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Mundos
imaginados em Muvuca
Suzana
Kilpp
Universidade
do Vale do Rio dos Sinos
Resumo
Há
procedimentos de ordem técnica e estética que enunciam
sentidos identitários aos programas de TV que vão além do
seu “teor conteudístico”, e que os tornam programas
propriamente televisivos. Enquanto é engendrado como uma
das mais importantes ethicidades televisivas, um programa é
também enunciado, como tal ou qual, no interior de certos
quadros de experiência ou significação (as molduras) que
são verdadeiros mundos televisivos. O artigo analisa
panoramas do programa Muvuca e conjetura sobre mundos que são nele imaginados.
Palavras-chave:
Mundos televisivos; Muvuca; Ethicidades televisivas.
Ethicidades
televisivas e mundos imaginados
A
televisão participa da instituição imaginária de
sociedades e culturas, sendo que ela o faz principalmente
instaurando mundos televisivos, nos quais têm visibilidade
pessoas, objetos, durações, fatos e acontecimentos que são
as virtualidades aqui chamadas de ethicidades televisivas[1]. Mesmo as emissoras, os canais, os gêneros, os
programas (e os promos, vinhetas e anúncios publicitários),
a programação e os panoramas televisivos são enunciados
pela tevê como ethicidades televisivas, constituindo-se, além
disso, como importantes molduras de outras ethicidades.
Estou
propondo inicialmente, então, que a televisão seja vista
como um composto de molduras sobrepostas - emissora, canal,
gênero, programa (e promos, vinhetas e anúncios publicitários),
programação e panorama televisivo -, que a configuram como
um híbrido. Em sua fluidez e opacidade, em grande parte
causada também por uma sobreposição incessante de outras
molduras nos panoramas que vemos na telinha, a TV é um ser
ou uma tendência, uma virtualidade que se atualiza em
certas televisões, ou em certas práticas - mais ou menos
prevalentes, mais ou menos agendadas, que podem ser
diferentes no tempo e no espaço - que lhe conferem
historicidade e peculiaridades territoriais.
Ao
instaurar esses mundos, a tevê imagina uma sociedade que, a
sua vez, imagina a televisão. Ela o faz principalmente
recortando, moldurando e editando fragmentos e restos
culturais, ressignificando-os em quadros de experiência
tipicamente televisivos, nos quais ganham existência as
alteridades televisivas, e os sentidos para elas enunciados
encontram-se antes de tudo nos modos de dizê-las, mostrá-las
e relacioná-las umas com as outras. Tanto a brasilidade
quanto a própria TV, entre outras ethicidades, são assim
enunciadas, com certos sentidos, em práticas que tendem a
ser homológicas e que instituem gramáticas audiovisuais de
TV. Os sentidos, portanto, devem ser menos buscados no que
se tem chamado de conteúdo dos programas de televisão e,
mais, nessas gramáticas de grande opacidade que se ocultam
por trás do que é dito e mostrado de forma imediata numa
transparência que é apenas aparente.
Muvuca
e as gramáticas audiovisuais de TV
Muvuca
é um programa de entrevistas que foi ao ar pela TV Globo a
partir do final de 1998, produzido pelo Núcleo de Guel
Arraes, tendo Regina Casé de apresentadora âncora. Foi lançado
aos sábados à noite, em horário nobre, e assim permaneceu
por alguns meses, quando passou para as terças-feiras, foi
reformatado e acabou saindo do ar depois de mais alguns
meses.
Teve
duas grandes fases, bastante diferentes uma da outra. Meus
comentários referem-se à primeira delas, aquela em que o
programa acontecia na “casa” (o chamado castelinho do
alto do Jardim Botânico), em que o cenário era uma grande
“residência” em atividade “real”, com dependências
“reais” e cujo funcionamento, como casa e como estúdio
de gravação, era mantido por pessoas “reais” –
equipe do programa e empregados contratados para cuidar da
casa - uma ambiência híbrida, portanto, um “cenário”
(falso) “real” que é uma moldura muito peculiar se
comparada com as demais ambiências dos programas de
entrevistas, da TV Globo ou de qualquer outra emissora.
Entre
as muitas coisas que me impressionaram na estréia de Muvuca
(14.11.1998) estava a mostragem de molduras e moldurações[2],
estratégia enunciativa e crítica que se manteve em todos
os programas da primeira fase. Gramáticas audiovisuais de
TV deram-se a ver expressamente nos tensionamentos feitos
por Muvuca a práticas
habituadas de outros programas, desenhando alternativas à
sua retórica. Tratava-se, aí, não apenas de um
procedimento nitidamente artístico, mas também de uma
teorização implícita sobre linguagens e poéticas
televisuais.[3]
Na
estréia, enunciou-se o que deveria ser toda a série. Muvuca
começou direto (moldurado simplesmente pelo final da novela
que lhe precedia na programação) com Regina Casé abrindo
as janelas de uma casa fechada, no escuro. Com a entrada da
luz do sol, viu-se uma casa vazia. Em seguida, ocorreu a
primeira entrevista, enquanto o entrevistado espalhava bons
fluidos pelas peças, cantos e recantos do ambiente. Um
pouco adiante, Regina conversou com membros da Academia
Brasileira de Letras para definir a palavra muvuca, que não
constava ainda dos dicionários da língua portuguesa. Sem
definir, dois deles sugeriram, no entanto, algo
“gelatinoso, pegadio”, a “reunião de pessoas
animadas, muito alegres”.
Mais
adiante, entrou o promo do programa - uma casa com muitas
janelas: na primeira seqüência de imagens, em cada janela
havia o retrato-máscara de uma persona
(são pessoas que depois foram entrevistadas), instaurando
um conjunto de máscaras híbridas
(homem-animal-arte-planta, de um lado; pintura-fotografia-vídeo,
de outro); na segunda seqüência, um avião psicodélico
passava diante da casa (agora com as janelas fechadas),
arrastando pelo ar um banner em que estava escrito o nome da apresentadora; na terceira e
última seqüência, em cada janela aparecia uma imagem,
outra vez híbrida, de uma letra (M-U-V-U-C-A) e uma planta
e, ao fim, um retrato de Casé, compondo com elas, as letras-planta, a fachada da casa.
Na
TV Globo, em geral os promos “abrem”
os programas, como uma primeira moldura que enuncia sentidos
identitários ao programa: o gênero, o teor, a estética,
os protagonismos. No caso que estou descrevendo, antes de o
espectador assistir pela primeira vez ao promo de abertura,
houve uma longa explicitação, em um longo tempo de TV, dos
sentidos éthicos
enunciados para Muvuca.
Nesse tempo, o espectador foi introduzido no ambiente do
castelinho (o cenário-moldura de toda primeira fase da série)
e, paralelamente, na experimentação e significação de
uma identidade inventada no título do programa
(os títulos/nomes dos programas são outra moldura).
Na
TV Globo, em geral o tempo dos programas termina (moldura
final) com a rolagem dos créditos, um fragmento da vinheta
do programa e a logomarca da emissora. No caso do programa
de estréia de Muvuca, um dos entrevistados de Regina Casé foi Cid Moreira, e Casé
alardeava ser aquela “a primeira entrevista que Cid
concedia”, fato que ocorria “casualmente” no dia de
seu aniversário. Ao final da seqüência em que está sendo
festejado o aniversário, o mesmo foi incitado a dizer o clássico
“Boa noite” com o qual o âncora do Jornal
Nacional costumava encerrar o telejornal. Entrou, então,
no panorama, uma edição acelerada dos créditos do JN,
da vinheta do JN e
a logomarca da Rede Globo, como se o programa estivesse
acabando aí. Regina Casé interrompeu o que parecia ser o
fluxo natural (já constituído em nosso imaginário pelo hábito)
para avisar que “ainda não terminou” - ao que, de fato,
seguiram-se ainda várias seqüências pré-gravadas de
futuros programas.
Essa
primeira entrada da logo da emissora (a moldura verdadeira
do Jornal Nacional, mas falsa moldura do Muvuca)
foi montada 23 segundos após os créditos de Muvuca,
que já tinham sido dados. Houve, portanto: 1 - a apropriação
simbólica de um tempo de TV (quase os 30 segundos de um
comercial), e que corresponde a uma imagem do tempo; 2 - um deslocamento dos
sentidos pelo tensionamento de uma prática habituada (a
dupla inserção da logomarca que em geral fecha os
programas da Rede Globo); 3 - a criação de um interregno,
um não-lugar, de exatos 2 minutos e 23 segundos até que a
logo reapareceu no panorama para fechar, de fato, o
programa.
Quanto
aos modos de moldurar as alteridades (as diferentes
subjetividades ou ethicidades) que se relacionam entre si
nos programas de entrevista, há uma tendência prevalente
na TV brasileira de sectarização, hierarquização e
exclusão, um enquadramento de câmera que é êmico[7].
No caso de Muvuca,
todas as moldurações praticadas na primeira fase do
programa foram fágicas: fosse quando a câmera enquadrava
os empregados da casa, os entrevistados da casa ou os da
cidade; fosse quando enquadrava a apresentadora ou qualquer
outra pessoa da produção; fosse ao enquadrar as platéias
que, às vezes, iam almoçar na casa (alunos de escolas da
vizinhança, por exemplo).
Tais
molduras de programa (os promos e as vinhetas) e tais
moldurações (os enquadramentos da alteridade), são
bastante sólidas e homológicas na televisão que se faz no
Brasil. Os tensionamentos praticados por Muvuca, os que indiquei e outros mais, deram-nas a ver e
problematizaram suas éticas. A partir delas, como premissa
e, portanto, como uma grande moldura para todos seus
panoramas, a série de programas criou ainda interessantes
quadros de experiência e significação que gostaria de
comentar, a título de exemplificação, a partir da análise
de uma seqüência em particular.
Os
panoramas de Muvuca:
éticas e estéticas
Há
uma série de imagens interessantes exibidas na primeira
fase de Muvuca que
têm a ver com os mundos imaginados pelo programa.
Limito-me, nesse artigo, a analisar os panoramas a seguir,
que, a meu ver, resumem o emolduramento[8]
ético e estético do Núcleo de Guel Arraes. Trata-se de um
tempo de TV: uma seqüência de três minutos e quarenta e
seis segundos (3m46s) que encerra o segundo programa da série.
Ele foi ao ar na TV Globo em 21 de novembro de 1998, quando
o programa ainda estava no horário nobríssimo de sábado
à noite, depois da, assim chamada, “novela das oito”.
Um dos convidados (o cantor Wando) era entrevistado
na cozinha-em-funcionamento, e, sentado sobre um balcão,
cantou canções de sucesso de seu repertório,
acompanhando-se ao violão, numa atuação íntima e
privada, como se estivesse numa roda de violão e entre
amigos. Ele estava acabando de cantar “Você é luz,
estrela, raio e luar...” (Meu
iaiá, meu ioiô?) quando, então, em um corte (mudança)
de câmera, foi inserida (colada, montada) a imagem de
Regina Casé prestando atenção ao cantor. Este frame
inaugura o tempo de TV que subtraí da seqüência para a análise
em pauta.
A câmera volta a moldurar Wando - que está
terminando a canção - e abre em seguida para a direção
oposta: Casé e Monique Evans estão sentadas à mesa,
tentando localizar Kassin, que é um dos editores de som do
programa. Regina quer saber de Kassin o nome de uma cidade,
questão que não estava em pauta para o espectador. A câmera
o “surpreende” debaixo da mesa. Está com um microfone
na mão e fones nos ouvidos - participando, portanto, da
captação sonora - e a essa imagem visual está montado o
som das risadas das pessoas presentes. Nem todas estão visíveis,
mas “sabe-se” de sua presença pelas risadas.
Ao digitalizar as imagens, é possível perceber uma
espécie da cantoneira que aparece no canto superior direito
do panorama entre 0m8s e 0m45s. Em 0m45s a câmera
“fecha” em Maria e a cantoneira desaparece... Sempre que
a imagem do panorama abre (amplia-se), a cantoneira aparece,
indicando que está sendo usada uma lente grande ocular para
“abrir” o panorama. Essa grande ocular deixa um rastro
(in)visível, porquanto deve ter uma bitola diferente da da
câmera base. Ainda que de resto não dê para perceber a
troca ou sobreposição de lentes, o “súbito”
aparecimento da cantoneira (um vignetting)
denuncia seu uso e, talvez, uma bem realizada elipse de
tempo (elipse de montagem, nos termos de Fernández, 1997).
Após mostrar Kassin, a câmera volta-se para
Monique, que cumprimenta Maria, uma das empregadas da casa,
e pergunta se ela quer dar um abraço em Wando, ao que segue
a voz de Regina “autorizando” o abraço. A câmera
mostra o abraço e, depois, Maria dirigindo-se à posição
inicial, emocionada, quando é novamente interpelada por
Monique, que descobre então que Maria está chorando. Maria
é induzida a sentar-se ao lado de Monique, que tenta saber
por que chora.
Está
ocorrendo aí uma entrevista inesperada de uma convidada com a empregada, que também
foi uma persona
entrevistada (no primeiro programa), primeiro ao pé do
ouvido e depois para todos. Num certo momento, Monique
volta-se para Wando e diz: “Arrasastes!”
Enquanto
a câmera pára em Maria - que explica estar separada do
marido, porque o encontrou em casa com outra, que é com
quem ele vive até hoje... - ouvem-se manifestações de
Regina e Monique e talvez de outras pessoas (há um
embaralhamento de sons e vozes, mas dá para notar que são
mais vozes ao fundo do que pessoas dadas a ver) e também
uma incitação para que Maria “saia dessa” e arranje um
namorado...
A câmera abre novamente, incluindo as outras
empregadas. “Está chorando também?”, pergunta Monique
a uma delas.
Subitamente,
entre as imagens situadas a 1m29s e 1m33s do tempo de TV em
pauta, ao lado direito de Regina aparece uma mulher, que não
estivera à vista ainda em nenhum momento do programa, e
que, por isso, parece surgida do nada. Teria sido dado a ver
um espaço oculto, como o vignetting?
Não me parece. Trata-se mais claramente de um corte dado a
ver - uma elipse de tempo tecnicamente suja -, uma edição
que desrespeita regras muito óbvias de montagem.
É
proposto, então, que todos cantem uma música, para que
Maria (e quem mais esteja triste) saia do clima ruim. Na
imagem seguinte, a câmera - que voltou a “olhar” para o
lugar ocupado por Wando - inclui, num panorama maior (a
1m39s do tempo de TV em pauta), várias pessoas que também
ainda não haviam sido vistas, que também “saíram do
nada”. Trata-se de outra elipse de tempo, durante a qual
Wando “saiu” do balcão - que agora está ocupado por
outras pessoas - e veio sentar-se à mesa, à qual também
outras pessoas sentaram.
A
música que todos cantam é a mesma de antes (Meu
iaiá, meu ioiô?). A câmera vai alternando planos mais
fechados - que destacam pessoas, em geral chamadas por Casé,
dando-lhes nomes (visivelmente ela não sabe o nome de vários
empregados) - e planos mais abertos - que mostram o
conjunto, com cada vez mais pessoas sendo incluídas,
algumas em inserções (montagens) visíveis. Estão sendo
utilizados aí, nos termos de Fernández, movimentos
internos e movimentos externos, e ainda montagens dentro dos
planos.
Em
2m47s, a câmera pára em Casé e o panorama se divide em
dois planos verticais, lado a lado, para a entrada dos créditos
do programa. Enquanto rolam os créditos, mais e novas personas - as dos bastidores - vão sendo incluídas no panorama: são
imagens visuais (no plano da direita) e nomes escritos (no
plano da esquerda) de pessoas até então inseridas em
diferentes ambientes (e funções), da cozinha e arredores,
e que, agora, compartilham, nominadamente (autoralmente), a
cena visível, sendo que os créditos estão montados a
partir de um fundo preto, à esquerda da tela, mas os textos
avançam largamente sobre o plano da direita, interferindo
explicitamente no que acontece ali.
Ao
final dos créditos, aos 3m23s , esse panorama (da direita)
volta a ocupar toda a tela. A música está acabando, e
Regina dirige-se a Maria: “É isso aí, Maria!”, dando a
entender que a empregada teria momentaneamente superado a
tristeza antes manifesta.
Curiosamente,
a música que a fizera chorar foi a que a tirou da
tristeza... Lembro, porém, que na primeira vez ela ouvira
Wando cantar e, na segunda, ela participara do canto. Teria
sido resultado do ditado popular “Quem canta seus males
espanta”? Não me parece tão simples. A meu ver, houve um
deslocamento do lugar “passivo” do espectador para o
lugar “ativo” do ator que merece um comentário, razão
pela qual interrompo a descrição.
Início
do comentário, feito a partir de Sodré (1980), Canevacci
(1990) e Chauí (1981). Nos programas de auditório,
geralmente há três “espaços” mais ou menos visíveis:
os bastidores (incluindo os aparelhos e técnicos que
aparecem em cena), o palco (o lugar da cena, do espetáculo)
e a platéia (o lugar da recepção). Quando há um
deslocamento do receptor autorizado (circunstancialmente
situado na platéia, ou vindo dos bastidores não visíveis)
para o espaço do emissor autorizado (o palco, sob os
refletores e o olhar-da-câmera-que-moldura), esse receptor
passa a estar em lugar algum, pois, afastado de sua condição
de espectador, ele não chega a ser efetivamente um emissor.
Em tais termos e circunstâncias, ele estaria alienado de
sua condição - e nós com ele, pois o vemos como a um
outro, um estranho a nós.
A
estrutura da comunicação de massa, como vem sendo
praticada, em que os atores sociais tornam-se atores e
espectadores do espetáculo, e segundo a qual os receptores
não estão autorizados a emitir, tem a ver com os modos
como se dão na sociedade as relações de produção em função
da propriedade privada dos meios. O que aconteceu com Maria
na seqüência de Muvuca
em pauta é diverso: há uma montagem que situa os três
espaços no mesmo - a cozinha, ou mais especialmente na mesa
da cozinha - que, neste caso, irmana os diferentes, enquanto
que, homologicamente, nos panoramas televisivos, a função
de mesas e bancadas (inclusive as não visíveis) seria
(re)estabelecer assimetrias. Os sentidos agendados para
mesas e bancadas foi reiteradamente contrariado por Muvuca,
tendo sido uma de suas mais importantes estratégias para
enunciar sentidos éticos e estéticos alternativos à
prepotência e à subserviência - à exclusão social -
vigentes na sociedade brasileira. As moldurações do
programa não representam, é verdade, a realidade
brasileira, mas sugerem outras possibilidades a ela. Fim do
comentário.
Aos
3m35s, após a logomarca da Globo, ainda ocorrem duas
coisas: o comentário de Casé sobre o “clima romântico”
e o comentário de Wando de que fazia “muito tempo que não
gravava um programa assim”. Este segundo comentário é
montado mais uma vez após uma elipse de tempo escrachada.
O
primeiro filme de Pedro Almodóvar a que assisti foi Mulheres
à beira de um ataque de nervos. Causou-me uma impressão
muito forte e, à saída do cinema, fiquei um bom tempo
discutindo com um amigo cinéfilo o que seria aquilo que
tanto me impressionara. Tudo levava a crer que a linguagem
de Mulheres...
precisaria ser asseptizada para coadunar-se com as estéticas
a que eu estava habituada, o que, a meu ver, no entanto, não
diminuía em nada os méritos que pensava ter encontrado no
filme. Ou seja, a aparência tosca - de matéria bruta - das
imagens, das cores, dos clichês
e das montagens (cortes) do filme eu percebia como insuficiência
técnica, como amadorismo, como ingenuidade tributável ao
principiante.
Para
minha surpresa, esclareceu-me o amigo cinéfilo não ser
aquele o primeiro filme de Almodóvar (é na verdade o sétimo
longa-metragem do controvertido diretor e, talvez, o mais
premiado de seus filmes - inclusive pela montagem e pela
realização!), e este simples fato obrigou-me a refletir um
pouco mais sobre as razões que me haviam levado ao
“amadorismo” do filme. Fui buscar, em minha memória, os
registros que podiam ter condicionado o emolduramento que
fizera, e, para o que interessa aqui, dou conhecimento ao
leitor de dois desses registros: o padrão Globo de
qualidade e sua estética clean,
e o filme Bye bye,
Brasil. Obviamente há uma relação de oposição entre
a estética suja de Almodóvar e a estética clean
da TV Globo, e, ao contrário, algo aproxima
esteticamente Mulheres...
e Bye bye...,
sendo que, na época, ainda era forte no Brasil uma crítica
ao que se entendia ser a baixa qualidade técnica (de som e
imagem) do cinema brasileiro.
Desde
então, venho prestando atenção em outros registros
anteriores - e cada vez mais, posteriores - que se
relacionam às estéticas como molduras ou moldurações éthicas.
As considerações que sou capaz de fazer hoje a respeito
incluem imagens de diferentes mídias e atravessamentos teóricos
de diferentes autores de diversas áreas, e a minha tendência
é a de sitiar a percepção numa perspectiva de natureza clássica
ou de natureza barroca, porque é o sítio que permite um
olhar mais extensivo no tempo e no espaço, uma
historicidade mais ampla. É desejável esclarecer, no
entanto, um recorte mais pontual que estou fazendo a partir
das controvérsias havidas nos anos sessenta principalmente,
no Brasil, em torno de uma estética da fome (proposta por Glauber Rocha para o cinema) ou de
uma estética suja
(proposta pelo Tropicalismo para as artes em geral). De
muitos modos tais estéticas têm a ver com os modos
antropofágicos de lidar com a alteridade dos outros,
tornando-as - ética e estética - intimamente implicadas
uma na outra.
Desde
tal perspectiva - embora em uma ambiência totalmente
diversa - posso entender hoje que a forte impressão que me
causou Almodóvar estava associada justamente àquilo que na
ocasião me parecera passível de uma desejada asseptização
- que ocorreria com o aprimoramento técnico do artista -.
Ora, grande engano, não?! Se o filme fosse asseptizado, o
mais provável é que eu passasse incólume por Mulheres à beira de um ataque de nervos, pois, de fato, as
ethicidades enunciadas por Almodóvar só impressionam pela
estética barroca e melodramática. Mais que isso: é ela
que as enuncia e que atribui sentidos aos clichês,
transbordando as molduras do clichê
e dando humanidade às personagens.
Pois
esses registros (repertórios) implicaram que eu percebesse
e desejasse enfatizar, na seqüência de Muvuca
que estou submetendo ao leitor, a natureza barroca e suja
das estéticas praticadas, implicando-as na voracidade com
que a câmera incluiu a diferença, e implicando-as na bagunça
engendrada nos panoramas, engendramento feito por quem
saberia-muito-bem-como-arrumar-se-quisesse. Considerando-se
que o padrão Globo de qualidade, ou sua estética clean,
é uma das mais sólidas molduras estéticas (e éticas!) da
TV Globo para os panoramas televisivos da emissora, as práticas
de Muvuca que acabo de relatar e analisar indicam importantes
tensionamentos das práticas habituadas, conferindo, por
diferenciação, uma ethicidade singular ao programa..
A
ethicidade de Muvuca
Pois
bem: como o programa, com tais características, enunciou-se
ethicamente, ele mesmo, como um programa televisivo? Vamos
recuperar da descrição os seguintes elementos:
Deve ter ficado
claro que a seqüência foi pós-produzida, mas que pretende
ser percebida como se fosse ao vivo e em tempo real - isto
é, como se fosse uma montagem direta, tipicamente
televisiva, nos termos de Fernández. A aparência de
montagem direta (uma moldura, no caso) reforça a enunciação
de sentidos informais, descontraídos, íntimos e privados,
improvisados, que estão enunciados pelas moldurações dos
convidados na cozinha, de Wando (e, depois, a equipe do
programa) sentado no balcão, a relação “íntima” dos
e com os empregados... Isto é, o ambiente doméstico (outra
moldura) naturaliza as atuações, e nivela as personas,
porque as moldura em ambientes comuns a todos, locais de
fazeres habituados, de pessoas que se relacionam a partir de
problemas afins sobre os quais qualquer um tem o quê dizer
com pertinência.
Nas
imagens veiculadas foram mantidas marcas do percurso, restos
que poderiam perfeitamente ter sido eliminados na montagem
final. Na verdade, a montagem dá a ver tanto os momentos
bem realizados (limpos) quanto os momentos mal realizados
(sujos), evidenciando uma perfectibilidade possível e
competente que não foi utilizada sempre - justamente para
que se tornasse visível como sujeira, sujeira essa que é,
portanto, enunciativa. As sujeiras que aparecem têm a ver
principalmente com cortes mal feitos. As elipses de tempo são
evidências de ter havido pós-produção: às vezes, são
quase imperceptíveis; às vezes, são escrachadamente dadas
a ver nos sons ou nas imagens que “deveriam” ou que “não
deveriam” estar no panorama. Tudo indica que foram feitas
várias tomadas e, depois, montadas as melhores imagens,
sendo melhores as que melhor enunciaram os sentidos éticos
do programa e as que melhor figuraram-nos esteticamente.
Em Muvuca (na seqüência em pauta)
estão visíveis ainda outras sujeiras: o
“arrasastes” pronunciado por Monique Evans; a grosseria
de Regina Casé que “não sabe” o nome dos empregados
(tecnicamente seria perfeitamente possível evitar o fato);
a desafinação de várias vozes que cantam; o
desconhecimento manifesto da letra da música por parte de
alguns “cantores” que, no entanto, acompanham o coro a
seu modo; os equipamentos que são dados a ver como restos
(não foram retirados de cena pela angulação da câmera);
as entrevistas sendo realizadas pelos convidados (uma espécie
de excesso)... Os modos como o final do programa tensiona a
moldura habituada dos promos, vinhetas e logomarcas podem
ser visto também como sujeira...
Em outros
programas da série foram utilizados recursos às vezes
diferentes para introduzir no panorama um pouco (ou muito)
de sujeira, como foi o caso do “esquecimento” do bolo de
aniversário de Cid Moreira ou a comemoração do aniversário
de Edson Celulari em data que nada tinha a ver com o aniversário
do ator... São moldurações que enunciam a bagunça que é
eticamente e esteticamente associada à palavra muvuca,
em termos claramente expressos na abertura do programa de
estréia. Essa bagunça referencia um certo olhar para o
Brasil, tributável, no caso, ao Núcleo de Guel Arraes, e
que enuncia uma (des)ordem nas relações entre as
alteridades, que as traz à cena vorazmente e que vorazmente
as devora em cozinhas televisivas.
A bagunça de Muvuca é também a enunciação de uma (des)ordem nas práticas
televisivas consolidadas. Há, portanto, reiteradas quebras
de convenções e uma forte recusa à prática de exclusões
êmicas, do que resultam panoramas sujos e híbridos,
respectivamente. Tais panoramas contrapõem-se radicalmente
ao padrão Globo de qualidade - asséptico, clean
-, o que significa, no caso da Globo, muito mais do que sua
estética prevalente: significa uma estética que enuncia
sua ethicidade. “A Globo é limpa”, nesse caso, é também
uma ethicidade enunciada, que é contradita pelas moldurações
de Muvuca.
Mundos
imaginados por Muvuca
Os
panoramas de Muvuca representam um olhar barroco sobre o Brasil e sobre a televisão
“dos brasileiros”, que dá a ver, pela ilusão, o caráter
ilusionista (enquanto homológico) do clássico (do puro, do
limpo) presente no país e em nossa TV. Em seu lugar, Muvuca
coloca um território (a casa) de tensões e conflitos,
de contradições, de uma grande bagunça
banto (de raiz africana), que se deseja alegre (uma reunião de pessoas
alegres) e atenta à vida.
Não
restam dúvidas de que há uma grande orquestração do
programa: a de Regina Casé, que assina a Coordenação de
Criação. Ainda que o seu papel de âncora seja
atravessado, no caso, por intervenções de Monique Evans,
é a máscara de Regina que moldura a seqüência e o
programa, enunciação que é feita pelas moldurações
praticadas na abertura (promo), nas várias inserções da máscara
da persona nas seqüências,
e pela montagem da máscara nos frames que abrem a rolagem dos créditos. No final da rolagem dos créditos,
porém, o panorama abre para uma geral inclusiva - um
definitivo crédito ao coletivo!
A
persona Casé é
moldurada, perceba o leitor, em termos muito diversos das personas
televisivas âncoras: Regina está dentro, é parte do
panorama. Ela é mal arrumada sem estar fantasiada, é
grosseira e muito gentil ao mesmo tempo, é prepotente mas
pode submeter-se, é triste e alegre, é plural e contraditória.
Ela “é” a bagunça
brasileira, a (des)ordem - ao contrário do Ratinho e de
Marcelo Tas, por exemplo, apenas por exemplo[10],
que estão, nos termos em que são moldurados, de fora, e
acima do bem e do mal. O Ratinho e Marcelo (e os âncoras,
em geral) seriam a ordem que daria a ver a (des)ordem - se
é que há efetivamente desordem na desordem moldurada pelo Ratinho
(SBT) e por Vitrine (TV Cultura - SP), os programas que eles ancoram:
respectivamente, a desordem social (a paternidade não
assumida, a desassistência dos mais pobres, etc.) e a
desordem televisiva (os truques ilusionistas da TV e a
“manipulação” das massas).
Foram
essas coisas que chamaram minha atenção quando percebi
haver vida em Muvuca.
Além disso, e por conta disso, o alhures - que é onde se
encontram em geral os convidados dos programas de auditório,
inclusive os de entrevistas, e que leva a que sejam
percebidos como um outro, um estranho, exótico ou grotesco
-, se coloca noutra perspectiva nos panoramas televisivos
citados: as moldurações da câmera são inclusivas e
antropofágicas, e as molduras “casa” e “Casé”
naturalizam a percepção dos diferentes e desiguais num
mesmo quadro de experiência, sem ocultar as diferenças e
as desigualdades e abrindo a possibilidade de outras
sociabilidades.
Por
trás de tudo e na origem desses e de outros procedimentos técnicos
utilizados pelo Núcleo de Guel Arraes está um olhar sobre
a brasilidade dos brasileiros e sobre a própria televisão.
Se o Ratinho ou Marcelo Tas, ainda por exemplo, apenas por
exemplo, quisessem fazer a mesma coisa, não conseguiriam,
porque seu emolduramento de base tem outros atravessamentos
de referência e de fundo: em seus programas, os mundos
imaginados são completamente diferentes dos imaginados, por
exemplo, em Muvuca.
Obras
citadas
CANEVACCI,
Massimo. Antropologia
da comunicação visual. São Paulo: Brasiliense, 1990.
CHAUÍ,
Marilena. Cultura e
democracia: o discurso competente e outras falas. São
Paulo: Moderna, 1981.
DELEUZE,
Gilles. A imagem-tempo.
São Paulo: Brasiliense, 1990.
______.
La imagen-movimiento. 3. ed. Barcelona:
Paidós, 1994.
FERNÁNDEZ,
Manuel Carlos. Influencias
del montage en el lenguaje audiovisual. Madrid: Ediciones Libertarias/Prodhufi,
1997.
KILPP,
Suzana. Ethicidades
televisivas. Sentidos identitários na TV: moldurações
homológicas e tensionamentos. São Leopoldo: Editora
UNISINOS, 2003.
LÉVI-STRAUSS,
Claude. Tristes
trópicos. Lisboa: Portugalia,
1955.
SODRÉ,
Muniz. A comunicação
do grotesco. Rio: Vozes, 1980.
[1]
Durações, personas,
objetos, fatos e acontecimentos que a televisão dá a
ver como tais, mas que são, na verdade, construções
televisivas. Programas (juntamente com os promos e os anúncios
publicitários), programação, canais e emissoras,
panoramas televisivos (instaurados por certo tempo de
TV), os gêneros e a própria televisão são as mais
importantes ethicidades televisivas, enunciadas pela tevê
em quadros de experiência e significação tipicamente
televisivos, que são aqui chamados de molduras.
Moldurar é, portanto, criar quadros de experiência e
significação cujas fronteiras são confins de um e de
outro quadro. (KILPP, 2003)
[2]
Moldurações são procedimentos de ordem técnica e estética
que realizam certas montagens no interior dos quadros de
experiência, particularmente nos panoramas televisivos,
interferindo nos sentidos ali já enunciados pelas
molduras empregadas. (KILPP, 2003)
[3]
Aliás, a meu ver, a principal função dos programas do
Núcleo de Guel Arraes tem sido essa, e grande parte de
sua audiência suponho que seja de pessoas interessadas
na realização audiovisual de TV, seja como criadores,
seja como pensadores, ou até como espectadores mais críticos.
Ainda que os programas não permaneçam no ar tanto
tempo quanto outros e que não tenham a mesma audiência,
justifica-se veiculá-los por sua contribuição ao
processo de criação da TV Globo como um todo.
[4]
Atualmente, a tendência é que, antes do promo de
abertura, passe uma seqüência do programa, quando se
trata de produção própria da TV Globo. Talvez isso
tenha iniciado anos atrás com as novelas: anunciava-se
e rodava um resumo do capítulo anterior, entrava o
promo, o intervalo comercial e, aí, o capítulo do dia;
mais recentemente, suprimiu-se o anúncio de abertura e
as primeiras imagens não são necessariamente as do capítulo
anterior, avançando já pelas cenas do dia.
[5]
A palavra “muvuca” era, até então, estrangeira e
sem-sentido para o espectador, um verbete que existia
apenas como virtualidade. Atualizou-se no título de um
programa de TV e adquiriu sentido nas éticas e estéticas
dos panoramas de Muvuca.
[6]
A partir de Deleuze (1990 e 1994), estou sinalizando
aqui algo que pode ser pensado como um tempo-imagem, e não
apenas como uma imagem-tempo ou uma imagem-movimento.
Ainda que o autor fale da imagem-movimento como imagem
do tempo, tendo a perceber em seu conceito mais uma
qualidade do que a quantidade de que estou falando.
Levando em conta que a televisão atribui um valor
(financeiro, mesmo) muito especial ao tempo, e que, em
última análise, o que ela vende é tempo de TV, talvez
fosse interessante que se investigasse e cercasse mais
de perto essa molduração.
[7]
Emia - expulsão (apartamento, segregação) da
alteridade (do outro, da diferença); fagia - absorção
desses “seres temíveis” como forma de neutralizar
sua “força temível” e
de se beneficiar dela. Nos termos de Lévi-Strauss
(1955).
[8]
Agenciamento dos sentidos, que é pessoal e
culturalmente referenciado. (KILPP, 2003)
[9]
Palavra de origem banta, e que hoje já se encontra como
verbete no dicionário de Antônio Houaiss.
[10]
Em minha pesquisa, analisei os panoramas de vários
programas de entrevistas. Estou citando o Programa
do Ratinho e o Vitrine
para salientar as moldurações de duas outras
emissoras, muito diferentes umas das outras e diferentes
também das da TV Globo. Mas o mesmo poderia ser dito em
relação a quaisquer outros programas de entrevistas da
própria Globo.
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