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CIDADE-CIBORGUE.
A CIDADE NA CIBERCULTURA*
André
Lemos
"Finalmente,
a viagem conduz à cidade de Tâmara. Penetra-se por ruas cheias
de placas que pendem das paredes. Os
olhos não vêem coisas, mas figuras de coisas que
significam outras coisas..."
INTRODUÇÃO
As
cidades contemporâneas passam por transfigurações importantes
com o advento das novas tecnologias de comunicação e informação
e, embora toda cidade seja um artefato complexo composto por
diversas redes materiais e espirituais (Saint Simon), podemos ver
as atuais cidades como uma cidade-ciborgue. O objetivo desse
artigo é descrever e analisar as principais transformações
pelas quais passam o espaço urbano na atual cibercultura.
As
novas tecnologias de comunicação e informação têm
transformado vários segmentos da sociedade contemporânea fazendo
com que diversos analistas tenham sugerido classificar a época
como sociedade pós-industrial, sociedade pós-moderna, sociedade
da informação ou informacional, cibercultura, sociedade em rede,
etc. Embora a compreensão da condição contemporânea não seja
unânime, podemos dizer com alguma coerência que o que está em
jogo são modificações espaço-temporais profundas que alteram,
remodelam e inovam a dinâmica social. Trata-se do surgimento
daquilo que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou de
“modernidade líquida” (Bauman, 2001).
Torna-se
urgente compreender as transformações da cidade contemporânea
em meio às novas tecnologias de base micro-eletrônica e de
telecomunicações. O entendimento da relação entre cidades e
telecomunicações deve superar o determinismo tecnológico e o
futurismo utópico/distópico tão típicos das análises dos
“impactos” das tecnologias na sociedade e na cultura. Tanto
otimistas como pessimistas vêem insistindo na unidirecionalidade
desses impactos. Pretendemos aqui abordar a questão das cidades
da cibercultura sob o prima do que chamaremos de
“cidade-ciborgue” com o objetivo de evitar quaisquer
determinismos (social ou técnico) e ressaltar as novas
infraestruturas digitais em sua interface com o espaço urbano.
A
cidade-ciborgue é a cidade da cibercultura, preenchida e
complementada por novas redes telemáticas - e as tecnologias daí
derivadas (internet fixa, wireless, celular, satélites,
etc) - que se somam às redes de transporte, de energia, de
saneamento, de iluminação e de comunicação. Devemos
compreender a cidade-ciborgue como um híbrido, composto de redes
sociais, infraestruturas físicas, redes imaginárias (Westwood e
Williams, 1997), constituindo um organismo complexo, cuja dinâmica
está atrelada às novas tecnologias da cibercultura, próximo da
metáfora do ciborgue (Lemos, 1999). A cidade sempre foi um artifício
e hoje essa artificialidade está presa nas garras do digital.
CIDADE
COMO ARTIFÍCIO
A
cidade é um artifício, uma máquina imaginária e concreta, que
coloca em sinergia processos complexos de transporte e comunicação.
Este não é um fato novo e desde as primeiras necrópoles
primitivas, passando pelas cidades medievais, pelas cidades do
renascimento, pelas cidades modernas da era da eletricidade, das
redes de comunicação (telégrafo, rádio e TV) e do automóvel,
até as cidades contemporâneas do ciberespaço, o que está em
jogo é a dinâmica complexa das diversas redes tecnosociais
(Musso, 1997; Castells, 2000; Mumford, 1998, Blanquart, 1997).
Desde as primeiras cidades, esta relação, que é própria
cultura, se dá pela circunscrição artificial do mundo natural,
consolidando a própria humanidade. A cidade é uma grande máquina
artificializante.
Desde
a clássica “República” de Platão que os homens sonham com a
cidade ideal, berço da vivência democrática, livre e autônoma.
As cidades utópicas de Platão, Thomas More, Santo Agostinho ou
Campanela lembram sempre o desejo humano inalcançável de um
lugar e tempo ideais (Bosi, 1997). E a utopia é sempre uma u-cronia
já que o lugar a chegar (u-topos) está sempre fora do
tempo (u-cronos). A cidade-ciborgue da cibercultura é
preenchida por essa utopia e também pelas diversas distopias
(1984, Metrópolis, Blade Runner, Matrix) de um mundo controlado e
robotizado pelas tecnologias. Vivemos esse dilema de, ao mesmo
tempo, estarmos na cultura e lutando contra os excessos dessa
artificialização. O processo de “ciborguização” (Lemos,
1999, Gray, 1995) contemporâneo do corpo, do imaginário e das
cidades nada mais é do que um prolongamento dessa condição
humana presente desde as primeiras cidades (Mumford, 1998;
Blanquart, 1997).
O
homem só existe na cultura e a cidade é um dos seus principais
artefatos, morada dos agrupamentos sociais, palco da cultura
humanista e berço das artes e espetáculos. A cidade sempre foi
uma estrutura híbrida e complexa, mas é a partir da década de
70, com a convergência entre as novas tecnologias e a informática,
que podemos situar a emergência de uma cidade-ciborgue, fusão,
complexificação e transformação da estrutura urbana clássica
pelas tecnologias digitais de comunicação e informação. O
processo está em andamento e em complexificação crescente nos
obrigando a investigar essa nova relação.
A
questão da artificialidade está presente desde a formação do
homem e das primeiras sociedades e toda formação social se
estabelece numa circunscrição que necessita o controle, a
manipulação e a transformação da natureza. O processo de
“cyborguização” contemporâneo nada mais é do que a expansão
dessa ordem à parte formada pelo homem, de sua saída da natureza
na construção da “segunda ordem artificial”. A
cidade-ciborgue é a forma atual do espaço urbano, da polis
contemporânea, na sociedade das redes telemáticas, da
cibercultura e da era pós-industrial.
Para
Serge Moscovici (Moscovici, 1972) a sociedade constitui-se
justamente na afirmação de sua independência em relação à
natureza lutando contra as forças da irracionalidade,
do acaso, e dos demais instintos animalescos. A cultura é
uma forma de defesa contra as intempéries do mundo natural. A
sociedade é, nesse sentido uma “contra natureza”. A questão
do artificial se descola assim de uma possível essencialidade
humana visto que a sociedade nas cidades se forma nesse processo
crescente de artificialização do mundo. O artificial é assim
profundamente humano. A cidade é produto da humanidade
artificializante atingindo seu ápice na cidade-ciborgue contemporânea.
É
nessa perspectiva que deveremos pensar a “cyborguização” da
cultura contemporânea já que o presente e o devir da humanidade
é um “devir-ciborgue” . A cidade como artefato técnico e
desde sempre híbrido não está fora desse processo. O que
queremos mostrar aqui é a extensão cada vez maior das
tecnologias digitais de comunicação e informação na vida das
cidades (Peixoto, 1998; Rybczynski, 1995). Como veremos, a
cidade-ciborgue é a cidade contemporânea permeadas por espaços
de fluxos de informações digitais planetários e suas diversas
tecnologias ligadas por redes telemáticas. Emergem da
cidade-ciborgue questões como cidades virtuais, governo eletrônico,
cibercidadania, exclusão e inclusão digital, ciberdemocracia,
questões essas urgentes para a compreensão da cibercultura do século
XXI.
CIDADE
COMO ORGANISMO
Um
dos primeiros pensadores a vincular a idéia de cidade à metáfora
do organismo foi Claude de Saint Simon no século XIX. A partir de
então as ciências sociais interessam-se pelo tema influenciando
a própria formação da sociologia e escolas como a de Chicago no
começo do século XX. Para Saint Simon a cidade é um organismo
vivo permeado por redes que o alimentam e o mantêm em
funcionamento. A idéia de rede trata as cidades através da metáfora
do organismo vivo, construídas pela intersecção de duas formas
de redes: uma rede material composta de trocas de energia e matéria-prima
e uma rede espiritual formada pelo fluxo financeiro. Saint Simon
vai assim ser o percussor e influenciará a sociologia urbana da
Escola de Chicago no início do século XX e a atual emergência
de redes telemáticas (Musso, 1997; Perrochia, 2001).
A
cidade-ciborgue contemporânea insere-se assim nessa sociedade em
rede preconizada por Saint Simon e vai caracterizar o atual espaço
de fluxos, como propõe Manuel Castells (Castells, 1996). As
cidades contemporâneas são assim prolongamentos da urbanização
que se inicia no século XIX, amadurece na modernização do século
XX e se estabelece como cidade-mundo na era pós-industrial. Ela,
como organismo híbrido de cibernética e organismo, só pode
existir num mundo traduzido em informações binárias, regidas
pelo princípio da cibernética. A idéia de cidade como
organismo, composto por redes, será importante para a compreensão
sociológica da questão urbana e para a constituição da
cidade-ciborgue que surge com o novo paradigma o eletrônico-digital.
As
cidades-ciborgues, como vemos, não surgem do nada. Suas origens
remetem à evolução urbana moderna, ou seja, a partir das
últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX
(Graham e Marvin, 1996). Para esses autores, as cidades modernas
surgem a partir de 1820 com a cidade mercantil onde a concentração
das atividades se dá nos centros urbanos e nos centros das
cidades. A fábrica de um lado, o porto do outro e no centro o comércio
mostram essa primeira forma de concentração. A partir de 1870 a
cidade industrial passa a ser formada por áreas residenciais das
classes trabalhadoras e no centro o desenvolvimento dos setores
comerciais. A nova concentração se dá agora no distrito central
de negócios. Na década de 1920, década do monopólio
corporativo da cidade, estabelece-se ao centro uma área
residencial das classes trabalhadoras e comercial e, mais
distante, a cidade industrial satélite. Em 1970 começa a emergir
a cidade-máquina, ainda uma cidade fordista administrada onde
vemos ao centro áreas residenciais das classes trabalhadoras e o
centro comercial. Surgem agora subúrbios e em volta deles alguns
sub-centros. E já se vê a presença de um distrito central de
negócios internacionais, caracterizando uma nova forma de dispersão.
Pouco a pouco a economia industrial da cidade-máquina vai sendo
substituída pela economia pós-fordista, líquida e informacional
da cidade-ciborgue.
A
economia industrial vai pouco a pouco interagindo com uma nova
economia pós-industrial que por si está gerando novos
paradigmas. Aqui podemos ver a gênese das cidades-ciborgues. A
informação ganha peso estratégico e uma nova economia surge em
busca de constante flexibilidade, descentralização, gestão da
informação e eficiência. É uma nova visão que sobrepõe a
manufatura de serviços de produção (que estão migrando para
localidades marginais) fazendo surgir os serviços de consumos
baseados em informação e conhecimento. É o surgimento da
sociedade informacional de fluxos planetários de informações
trafegando pelo ciberespaço (Castells, 1996). Essa reestruturação
é resultado de novas possibilidades que as redes telemáticas
oferecem, encurtando espaços e reduzindo a temporalidade ao
“live”, através de sistemas técnicos que permitem ação à
distância.
Na
cidade-ciborgue o espaço cibernético e o tempo real juntam-se ao
espaço físico e ao tempo cronológico.
Não se trata de uma substituição das cidades de aço e
concreto mas de uma reconfiguração profunda. Assim, na
cidade-ciborgue passam a evidenciar-se interações complementares
entre a cidade física e a eletrônica e não a sua desmaterialização
ou substituição total. A cidade de concreto e aço não
desaparece e não desaparecerá, muito pelo contrário. Podemos
ver mesmo uma certa inter-relação aguda entre os espaços eletrônicos
e os espaços físicos. Estamos assistindo a mutações
importantes no que venha a ser o espaço urbano (suas práticas,
suas formas econômicas, o exercício da política, a constituição
e transmissão da cultura) e não a sua dissolução no eletrônico-virtual.
O fato é que as potências intrínsecas do avanço tecnológico,
de antemão, já determinam um futuro inexorável da entrada das
cidades na lógica das redes telemáticas, a cidade-ciborgue,
tornando-se necessária uma reflexão sobre todas as conseqüências
dessas novas incorporações.
Como
vimos, a partir das décadas de 70 e 80 podemos começar a
vislumbrar as transformações tecnológicas e multisociais da era
da informação. Vemos emergir a cidade-ciborgue. Aqui se impõe o
que Castells propõe chamar de espaço de fluxos. O espaço de
fluxos é definido como uma organização material que permite práticas
sociais simultâneas sem necessariamente haver uma continuidade
territorial física. Ele não é apenas o espaço eletrônico e se
contrapõe as noções simplistas que anunciavam a morte das distâncias
e o fim das cidades. O espaço de fluxo problematiza o espaço de
lugar da mesma forma que o tempo real atinge a noção de tempo
cronológico. O tempo instantâneo das trocas de informação faz
com que os locais possam ser alcançados de forma nunca antes
vista, através da interação com os novos sistemas tecnológicos
de telecomunicações. O espaço de fluxos é a organização
desta nova estrutura específica definida por uma concentração e
descentralização territorial articulada por redes telemáticas,
o ciberespaço.
O
espaço de fluxo reestrutura as cidades e dá forma às cidade
contemporâneas. A rede telemática é a infraestrutura central da
cidade-ciborgue. Os espaços de fluxos caracterizam-se assim por
integração das redes e é construído de nós que se estruturam
a partir da conexão e atividades em uma dada localidade. Ele é
feito e preenchido por diversos atores sociais que operam a rede,
seja em espaços residenciais, de trabalho ou lazer. No entanto o
espaço de fluxo mostra sua intersecção com o espaço de lugar já
que ele se caracteriza também pelos espaços físicos compostos
de cabos, servidores, roteadores, hubs e toda a
infra-estrutura necessária ao livre trânsito das informações
digitais. Como define Castells, o espaço de fluxos é
“a
organização material de tempo-compartilhado de práticas sociais
que funcionam por fluxos. Por fluxo eu entendo sucessões
propositadas, repetitivas, programáveis de troca e interação
entre posições fisicamente deslocadas, organizadas por atores
sociais nas estruturas econômicas, políticas e simbólicas de
sociedade”[1]
(Castells, 1996: 412).
O
espaço de fluxo da cidade-ciborgue não se opõe ao espaço de
lugar. Diversos estudos apontam para essa afirmação (Graham e
Marvin, 1996; Horan, 2000; Wheeler, Aoyama, Warf, 2000; Mitchell,
2000). A
cidade-ciborgue, ao contrário, agudiza a relação entre esses
dois espaços. Os espaços de lugar, como ruas, monumentos e praças
passam a ser interfaceados pelo espaço de fluxo através dos
diversos dispositivos de conexão às informações digitais. As
diversas práticas sociais da cibercultura mostram bem essa
inter-relação (Lemos 2002, Mccaughrey e Ayers, 2003). Podemos
rapidamente exemplificar através de projetos como as diversas
experiências com as chamadas cidades virtuais (cidades digitais,
cibercidades, etc), a expansão das redes sem fio (wireless),
as diversas comunidades e ativistas que usam a rede para agir
sobre o local, os fenômenos atuais das Flash Mobs e do
Bookcrossing[2],
entre outros mostram a intensa relação entre os dois espaços.
O ciberespaço, como afirma Benedikt, aumenta e complexifica a
realidade das cidades contemporâneas (Benedikt, 1992).
A
organização social e as diversas representações políticas são
também predominantemente de base local e a identidade cultural é
freqüentemente construída através do compartilhamento da experiência
histórica em um dado território físico e simbólico. Nada disso
está ou será eliminado. Na cidade-ciborgue esses espaços passam
a ser complementares do espaço de fluxo e podemos ver mesmo a
persistência do espaço de lugar como a forma mais usual da existência
espacial das sociedades contemporâneas. Hoje, através dos
diversos dispositivos eletrônicos, o espaço de lugar é
complexificado pelo espaço de fluxo: relações estabelecidas
online repercutem em encontros reais, compras e home banking
interferem no dia a dia da cidade de concreto e aço, ativistas
usam a rede para organizar manifestações políticas ou
hedonistas como as atuais Flash Mobs. Na cidade-ciborgue, o
espaço virtual está em sinergia com o espaço de lugar.
Hoje
as atividades dominantes da sociedade em rede (finanças,
administração, serviços, comércio, mídia, entretenimento,
esportes, etc) estão organizadas em volta da lógica dos espaços
de fluxos, enquanto a maioria das formas de construção autônoma
de significado, identidade e resistência social e política foram
e estão sendo construídas no ciberespaço mas também, e cada
vez mais, em torno dos espaço de lugar. As tecnologias móveis
formam comunidades ancoradas no lugar como mostra Rheingold
(Rheingold, 2002). A grande questão dos anos a vir será como
fazer dessa inter-relação de espaços uma ferramenta de
redemocratização, de aquecimento do espaço público, de
melhoria da cidadania e da vida social como um todo (Lemos, 2000;
Aurigi et Graham, 1998; Eisenberg e Cepik, 2002).
As
diversas trocas práticas sociais da cibercultura (chats, listas,
blogs, email, etc) estão, pouco a pouco, transformando e
re-estruturando o espaço de fluxos e os espaços de lugar. A nova
estrutura midiática, aberta, multidirecional permite a expressão
autônoma através da liberalização do pólo da emissão. Esta
ocorre pela forma “todos-todos” do fluxo de informações
das redes telemáticas que estabelece um sistema de trocas
de mensagens fora do padrão “um-todos” das mídias de massa (Lévy,
1997). Tudo isso leva a novas questões políticas e culturais já
que, em potência, essa estrutura rizomática permite um fluxo
livre de informações. A cidade-ciborgue insere-se em uma nova
geopolítica informacional mundial.
A
comunicação aberta da Internet (que não significa uma
“melhor” comunicação entre os homens), atravessando os
controles dos mass media (e, em muitos casos, do governo
local), torna-se a questão política mais fundamental da
cidade-ciborgue. Grupos sociais estão estabelecendo relações de
proximidade através das redes eletrônicas, como demonstram
diversas práticas atuais como as relações sociais online, a
ocupação do espaço real através de organizações pelo espaço
virtual, a disseminação da conectividade em espaços físicos da
cidade com a tendência mundial do wi-fi, a emergência de
projetos em cibercidades e a correlata institucionalização de
processos de inclusão digital, ciberdemocracia, cibercidadania e
governança eletrônica.
As
redes telemáticas da cidade-ciborgue tem sido crescentemente
usadas pelos movimentos sociais de todos os tipos como terreno de
organização e como um meio privilegiado para quebrar o seu
isolamento e interfacear o espaço virtual ao real. As tecnologias
do ciberespaço alteraram drasticamente o significado de distância
e de tempo instaurando uma nova forma de comunicação mundial.
Para a transmissão de informação através do espaço, a distância
torna-se secundária. O estabelecimento de serviços telemáticos
significa que a presença física já não é imprescindível para
acesso aos serviços da cidade-ciborgue (governo eletrônico,
acesso a bancos de dados, entretenimento, relações ponto a
ponto). As novas
formas de telecomunicações e de mediação eletrônica induzem,
inevitavelmente, à descentralização espaço-temporal.
Muitos
autores afirmam, erroneamente, porém, que se trata de dissolução
da forma urbana. De fato estamos assistindo uma radicalização do
urbano em meio a um cosmopolitismo crescente. A cidade-ciborgue é
a cidade mundial. A compressão espaço-temporal, característica
das telecomunicações contemporâneas, significa que os custos de
interação entre áreas geograficamente separadas estão em declínio,
enquanto a capacidade de informação está crescendo
dramaticamente. Nesse sentido, as tecnologias da cibercultura
estariam reorganizando a distribuição do trabalho, do varejo,
dos serviços e das atividades de manufatura e lazer. A idéia que
aqui emerge é a da descentralização das atividades. A dispersão
das indústrias, a redução da comunicação face-a-face em
certas atividades e a diminuição das jornadas diárias em direção
ao local de trabalho iriam aliviar os problemas da cidade física
(congestionamentos, poluição, filas e outros problemas
estruturais). No entanto, nada disso se sustenta empiricamente
como afirmam Graham e Marvin (1996).
Diversos
autores entendem que as mudanças geradas pelo impacto das
tecnologias são inevitáveis e que a todo tempo estamos
vivenciando essas transformações em direção à um processo de
desmaterialização. Essa desmaterialização estaria
reconfigurando a sociedade, envolvendo e entrelaçando os seus
aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais.
Cidades-ciborgues encaixam-se bem no que alguns autores denominam
de “desmaterialização” da sociedade. As telecomunicações
fornecem sistemas técnicos que permitem ação à distância sem
movimento físico e essas novas formas de ação vão determinar
uma nova vivência do espaço urbano, sem exterminá-lo. As redes
telemáticas ampliam essa volatilidade, dando apoio ao fluxo em
tempo real do capital financeiro e dos serviços em torno do mundo
globalizado.
A
cidade-ciborgue não é uma não-cidade, muito pelo contrário.
Ela é a cidade da cibercultura. É justamente nos grande centros
urbanos que vemos o crescimento da cidade-ciborgue. Os atributos
geográficos, urbanos, a mão-de-obra qualificada e, o mais
importante, a proximidade de grandes centros econômicos
tradicionais são fatores determinantes para participar ativamente
do espaço de fluxo. Confirma-se, assim, a manutenção dos
grandes centros financeiros e de poder como cidades fisicamente
bem localizadas. O uso dessas redes telemáticas está permitindo
o controle global e as funções de gerenciamento pelas grandes
cidades. O que importa não é a gestão física do trabalho mas a
gestão de processos de comunicação entre empresas, consumidores
e fornecedores. Os grandes centros urbanos atuam como operadores e
receptores privilegiados dos produtos da era da informação. O
poder está onde sempre esteve, nas grandes cidades mundiais como
Londres, NY ou Tóquio (Sassen, 1993).
As
redes estariam favorecendo a penetração de regiões periféricas
por organizações centralmente localizadas, criando um novo
sistema de troca inter-regional de bens de informações e de
serviços com desenvolvimentos ainda mais desiguais entre cidades
e regiões. As redes telemáticas estão se tornado ferramentas
essenciais de dinamização dos aspectos urbanos das cidades,
possibilitando o gerenciamento em tempo real das ações no espaço
urbano. Na cibercultura, entender a cidade-ciborgue é uma ação
complexa que exige o entrelaçamento de todos os aspectos de sua
dinâmica, identificando como as inovações tecnológicas estão
redefinindo e reconstruindo os espaços e as ações, sem uma visão
substitutiva dos espaço já constituídos.
No
entanto, a cidade-ciborgue ainda é pouco estudada e mesmos os
urbanistas parecem não estar devidamente atentos às novas
transformações. Há uma certa negligência dos estudos urbanos
em relação às telecomunicações, prejudicando o entendimento
do fenômeno nos dias atuais. Entre os problemas que afastam os
urbanistas das atuais tecnologias e suas transformações podemos
apontar a invisibilidade dos impactos e a herança positivista do
planejamento urbano do século XX (Graham e Marvin, 1996; Ramos de
Almeida, 2001). Não se pode aplicar esquemas clássicos como a
produção de bens físicos e de mercadorias como única chave
para compreensão das dinâmicas das cidades contemporâneas. Hoje
não é mais aceitável
pensar o desenvolvimento efetivo do ambiente urbano sem um
entendimento das complexas regras das relações entre as novas
tecnologias digitais, as redes de telecomunicação e o espaço
urbano. Assim como as redes urbanas (de transporte, gás,
eletricidade, telecomunicações) são a fundação básica de
infra-estrutura para operar o moderno sistema econômico e social
das cidades, as redes telemáticas são a nova chave para
compreender as cidades-ciborgue.
Como
vimos, toda cidade é composta de diversas redes. A
cidade-ciborgue nada mais é do que a cidade contemporânea
permeada por mais uma gama de redes de infraestrutura de comunicação;
as redes telemáticas que estão modificando tanto o espaço
urbano como as relações sociais nesse espaço. No entanto, não
há o fim anunciado das cidades e mesmo a dissolução dos grande
centros já que esses continuam a ser os pólos irradiadores das
inovações, concentradores de capital e trabalho. As modificações
não se dão apenas no espaço urbano mas também no interior dos
espaços físicos, reconfigurando a arquitetura externa e interna
das cidades.
A
reconfiguração dos espaço de lugar é uma outra característica
da cidade-ciborgue. As paisagens internas e externas das cidades
estão mudando, sendo transformadas em um espaço tecnológico
como lugares digitais (Horan, 2000). Os lugares digitais estão
emergindo por uma integração tecnológica contínua. Projetos em
hiperarquitetura (Puglisi,1999) mostram a necessidade de criação
de lugares que permitam a interação entre pessoas, tecnologia e
meio ambiente. Os prédios e lugares físicos transformam-se, a
cada dia, em espaços de comunicação, máquinas de conexão, de
difusão e troca de informações. Estes não são apenas máquinas
de morar como pretendia Le Corbusier, mas máquinas de comunicar.
Podemos
ver então nas cidades-ciborgues as mudanças gradativas ocorridas
no espaço de trabalho e no espaço da casa auxiliados pelo
desenvolvimento tecnológico. Horan mostra como a casa passa a
acumular funções de moradia e lugar de trabalho, além de
mostrar como o local de trabalho torna-se, por sua vez, um lugar físico
e simbólico que incorpora cultura, interação e criatividade. São
as tecnologias digitais reconfigurando as relações físicas e
eletrônicas criando novo tipo de espaço, o espaço eletrônico
ou digital como prefere Horan. Da mesma forma, as instituições
como escolas, bibliotecas e centros comunitários transformam-se
também em lugares digitais. O desafio para as localizações fluídas
do “design recombinante” (Horan, 2000) da cidade-ciborgue é
reconhecer o fluxo espacial que atinge as atividades do dia a dia
e proporciona a construção de espaços que facilitam múltiplas
formas de comunicação.
Horan
mostra que as redes locais e remotas dão suporte às atividades
de vizinhança local, o que reforça a idéia de ligação de
comunidades de interesse com o lugar real. Várias localidades em
projetos de cibercidades (Lemos, 2000) mostram como as redes telemáticas
podem fornecer aos residentes formas de comunicação interativas
online e de participação efetiva nos assuntos da comunidade
local. Algumas experiências evidenciam que a tecnologia digital
em rede, ao invés de promover o isolamento, pode incentivar o
desenvolvimento e o crescimento de comunidades acessíveis e
civicamente conectadas, adicionando uma nova dimensão ao espaço
público, uma dimensão que interage com o espaço físico. No
entanto, apesar desta evidência, projetistas de redes eletrônicas
e urbanistas insistem em uma perspectiva tecnocrática que
focaliza estritamente a inovação tecnológica, prestando pouca
ou nenhuma consideração sobre as características culturais,
econômicas, políticas de uma determinada comunidade. A questão
atual da inclusão digital passa em muito por esse tipo de visão
que consiste em criar apenas ambientes técnicos de conexão sem
preocupação em relação a fatores não tecnológicos.
CIDADES
EM TRANSFORMAÇÃO
Como
vimos, a cidade-ciborgue da cibercultura é fruto da transformação
ocorrida nas cidades industriais na entrada do novo milênio.
Essas transformações colocam em questão as idéias e padrões
aceitos sobre desenvolvimento, administração, planejamento e
também sobre as próprias noções a respeito da natureza do espaço,
do tempo, e de todo processo concreto e simbólico da vida urbana.
Os limites da separação entre o público e o privado estão
sendo modificados e a vida urbana parece mais volátil e rápida,
mais incerta e mais fragmentada do que em qualquer outro tempo.
Como
parte destas transformações as cidades estão sendo preenchidas
por cabos de fibras ópticas, aparelhos sem fios, rede de comunicações
via satélite, microondas, redes telemáticas, equipamentos
inteligentes entre outros. Vivenciamos uma mudança de perspectiva
que transformou a sociedade dominada pela indústria e pela
manufatura para uma outra dominada pela informação, comunicação,
símbolos e serviços mediados por tecnologias digitais. Assim, o
desenvolvimento da telemática e sua difusão nas cidades não
pode ser divorciado de considerações sobre a crise paralela e
reestruturação que está acontecendo nos espaços públicos das
grandes cidades. Os últimos 20 anos testemunharam notáveis mudanças
econômicas, sociais e geográficas de cidades capitalistas
ocidentais, tanto nas suas estruturas políticas como nas dinâmicas
socioculturais.
As
cidades-ciborgues podem ser consideradas cidades da informação,
cidades transacionais, centros de troca de informações digitais
na economia mundial. A globalização está fortemente relacionada
à crescente dominância em todos os setores da economia e das
corporações transnacionais. As redes telemáticas freqüentemente
encorajam a volatilidade já que dão apoio ao fluxo em tempo real
do capital financeiro e dos serviços em torno do mundo. Através
delas, relações assimétricas de poder e controle são exercidas
entre os poderosos e os menos poderosos ou entre os que interagem
de forma autônoma com as tecnologias da cibercultura e os que são
levados sem compreender muito o fenômeno (Castells, 1989). Como
Mulgan argumenta, nesse processo de globalização e crescimento
de multinacionais:
“as
tecnologias de comunicação tem desenvolvido papel fundamental. O
grande poder do capital tem tido sempre a habilidade de escolher,
de decidir aonde localizar e quando se retirar. O satélite, cabo
e o grande aumento da microonda provoca essa mobilidade e a influência
que isso confere, permitindo bem mais políticas sofisticadas de
locação: o trabalho mental pode ser separado da produção, o
trabalho de inteligência para o que não requer inteligência,
necessidades de serviços para necessidades de manufatura”
(Mulgan, 1989;19).
As
cidades globais (Sassen, 1993) estão no centro desse processo.
Assim, Londres, Tóquio e Nova Iorque formam um mercado financeiro
global efetivo que está intimamente integrado pela via telemática.
Essas cidades funcionam como um “mercado transterritorial” ,
com Tóquio sendo o grande exportador de capital (baseado no yen),
Londres o principal centro para o processamento do capital
internacional (baseado no marco alemão e nos eurodólares) e Nova
Iorque o principal receptador de capital (baseado nos dólares
americanos). Juntos esses centros operam um conjunto de mercados
financeiros globais abertos vinte e quatro horas, dominando os
fluxos financeiros mundiais. Esta nova revolução na
infra-estrutura urbana é uma das mais fundamentais mudanças no
desenvolvimento das redes urbanas desde o começo do século
passado. O resultado é o movimento em direção ao gerenciamento
de tempo real e ao desenvolvimento das redes de infra-estrutura
hiperconectadas.
Todos
os aspectos de gerenciamento, desenvolvimento e controle da rede
de infra-estrutura da cidade-ciborgue estão sendo controlados
mais e mais por sistemas paralelos das redes de computadores (prédios
inteligentes, vigilância eletrônica, automatização de
processos urbanos como transporte, energia, entre outros). Na
cidade-ciborgue a interação entre telecomunicação e redes de
infra-estrutura podem ser caracterizadas como interdependentes,
complementares e sinérgicas.
O organismo cidade continua seu processo de crescimento e
complexificação.
As
novas tecnologias de comunicação da cidade-ciborgue estão
voltadas para uma nova inter-relação espacial, criando novas
formas de organização do espaço e do tempo. Essas novas relações
com o espaço e o tempo não significam que as cidades de aço e
concreto tenham se tornado obsoletas ou mesmo que as diversas
formas do urbano enfraqueçam a concentração urbana e a dispersão
em direção à periferia, como vimos. Não podemos arriscar
previsões futuristas quanto ao futuro das cidades
A relação entre as telecomunicações e a forma física
das cidades é certamente muito complexa. As cidades estão sendo
redefinidas e redesenhadas nos espaços físico e eletrônico,
criando as cidades-ciborgues. Na nova cidade informacional, que é
a cidade-ciborgue, as fronteiras entre casa e trabalho, público e
privado, eletrônico e físico estão passando por fusões cada
vez mais contundentes. As telecomunicações não vão
simplesmente substituir o espaço – elas irão definir como o
espaço vai ser entendido, usado e controlado. Os computadores
deverão ser usados para entender as cidades, que são construídas
por computadores (Batty, 2000).
As
cidades têm sido definidas pelos seus espaços públicos onde as
pessoas se encontram e compartilham experiências comuns. Os
sistemas de telecomunicações estão gradualmente afetando até
mesmo as atividades e eventos que acontecem nos mais diversos
assentamentos urbanos. A cidade-ciborgue baseada na informação
está crescentemente se diferenciando das formas anteriores do
espaço urbano através de redes extensas e interconectadas da
informação fixa e móvel. Nessa nova dinâmica política entre o
espaço público e o espaço privado emerge o cidadão-ciborgue, o
cidadão hiperconectado das cidades-ciborgue.
O
cidadão do século XVIII transforma-se em cidadão-consumidor da
era industrial e este em cidadão-ciborgue, permanentemente
conectado da cibercultura. No século XVIII surge a esfera pública
burguesa (Habermas, 1978) onde a sociabilidade se dava em praças,
cafés, livrarias, mercado. Aqui vemos a passagem da autoridade
real e imperial à esfera burguesa. No século XIX e início do século
XX vemos o aparecimento da massa urbana, onde a política passa de
assunto de estado à esfera da comunidade, dos assuntos gerais do
povo. Aparece aqui a opinião pública, oposta à prática do
segredo dos governos absolutistas, oferecendo novas possibilidades
de debate entre os cidadãos.
Surgem
aqui os mass media e uma correlata cultura popular de
massa. A imprensa e a publicidade formam agora um novo. Agora os mass
media formam o “público” (a maioria) e a imagem desse público.
Os mass media passam a fabricar a opinião pública no novo
espaço público midiático. TV, jornais, rádio criam um media
espace, simulacro e espetáculo (Debord, 1992), onde se dá o
controle da emissão. O cidadão é visto como passivo, inerte
pelo simulacro midiático, sem ação informativa. Ele é apenas
receptor e consumidor de bens e serviços. Para Murdock,
"A
história das comunicações não é uma história de máquinas,
mas uma história da maneira como
as novas mídias ajudam a sistemas de reconfiguração de
poder e redes de relações sociais. Certamente, tecnologias de
comunicação são produzidas dentro de centros de poder e são
desdobradas com propósitos particulares, mas, uma vez em jogo,
elas têm freqüentemente conseqüências contraditórias. Elas são,
então, muito mais vistas, não como tecnologias de controle ou de
liberdade, mas como o local de lutas ininterruptas sobre a
interpretação e uso. No coração destas lutas, o ponto crítico
é o limite entre as esferas públicas e privadas." (Murdock,
1993)
O
enfraquecimento dos “espaços de lugar” (ruas, praças,
monumentos) em prol do espaço midiático ou espaço de
“fluxos” passa a ser a realidade do século XX, criando um
processo de privatização do público e publicização
midiatizada do privado. Surge o global como esfera mundial. No século
XX e início do século XXI a convergência informática-telecomunicação,
o surgimento das redes telemáticas, e a liberação do pólo da
emissão passam a ser uma realidade. O ciberespaço não é um mass
media e pode agir de forma diferenciada em relação ao espaço
público e à opinião pública formada pela cultura de massa. As
redes telemáticas não atuam na forma “um-todos” quebrando a
hegemonia de um único discurso sobre o que é o público e sobre
qual é a opinião pública. Aparece, com a cidade-ciborgue, uma
nova relação entre o espaço urbano citadino e a interação
comunicativa. O cidadão consumidor passivo transforma-se
paulatinamente em um cidadão hiperconectado sendo obrigado a
interagir cada vez mais com redes e instrumentos de comunicação
digitais. De cidadão consumidor, a cidade-ciborgue vê surgir o
“cidadão-ciborgue” da era da informação. Isso não
significa, necessariamente, uma maior interação na vida pública
já que a hiperconexão é aqui uma nova forma de consumo e
narcisismo. O grande desafio do urbanismo contemporâneo das
cidades-ciborgue será articular o cidadão-consumidor-ciborgue
(informado-conectado) da cibercultura com a pólis.
O
crescente número de comunidades urbanas virtuais tem como
resultado a busca de espaços eletrônicos para o convívio dos
cidadãos-ciborgue numa nova esfera pública virtual, o ciberespaço.
Por este motivo, as políticas urbanas devem preocupar-se com
grupos excluídos eletronicamente (pessoas despreparadas, minorias
étnicas e sexuais, analfabetos tecnológicos e pessoas com baixos
salários). Se na era da modernidade industrial ser excluído
significava estar fora do círculo do consumo de produtos, bens e
serviços, na cidade-ciborgue da era pós-industrial ser excluído
significa não ter instrumentos materiais e/ou cognitivos para
surfar o mundo do ciberpespaço, para interagir de forma autônoma
com o fluxo cada vez mais crescente de informações digitais em
rede[3].
A
cidade-ciborgue gera excesso e reticulação, novas formas
associativas, novas visões do mundo e novas formas de expressar e
emitir informação (webcams, diários, páginas pessoais,
comunidades virtuais…). Entramos na esfera de um novo espaço público
midiatizado, o espaço telemático, cujo germe foi o media
espace dos mass media do século XX. A
cidade-ciborgue vai pouco a pouco transformando as práticas de
participação dos cidadão, agora cidadãos-ciborgue consumidores
de informação, no espaço urbano (físico e virtual). Deve-se
assim evitar a transposição e a substituição e utilizar o
potencial das novas tecnologias para incentivar a vitalidade do
espaço público telemático, a apropriação das novas
tecnologias, a pluralidade de discursos, a transparência
informativa governamental e o vínculo comunitário.
A
redefinição público-privado na cidade-ciborgue
pela infra-estrutura digital enquanto “modo de produção”
condicionada pelos artefatos digitais parece ser uma evidência
para diversos autores. Se, por um lado, a implementação dessas
tecnologias é invisível e silenciosa, por outro, os resultados
dessa implementação são largamente visíveis. Emergem daí a
necessidade de que este debate seja multidisciplinar, envolvendo a
esfera acadêmica nas áreas de estudos culturais, arquitetura,
comunicação, ciência e tecnologia, sociologia urbana,
geografia, etc. O que temos, na verdade, é que os fenômenos da
redes telemáticas são eminentemente urbanos, reforçando,
portanto, o papel das cidades e do debate político e ampliando,
ao mesmo tempo em que recondiciona, a própria imagem da cidade.
CONCLUSÃO
Para
concluir podemos dizer que a cidade-ciborgue instaura algumas
transformações fundamentais no espaço e nas práticas urbanas.
O aumento da telemediação na vida urbana é um fator fundamental
e crucial assim como as relações sociais que formam a cidade e o
desenvolvimento urbano estão agora relacionados com o significado
das novas tecnologias de informação e comunicação. Podemos
dizer que emerge da
cidade-ciborgue um novo tipo de cidadão, o cidadão-ciborgue que
deverá participar cada vez mais do jogo político-informático-mediático
contemporâneo. Para o entendimento da cidade-ciborgue faz-se
necessário uma análise das complexas interações entre os
lugares urbanos – incluindo a análise de lugares de baixo nível
de vida social, econômica e cultural – e espaços eletrônicos,
com seus diversos fluxos de informações, capital, serviços,
trabalho que fluem através do espaço geográfico. Não estamos
inaugurando um mundo pós-urbano, muito pelo contrário, estamos
vivendo o reforço do urbano.
O
crescimento de espaços eletrônicos não está se dirigindo para
dissolução das cidades, como tem sido freqüentemente
argumentado por futuristas e utopistas. Os lugares urbanos e espaços
eletrônicos influenciam-se mutuamente.
A cidade-ciborgue não representa a morte das cidades mas a formação
de uma estrutura “super-urbana” e “super-industrial”. As
complexas interações entre o social e o tecnológico apontam
para diversos efeitos, alguns previstos, outros não previstos, e
ainda outros novos que surgirão no processo dinâmico da
cibercultura. Será necessário superar o mito do determinismo
tecnológico para compreensão do processo.
Tecnologias
de informação reestruturam o modo como as práticas, imaginários
e espaços são percebidos na nova urbis. Mais do que criar um
sistema de informação fluído e independente da distância, a
era das telecomunicações causou a concentração em limitado número
de locais. Estes locais são as cidades. Dentro das
cidades-ciborgue o ciberespaço tem contribuído para uma
substancial reconstrução do espaço urbano como vimos. De fato,
o ciberespaço pode permitir uma reconstrução de comunidades sem
proximidade tais como grupos de usuários que compartilham de
interesses comuns mais não estão fisicamente próximos. A dinâmica
espacial tornou-se particularmente complexa quando a rede
industrial cruzou a fronteira internacional a partir das malhas do
ciberespaço.
A
cidade-ciborgue é a cidade da reconfiguração dos centros
urbanos. Nas grandes cidades as áreas centrais têm ganhado
importância tanto como pólos tecnológicos como culturais. Isso
demonstra e vem confirmar a inter-relação entre cultura urbana e
a cibercultura. Quanto a exclusão ou inclusão de parcelas da
sociedade no processo tecnológico contemporâneo, o argumento é
de que num certo sentido todos estamos vivendo os impactos dessa
transformação dos espaços urbanos. O problema da inclusão ou
exclusão é geralmente direcionado para aspectos de custo de
acesso, infra-estrutura, etc. quando, verdadeiramente, trata-se de
uma opção política de adoção de ações que universalizem o
acesso à informação.
Na cidade-ciborgue os sistemas integrados pela via telemática
são o novo suporte para o desenvolvimento social. Com
infra-estrutura altamente veloz e com grande capacidade de penetração,
a nova ordem digital redefine os aspectos sociais através da
conexão online. As distâncias são diminuídas e os espaços
reais competem com os espaços virtuais através da telepresença.
Os aspectos da vida cotidiana começam a se remodelar baseados no
computador e das redes telemáticas fazendo com que as interações
humanas passem por significativas modificações. Assistimos a súbitas
mudanças no âmbito social e cultural. Com a intensificação da
infra-estrutura digital cresce a distribuição de informação de
forma a diminuir a
distância entre as regiões centrais e periféricas. As organizações
estão usando a rede para ampliar seus negócios. Novos
significados impostos pelo mundo digital reorganizam o espaço
habitado. Faz-se assim necessário perceber os desdobramentos
destas evoluções nos comportamentos cotidianos da
cidade-ciborgue.
Os
equipamentos eletrônicos são acoplados ao corpo da
cidade-ciborgue e, na maioria das vezes, passam despercebido aos
cidadãos (trazendo aí o problema do controle e da perda de
privacidade). Na cidade-ciborgue estamos progressivamente
caminhando para a adoção da lógica de instrução e comando
embutidas nos diversos equipamentos urbanos digitais. Isto amplia
o conceito de cidade no que toca a manutenção das nossas ações.
Através das combinações das estruturas informacionais programáveis
operamos novos condicionamentos
na relação tempo e espaço.
A
cidade-ciborgue do século XXI será bastante diferenciada da
atual devido tanto às modificações causadas pelo surgimento dos
espaços inteligentes como pela expansão da infra-estrutura das
redes digitais na distribuição das atividades sociais e econômicas. Entre as modificações ocorridas, podemos falar das
transformações do espaço público e do espaço privado que
repercutem na nossa forma de morar, trabalhar, socializar,
estabelecendo novas relações sociais secundárias.
Mais
uma vez vemos que o espaço virtual não substitui o espaço físico.
Antes, ele adiciona funcionalidades. O espaço físico e o virtual
são co-dependentes na cidade-ciborgue. Os sistemas de serviços
via rede digital geram simultaneamente tendências
descentralizadoras e recentralizadoras.
Como afirma Mitchell no seu e-topia (Mitchell, 2000), a
desmaterialização, a desmobilização, a customização em
massa, a operação por equipamentos “inteligentes” e a
transformação “soft” são características essenciais do que
chamamos aqui de cidade-ciborgue.
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Dr. André Lemos
alemos@ufba.br
http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos
Professor
adjunto da Facom/UFBa, doutor em sociologia pela Université René
Descartes, Paris V, Sorbonne, diretor do Centro de Estudos e
Pesquisa em Cibercultura, Ciberpesquisa, consutor da Fapesp, CNPq
e CAPES, presidente da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação do Brasil – COMPÓS, autor de diversos artigos
nacionais e internacionais sobre cibercultura e dos livros Cultura
das Redes (Edufba-2002), Cibercultura. Tecnologia e vida social na
cultura contemporânea (Sulina, 2002) e Janelas do ciberespaço
(Sulina, 2000). Atualmente desenvolve pesquisa sobre cibercidades
com apoio do CNPq (pesquisador nível 1.
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