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Ceticismo e interdisciplinaridade:
paradoxos e impasses da teoria da comunicação

 

Luiz C. Martino

Universidade de Brasília

 

Resumo: Tradicionalmente tem-se apontado a natureza interdisciplinar do conhecimento comunicacional. O presente trabalho discute as relações paradoxais dessa visão com o corrente cepticismo de nossa área a propósito da possibilidade da constituição de uma disciplina. O objetivo é discutir criticamente estas relações ao mesmo tempo que fornecer um quadro esquemático da história do campo comunicacional, onde podemos situar os deslocamentos de sentido da interdisciplinaridade, que inicialmente era uma condição natural de um campo em formação, para se tornar um estatuto epistemológico, ou melhor,  anti-epistemológico.

 

 

Em seus quase oitenta anos de existência o saber comunicacional conheceu diferentes posicionamentos hegemônicos frente ao tema de sua auto-imagem ou sobre o estatuto de seu conhecimento (técnica? arte? ciência?...). Correndo-se o risco de um certo esquematismo, é possível destacar algumas posições meta-teóricas, cujo período de supremacia pode nos ajudar a marcar algumas fases no desenvolvimento do campo comunicacional: 1) a fase positivista; 2) a fase do cepticismo, inicialmente crítico, depois vitorioso; 3) a fase interdisciplinar (que deve ser distinguida da interdisciplinaridade presente na fase céptica).  

 

Há um certo consenso tácito em aceitar a emergência do saber comunicacional por volta dos anos 30, quando aparece uma primeira preocupação de investigar os meios de comunicação a partir de uma perspectiva científica. Desta data até o meio da década de 70 temos um período fortemente marcado pela inspiração positivista, cujo traço distintivo é o otimismo em torno da possibilidade de abordar os prementes problemas, liberados no século anterior, dos efeitos dos meios de comunicação na sociedade industrial. Trata-se na verdade de aplicar o prestigiado método científico, inspirado por uma concepção positivista da ciência, a um novo campo de observação. Dessa forma, o problema se encontrava formulado de antemão e de maneira simples, o que justificava o entusiasmo dos pesquisadores: dispunham de métodos e de fatos, ou seja, de todos os ingredientes que se supunham necessários para dar conta do problema; tudo o que tinham que fazer era investir no desenvolvimento de uma fórmula, um pequeno ajuste dos métodos, para que enfim todo o poder da ciência da época pudesse ser aplicado e assim esclarecer o misterioso efeito dos meios de comunicação. 

Contudo, o tempo passou e os fracassos se acumularam para aqueles que esperavam por respostas precisas e imediatas. Mesmo quando minimizados, já era possível perceber que os problemas ultrapassavam, em muito, a simples adaptação de métodos ao novo campo. Os fenômenos comunicacionais começavam a revelar toda sua complexidade, exigindo novas bases para seu tratamento e uma reformulação da própria idéia que se tinha sobre a geração de conhecimento na matéria.

Um novo arranjo hegemônico, transitório e de matiz céptico, aparece com a falência do modelo positivista enquanto “método” e “filosofia” da ciência. Na verdade, se tratava dos ecos de uma crítica a esse modelo, o qual já era contestado no interior mesmo das discussões epistemológicas da ciência em geral e que chegavam tardiamente a nosso domínio. Sem a garantia empenhada pelos esquemas positivistas, sem um conceito prêt-à-porter para ser imediatamente apropriado e usado na justificativa do saber emergente, os comunicólogos se mostravam desorientados no que concerne à fundamentação de seu domínio de conhecimento. Assim começa a ruir a idéia de uma disciplina científica para tratar os problemas ligados aos meios de comunicação.  

A partir dos anos 80, e de forma mais clara nos anos 90, a comunicação fica privada da base de sustentação que lhe conferia certa unidade e vai se permitir uma certa “deriva epistemológica”.  O que lhe tornará pródiga de assuntos e abordagens diversas [1]; decorrência natural do abandono do lastro das determinações metodológicas pregadas pelos primeiros positivistas. Este período é marcado por certo estado paradoxal, onde o intenso desenvolvimento de novas temáticas e abordagens sugere um otimismo fortemente contrastante com o fraco desenvolvimento teórico e o estado da reflexão sobre a fundamentação desse saber. Neste último aspecto, deve ser destacado o fato de que a crítica dirigida contra a influência positivista não ofereceu uma alternativa à questão dos fundamentos; ela não foi capaz de gerar e colocar em andamento um novo conjunto de princípios que pudessem substituir e se encarregar das funções de sustentação e de desenvolvimento do saber comunicacional. Desamparada de um trabalho de fundamentação maior, mas otimista e principalmente expansionista em sua crescente atividade em torno da análise de fenômenos de comunicação cada vez mais diversificados, a nova disciplina chega a sua fase “adolescente” repartida entre os traços de uma fundamentação infantil e os elementos de uma maturidade que se anuncia na reivindicação de um estatuto interdisciplinar. 

 

O problema central desse artigo é tentar compreender um pouco melhor a adoção do pensamento interdisciplinar em nossa área. O que teria levado a comunicação a abraçar a interdisciplinaridade como uma de suas características mais marcantes, chegando por vezes a identificar comunicação e interdisciplinaridade?

Em um trabalho anterior, Ceticismo e Inteligibilidade do Saber Comunicacional, havíamos constatado um desconcertante paradoxo: as autoridades da área, isto é, os nomes mais ilustres e reconhecidos por sua produção ou seu conhecimento teórico, eram também os autores dos argumentos mais críticos a respeito da fraqueza da produção teórica no domínio da comunicação, ao ponto de serem absolutamente cépticos quanto à possibilidade de uma ciência da comunicação, ou algo equivalente. Ora, esta coincidência entre as autoridades e a expressão de uma crítica mais dura em relação à natureza do saber comunicacional, por mais embaraçosa que pudesse ser, nunca chegou de fato a incomodar a área, já que não é devidamente problematizada. E isto constituía um segundo fator intrigante, que se somava ao paradoxo acima. Por outro lado, pudemos observar que este movimento céptico não se deu de forma isolada, mas veio acompanhado da afirmação do campo comunicacional como um campo interdisciplinar. Constatávamos que a defesa da interdisciplinaridade (promovida por essas mesmas autoridades) constituía, na verdade, uma reação que compensava a atitude céptica. A conclusão que tiramos foi que a interdisciplinaridade se apresentava, então, como uma reação ao cepticismo, fornecendo as condições para superar a descrença e fundar um saber comunicacional.

No entanto, é interessante notar como a atitude céptica e o pensamento interdisciplinar, malgrado suas diferenças, acabam convergindo em relação ao problema da geração de conhecimento no campo. Se a primeira se recusa a admitir a possibilidade de um saber comunicacional, a interdisciplinaridade, por sua vez, não permite que falemos em teorias da comunicação no sentido preciso do termo, já que estas teorias não pertencem, ou não são geradas por um saber comunicacional. Elas são tomadas emprestadas de outros domínios de conhecimento, de modo que o saber comunicacional é apenas um rótulo, um continente, para estas teorias que se entrecruzam num objeto comum, os processos comunicacionais, definido de modo bastante amplo. As “teorias da comunicação” seriam, na verdade, teorias da sociologia, da psicologia, da política, da lingüística... e o saber comunicacional seria, no máximo, um conhecimento aplicado, sem fundamentação teórica própria, salvo aquela de reunir o conjunto desses saberes e de eventualmente adaptá-los para o evento que se deseja  investigar. 

É preciso frisar que este movimento de importação de teorias de outros domínios de conhecimento aparece na argumentação céptica como uma contundente crítica para refutar e afastar qualquer possibilidade de ver na comunicação um saber autônomo. No entanto, este mesmo fenômeno é retomado no pensamento interdisciplinar, mas em um sentido bastante diferente. Se para a posição céptica, trata-se de um impedimento, algo que exclui a possibilidade de fundar uma disciplina comunicação, para o pensamento interdisciplinar, a diversidade teórica constitui uma espécie de evidência (ou “fato”) que representa e comprova a natureza do campo comunicacional.  A falta de produção teórica própria agora reaparece como signo da natureza interdisciplinar do saber comunicacional. Ambos vêem na importação de teorias um “fato” fundamental e constitutivo de nossa área, mas tiraram dessa constatação conseqüências diametralmente opostas, que apesar disso não deixaram de se confundirem e de se compatibilizarem no movimento da história de nossa domínio de conhecimento.

Por exemplo, é muito curioso ver que o pensamento interdisciplinar acaba coincidindo em dois pontos importantes com o positivismo, do qual ironicamente procura se destacar rechaçando seus principais princípios (embora esta crítica raramente seja realmente efetuada). Primeiro, porque ao aceitar a diversidade da base teórica como uma evidência, o pensamento interdisciplinar institui o fenômeno aqui em questão como um “fato”, conferindo à observação um papel capital. Mas tal primazia da observação, como se sabe, é um ponto muito característico do positivismo e que foi amplamente criticado pelas correntes epistemológicas que se seguiram a ele. Como qualquer outro fenômeno, a diversidade de teorias não tem um único significado, sendo passível de interpretações diferentes, as quais precisam ser argumentadas e discutidas e não simplesmente aceitas como uma evidência inquestionável, como querem nos fazer crer os defensores da interdisciplinaridade do saber comunicacional. O segundo ponto traz uma semelhança ainda mais flagrante, pois ao reivindicar uma superação das divisões do saber, o pensamento interdisciplinar acaba convergindo com o ideal positivista de unificação da ciência. O positivismo defende a tese de que as barreiras entre as disciplinas são apenas provisórias e com o desenvolvimento do conhecimento científico chegaríamos ao ponto de poder explicar os fenômenos através de saberes mais fundamentais ou mais abrangentes. Esta tese é conhecida pelo menos desde Auguste Comte e ainda sobrevive hoje em dia em versões mais sofisticadas em autores como Neurath (1938) ou Oppenheim, P.; Putnam (1980). 

 

Mas para além de todas essas coincidências, e de outras que ainda poderiam ser levantadas, julgo importante situar-nos um pouco em relação à história de nossa área para melhor compreender as ligações entre o cepticismo e a interdisciplinaridade. Não tomaremos como referência os processos sociais relativos às mudanças estruturais (ou funcionais) da comunicação na sociedade moderna, nem tampouco o desenvolvimento tecnológico e os novos meios de comunicação, com as inquietações que se formaram em torno deles. Sem desprezar em nada o valor desses outros referenciais, partiremos do pressuposto de que uma área de conhecimento somente pode ser considerada como tal quando passa a ter uma idéia de si mesma. Nessa linha de análise a emergência do campo comunicacional tem um requisito bastante claro a ser preenchido, que torna mais fácil de reconhecê-lo que nos outros referenciais citados. O campo comunicacional emerge de forma clara no momento em que volta-se para si mesmo e se coloca a questão de definir seu estatuto. É a partir das discussões epistemológicas que podemos dizer que deixamos de ter um campo (no sentido amplo e vago desse termo) e passamos a ter discussões mais avançadas sobre a possibilidade de uma disciplina ou autonomia do saber comunicacional.  

Não é necessário insistir aqui sobre a dificuldade de ter-se precisão em matérias como esta, mas ao longo da história do desenvolvimento das teorias da comunicação, obras como a de Katz e Lazarsfeld (1955) e de Wilbur Schramm (1963) se destacam facilmente na opinião dos especialistas (cf. Delia, 1987). Esta última, particularmente, se apresenta como um verdadeiro marco do início de uma reflexão epistemológica na área. Vemos que, por este critério, o saber comunicacional é bastante recente, se aproximando de meio século de história. Por isso mesmo, o peso dessas obras pioneiras ainda se fazem sentir, como uma herança que ainda desempenha uma forte influência na estrutura de nosso campo e no papel mesmo que reservamos à teoria. A influência de Schramm foi realmente marcante e pode ser lida tanto no sentido de uma defesa da comunicação como uma ciência, como também pela posição inversa[2]. Sua famosa frase, que define a comunicação como uma “ciência encruzilhada”, entrecortada de saberes diversos, continua sendo um símbolo, tanto para cépticos, quanto para os defensores da interdisciplinaridade, que a enxergam segundo suas respectivas conveniências. E daí, talvez, uma das razões de seu longo sucesso.  Sua obra então pode ser considerada não apenas um marco inaugural para as reflexões epistemológicas, mas uma fonte que corre para os dois lados de uma mesma história, cuja dinâmica continua a refletir esta ambigüidade presente em suas origens.

Marquemos as etapas dessa história. Admitamos, como muitos, que o trabalho organizado e editado por Schramm em 1963, seja um primeiro momento de reflexão epistemológica para a implementação do saber comunicacional. A própria estrutura dessa obra já é por si só bastante significativa, pois parece retratar o estado de boa parte de nossa produção metateórica. Apesar de seu título expressivo, “A Ciência da Comunicação”, ela na verdade é uma compilação de artigos de autores diversos, que trabalhavam em suas pesquisas de forma mais ou menos isolada. Seria portanto inútil procurar pela unidade orgânica deste conjunto de textos, cujo objetivo comum era apenas o de serem conferências radiofônicas encomendadas pela Voz da América. A intenção dessas transmissões era levar um pouco de informação para os ouvintes, dentro da proposta de divulgação cultural organizada de forma estratégica desde os anos da II Guerra Mundial, onde o rádio mostrou-se um potente instrumento de elo cultural entre as colônias alemãs espalhadas pelo mundo. 

Contudo há algo mais, já que Schramm buscava organizar e dar uma amostra do estado em que se encontravam algumas importantes correntes de pesquisas que se aplicavam no  estudo de problemas ligados aos meios de comunicação. O plano da obra segue esta direção graças a seu artigo introdutório, no qual procura não apenas fornecer uma base para relacionar os distintos textos, mas também um pouco da fundação de um saber comunicacional. De modo que podemos aí ver uma tentativa, tão clara, quanto desconcertada, de fundar uma ciência da comunicação. Aliás, é altamente revelador que dos quatro “pais fundadores” nela apontados (P. Lazarsfeld, K. Lewin, H. Lasswell e C. Hovland) nenhum deles se preocupe em falar de uma “ciência da comunicação” ou qualquer coisa sobre a autonomia deste saber [3]. Todos são amplamente reconhecidos pela genialidade de seus trabalhos, salvo em um único “detalhe”, o de não se darem conta de que estavam fundando uma nova ciência. Se interpretamos a obra de Schramm neste sentido, também teremos que admitir que as produções destes pioneiros inconscientes, ao contrário do que acreditavam, não seriam mais do âmbito da sociologia, da psicologia ou das ciências políticas, mas sim de uma nova disciplina, a comunicação.  Uma vez mais nos deparamos com detalhes paradoxais da emergência de nossa disciplina, que ao que parece teria se constituído à revelia, quase “sem querer”, de modo que ela passa a existir sem que ninguém tenha assumido sua paternidade. E sabemos que Schramm desempenha um papel importante nesta história, porque é ele que atribui esta “responsabilidade”, quando na verdade é ele mesmo que deveria merecer o título, já que introduz na obra desses autores algo que eles próprios não viam nelas. É Schramm  que “inventa” uma ciência da comunicação, lá onde outros viam apenas trabalhos de outras disciplinas já constituídas.

Mais que qualquer outra coisa, mais que um dom visionário, uma intuição original ou uma boa percepção do estado do conhecimento daquela época, talvez seja mais justo dizer que a contribuição dessa obra foi trazer uma nova dimensão aos estudos de comunicação, a idéia da comunicação como uma ciência, que passará a ser subentendida ou questiona, em todo caso, formulada e visível, como uma grande interrogação que não deixará mais a pauta das discussões sobre a fundamentação da área. É no seu encalço de negação, correções ou complementos que poderão aparecer os verdadeiros pais fundadores da comunicação, ou seja, todos aqueles autores de textos básicos  – os manuais de teorias da comunicação, como os de M. De Fleur (1966) e M. Wolf (1985) –, gerados pela exigências da institucionalização do saber comunicacional na academia, e que repetindo o gesto fundador de Schramm, elegeram de forma mais ou menos arbitrária (pelo menos não justificada) um conjunto de teorias para formarem o corpus teórico da comunicação, o qual tem servido de referência na formação dos profissionais e pesquisadores da área. 

É extremamente curioso constatar que uma obra de referência epistemológica para a constituição de um campo de conhecimento e que tanto influiria na história do  saber comunicacional, tenha tais características: ter sido transmitida em massa e concebida para um público leigo, como uma compilação de autores que não acreditam na disciplina que supostamente fundaram. A comunicação traria esta inconfundível marca, de ver seus fundamentos epistemológicos nascerem “à revelia” e de um material de divulgação,  ligeiros e insólitos como o ar que lhes serviu de suporte. Seja como for, a idéia de uma “ciência da comunicação” estava lançada, ainda que muito mais no título, que realmente em seu conteúdo. Ela encontrava eco em outros usos vagos e imprecisos do termo ciência e em trabalhos como o de Tchakhotine [4], que procuravam se servir de conhecimentos científicos para analisar a propaganda de Estado e os emergentes fenômenos de opinião pública. Pois bem, é esta concepção vaga e inconsistente de ciência que irá servir de referência para todo o debate em torno da cientificidade dos estudos de comunicação e irá despertar a crítica céptica, como um crescente movimento de reação.

Estas primeiras discussões epistemológicas dos anos 60 vão logo superar uma polarização inicial sobre a possibilidade ou não de um saber comunicacional autônomo; elas irão forçar uma reflexão sobre a matéria, de modo que o propósito inicial de fundar uma ciência da comunicação irá ser rapidamente derrotado já nos anos 70 pela melhor fundamentação dos argumentos cépticos. O cepticismo em questão tinha então uma função crítica importante, que anulou com facilidade uma incipiente e muito equivocada tentativa de formar um saber comunicacional entendido e identificado como uma “ciência da comunicação”.

A partir dos anos 80, o debate parecia claramente superado, com a hegemonia da tese segundo a qual a comunicação não constituía (e para muitos nunca chegará a constituir) um saber autônomo. Mas a consolidação dos cursos de pós-graduação provocaria uma renovação do problema. A necessidade de uma sistemática produção de teses em comunicação aumentou a demanda de problemas e teorias propriamente comunicacionais, relançando a questão da autonomia do saber comunicacional. Problemas ligados à justificativa de um lugar institucional repercutiam diretamente no problema da definição desse saber. Começou a aparecer uma certa inquietação a respeito de qual seria, então, o estatuto do saber comunicacional, já que não poderia ser uma ciência. O que também significou uma nova tomada de  posição em relação ao cepticismo e uma alteração importante no sentido deste. Sim, porque uma coisa é aceitar um cepticismo que no exercício da crítica venha desconstruir uma equívoca e apressada idéia de “ciência da comunicação”, mas outra, muito diferente, é ter que conciliar  – no limite da incongruência e da responsabilidade da não-contradição –  a construção de um lugar institucional, a construção de uma disciplina acadêmica no sentido pleno, com a idéia de que nosso saber, quando muito, seria apenas um saber “emprestado”, que nossas teorias, são teorias apropriadas de outros saberes. Os argumentos cépticos podiam muito bem sustentar a falta de coerência das teorias em relação ao campo, a fraqueza da produção teórica própria, mas se mostravam francamente inadequados e incompatíveis com as exigências da prática de ensino de pesquisa em comunicação, com a produção de teorias, problemas, métodos, enfim com tudo aquilo que dizia respeito aos aspectos institucionais e teóricos ligados à produção de conhecimento em comunicação. Como seria possível montar um curso de comunicação, se tudo o que temos a dizer é que não existem teorias da comunicação? Como produzir pesquisa e teses, se tudo o que temos a dizer é que a idéia de um saber comunicacional não seria sustentável?

É verdade que o cepticismo crítico não teve dificuldades para se afirmar, mas uma nova fase é iniciada a partir do momento onde, vitorioso, ele perde essa função crítica e passa a se constituir como referência epistemológica. Se num primeiro momento ele tem um sentido salutar, num segundo momento ele porta um grave problema, pois a área estaria privada de fundamentação teórica. Mesmo assumindo a idéia de que a comunicação seria apenas um saber aplicado, ou subalterno (como em Moragas, 1981), os pesquisadores em comunicação pareciam não poder escapar de um lancinante dilema: ou se conformavam com uma certa erudição superficial (saber um pouco de muito e nada de coisa alguma), calcada sobretudo em suas  capacidades retóricas; ou, por outro lado, deveriam procurar se aprofundar nos saberes de outras disciplinas e assim paulatinamente se afastar do campo, reduzindo-o aos problemas e abordagens da disciplina escolhida. Então, se aquela primeira fase de afirmação do cepticismo foi uma atitude muito conveniente, já que não haviam trabalhos satisfatórios que pudessem fornecer uma fundamentação para a área, por outro lado, ele inibiu o desenvolvimento dessa fundamentação, deixando o grave problema de justificar nossas atividades de pesquisa, de ensino e mesmo a existência da própria área, já que não se trataria de um verdadeiro saber, mas de habilidades práticas, reduzidas à simplicidade técnica ou elevadas à impossibilidade artística. De todo modo, a comunicação não poderia justificar sua permanência na academia sem coincidir e repetir outras disciplinas já instituídas e melhor fundamentadas.

O triunfo do cepticismo deixou uma pergunta e uma grave lacuna epistemológica: se a comunicação não é uma ciência, qual o estatuto de seu conhecimento? As respostas mais imediatas seriam tomar a comunicação quer como uma técnica, quer como uma arte, ou ainda como uma filosofia. Em todo caso, independentemente da verdade ou do grau de simpatia que eventualmente tenhamos em relação a qualquer uma dessas respostas, fica perfeitamente claro que elas são incompatíveis com a idéia de haver “teorias da comunicação”. O termo teoria se aplica com propriedade ao trabalho científico e não se confunde com o ‘know-how’, a crítica estética ou o discurso filosófico. Também a longa tradição que liga os problemas de nossa área ao de outras ciências humanas e sociais (como a sociologia e a psicologia, por exemplo), não poderiam se contentar com estas respostas. Por esta razão, para fazer face aos problemas colocados pelo segundo momento do cepticismo, a interdisciplinaridade deixa de ser uma simples evidência, como no tempo de Schramm, e passa a ser um estatuto epistemológico. Quer dizer, uma justificativa para a existência de um saber comunicacional que, por diferentes razões, não podia se amoldar perfeitamente a nenhuma classe de conhecimento. Por não ser uma forma de conhecimento como outras, a comunicação deveria assumir um estatuto sui generis, ela seria interdisciplinar.

Isto implicava que a interdisciplinaridade ganhasse um novo sentido e passasse a ser vista como um novo paradigma emergente. Onde o cepticismo via um obstáculo, uma objeção ao estatuto científico, o pensamento interdisciplinar vai entender que a comunicação não somente é uma forma de conhecimento válida, mas que supera as chamadas formas “tradicionais”. Se de um lado a comunicação tinha dificuldades em estabelecer um estatuto científico, era, por assim dizer, menos que uma ciência, ela agora ultrapassa o pensamento científico, para se instaurar além e acima de seus requisitos. A palavra de ordem passa a ser a complexidade e o pensamento científico passa a ser rejeitado e tomado como alvo de pseudo-críticas que muitas vezes não têm a menor idéia daquilo que criticavam.

Mas independente da avaliação que tenhamos sobre a propriedade e a validade dessa crítica ao conhecimento científico, é preciso ter em conta que a mudança de registro da interdisciplinaridade é uma resposta ao próprio sucesso do cepticismo, que uma vez triunfante, perde o aspecto crítico que o caracterizava e começa a ser visto como uma ameaça à área. A não existência de um saber comunicacional autônomo, a não existência de teorias próprias, nos levam a uma imagem muito fraca e talvez mesmo insustentável da área. Este quadro sugere que a interdisciplinaridade veio, portanto, preencher uma lacuna quanto ao estatuto do saber comunicacional, ao mesmo tempo que se ergue como uma resposta ao novo sentido do cepticismo triunfante.

As bases dessa nova fase da interdisciplinaridade é construída ao longo dos anos 80, mas sua repercussão sobre a produção teórica de nossa área se faz sentir a partir dos anos 90, quando assume o sentido de uma “opção epistemológica”, procurando se constituir cada vez mais como alternativa à disciplinaridade e negação da ciência, duas características que a distingue da interdisciplinaridade dos anos 60 e 70. Vemos então um importante deslocamento de sentido, já que ela deixa de ser entendida como complemento de uma estrutura disciplinar (intersecção de campos constituídos) ou como uma fase necessária para a instauração de um novo campo, para se tornar um outro estatuto do conhecimento. Nesse movimento ela tende a radicalizar cada vez mais sua oposição em relação ao pensamento científico, reivindicando o lugar de uma “pós-epistemologia”, ou melhor, de uma anti-epistemologia, já que seu principal motor é a negação mesma da ciência ou de alguma de suas características básicas (racionalidade, sistematização, disciplinaridade...).

 

Em suma, na seqüência dos problemas discutidos em nosso artigo “Cepticismo e Inteligibilidade do Saber Comunicacional”, onde apontávamos o aparente paradoxo que relacionava o cepticismo dos teóricos da comunicação com a interdisciplinaridade, podemos avançar na matéria entendendo esta última como uma etapa histórica da produção teórica, e consequentemente uma nova forma de percepção da área em relação a si mesma. A interdisciplinaridade passa a ser compreendida como uma alternativa epistemológica, ou mais precisamente, anti-epistemológica, já que reivindica uma importante ruptura com as chamadas formas “tradicionais” do pensamento científico. Esta interpretação sugere que o fortalecimento do pensamento interdisciplinar em direção à constituição de uma posição hegemônica em nossa área, está diretamente ligada a uma mudança funcional no regime do cepticismo teórico/epistemológico da área, que vai perdendo sua função crítica (já que vitorioso em relação à postulação da comunicação como uma ciência), sem que entretanto pudesse oferecer as condições necessárias para a constituição de um saber. A interdisciplinaridade aparece então como uma solução capaz de incorporar a crítica céptica ao mesmo tempo que aponta uma solução para o estabelecimento de um saber comunicacional.

Contudo, a sedução dessa posição interdisciplinar mantém-se às expensas do desenvolvimento da reflexão epistemológica. Na verdade esta posição apenas prolonga a imagem inconsistente das primeiras formulações da comunicação como ciência, que serviram de substrato aos argumentos cépticos. Ela lança a área de comunicação num equivocado processo de reinvenção do conhecimento, o que a isola de sua base epistemológica e planta sua fundamentação num terreno de possibilidades insólitas. 

 

 

Bibliografia

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[1] B. Miège marca um período de “ampliação das problemáticas, situando-o nos anos 70 e 80. Entre as novas orientações de pesquisa ele indica: a economia política da comunicação, a pragmática, a etnografia da comunicação, a etnometodologia, as sociologias da tecnologia e da mediação, a recepção das mensagens e o uso dos meios, as filosofias da comunicação.

[2] Essa posição ambígua e confusa entre a defesa de um estatuto científico e ao mesmo tempo interdisciplinar para a comunicação também pode ser visto em outros autores influentes, como por exemplo Martin Serrano.

[3] Esta mesma conclusão por ser tirada tomando-se outros referencias, como por exemplo a Cibernética, a Escola de Frankfurt ou a Semiologia/Semiótica, Escola de Palo Alto... ou qualquer dos grandes marcos freqüentemente apontados como o início das teorias da comunicação. Nenhum dos grandes nomes ligados a estas correntes chegou a cogitar a fundação de uma disciplina comunicação.

[4] Tchakhotine, Serge –  A Mistificação das Massas pela Propaganda Política.  Ed. Civilização Brasileira.  Rio de Janeiro, 1967.

 


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