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POR
UM PARADIGMA
TRANSDISCIPLINAR PARA
O CAMPO DA
COMUNICAÇÃO
Maria
Immacolata Vassallo de Lopes
ECA-USP
Resumo
A
origem de campos de estudos interdisciplinares como a
Comunicação reside nos movimentos de convergência
e sobreposição de conteúdos e metodologias, os
quais se fazem notar de forma crescente no desenvolvimento
histórico recente das Ciências Sociais e Humanas.
Discute-se especificamente os desafios teóricos e metodológicos
trazidos pelo paradigma histórico da globalização e pelo
paradigma epistemológico da complexidade para o campo da
Comunicação.
Na
América Latina, o pensamento transdisciplinar em Comunicação
constitui uma perspectiva recente que se manifesta no
crescimento de análises auto-reflexivas . Elas tem se
expressado, por exemplo, em
trabalhos de reconstrução histórica do campo
(Fuentes, 1998), de construção de perfis bio-bibliográficos
de pesquisadores latino-americanos relevantes (Melo, 1997)
ou de teorizações sobre a pesquisa de comunicação no
Brasil (Lopes, 1997, 1999, 2003).
Além disso, a questão da condição
disciplinar da pesquisa da Comunicação
tem sido objeto
de preocupação nesta década, tanto em
simpósios (como os da ICA e da INTERCOM/98), como em
números de publicações especializadas (Journal of
Communication, 1983,1993; Telos, 1989, 1996; Comunicação
& Sociedade, 1996).
Desejo
defender a tese de que esta preocupação epistemológica
deve-se a um imperativo do momento atual. Em verdade,
trata-se dos desafios cognitivos trazidos pelos processos da
globalização e
que se traduzem na chamada “crise de paradigmas”.
Segundo
Ianni (1994), as rupturas históricas nem sempre acarretam
rupturas epistemológicas, mas quase sempre vêm
acompanhadas por estas. Por exemplo, as Ciências Sociais são
filhas de rupturas históricas – a revolução francesa e
a revolução industrial. Frente ao novo objeto, a sociedade
global, as ciências sociais são postas diante de novos
desafios epistemológicos. Nas palavras deste autor:
“muito dos seus conceitos, categorias e interpretações são
postos em causa. Alguns tornam-se obsoletos, outros perdem
parte de sua vigência e há os que são recriados. Mas logo
se coloca o desafio de criar novos. À medida em que a
realidade social passa por uma verdadeira revolução,
quando o objeto das ciências sociais se transfigura , nesse
contexto descortinam-se outros horizontes para o pensamento.
(...) Como a problemática da globalização se encontra em
processo de equacionamento empírico, metodológico e teórico,
apenas começa a ser percebida em suas implicações
epistemológicas, como as questões de espaço e tempo,
sincronia e diacronia, micro e macro, singular e universal,
individualismo e holismo, pequeno relato e grande relato”
(1994:154;156). Como novo constructo teórico- metodológico e macro-categoria
das Ciências Sociais, a globalização envolve
necessariamente a dialética singular-diverso e
universal-global. O que implica em não priorizar um momento
em detrimento do outro, mas em reconhecer que ambos se
constituem reciprocamente, articulados de modo harmônico,
tenso e contraditório, envolvendo múltiplas mediações
Segue-se,
então, a
questão que mais nos interessa. É
que a reflexão sobre a sociedade global transborda os
limites convencionais desta ou daquela ciência social e
logo fica evidente que qualquer
análise envolve necessariamente várias ciências. Os múltiplos
aspectos da sociedade global põe em dúvida se ainda há
algum critério que possa ser usado para assegurar, com
relativa clareza e consistência, as fronteiras entre as
disciplinas sociais. No dizer de Wallerstein (1990:402):
“Todos os critérios presumíveis – níveis de análise,
objetos, métodos, enfoques teóricos – ou não são mais
verdadeiros na prática, ou, se mantidos, são obstáculos a
conhecimentos posteriores, antes do que estímulos para a
sua criação”.
Para
o campo da Comunicação, este pode ser um contexto
privilegiado, a ser positivamente apropriado, uma vez que
também os seus limites disciplinares são colocados em
contestação, exigindo assim um olhar crítico sobre o
passado da sua prática de pesquisa.
Podemos
dizer que os estudos da Comunicação foram marcados desde
os seus começos, entre os anos 20 e os 30, pelo paradigma
de Lasswell, responsável por uma visão fragmentada e
parcelar do processo de comunicação que se mantém até
hoje: estudos do emissor, do canal, da mensagem e do
receptor. Em cada um desses fragmentos como que houve uma
“especialização” em determinados aportes
disciplinares. Assim, os estudos do emissor
na economia política ; os estudos do canal na análise
tecnológica; os da mensagem na lingüística e os do
receptor na sociologia ou na psicologia e, mais
recentemente, na antropologia.
Acrescido
a esse problema epistemológico do resgate da totalidade e
da integração do processo de comunicação,
a prática da pesquisa de Comunicação, segundo
Moragas (1985), tem sido meramente pluridisciplinar,
isto é, feita
com a colaboração de distintas disciplinas para o
reconhecimento de um objeto comum, cada uma delas a partir
de sua ótica particular, o que leva apenas a uma justaposição
de conhecimentos díspares e não à sua integração
Segundo o autor, o desenvolvimento do campo
caracteriza-se hoje como interdisciplinar,
pois implica o confronto e o intercâmbio de métodos e
pontos de vista. Para ele, um grau superior de colaboração
dar-se-ia na transdisciplinaridade, etapa ainda não alcançada,
que não se limitaria a posicionar um objeto comum, a
compartilhar ou complementar enfoques metodológicos, senão
que trabalharia com conceitos e teorias comuns às distintas
ciências sociais. A solução destes problemas, para o
autor, deve ser confiada
à investigação epistemológica das próprias Ciências
Sociais, onde se insere a Comunicação.
Mas para o meio tempo, enquanto isso não acontece,
Moragas faz uma proposta
factível de
interdisciplinaridade através do manejo da
bi-disciplinaridade (psico-sociologia, economia-política, sócio-linguística)
dentro do estudo de relações bipolares entre
emissor-canal, mensagem-receptor, mensagem-canal, etc.
Mesmo
que se discorde da
proposta, o mérito de Moragas estava em proceder a uma
discussão teórica sobre o estatuto disciplinar da Comunicação,
e que parece estar sendo retomada depois de mais de 15 anos,
agora de forma convergente, a partir de uma perspectiva
epistêmica, no meio da chamada “crise dos paradigmas”
das Ciências Sociais.
Um
aspecto central para esse avanço é, sem dúvida, o acerto
de contas da
pesquisa de Comunicação com suas heranças epistêmicas
positivistas, dedutivistas e funcionalistas que devem ser
desmontadas criticamente para dar lugar a lógicas mais
complexas e pertinentes à multidimensionalidade do objeto
da Comunicação.
É
o caso do exercício do paradigma
da complexidade
(Morin, 1986;1991) nos estudos de Comunicação. Trata-se de
um paradigma epistemológico transdisciplinar, porque
constituído por um certo tipo de relação lógica
extremamente forte entre noções mestras, noções chave e
princípios chave das mais diversas origens disciplinares.
Oposto ao paradigma de simplificação, Morin define
paradigma da complexidade “como o conjunto de princípios
de inteligibilidade que, ligados uns aos outros, poderiam
determinar as condições de uma visão complexa do universo
físico, biológico, antropossocial” (1986:246). Assim,
segundo ele , o paradigma da complexidade não produz nem
determina a inteligibilidade. Pode somente incitar a estratégia-inteligência
do sujeito investigador a considerar a complexidade do
problema estudado. Incita a distinguir e fazer comunicar em
vez de isolar e de disjuntar, a reconhecer os traços
singulares, originais, históricos do fenômeno em vez de
ligá-los pura e simplesmente a determinações ou leis
gerais, a conceber a unidade-multiplicidade de toda a
entidade em vez de torná-la heterogênea em categorias
separadas ou de homogeneizá-la numa totalidade indistinta.
Incita a dar conta dos caracteres multidimensionais de toda
a realidade estudada. O pensamento complexo só se manifesta
à custa de uma recriação intelectual permanente, pois de
outro modo arrisca-se a degradar-se, isto é, a
simplificar-se. Hoje, um dos sintomas da “crise dos
paradigmas” está na simplificação da teoria. Segundo
Morin, a simplificação da teoria é de triplo espectro.
Primeiro, ela está na
degradação
tecnicista, conservando-se da teoria aquilo que é
operacional, manipulador, o que pode ser aplicado; a teoria
deixa de ser logos para tornar-se tecné.
Segundo, a simplificação esta na degradação
doutrinária, pela qual a teoria torna-se doutrina, ou
seja, torna-se cada vez menos capaz de abrir-se à prova da
experiência, ao confronto do mundo exterior. E, terceiro,
na pop-degradação,
quando através da eliminação das dificuldades, reduz-se a
teoria a uma fórmula de choque, à sua vulgarização.
Por
outro lado, o passado das Ciências Sociais foi feito de
certezas conflitantes entre si e achamo-nos num presente
caracterizado por grandes questionamentos, os quais incluem
o próprio questionamento da possibilidade intrínseca de se
possuir certezas.
É
ao mesmo a que se refere, em outros termos,
A. Moles com as
ciências do impreciso.
A
tônica em que insistimos vai para aquilo que é complexo,
temporal, instável, e que corresponde a um movimento
transdisciplinar que se afirma progressivamente.
A crítica central recai sobre a artificialidade dos
limites disciplinares construidos notadamente no século XIX
, tanto entre os domínios das Ciências Exatas, das Ciências
Sociais e das Humanidades, como entre as disciplinas dentro
de cada domínio, limites esses que foram
mantidos mais por tradições institucionais do que
intelectuais (Wallerstein, 1996). Os desafios trazidos pela
compreensão de novos objetos, como é a Comunicação,
encaminham à
formação de novas sínteses disciplinares ou convergências
disciplinares, isto é,
de “transdisciplinas”.
A
possibilidade de que a Comunicação aproveite positivamente
dessa e de outras maneiras
as conjunturas epistemológicas e metodológicas que
a “crise dos paradigmas” nas Ciências Sociais abriu,
pode advir paradoxalmente do fato de ela ser um espaço de
conhecimento onde a institucionalização disciplinar tem
sido mais débil. Apesar das condições desfavoráveis que
isso supõe, talvez daí ela tenha arrancado o sentido crítico
e transformador que tem sido uma das marcas distintivas do
pensamento latino-americano em Comunicação.
Entretanto,
a proposta transdisciplinar tem causado tensões e polêmicas,
na medida em que a institucionalização de um campo supõe
sua especialização disciplinar.
A
atual tendência latino-americana tem se expressado na
proposta de inserir a pesquisa de Comunicação no espaço
das Ciências Sociais e Humanas e no desenvolvimento do
enfoque sócio-cultural Aí são vistos obstáculos à
delimitação de um objeto próprio e à sua legitimação
acadêmica. Por isso, torna-se necessário aumentar no campo
da Comunicação o movimento de auto-reflexividade que se
espraia em todo o campo das Ciências Sociais, com
particular atenção à reflexão epistemológica crítica e
atualizada. Acreditamos que a prática transdisciplinar pode
se produzir através de movimentos de convergências
e de apropriações mútuas, tais como, a partir da
Comunicação são trabalhados processos e dimensões que
incorporam perguntas e saberes históricos, antropológicos,
estéticos, ao mesmo tempo que a sociologia, a antropologia
e a ciência política começam a se voltar, de forma não
marginal, para os meios e os modos como operam as indústrias
culturais.
A
consciência crescente do estatuto transdisciplinar do campo
permite dar conta da multidimensionalidade de que na
sociedade se revestem os processos comunicativos e de
sua crescente
importância para a produção da modernidade em países
como os da América Latina. É o que leva Martin-Barbero a
afirmar que “a transdisciplinaridade de modo algum
significa a dissolução dos problemas-objeto do campo da
comunicação nos de outras disciplinas sociais, mas
a construção de articulações –
intertextualidades - que
fazem possível pensar os meios e as demais indústrias
culturais como matrizes de desorganização e reorganização
da experiência social e da nova trama de atores e de estratégias
de poder” (1996:62).
Em
conclusão, o paradigma da transdisciplinaridade é conseqüência
de fatores “internos” - a convergência que se nota nas
modernas análises das Ciências Sociais e de fatores
“externos” - o processo histórico da globalização,
que se acumularam sobre o campo da Comunicação e que fazem
dele “um lugar estratégico para o debate da
modernidade”.
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