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Autopoiesis da Internet

Alcioni Galdino Vieira

Instituição: Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA)

 

Resumo

Observando-se o elevado grau de complexidade advindo dos processos comunicacionais dos novos media, este trabalho aborda o ciberespaço do ponto de vista do seu funcionamento sistêmico, com base na Teoria Sistêmica Sociológica desenvolvida pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann. Uma teoria que compreende os fenômenos sociais como sistemas autopoiéticos em seus entornos e a comunicação como substrato da sociedade. A proposta consiste em verificar em que medida a Internet pode ser caracterizada como um sistema funcional diferenciado ou descrita como pertencente a outros subsistemas sociais já diferenciados, como os sistemas mass mediático, econômico, científico, entre outros.

Palavras-chave: Internet, Teoria Sistêmica Sociológica, Autopoiesis. 

 

A utilização da Rede Mundial de Computadores vem crescendo velozmente em todos os setores da sociedade. Escolas, empresas ou residências usam-na como ferramenta pedagógica, mercadológica, comunicacional ou de entretenimento, tanto em grandes centros quanto em pequenas cidades. O acesso e a expectativa de utilização da Rede tornam-se cada vez mais ostensivas. Como reflexo desse contexto, são muitas as áreas da produção científica que atualmente se ocupam em pesquisar aspectos da Internet, com a abrangência de uma multiplicidade de temas, o que exige, comumente, elevado grau de interdisciplinaridade.

Entretanto, os estudos divulgados até agora esclarecem muito pouco acerca da especificidade sistêmica da Rede Mundial, ou seja, falta uma conceituação da autopoiesis da Internet, capaz de elucidar muitos aspectos que hoje parecem ser ainda obscuros no âmbito da Teoria dos Sistemas Sociais. Talvez porque a maioria dos pesquisadores opte por uma abordagem fragmentada, estudando apenas alguns dos “serviços” da Internet, em decorrência das possíveis dificuldades encontradas quando se abrange um campo muito amplo de dados.

Parece existir, também, aquilo que Fuchs (1997: p. 1) denomina “Mystik des Internet / mística da Internet”, uma espécie de “listigen Freiheit gegenüber theoretischer Orthodoxie / liberdade astuta em relação à ortodoxia teórica” (Fuchs, 1997 : p. 5), um mecanismo de autocamuflagem que faz com que se chegue quase sempre a uma visão ofuscada e às vezes míope a respeito da Internet.

A Comunicação Social, particularmente, encontra nesse âmbito um vasto campo de questionamentos especialmente no que se refere ao surgimento de novas formas comunicacionais, as quais combinam aspectos da interação presencial e da comunicação mass mediática.

Obviamente, a Comunicação Social dispõe já há algum tempo de novas possibilidades, mas o assunto ganhou maior ressonância desde o surgimento do processamento de dados eletrônicos  de forma a permitir que ocorram processos de troca, com a participação de pessoas particulares em âmbito mundial. Essa forma é aquela rede que aparece quase que misticamente, esse entrelaçamento global, que possui a qualidade do incontrolável, um tipo de novo deus oculto a quem se prestam tributos numa quantidade não previsível de evocações científicas, artísticas e intelectuais. E porque os conceitos faltam, surgem metáforas em grande quantidade, e rede[1] é um exemplo disso.

É possível que o sucesso global e quase drástico da Internet, com seu crescimento explosivo, satisfaça uma necessidade social do mundo. Um exemplo disso é o fato de o próprio sistema educacional defender o ponto de vista de que a técnica de comunicação, fundamentada na Internet, deve estar à disposição dos escolares, das crianças (como se essas tivessem os limites que ainda têm muitos dos professores no manuseio de recursos tecnológicos).

Total inclusão: isto também poderia ser entendido como pano de fundo da fascinação psíquica que parece ativar a Internet. A Rede constrói observadores e abre para os sistemas psíquicos a possibilidade de vivenciar a sociedade mundial, apresenta uma versão duplicada da sociedade na sociedade “virtual”. Não se pretende aqui proteger essa distinção entre virtualidade e realidade, busca-se, entretanto, uma diferença capaz de distinguir a comunicação processada pelos sistemas que estão na Rede de tal forma que o conceito de virtualidade ganhe contornos.

Digno de reflexão é o fato de que a inclusão é parte do esquema inclusão/exclusão. Sem dúvida, há restrições, bloqueios, como, por exemplo, a falta de uma técnica, falta de dinheiro, falta de instruções, proibições ideológicas que não significam barreira. O modo de funcionamento da Internet impossibilita que endereços sociais sejam excluídos: todos precisam poder participar de todos os sistemas funcionais, porém a ninguém pode ser transferido o caminho da inclusão.

É exatamente nesse ponto que surge uma espécie de mácula estrutural da sociedade pós-moderna, isto é, o paradoxo da igualdade que cria desigualdade, que precisa ser transformada novamente em igualdade. Uma espécie de sistema parasitário que em medida mundialmente ampla não leva totalmente em conta a desigualdade de chances das culturas e formações das individualidades.

À primeira vista, a Internet não exclui nada e possui quase absoluta permeabilidade para tudo o que é comunicável. Ela é, como se poderia dizer, quase como uma réplica da sociedade e justamente isso pode levar à suposição de que não atende a uma necessidade parcial, mas se condensa num aspecto ligado genuinamente à forma da sociedade pós-moderna.

O mundo é dividido em verdadeiro/falso, ter/não ter, pagamento/não pagamento, legal/ilegal, imanência/ transcendência, arte/não arte, ocupação de cargos/não ocupação de cargos etc. Essa forma primária de diferenciação provoca o problema referente a todos esses acessos mundiais totalizadores, ou seja, o problema da policontextualidade da sociedade que é elaborada sobre duas vertentes, ligadas intimamente uma com a outra. E é justamente pelo fato de a sociedade tornar-se policontextual que a Internet não pode criar e sustentar um modelo de consciência homogêneo. 

A manifestação social interna de sistemas funcionais como ciência, economia, direito, religião, arte, política etc., cuja especificação consiste no fato de que mantêm (cada um por si) um acesso mundial por meio de um código binário (específico de cada sistema), assegura à Rede sua exclusividade em relação as suas próprias funções.

E assim, na falta de limitações gerais, a comunicação transcorre cada vez mais facilmente por meio da Internet. Parece não existir nenhuma instância, nenhum limitador capaz de pará-la: ela precisa do ruído produzido pelo entorno psíquico, isto é, ruído estruturado de máquinas históricas com uma capacidade de elaboração informativa limitada, com uma complexidade menor em vista da sociedade. Portanto, trata-se da construção complexa de uma esfera social que não se orienta na consciência real, mas nas formas que podem subordinar-se a ela.

Para um assunto de tamanha complexidade, torna-se difícil utilizar conceitos pertinentes, e o primeiro passo para a simplificação é usualmente uma delimitação. Esta, no caso do presente trabalho, está primeiramente numa avaliação de que a Internet seja um fenômeno social. Uma segunda delimitação resulta do fato de que das teorias que se encontram nas disciplinas relacionadas aos fenômenos sociais uma está sendo aqui selecionada: a Teoria Sistêmica Sociológica, particularmente as premissas teóricas desenvolvidas pelo sociólogo alemão Niklas Luhmann. 

O grau em generalização decorrente dessa segunda delimitação exclui a possibilidade de que se trate simplesmente de sociologia técnica. Trata-se de menos, mas com isso também de mais.

O sociólogo alemão Niklas Luhmann (1927-1998) desenvolve, desde meados dos anos 1960, sua Teoria Sistêmica Sociológica. Sua vasta obra de 63 livros e 419 artigos[2] incorpora influências, sobretudo, de concepções que vêm das chamadas ciências exatas, especificamente da biologia, na adaptação de conceitos como “observador”, “acoplamento estrutural” e “autopoiesis”, dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, e da matemática, especificamente do livro Law of forms, de Spencer Brown (1969) e culmina na sua última publicação, os dois volumes de “A sociedade da sociedade” (1997).

 

A Internet é um sistema social?

Para introduzir esse questionamento, uma explicação se faz necessária: a Internet possui uma gama de “serviços” (WWW, e-mail, chat, Usenet, FTP, weblogs) tão ampla e diversificada que se torna difícil concebê-la como um (único) subsistema do sistema social. Ao mesmo tempo, diferenciar as “partes” que constituem a Rede na busca de desvendar sua especificidade sistêmica seria, no mínimo, uma maneira simplista de conceituá-la, além disso, um modo de avaliação que contraria os princípios da própria Teoria Sistêmica Sociológica[3].

Entretanto, as duas principais tentativas conhecidas, de conceituar a Rede como um (sub) sistema social diferenciado, foram feitas considerando separadamente os “serviços” específicos da Internet: Peter Fuchs (1997) defende a tese de que a WWW poderia preencher esses critérios, Steff Huber (1998) diz o mesmo da Usenet.

Poder-se-ia, ainda, conceber os diferentes serviços da Internet (e mesmo esses divididos mais uma vez segundo temas e intenções) como constitutivos de subsistemas já diferenciados, como, por exemplo, sistema dos mass media, sistema econômico, sistema científico entre outros.

A questão inteira é, portanto: a Internet é um sistema social diferenciado? Se for sim, qual sua especificidade sistêmica? Se for não, a qual (quais) sistema(s) pertence?

A Rede, tal qual hoje é conhecida, iniciou como meio científico de comunicação (ligado às universidades). Em princípio, no âmbito da ciência, a Internet apresenta características indicativas de que pode ser considerada como o equivalente eletrônico em relação à correspondência e à publicação científicas. Nenhuma de suas características apresenta uma sistematização, além de seu caráter de meio de comunicação, específica de um sistema científico.

Com a abertura e mudança de direção para os mass media, assim como para outros sistemas sociais, surge uma disponibilidade mais ampla para além dos grupos de elite. Como também linhas paralelas ao sistema dos meios de comunicação de massa.

Essas linhas paralelas fazem a introdução dos três campos temáticos (notícias e reportagens, propaganda e entretenimento), típicos para os mass media. Uma abertura da Internet para a opinião pública desenvolveu-se, de certo modo, ao lado dos meios de comunicação e informação “tradicionais”, do “setor de entretenimento” (jogos on-line, softwares de diversão) e, naturalmente, da propaganda. Esta última se adequa exclusivamente às necessidades da Rede: quando empresas desejam informar sobre seus produtos e serviços, podem recorrer à mais ampla veiculação de propaganda pela Internet, o que significa diminuição dos custos, por meio de diversos formatos como spam-mails (E-mails de propaganda), cookies (arranjos de perfis de usuários segundo o comportamento de navegação observado), entre outros.

Porém, certamente se torna difícil, com base nessas linhas paralelas ao sistema de meios de comunicação de massa, conceituar todo o funcionamento da Internet no sentido estrito de sistema dos meios de massa desenvolvido por Luhmann, mesmo se essa paralela é válida para todos os serviços da Rede, pois os motivos de uso dos serviços individuais são diferentes demais, mesmo se uma das características da Rede for o fato de que justamente a interligação desses diferentes serviços constitui sua verdadeira força e flexibilidade.

A Usenet, por exemplo, consiste de um grande número de “lousas” eletrônicas às quais podem ser enviadas contribuições-resposta ou delas requisitadas. São divididas, hierarquicamente, em temas e selecionadas mais uma vez nas lousas segundo threads (pistas), isto é, segundo consultas e respostas a um determinado tema. Na maioria das vezes os postings ficam um tempo limitado à disposição do usuário e depois são apagados. Alguns são arquivados e então são requisitáveis através da WWW.

Os threads que estruturam o sistema Usenet na forma consulta-resposta (comentário, perguntas conseqüentes etc.), servem à facilitação de possibilidades de anexação de comunicações. Estas devem obedecer a certas regras: precisam estar relacionadas a temas e serem relevantes. A criação de um novo thread necessita orientar-se às regularidades da Usenet, caso contrário o novo thread é percebido como uma interrupção ou como um ruído e conseqüentemente é interditado. Huber (1998) sugere para a Usenet o código relevância/irrelevância segundo o qual as comunicações são estruturadas. Para esse autor, a capacidade de produtividade do sistema torna-se maior quando os newsgroups fortemente diferenciados criam relevância e complexidade.

A função da Usenet consiste, de acordo com esse autor, essencialmente, na possibilidade de extensão e ampliação das comunicações de toda a sociedade, apesar de não ser exigido nenhum conhecimento prévio do parceiro de comunicação. No espaço da Usenet, em princípio, cada um pode expressar-se livremente, embora haja certo controle exercido pelos moderadores[4]. No lugar das organizações do sistema dos mass media ou do conhecimento pessoal baseado na confiança como fundamento para a segurança de seleção, aparece na Usenet um processo comunicacional diferenciado.

De acordo com Huber (1998), existe na Usenet uma série de ideais e tendências, disponibilidade e predisposição à expansão, tanto de informações como também de atitudes de ajuda cotidiana ou formação de grupos mais informais[5].

Já para Fuchs (1997), somente a World Wide Web pode ser considerada um subsistema social diferenciado. O autor afirma não existir nenhuma diferenciação totalizante no código funcional desse subsistema, mas uma operação específica: a lincabilidade.

A WWW possui, para esse autor, primeiramente um caráter de registro. Entretanto, não funciona como um registro comum, mas experimenta estruturações internas que se unem e se interrompem seguindo regularidades próprias.

De acordo com Fuchs, através de um hiperlink é oferecida ao leitor de um documento uma comunicação anexa. A anexação, por intermédio de um link de um texto já existente em outro novo documento, atesta a compreensão social do texto. A possibilidade de anexar no sistema WWW novas comunicações e hiperlinks, os quais remetem a textos dentro da Rede, faz com que o sistema alcance uma coesão operacional.

A conclusão de Fuchs de que a unidade elementar do sistema (WWW) seria o lincar é bastante interessante. Entretanto, parece ser incoerente aplicar a teoria somente a um dos “serviços” da Internet, ou seja, a Web. Assim como ocorre com Huber, em relação a Usenet.

De acordo com Luhmann (1998), tudo o que é chamado de um sistema precisa organizar-se autopoeticamente. Poder-se-ia então partir do seu aspecto mais simples, ou seja, da técnica: o modo de funcionamento de uma máquina cuja singularidade consiste no fato de que ela sempre será ligada por qualquer pessoa (desse modo, mantém constantemente contatos com o entorno), e exatamente por isso deve sempre distinguir, observando o entorno, dois estados: ligado/desligado ou dentro/fora ou anexado/não anexado.

A dualidade de estados pode ser entendida num sentido completamente físico, sem que se tenha de cair nos abismos da falta de uma teoria. Assim, o sistema Rede teria uma singularidade rara, inquietante, e estaria constituído em relação ao seu limite “alopoiéticamente”. Não poderia ele mesmo dispor de sua diferença interior/exterior. O limite seria, portanto, realmente o limite técnico.

O sistema (como, por exemplo, o sistema de interação, organizações dos sistemas funcionais) não poderia decidir a respeito de que comunicação pode ser registrada como evento interior, que endereço social é admissível na Rede ou o que pode ser incluído ou excluído em processos comunicacionais. Tentativas para impor uma norma de controle legal para a exclusão de endereços falharam até agora, em toda parte, segundo se sabe. E se for certo que o limite é o simples ligar/desligar, então só seriam bem-sucedidas as tentativas correspondentes se o sistema fosse desligado (isso só poderia ser possível em condições extremamente totalitárias).

Ora, se o limite estiver definido alopoiéticamente, então o sistema parece tornar-se registrável. Desse modo, o entorno anexa, por assim dizer, comunicações no registro do sistema[6], todas as possíveis formas sociais de comunicação de uma sociedade, sem que o sistema tenha um controle sobre isso. E a pergunta é, então, se não faz sentido evitar-se o conceito de sistema social, pois, na concepção mais atual, esse não é um simples registro?

Mas, como afirma Fuchs:

“Wenn man aber darauf insistieren will, daß das Netz in Wahrheit ein soziales System sei, dann muß das Register in sich selbst auf sich selbst reagieren können (…) Mir scheint, daß jene Spezifik und diese Eigensensibilität ihre Quelle haben könnten in der Struktur der (Hyper)links, also in der Möglichkeit, von jedem Text/Bild aus gleichsam durchzustechen in andere Texte/Bilder mit weiteren links (…) Man könnte das ein operatives Verweisen nennen. Wenn das so ist, liegt es nahe, die Autopoiesis des Systems in der Produktion und Reproduktion von Operationen zu vermuten, die Verweisungen sind, oder genauer noch: Die elementare Einheit des Systems wäre die Operation (und ich bitte um Vergebung für die seltsame Ambiguität des Wortes) des linkens / Se, porém, quiser-se insistir nesse ponto, de que a Rede é em verdade um sistema social, então o registro precisa poder reagir em si mesmo e sobre si mesmo (...) Parece que aquela especificidade e essa auto-sensibilidade poderiam ter sua fonte na estrutura dos (hiper)links, portanto, na possibilidade a partir de cada texto/imagem, ao mesmo tempo poder passar para outros textos/imagens por meio de outros links (...) Se isso for assim, pode-se supor que a autopoiése do sistema está na produção e na reprodução de operações que são remissões ou mais  exatamente: a unidade elementar do sistema seria a operação do lincar”. (Fuchs, 1997. p. 2-3)

 

Se os conceitos de Fuchs forem aplicados para todo o funcionamento da Internet, e não somente à WWW, ter-se-á um processo realizado pelo próprio sistema e não pelo entorno, não se tratando simplesmente do fato de inúmeras informações serem expostas a inúmeros observadores numa mídia tecnóide. O registro teria, assim, a forma de sentido, a estrutura de um horizonte aberto, enquanto que a referência representaria um penetrar direto àquilo que é remetido[7] .

Sob esse prisma, a Internet pode ser apreendida como um sistema funcional diferenciado, cuja especificidade está fundamentada na estrutura dos links. Para Fuchs, é justamente isso que torna a metáfora do “navegar”  tão clássica.

Visto sob um outro prisma, se esse lincar é ou não uma operação elementar de um sistema social, pode-se trabalhar com a diferenciação de forma e mediação e dizer a título de experiência que a Rede trabalha com uma porção de elementos acoplados estruturalmente (informações). Portanto, ela é um medium onde se inserem formas por intermédio da técnica de remissão operacional, ou por acoplamentos mais rígidos.

Os links (o lincar) são estruturas, ou seja, processos por meio dos quais a metáfora da rede parece justificada e se torna, ao mesmo tempo, obsoleta quando não se tem a tendência de conceber a metáfora rede como uma imagem quase perfeita. Para que haja a autotransformação de um sistema em cada janela temporal (pensamentos experimentalmente anexados) é necessária a presença da especificidade nas operações de remissão executadas e não nos próprios temas tratados comunicacionalmente: esses são típicos para a sociedade e por isso não fornecem nenhum material para uma distinção entre Internet e sociedade.

Poder-se-ia também pensar que as conexões na Internet copiam a forma clássica de comunicação (alguém diz algo, pergunta algo, escreve algo, mostra algo e um outro alguém produz ruído que é entendido pelo sistema social como conexão). Ou ainda que essas conexões seriam restos de comunicação convencional, um tipo de parasitário anacrônico por meio do qual o sistema se especifica e cria uma outra diferença muito além de uma diferença puramente técnica ou interior/exterior alopoiética.

Se se permanecer no ponto de vista de que a operação peculiar é o lincar, como sugere Fuchs (1997), então deveria também esse indicar operativo, esse atravessar, ser momento de comunicação (senão não se poderia falar de um sistema social). E a pergunta é, então, de que maneira o conjunto pode ser formado de informação, comunicação e compreensão (portanto, comunicação) de um modo não clássico ou não convencional de conexão?

A autopoiesis da comunicação é um fenômeno temporal. Uma comunicação é entendida socialmente quando um evento de conexões a identifica como determinada, informando sobre algo determinado. A forma temporal é, portanto, a da transposição, do adiamento, da prorrogação, da differance. No caso da Internet, a própria Rede parece basear-se em remeter, em indicar operacional, um processo por meio do qual comunicações de todos os sistemas funcionais são ligadas a outras que as seguem no tempo do usuário, mas sem a especificação ou identificação da comunicação antecedente. É como se se tratasse dela, porém, como se se tratasse do próprio remeter operacional. Ou dito de outra forma: o evento da conexão liga-se a uma comunicação na comunicação.

A qualidade mediática da Rede pode ser caracterizada por seu modo de processar comunicações em grande quantidade decorrentes das informações anexadas ao registro, as quais se expõem a uma observação de toda parte, a uma observação psíquica, mas também à observação social, culminando na produção e na reprodução de eventos conectados. A anexação de comunicações na Internet pode ter uma reação com outras anexações e é difícil detectar onde se poderia encontrar uma diferença entre o procedimento de uma comunicação social e de uma comunicação de Internet.

Logicamente, encontram-se diferenças entre aquilo que acontece comumente na interação, ou seja, entre a presença e a não presença de corpos, diferença, portanto, em relação à administração da percepção. Mas a essas diferenças chega-se também quando se torna claro que justamente elas marcam o nível da diferença de interação na Internet e no sistema social.

Certamente, é uma questão interessante a verificação de como essa diferença de nível é elaborada na Internet, que modificações se introduzem nela de um modo mais pragmático, mais temporal, mais social. Tudo isso não constitui, entretanto, uma razão para se considerar a Internet como algo tão diferente que os instrumentos de análise precisem ser modificados.

Diferentemente dos mass media que estão na mesma direção (na medida em que se dirigem a um grande número de elementos não especificados), mas que ainda não conseguiram introduzir interatividades num sentido mais do que rudimentar, a medialidade da Internet é construída de tal forma que deixa passar qualquer ruído em sua fronteira, principalmente ruído particular. Dessa forma, o sistema implementa a sociedade: suas modas, seus temas, a comunicação das condições atuais ou das ansiedades nostálgicas.

 

Bibliografia

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[1] Colocou-se a palavra rede em itálico, porque a Teoria dos Sistemas Sociais não é uma teoria da rede. Se a Rede é uma rede também são sem efeito todas as reflexões a seguir, se não, recorre-se à distinção central da Teoria Sistêmica Sociológica, a distinção do sistema, portanto, a diferença de sistema e entorno. 

[2] Ver o site do Círculo Berlinense de Luhmann: www.asa.de/blk/neu. 

[3] Na Teoria dos Sistemas Sociais, o paradigma parte-todo, ligado à cultura do patriarcado, linear e alfabética, é substituído pela noção de circularidade, própria da cultura matrística, dos sistemas autopoiéticos (Mariotti, 2002).

[4] Fóruns e listas de discussão possuem, geralmente, moderadores. Estes assumem o comando desses espaços comunicacionais e, em primeira instância, ditam as normas e os regulamentos a serem seguidos por todos os participantes.

[5] Como exemplo, tomem-se os numerosos grupos de auto-ajuda para doenças graves.

[6] A formulação comum é: a gente coloca algo, coloca um texto na Internet.

[7] Poder-se-ia chamar a isso de um remeter operativo.

 



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