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NÃO
COMEÇOU EM GENEBRA, NÃO VAI TERMINAR EM TUNIS
Eula
Dantas Taveira Cabral (*) e Adilson Vaz Cabral Filho (**)
RESUMO
Esta
pesquisa mostra o impasse enfrentado pela sociedade civil em todo
o mundo no campo da comunicação, relacionado com o confronto
entre a via institucional - de expectativas num diálogo possível
com governos e a iniciativa privada - e um das ações diretas
organizadas por grupos diversos, articulados ou não, que
implementam experiências de comunicação em diversas ocasiões.
Através da pesquisa de documentos e de depoimentos de dirigentes
de organizações da sociedade civil relacionados à temática da
sociedade da informação e de representantes do governo,
pretende-se mostrar o longo caminho a ser percorrido em prol de ações
e formulações que possam ser compartilhadas numa só perspectiva
de atuação.
Palavras-chave:
sociedade da informação - sociedade civil - democratização da
comunicação
O
título desta pesquisa é abertamente inspirado num documentário
feito pelo Centro de Mídia Independente, a partir das manifestações
ocorridas em São Paulo, contra o Acordo de Livre Comércio das Américas
(ALCA)[1]. Diz respeito a uma tensão que a sociedade civil
enfrenta em todo o mundo no campo da comunicação, dentre outros
setores, relacionada com o confronto entre um viés
institucionalizado, de expectativas num diálogo possível com
governos e a iniciativa privada, e um mais característico das ações
diretas implementadas por grupos diversos, articulados ou não,
que realizam experiências de comunicação em eventos específicos
ou na sua prática cotidiana.
Neste
trabalho, pretende-se mostrar como se dá esse impasse no caso
brasileiro, através da pesquisa de documentos e depoimentos de
representantes do governo relacionados à temática da sociedade
da informação e dirigentes de organizações da sociedade civil,
que acompanharam ou estiveram presentes à primeira fase da Cúpula
Mundial da Sociedade da Informação, em dezembro de 2003, em
Genebra.
ENFIM,
A COMUNICAÇÃO APARECE COMO TEMA (...)
Desde
a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro e por isso
conhecida como RIO92, a ONU vem promovendo uma série de conferências
temáticas com o objetivo de unir fundamentalmente representantes
dos governos, abrindo também a presença para a iniciativa
privada e organizações da sociedade civil.
Foi
assim que, na década de 90, foi possível acompanhar conferências
dos mais variados temas como os de População e Desenvolvimento,
Mulheres, Racismo, nas quais se firmaram diversos compromissos que
vêm sendo monitorados com a participação de organizações da
sociedade civil dedicadas ao processo ONU em geral ou determinados
temas em particular e reafirmados de tempos em tempos através de
novas reuniões com representantes governamentais.
Nesse
processo foi concebida em 2001 - a cargo da ITU, a International
Telecommunications Union, agência da ONU relacionada ao setor de
telecomunicações - a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação
(CMSI - nome oficial, em inglês, WSIS - World Summit on
Information Society), para acontecer em duas fases: a primeira em
dezembro de 2003, em Genebra e a segunda, a ser realizada em
novembro de 2005, em Tunis. De modo distinto em relação às
outras conferências, esta desde o início contou com uma
participação maior da sociedade civil e da iniciativa privada em
sua concepção, sendo preparada a partir de diversos espaços de
concertação (chamados Caucus) e Grupos de Trabalho[2], pensadas como plataformas abertas de discussão, ação
e construção de consensos sobre os conteúdos, processos e
aspectos relacionados com a CMSI nos quais são definidos os
diversos textos relacionados aos temas que seriam afirmados na Cúpula.
É
na percepção de um processo de globalização cada vez mais
presente que começa a percepção da necessidade de uma articulação
também pautada em dimensões globais. Octávio Ianni afirma que
"as possibilidades de construção, afirmação ou transformação
de hegemonia passam a ser condicionadas, limitadas, administradas
por uma espécie de intelectual orgânico não só surpreendente e
insólito, mas ubíquo, desterritorializado" (1997. p. 173),
referindo-se à mídia diante da percepção de que o trabalhador
coletivo adquire dimensão e significado mundiais.
Já
Mattelart, ressalta que "a questão da edificação da internacionalidade ressurge mais
atual do que nunca, no rastro da globalização"
(2000, p. 179), contrapondo-a
ao debate entre "defensores das redes universalizantes do
industrialismo e os defensores das redes de solidariedade social
como fundadores do cosmopolitismo democrático".
A
temática da sociedade da informação estava assim contemplada e
revitalizada em toda a sua diversidade, anunciando o que deveriam
ser (in)tensos debates na busca de um consenso possível em torno
de temas complexos como o da utilização de tecnologias de
informação envolvendo a adoção de softwares proprietários
e/ou livres, os direitos de propriedade intelectual, a temática
mais do que presente dos monopólios da mídia, as questões
relacionadas à segurança da informação, ao ciberterrorismo e a
contrapartida de maior censura
na rede, além das iniciativas cada vez mais crescentes em se
configurar uma instância mundial de governança da Internet.
A
complexidade desses temas e a diversidade de interesses em
confronto não só proporcionaram uma experiência riquíssima em
aprendizado para todos, como também fizeram com que a temática
da comunicação pudesse ser, enfim, elevada a uma preocupação
mais apropriada no cenário mundial, principalmente devido à
contradição de estarmos vivendo a introdução - em diversos
setores da sociedade - de uma determinada tecnologia capaz de
conectar o planeta, mas acessível a uma pequena parcela da população,
afetando interesses tanto do setor público e do privado, como
também da sociedade civil.
Uma
possibilidade de apreender a transformação das bandeiras de luta
no campo da comunicação no cenário contemporâneo foi oferecida
por Thompson, quando este propõe "tecer relações entre os
padrões estruturados de comunicação global, por um lado, e as
condições locais sob as quais os produtos da mídia são
apropriados, por outro"
(1998, p. 155)
(...)
MAS E O DIREITO DE COMUNICAR?
No
embalo de toda essa movimentação, mas também com algum
engajamento proporcionado por um histórico de lutas anteriores, a
sociedade civil também investiu consideravelmente no processo
preparatório para a primeira fase da Cúpula em Genebra.
Contando
com a participação de diversas organizações, além de
professores e pesquisadores, foi criada em 2001 a Campanha CRIS,
do inglês Communications Rights on the Information Society, a
partir do entendimento de que "a sociedade civil precisa
estar comprometida
com uma estratégia inclusiva, centrada nas pessoas, baseada no
respeito aos princípios dos direitos humanos e às prioridades de
desenvolvimento"[3].
Ao longo desses anos, o Fórum Social Mundial teve considerável
importância na articulação dessas organizações e também na
inspiração pelo maior dimensionamento do debate. Em vários países
começaram a se organizar comitês locais da Campanha CRIS e, em
especial na América Latina, se formou um grupo bastante sólido
que deu continuidade ao debate, proporcionando uma especial atuação
na primeira fase da Cúpula.
O
Brasil, apesar de estar participando das reuniões
latino-americanas, não se articulou tanto quanto outros países -
como a Colômbia, a Bolívia e o Equador, por exemplo, mas em
Genebra, na primeira fase da Cúpula, contou com a participação
de organizações atuantes no movimento pela democratização da
comunicação, evidenciando a necessidade de serem fortalecidos,
no âmbito regional e local, os espaços e a presença de pessoas,
grupos e organizações que possam contribuir nessa temática.
Ainda mais se considerarmos o acúmulo das organizações
participantes em diversas bandeiras de luta relacionadas à
regulamentação dos meios de comunicação de massa e dos meios
alternativos de comunicação, encabeçados pelo FNDC - Fórum
Nacional pela Democratização da Comunicação, dentre outros
grupos.
Por
si só, a importância da temática da democratização da
comunicação no país já qualificaria a sociedade civil
brasileira, credenciando-a nos diversos debates promovidos em
torno da Cúpula, mas o binômio comunicação-informação e as
interessantes experiências relacionadas ao uso da informática e
da Internet no país podem servir de incentivo para uma maior e
mais qualificada adesão dos setores interessados, dada a
necessidade de se assumir uma dimensão também operacional, além
de formulativa.
A
reivindicação ao direito de comunicar é um dos temas que
merecem especial atenção por parte das organizações da
sociedade civil. Embora considerem de fundamental importância
para concretizar a sociedade do conhecimento, sua capacidade de
agregar forças é bastante reduzida pois, de certa forma, a
qualidade técnica e artística dos meios de grande circulação
existentes e sua capacidade de formar opinião pública faz com
que o entendimento da comunicação como um direito não seja
sentido pela população em geral como uma perda.
Um
primeiro aspecto a se salientar na diversidade de temas
relacionados ao direito de comunicar é a capacidade de expressão
por parte de todos os povos. Essa necessidade, tão básica quanto
respirar, está relacionada à idéia de que a comunicação é um
direito e como tal deve ser compreendida, pois diferente da
respiração, onde o ar que respiramos não é privatizado,
existem sérias limitações ao potencial comunicacional dos povos
nos vários lugares do planeta.
Esse
debate não é tão recente quanto a movimentação em torno da Cúpula.
Desmond Fischer, já em 1982, propõe que o Estado deve não só
reconhecer a existência e a validade do conceito do direito de
comunicar, além de corporificar "numa lei nacional as
liberdades englobadas no direito de comunicar - liberdade de opinião,
de expressão e de informação - e que reconheça na prática os
direitos que, por sua vez, decorrem dessas liberdades - livre
fala, liberdade de imprensa, independência de radiodifusão,
'governo aberto' " (1982: p, 68).
Desde
quando começaram a trabalhar nessa perspectiva, organizações da
sociedade civil como a AMARC - Associação Mundial das Rádios
Comunitárias, a APC - Associação para o Progresso das Comunicações,
a ALAI - Agência Latinoamericana de Informação e a WACC - World
Association for Christian Communication, dentre outras, vêm
buscando firmar junto à sociedade civil e expandir para a
sociedade em geral a idéia de que, tal como qualquer outro
direito, se entendemos a comunicação como tal, este precisa ser
reivindicado e exercido através da expressão da diversidade
social e cultural dos povos, da afirmação de meios próprios de
comunicação e da quebra dos monopólios de empresas de comunicação,
cultura e entretenimento.
Embora
tenha concentrado especial expectativa nas negociações que se
travaram em Genebra, os relatos e informações que chegaram a
respeito do que foi negociado e acertado não foram animadores. São
muitas as implicações nos interesses de governantes e empresas,
que colocam em xeque não só os interesses particulares de seus
negócios e domínios, como também a própria essência de uma Cúpula
Mundial capitaneada pela ONU que se pretenda tripartite.
Segundo
Sean O Siochrú, Coordenador da Campanha CRIS, apesar de tanto a
declaração intergovernamental como a da sociedade civil
assinalarem a idéia de que "a comunicação é um processo
social fundamental, uma necessidade humana básica e a base de
toda a organização social"[4],
a Declaração da Sociedade Civil é a que mais avança nas
propostas de como podemos construir uma sociedade da informação
e da comunicação que diga respeito às pessoas. Salienta, por
exemplo, a idéia de que se "deve reforçar o marco regulatório
e jurídico em todas as sociedades de informação e da comunicação
para garantir o compartilhamento universal da tecnologia, da
informação e do conhecimento e promover o controle comunitário
respeitando os direitos e liberdades humanas".[5]
SOCIEDADE
CIVIL: expectativas e ações
Afiadas
críticas se sucederam durante e após a Cúpula Mundial da
Sociedade da Informação por parte de representantes da sociedade
civil. Oscilaram entre a constatação de que nada substancial foi
acordado pela inexistência de consenso ou que a sociedade civil
teve um importante papel justamente na capacidade de pautar a
demanda de uma sociedade da informação a ser construída em
bases sociais integradoras, representativas e colaborativas.
Revelaram,
contudo, uma série de demandas a serem construídas, não só
para que sejam apresentadas em Tunis, durante a segunda fase da Cúpula,
em novembro de 2005, mas também a serem implementadas com a
energia da mobilização que há dois anos vem tentando gerar
consensos possíveis em torno de concepções e culturas das mais
diferenciadas, que se encontram em cenários e perspectivas comuns
quando diante de temáticas relacionadas à construção de uma
sociedade da informação e do conhecimento que tenha efetivamente
a qualidade de atender às necessidades humanas.
Temas
como o controle descentralizado da Internet, o amplo uso de
softwares livres ou ainda a criação de um fundo de solidariedade
digital são propostas que evidenciam o acirramento de concepções
distintas entre governos de países desenvolvidos e grandes
empresas de um lado e de outro a sociedade civil e alguns governos
mais democráticos e com visão mais ampla sobre a capacidade de
utilização e aproveitamento da Internet - que na Cúpula
originaram grupos de trabalho específicos para a formulação de
uma pauta comum a ser futuramente acordada. Conforme Sally Burch,
Diretora Executiva da ALAI - Associação Latino-americana de
Informação, os princípios [presentes na declaração oficial] só
têm sentido quando orientam políticas e ações e estes princípios
não se refletem adequadamente em muitas das propostas da Cúpula.
A
expectativa que de certa forma motivou e com certeza norteou a
participação da sociedade civil no processo decisório para a
definição dos documentos a serem firmados na Cúpula era a de
que, a despeito de outras conferências realizadas pela ONU, esta
teria a participação mais intensa e cooperativa dos três
setores - privado, público e da sociedade civil - nas rotinas de
definição dos documentos. Embora tenha contribuído para trazer
à realidade os participantes da sociedade civil, mostrou que
existem, efetivamente, claros e decisivos impasses que revelam ser
o tema da comunicação tão importante quanto outros já
consagrados na política de desenvolvimento econômico e social. Para
Takasashi, a sociedade da informação deve ser resultado da
colaboração entre diferentes parceiros, sendo que seu modelo básico
é o do "compartilhamento das responsabilidades entre
governantes, organizações privadas e a sociedade civil"
(2002: p. 31)
A
Campanha CRIS - Communications Rights for the Information Society
- que existe desde novembro de 2001, proporcionou uma articulação
sem precedentes por parte da sociedade civil em todo o mundo, na
qual representantes de várias organizações sociais de todos os
continentes promoveram os mais intensos debates durante todo o período
de 2002-2003, amadurecendo o sentido da construção de uma
sociedade do conhecimento e se fortalecendo no acompanhamento do
processo preparatório para a Cúpula de Genebra. Resultando, para
Dênis de Moraes (2003, p. 210), num processo de mundialização
das lutas sociais, com o intuito de entrosar visões de mundo
afins e dar ressonâncias a campanhas em prol da democratização
da esfera pública.
Por
mais que os governos e o setor privado apresentassem os mais
evidentes indícios de que iriam somente fechar questão em torno
de um documento que fosse morno ou não sairia, as organizações
da sociedade civil iniciaram um debate tardio sobre a
possibilidade de se retirar do processo e somente partiram para a
realização de um documento paralelo durante o decorrer da Cúpula.
Este documento[6]
propõe, em primeiro lugar, uma perspectiva visionária da
sociedade da informação e teve um efeito especialmente
demarcador de diferenças de concepção que norteou os documentos
firmados. Um dos líderes da Campanha CRIS, Sean O Siochrú,
afirma que "a Declaração da Sociedade Civil avança nas
propostas de como podemos construir uma sociedade da informação
e da comunicação que gire em torno das pessoas"[7].
O desafio, no entanto, é estabelecer consensos entre todos os
setores.
Até
porque uma concepção que inclusive se fez presente em Genebra e
merece destaque é o entendimento de que, mais importante do que
tecer projetos, declarações e planos, é preciso implementar
iniciativas das mais diversas que possam envolver as pessoas e
criar a sociedade do conhecimento a partir das ações diretas e
contínuas.
SOCIEDADE
CIVIL: ações e expectativas
Durante
a Cúpula, Genebra foi palco de uma série de atividades que
revelaram a vitalidade da sociedade civil em desenvolver ações
voltadas à apropriação das tecnologias de informação e
comunicação por ativistas desse setor ou organizações
interessadas em otimizar suas atividades a partir das ferramentas
comunicacionais. Ações de dimensão mundial, organizadas
isoladamente por diversas coalizões, deram o tom de uma prática
que precisa se expandir no cotidiano e se tornar constante no
sentido da concretização da sociedade do conhecimento.
Geneva
03 é um desses grupos de organizações que desenvolveu uma série
de eventos no intuito de mostrar que não consideram ser eficiente
a negociação que começou em na primeira fase da Cúpula:
"ela não oferecerá autonomia para todos, então que seja
tomada agora, utilizando-se de todos os meios e tecnologias a
nossa disposição, como a própria Internet, as redes P2P (peer
to peer), softwares de código aberto e livre,
infra-estruturas comunitárias sem fio, tvs e rádios piratas e
online"[8].
Além
das questões relacionadas às tecnologias de comunicação, os
eventos entitulados "WSIS? We seize!" (algo como
"CMSI? Nós a ocupamos!") tiveram o propósito de
"abrir discussão sobre as novas condições sociais que
constituem o mundo de hoje, sobre o qual a CMSI tem pouco ou nada
a dizer: concentração da mídia, expansão de regimes de
propriedade intelectual, etc"[9].
Uma
série de ativistas da comunicação desenvolveu também o projeto
High Noon, que consiste no confronto e exposição da retórica da
Cúpula em Genebra, com o objetivo de afirmar o que reivindicam
como a sociedade de informação, desenvolvendo métodos e modelos
para ocupar essas demandas com conteúdo de qualidade e tornar
acessível para que outros possam se engajar num desenvolvimento técnico,
midiático e social.
Já
o Center for International Media Action (CIMA), uma organização
americana com sede em Nova York, está conduzindo uma pesquisa com
participantes da sociedade civil envolvidos no Fórum Mundial
sobre os Direitos de Comunicar, WSIS, We seize! e eventos afins. A
informação coletada nessa pesquisa será usada expressamente
para a produção de um diretório de grupos de pressão que será
distribuída a todos os participantes no começo deste ano como
uma ferramenta para organização e compartilhamento da informação.
Existe
o sentimento de que, apesar de necessário, o processo preparatório
para a configuração desta primeira fase da Cúpula foi
extremamente desgastante. A indisposição dos governos e o
desinteresse da iniciativa privada em discutir e aprimorar pontos
efetivamente relevantes foram minando as expectativas das organizações
da sociedade civil. Para a maioria dos grupos que focou sua
participação em Genebra na exposição de suas experiências,
este posicionamento não foi mais do que uma evidência da
continuidade dos movimentos reformistas na afirmação de sua lógica
neoliberal: privatização das telecomunicações a despeito do
investimento em iniciativas voltadas às comunidades, intensificação
da concentração da propriedade na mídia comercial, expansão
das leis de propriedade intelectual.
Afinal
de contas, como afirma Dênis de Moraes, "a articulação
entre o modo de produção capitalista e as tecnologias de
comunicação e informação proporciona sinergia que alimenta a
acumulação de capital financeiro numa economia de interconexão
eletrônica" (2003: p.189). Ou seja, a crescente apropriação
das tecnologias da informática por parte dos diversos grupos de mídia
proporciona uma ação mais contundente em relação ao processo
de preparação e definições na Cúpula de Genebra, visando a
manutenção de seus interesses.
Entretanto
e apesar desse cenário insatisfatório, é exatamente essa agenda
que se pretende transformar e de alguma forma essa deve ser uma
missão possível, sob risco de transformar tais demonstrações
em espaços que, apesar de mobilizados por uma outra comunicação
possível, não vão resultar em nada mais do que auto-referência
para dar visibilidade e expandir tais atividades.
O
que aconteceu em Genebra durante os três dias da primeira fase da
Cúpula, além dos outros dias e mesmo meses de preparação, pode
muito bem se transformar numa prática cotidiana se se encontram o
comum das agendas que tecem o caminho delicado da institucionalização
- que demanda vitalidade - e a força da ação direta - que
carece de legitimação.
Dessa
forma, torna-se tanto um equívoco estratégico abandonar a mesa
de debates / concertações como também ignorar sua presença.
Uma outra postura que contemple essas duas vias não só é possível
como desejável por parte das ações futuras da sociedade civil,
sem que com isso expectativas se frustrem de ambos os lados. E
para isso é fundamentalmente necessário contar com um governo
que, se negar a devida e legítima ajuda às pessoas, grupos e
organizações envolvidas nesse processo, pelo menos possa não
atrapalhar relações e convênios possíveis que resultem numa
articulação mais ampla.
ENTÃO
... O QUE O GOVERNO BRASILEIRO PENSA DE TUDO ISSO?
O
país foi representado na Cúpula, em Genebra, pelo Ministro de
Estado, Interino, das Relações Exteriores, o Embaixador Samuel
Pinheiro Guimarães Neto que, em seu discurso[10],
mostrou a posição brasileira em relação à nova sociedade da
informação mundial e o que o governo vem fazendo para que ela se
torne realidade no país.
O
governo brasileiro vem se preparando oficialmente para a Cúpula
desde julho de 2003, quando criou o Grupo Interministerial de
Trabalho para a Preparação da Participação do Brasil na Cúpula
Mundial da Sociedade da Informação, no âmbito do Ministério
das Relações Exteriores, tendo a participação de
representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia; das
Comunicações; da Defesa; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior; da Educação; da Cultura; do Planejamento, Orçamento e
Gestão; da Fazenda; da Assistência Social; da Saúde; da Justiça;
da Casa Civil da Presidência da República; do Gabinete de
Segurança Institucional da Presidência da República; e da Agência
Nacional de Telecomunicações (ANATEL).
Esse
preparo do governo foi acompanhado, mesmo que de forma distante,
pela sociedade civil, que verificou nas reuniões preparatórias
para a Cúpula de Genebra uma vocação para a tecnologia por
parte das prioridades governamentais. Pois, é notória a maior
visibilidade da representação que a ANATEL ganhou no Grupo
Interministerial de Trabalho para a Preparação da Participação
do Brasil na CMSI, onde a instância técnica está sendo tida
como prioritária, embora seus integrantes não assumam essa tendência.
Mas,
conforme o Embaixador Pinheiro Guimarães Neto, em seu discurso na
Cúpula, a presença do governo brasileiro se deve ao
fortalecimento dos ideais humanitários defendidos pela ONU e à
igualdade soberana dos Estados, sendo que, conforme se debateu em
Genebra, as novas tecnologias proporcionam a universalização do
acesso à informação e a apropriação do conhecimento. Além de
contribuírem para a superação da fome, da pobreza e do atraso
em todos os países, superando etapas de desenvolvimento e
promovendo o crescimento econômico e a justiça social.
Assim,
como enfatizou o representante do governo, a Internet é uma
grande conquista dos últimos anos, se transformando num novo
canal de diálogo entre Governo e cidadãos, “não apenas como
um espaço para o comércio eletrônico, mas também como uma
plataforma para o desenvolvimento de políticas públicas de alto
impacto social, em todas as áreas”[11].
Para o
governo brasileiro, “a construção de uma Sociedade da Informação
realmente inclusiva demanda o estabelecimento de um modelo
multilateral, transparente e democrático de Governança da
Internet, no qual todos os países tenham voz e capacidade de
influência, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com
o princípio da igualdade jurídica dos Estados”[12].
Esse
desenho que vem sendo feito pelo governo brasileiro envolve o uso
do software livre, capacitando o povo para sua utilização nas
comunidades. Além disso, o representante brasileiro afirmou, em
relação ao conceito de propriedade intelectual, que este “leve
em conta (...) o imperativo da universalização de acesso, de
modo a evitar a condenação dos países em desenvolvimento ao
atraso e de suas populações à ignorância”[13].
Como
afirmou o Ministro Interino, a exclusão digital é uma nova forma
de exclusão social e, na medida em que provoca muitas
desigualdades, o governo brasileiro transformou a inclusão
digital em política pública. “O Governo brasileiro vem
investindo em um Programa de Governo Eletrônico, atento às
possibilidades oferecidas pela Internet para a prestação de
serviços públicos à população, em especial para os setores
marginalizados”[14].
Hoje já é possível votar com maior rapidez e “segurança”,
graças ao sistema eletrônico de votação e de apuração
eleitoral; a informatização no setor público passou a
possibilitar a utilização adequada das tecnologias nos setores públicos,
como as declarações de Imposto de Renda que já podem ser
transmitidas pela Internet sem tantos problemas.
Essa
tecnologia precisa estar disponível para todos, preservando seu
acesso a um número cada vez mais amplo de pessoas, compatível
com nossa diversidade cultural e social. "O primeiro fator a
ser considerado - nosso farto potencial humano - é poderoso em
termos quantitativos e qualitativos. Temos abundância de mão-de-obra
jovem, a qual vive na expectativa de empregos que a
valorize", afirma Hélio Santos, ao apresentar um de seus
pressupostos para um Brasil Unificado (2001: p. 420).
As
diversas iniciativas por parte do setor governamental nas esferas
municipal, estadual e federal contribuem para afastar a ameaça da
exclusão digital, possibilitando o acesso aos meios disponíveis.
O aproveitamento dessas tecnologias na produção de conteúdos e
perspectivas de uso, por sua vez, demanda um trabalho mais intenso
e consciente por parte da sociedade civil. Ou ainda, nas palavras
de Sérgio Amadeu, "é preciso inserir as pessoas no dilúvio
informacional das redes e orientá-las sobre como obter
conhecimento" (2001: p.21).
Apesar
da evolução e melhoria da infra-estrutura tecnológica
apresentada pelo representante do governo na Cúpula, não se pode
negar que poucos têm realmente acesso. Apresentar um futuro
melhor é fundamental, mas não se deve esquecer que o povo é o
mais importante na história - algo que até foi cogitado pelo
governo que informou no site do Planalto, em 2003, que estava
autorizando uma medida de incentivo à instalação de 4.200
computadores nas agências dos Correios, em quase 4.000 municípios,
para o uso público, onde todos terão o direito de obter uma
conta de email gratuita e poderão se conectar durante dez minutos
- isso ficou sob a responsabilidade do Ministério das Comunicações.
Dessa forma, espera-se que mesmo que o governo tenha a ANATEL como
referência para seus posicionamentos, que é mais focada no âmbito
tecnológico, não deixe abrir mão das metas que levam em conta a
dignidade do ser humano.
E
que a conclusão deixada por Pinheiro Guimarães Neto, em seu
discurso na CMSI, se torne realidade em qualidade e quantidade de
acesso, utilização e aproveitamento dos recursos:
A
Sociedade da Informação deve ter como alicerce o propósito
fundamental das Nações Unidas de que todos os homens e nações
são livres e iguais. Somente se aderirmos a tal propósito,
seremos capazes de utilizar as novas tecnologias em prol da justiça
social e do desenvolvimento humano. Não podemos desperdiçar tal
oportunidade inédita, e comprometer o futuro. O Governo
brasileiro acredita firmemente que um novo tempo e uma nova
sociedade poderão ser, efetivamente, construídos se a comunidade
internacional for capaz de respeitar os compromissos assumidos na
Declaração de Princípios e no Plano de Ação. Nesse sentido, o
Governo brasileiro pretende participar intensamente do processo
preparatório para a Segunda Fase da Cúpula, a realizar-se em
Tunis, em novembro de 2005.[15]
No
caso do Brasil, também, não há uma relação estreita do
governo com a sociedade civil na hora de organizar e de defender
propostas para serem analisadas nas reuniões preparatórias ou
nas da própria Cúpula. Um exemplo disso foi a reunião inaugural
do Grupo de Trabalho Preparatório da Participação do Brasil na
Cúpula sobre Sociedade da Informação realizada em agosto de
2003 em Brasília (Brasil) promovida pelo governo, onde mesmo
tendo a sociedade civil como convidada, nada foi decidido. "A
reunião inaugural foi somente um espaço para relatos. Nada foi
debatido ou discutido e nenhum tema foi aprofundado, houve apenas
uma verborragia educada e simpática"[16],
afirmou Alexandre Rangel, coordenador executivo da ONG Sociedade
Digital (SOCID) e representante do projeto CMSI Online.
Além
disso, o país não pode vedar seus olhos para as decisões que vêm
sendo tomadas na série de conferências organizadas pela ONU que
influenciam na vida de todos os cidadãos do mundo, nem mesmo para
a riqueza da variedade de contribuições que a sociedade civil
vem oferecendo em termos de utilização de equipamentos e
recursos humanos com baixo investimento. Monitorar mútua e
continuamente a atuação do governo e da sociedade civil é uma
tarefa possível para quem pretende seguir rumo a Tunis com maior
maturação de suas idéias e ideais e com alguns resultados mais
definitivos em relação à apropriação social das TICs no
Brasil, mas esse período entre fases da Cúpula para a Sociedade
da Informação precisa ser encarado de modo a aglutinar mais
interesses e iniciativas, além de delinear, junto com os governos
em âmbito municipal, estadual e federal, que projeto de sociedade
da informação estamos e podemos efetivamente construir e qual
sociedade desejamos incluir nele.
ATÉ
QUANDO? SÓ ACABA QUANDO TERMINA ...
Diante
dos grandes desafios que a sociedade civil terá pela frente,
demanda-se igualmente um Plano de Ação também específico, com
base em sua Declaração de Princípios tida como visionária por
parte de seus signatários. Nesse sentido, colocamos aqui algumas
pistas necessárias para seu delineamento, que visam contribuir
para o debate e conspirar para que esse movimento se expanda e se
materialize cada vez mais, cativando representantes de todos os
povos e todos os setores:
-
dar visibilidade a idéias positivas (a favor de determinados
projetos ou processos, não contra ações governamentais ou
privadas), que sejam resultados de consensos mínimos entre
organizações da sociedade civil e possam ser de fácil assimilação
tanto para o entendimento, quanto para o engajamento de mais e
mais pessoas.
-
partir de ações que convidem à reflexão e não de reflexões
ou propostas que fundamentem práticas, pois as práticas têm a
capacidade de engajar e envolver, sendo capazes de cativar para
evidenciar melhor uma situação complexa, num primeiro momento,
que é o entendimento da comunicação como um direito.
-
avançar na visibilidade de metodologias de uso de meios de
comunicação (rádio, TV, impressos, digitais e via Internet),
que incorporem não só aspectos relacionados à linguagem desses
meios, como também o conhecimento técnico para sua implementação
e de desmistificação dos meios comerciais.
Essas
contribuições ao debate são apenas idéias simples, mas por
isso mesmo demandam especial atenção de seus articuladores, pois
fariam enorme diferença na relação com a sociedade em geral, no
que diz respeito à capacidade de apreensão de uma pauta tão
ampla de valores a serem transformados e estabelecidos, ainda mais
diante de uma mídia cada vez mais concentrada e profissional, que
atinge corações e mentes desavisados com extrema e perversa
facilidade.
A
idéia de controle público, que fundamenta as ações do Fórum
Nacional pela Democratização da Comunicação, se pauta na
capacidade da sociedade civil em "relativizar a natureza da
propriedade dos meios de comunicação como fator de
condicionamento e determinação exclusiva da sua operação e
cumprimento do seu papel social" (1994: p.5). No entanto, a
natureza pública que deriva desta articulação precisa ser
assimilada como conseqüência e não causa do envolvimento da
sociedade civil com a temática da comunicação, que ainda está
distante de acontecer.
Pois
se, nas palavras de Murilo César Ramos, "a comunicação
como campo específico do conhecimento, constitui-se um dos locus
ideais para a prática do paradigma da totalidade como
um novo método de apreensão e transformação do real"
(2000: p.87), é preciso que a consciência em torno desta temática
seja compatível com seu potencial de transformação.
De
uma certa forma, num determinado momento, as vias institucionais e
de ação direta precisam se encontrar, e o que se apresenta como
evidente a partir dos movimentos de ambos os lados, é que as ações
diretas vão fundamentar - seja forçando uma ação regulatória,
seja demandando-a por parte da sociedade - uma regulação mais
consensuada por parte dos governos. Enquanto esse momento não é
construído a contento, as ruas vão cada vez mais sendo tomadas
por experiências das mais diferentes matizes.
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no Brasil. 1994 (mimeo.)
(*)
- Jornalista, Professora Universitária, Pesquisadora, Mestre
e Doutoranda em Comunicação Social pela Universidade
Metodista de São Paulo. Editora do informativo eletrônico
"Sete Pontos" -
http://www.comunicacao.pro.br/setepontos.
(**)
- Publicitário, Professor
Universitário, Pesquisador, Mestre e Doutorando em Comunicação
Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador
do informativo eletrônico "Sete Pontos"-
http://www.comunicacao.pro.br/setepontos.
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