autopoiéticos, que se reinventam com a
informação amorosa recebida e, nessa reinvenção,
concordam em ‘ficar’, com o plano de significação
proposto pelo emissor. Assim, neste sentido, no processo
comunicacional não há a autonomia total do receptor, nem
a supremacia a priori do emissor. O que ocorre é o
desencadeamento da fusão de sistemas, no abraço amoroso,
em que o resultado é a reinvenção das unidades autônomas
– os sujeitos – e do sistema maior que as engendra –
as máquinas de produção de subjetividade, como é o
caso dos Meios de Comunicação e de alguns grupos e
instituições, ou, dizendo de uma maneira mais ampla, a
própria sociedade.
Interessante,
neste sentido, a definição de fenômeno sistêmico, do
próprio Maturana (1997, p. 24):
“[...] acontece como resultado da atuação dos
componentes de um sistema enquanto realizam as relações
que definem o sistema como tal, e, no entanto, nenhum
deles o determina por si só, ainda quando sua presença
seja estritamente necessária.” Também esclarecedora é
a definição de Varela (1997, p.47):
O
processo de constituição da identidade é circular: uma
rede de produções metabólicas que, entre outras coisas,
produzem uma membrana que torna possível a existência
mesma da rede. Esta circularidade fundamental é portanto
uma autoprodução única da unidade vivente em nível
celular. O termo autopoiese designa esta organização mínima
do vivo.
Para
associar os processos autopoiéticos à comunicação, é
preciso compreender que estes não são circunscritos
unicamente à unidade que os engendra. Remetem à reinvenção
das mesmas, a partir das suas próprias condições e
disposições de produção, mas relacionam-se, também,
ao que Varela chamou de enacção. Trata-se de um outro
neologismo, que tem sido utilizado no sentido de “[...]
trazer à mão ou fazer emergir” (VARELA, 1997, p. 58).
Enacção implica diretamente em ação de acionamento do
movimento para um outro lugar, algo como um trampolim para
o futuro, como chamou Ferreira, em seu belo texto sobre o
mal estar na escola. No caso dessa autora, ela se referia
à teoria de Varela como conceituação para o processo de
conhecimento, em que são acionados mundos de devires para
uma condição diferente, para diferentes platôs de existência
conhecedora. Remeto-me, então, ao mesmo conceito, porque
o considero intrinsecamente ligado ao de informação,
como o estou tratando na lógica da comunicação-trama.
Inform-ação. Ação de dar uma nova forma, desacomodando
os sistemas (sujeitos envolvidos), de tal modo a
possibilitar-lhes a sua reinvenção, sua autoprodução
em outros patamares, outros platôs. A confiança que se
estabelece no processo amoroso da comunicação é algo
que agencia a autopoiese dos sujeitos envolvidos e, ao
mesmo tempo, engendra a própria relação, a sua manutenção
e eficiência, no sentido da essência de sua razão de
existir. Se o objetivo é compartilhar sentidos, partilhar
existências informativas, propondo ações e
desencadeando devires, isto só pode ser produzido se
estiverem em curso discursos amorosos autopoiéticos.
Dis-cursus
é, originalmente, a ação de correr para todo lado, são
idas e vindas, “demarches”, “intrigas”. Com
efeito, o enamorado não pára de correr na sua cabeça,
de empreender novas diligências e de intrigar contra si
mesmo. Seu discurso só existe através de lufadas de
linguagem, que lhe vêm no decorrer de circunstâncias ínfimas,
aleatórias. (BARTHES, 1986, p. 1)
Assim,
é preciso que nos processos discursivos sejam acionados
mundos, que possibilitem o desencadeamento de autopoiese.
O jogo dos fluxos informacionais da comunicação trama
implicam em sofisticação de recursos e no cuidado com a
relação, com a arte da relação. Assim, precisam ser
acionados dispositivos múltiplos, de envolvimento (abraço)
do Outro em sua inteiricidade, de tal forma que o outro não
só continue existindo –condição sine qua non para a
continuidade do processo – mas seja respeitado como legítimo
outro na convivência. Além disso, se o abraço
comunicacional existir em sua plenitude, o Outro-receptor,
sentindo o acolhimento e deixando-se entregar nessa mágica
da relação do abraço, vai querer continuar convivendo e
sentindo-se tocado, afetado, em seu todo, vai
reinventar-se, ao mesmo tempo em que reinventará a própria
relação. Para produzir afecção, por sua vez, é
preciso acionar seus múltiplos sentidos, tocá-lo em seus
diversos corpos, tanto físicos quanto abstratos,
resultantes dos agenciamentos maquínicos com os
equipamentos coletivos de produção de subjetividade.
Assim, o acionamento não deve ser só com a palavra, só
com a imagem, só com a música... o processo precisa
envolver o máximo de dispositivos possível.
Outro
aspecto importante é a dimensão ‘arte da relação’,
a que me referi anteriormente. Isto significa,
imediatamente, que nada é detalhe. Tudo é fundamental.
Quer dizer, além de os dispositivos serem múltiplos,
cada agenciamento deve ser cuidado com esmero, com a
dedicação do ser amoroso, que produz um presente para o
amado. Aquele que vive a alegria produtiva de imaginar que
o presente será recebido com prazer. Deve-se buscar a
produção de emissões comunciacionais, então, como
promessas de agenciamento de prazer, de gozo, para que a
vivência do encontro com o receptor tenha, como cenário,
as intensidades de prazer da produção, de quem se
enfeita para a entrega. Assim, se eu estou fazendo uma
reportagem, criando um cartaz, um logo, um mural, fazendo
um planejamento de comunicação...escrevendo um artigo,
preciso fazê-lo como um enamorado que se prepara para a
entrega. E assim, posso viver o gosto de quem vibra com a
expectativa e acredita na arte da relação, no encanto do
encontro com o Outro, na admiração do ser desejado –
seja ele um namorado, ou o leitor da minha matéria, do
folder do meu cliente, ou o telespectador de um comercial.
Insisto, então, o receptor é o ser amado, desejado na
relação, e o encontro com ele deve representar o
amadurecimento do amor romântico, já que não implica de
fato em fusão total, mas em reconhecimento da sua existência
como ser que também produz o processo da relação.
E
sobre o amor, eu teria ainda tanto pra dizer, mas não vou
fazê-lo. Acredito na intensidade do que disse até agora
e, mais que isso, do que venho produzindo em termos de
comunicação ao longo de minha vida. Comunicação
afetiva, comunicação em processos de produção de
autopoiese... Fica o gosto de quem se arruma
cotidianamente para uma entrega às pessoas, meus
receptores afetivos. Fica o gosto do que tenho produzido
na vida, na constituição da vida em mim e da vida nas
relações, na Comunicação com os seres-Outros, como eu
venho chamando. Fica o gosto de ter acionado substâncias
teóricas para pensar os processos cotidianos da comunicação,
engendrados nas relações múltiplas. Fica, aqui, o gosto
antecipado do encontro com você, leitor, e da
possibilidade de agenciar novas relações, novos
processos de Comunicação. Obrigada por ter estado até
aqui, comigo. Espero que este texto possa agenciar novos
‘conta-tos’ de vida, na vida. Espero você: malu@pazza.com.br
Deixo,
como presente, além deste ‘eu mesma’ inscrita nesta
proposta de abraçar, uma poesia que me toca
especialmente, quando vivo e penso a questão da
subjetividade e dos encontros interacionais
comunicacionais.