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La
vida como relato en Internet
Los
sondeos introspectivos y retrospectivos pierden peso en la
conformación del “yo”
Paula Sibilia
(Doctorado en Comunicación y Cultura, ECO / UFRJ, Brasil)
sibilia@ig.com.br
RESUMEN:
Este artículo examina la
exposición pública de la vida privada a través de
blogs, fotologs y webcams. Esos nuevos “relatos del yo”
denotan una mutación subjetiva, en contraste con las formas
modernas de actualizar la memoria de lo vivido (diario íntimo,
psicoanálisis, novela clásica, autobiografías románticas). Tal
transformación afecta aspectos fundamentales de la subjetividad
moderna: las ideas de interioridad, intimidad y privacidad, y el
valor atribuido al pasado como un pilar del yo. Decaen, así, dos
estrategias básicas de las “narrativas de sí”: las miradas
introspectiva y retrospectiva.
PALABRAS
CLAVE:
Escritura de sí,
interioridad, memoria
Numa primeira análise, fenômenos como o dos blogs,
fotologs e webcams parecem recriar um hábito cuja
sentença de morte já tinha sido decretada, que teve seu auge nos
séculos XVIII e XIX e estava fortemente vinculado à
sensibilidade da época: a paciente e minuciosa “escrita de
si” nos diários íntimos tradicionais. Há, porém, um aspecto
muito significativo nessas novas “narrativas do eu”: sendo
expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet, as
confissões (e as imagens) cotidianas dos autores revelam uma
peculiar inscrição na fronteira entre o extremamente privado e o
absolutamente público. Intui-se, portanto, uma instigante subversão
das fronteiras que costumavam separar essas duas esferas no mundo
moderno.
Por isso, consideramos que essas novas práticas
podem oferecer pistas interessantes sobre as fortes transformações
que hoje atravessa a produção de subjetividades. São afetadas,
neste quadro, várias noções importantes, como as de intimidade
e privacidade. Do mesmo modo, a idéia de interioridade
perde força, diminuindo a valorização da “vida interior”
como o principal eixo em torno do qual as subjetividades modernas
eram construídas. Cada vez mais, a “verdade” sobre o que cada
um é se desloca desse âmago secreto, radicalmente íntimo e
privado, para aflorar na superfície da pele (e das telas). Em vez
de nutrir o antigo olhar introspectivo, portanto, hoje
assistimos à proliferação de espaços, tecnologias e práticas
que permitem e que incitam uma certa “espetacularização do
eu” com recursos performáticos. A Internet, nesse sentido, se
apresenta como um importante cenário de experimentação.
Além da introspecção, o olhar retrospectivo
também parece estar em declínio nas novas práticas
auto-referentes, perdendo seu peso outrora fundamental na hora de
plasmar a própria vida como um relato. Assim, portanto, em
contraste com algumas formas modernas de atualizar a memória do
vivido (do diário íntimo tradicional à psicanálise, passando
pelo romance clássico e pelas autobiografias românticas), este
trabalho examina os diários pessoais publicados na Internet como
sendo tentativas atualíssimas de “recuperar o tempo perdido”
em sua vertigem auto-bio-gráfica na era do “tempo
real”, do “sem tempo” e do presente constantemente
“presentificado”. Pois a peculiar inscrição cronológica
desses novos “relatos do eu” (e a sua insistência na
prioridade da atualização permanente) denota outras turbulências.
Não é só a profundeza sincrônica (interioridade) do eu
que está sendo desafiada nos novos “modos de ser” que emergem
no mundo contemporâneo, mas também a sua coerência diacrônica.
Sofre alterações, portanto, o valor atribuído a outro fator
primordial na constituição da “identidade” individual: o
estatuto do passado como um alicerce fundamental do eu.
Apesar da sua permanência como fatores relevantes,
essas noções que desempenharam papeis de primeira ordem na
conformação das subjetividades modernas hoje parecem estar
perdendo gradativamente seu peso relativo na definição do que
cada um é. Acreditamos que certas práticas de “escrita de
si” ou de “narrações do eu” que hoje germinam na Internet,
como os blogs, os fotologs e as webcams,
fornecem prismas privilegiados para analisar tais mutações.
A arqueologia de si: mergulhar, escavar, recriar as ruínas
de cada um
Certa tradição ocidental leva a pensar no homem
como um ser dotado de uma profundeza abissal, oculta, frondosa, em
cujos obscuros meandros se esconde uma bagagem tão secreta como
incomensurável. Infinitos dados, acontecimentos vividos ou
fantasiados, personagens queridos ou esquecidos, sonhos, desejos
inconscientes, firmes ambições, vontades inconfessáveis, medos,
ódios, amores, dúvidas, certezas, dores, alegrias, lembranças
difusas... enfim, todos os sedimentos da experiência vivida e da
imaginação de cada um. Se pudesse ser conhecida, acredita-se,
toda essa substância misteriosa que se abriga sob a pele e no âmago
de cada indivíduo seria capaz de revelar o que cada um é.
Mas acontece que tal revelação não é nada simples pois,
curiosamente, esse acúmulo de material tão significativo é
gasoso, etéreo: imaterial. É feito da matéria dos sonhos,
aquela que inexplicavelmente nos constitui: volátil, fluída,
fantasmal. Tudo isso é intangível, e seus contornos apenas podem
ser intuídos ocasionalmente, de vez em quando, como um clarão
que subitamente reluz e logo se esvaece, quase sempre de maneira
enviesada, turva, confusa, às vezes por acaso ou, então, após
um árduo trabalho de introspecção.
Tal é, ao menos, uma certa caracterização daquilo
que constitui a “essência” do homem moderno, aquele que
protagonizou as sociedades industriais do Ocidente dos últimos
dois séculos: o homo psychologicus. Um tipo de sujeito que
pode (e deve) ser estudado com a ajuda das ferramentas e dos
saberes mais característicos desse período histórico – e,
dentre esses saberes, a psicanálise desempenha um papel de enorme
relevância. De acordo com essa visão do mundo e do homem, o passado
tem um “sentido” importantíssimo na definição do presente e
de tudo quanto é. Por isso, impõe-se mergulhar na interioridade
subjetiva de cada indivíduo à procura dos restos de alguma
imagem fundamental alojada na memória, que permita decifrar o
significado do presente e do “eu”. Essa viagem introspectiva
pode ser pensada como um autêntico mergulho – pois
consiste em nadar nas sombrias profundezas do sujeito para
desvendar seus enigmas – ou, apelando a outro campo metafórico
igualmente fértil, a proposta equivale a fazer uma escavação
a fim de examinar as diversas camadas geológicas que foram se
acumulando ao longo da história individual para conformar uma
determinada subjetividade. Ou seja: efetuar uma arqueologia do
eu.
Completamente inserido neste paradigma, ninguém
menos do que Sigmund Freud – “o pai da psicanálise” –
recorreu a duas belas imagens para exemplificar as diversas
maneiras de praticar a arqueologia nos labirintos da mente: Roma e
Pompéia. Quem exumou os textos freudianos para resgatar essas
duas metáforas foi o crítico francês Philippe Dubois, em um
instigante artigo dedicado a estudar uma série de filmes documentários
em primeira pessoa. Ao indagar os modos de
inscrição do passado na psique, procurando descobrir os
mecanismos de conservação das impressões mentais, Freud
enunciou essas duas respostas – diferentes, opostas e
complementares. A comparação com Roma aparece em seu célebre
ensaio Mal-estar na civilização, e evoca a “cidade
eterna” como um território em ruínas, povoado por uma
infinidade de cacos, fragmentos e vestígios do passado dispersos
desordenadamente em diversas camadas históricas. Com base nesta
imagem, entende-se o famoso postulado da psicanálise: nada na
vida psíquica se perde para sempre, pois tudo o que já aconteceu
pode reaparecer e tornar-se significativo no presente. Em seu caos
estilhaçado, porém, Roma também expressa seu caráter
fantasmal: “o impossível sonho da manutenção de tudo no seu
devido lugar, na sua totalidade”.
Esse sonho impossível de conservação total afetou fortemente a
sensibilidade romântica, nutrindo o impulso que deu à luz aos
mais diversos gêneros autobiográficos – olhar introspectivo e
auto-reflexivo, gesto retrospectivo com vocação hermenêutica;
dois fatores fundamentais na construção da subjetividade
moderna.
Em contraste com essa acumulação de múltiplos
fragmentos quebrados e dispersos que Roma emblematiza de maneira
exemplar, uma infinidade de objetos descuidadamente amontoados e
semi-esquecidos no desvão da memória, Freud recorre a Pompéia
para oferecer uma outra metáfora arqueológica capaz de
esclarecer os mecanismos das lembranças no aparelho psíquico. A
alusão à cidade petrificada aparece em seu ensaio Delírio e
sonhos na “Gradiva” de Jensen, a fim de ilustrar a dinâmica
do recalque. O que interessa aqui, porém, é essa capacidade de
evocar a preservação intacta de uma imagem, uma instantânea
eternizada, uma verdadeira “lembrança fotográfica”, um único
bloco de espaço-tempo congelado de uma só vez e para sempre,
como a cidade mumificada sob a lava do vulcão.
Como bem esclarece Dubois em sua leitura desses dois
textos freudianos, trata-se de duas temporalidades distintas e
opostas, mutuamente excludentes porém complementares: “ou é
Roma, a multiplicidade das camadas, mas sempre parcelares; ou é
Pompéia, a totalidade preservada, porém, num momento
singular”. O aparelho psíquico flutua constantemente entre
ambas as modalidades de recordações, entre ambos os tipos de
restos arqueológicos – marcas mnêmicas soterradas, vestígios
de um “eu” que já se fora – sem jamais conseguir juntá-las,
pois é impossível atualizar em forma simultânea todas essas
virtualidades registradas na memória. Roma ou Pompéia.
“De um lado, um tempo da acumulação, da propagação, da
saturação, porém fragmentário; de outro lado, um tempo da
captura, do corte, do instante, porém totalizante”. Sonho
impossível, portanto, de reunir na indagação do próprio
passado a multiplicidade e a integralidade, a duração e o
instante.
A
memória tecno-lógica:
ainda
é possível ir “em busca do tempo perdido”?
Hoje, entretanto, a arqueologia aparece como uma
atividade digna de outras eras e até mesmo de outros mundos.
Muita poeira foi sedimentada sobre suas bases epistemológicas e
sobre sua prática, de modo que hoje toda a sua mítica é
reciclada em cenários de videogames ou de filmes de ação. Ou,
então, ela é sedutoramente empacotada como uma atração de
parque temático ou como uma das variantes do prolífico
turismo-aventura. Sem desdenhar essas mitologias que ainda estão
fortemente assentadas no imaginário ocidental, entretanto, outras
metáforas se impõem de maneira crescente na hora de reconstruir
o passado como um arcabouço
significante da história pessoal de cada indivíduo. Àquelas
imagens já clássicas que aludiam à arqueologia e à geologia,
somam-se as expressões provenientes da fotografia
(revelar, velar, obturar, superexpor, aplicar filtros) e, também,
do cinema. Assim, hoje é possível rebobinar o filme da
vida, operar flashbacks ou cortes abruptos em certas seqüências,
focalizar ou aplicar zoom sobre um determinado detalhe,
evocar uma cena em câmera lenta ou realizar uma decupagem
cuidadosa, fazer um rápido travelling numa paisagem ou num
cenário particular, efetuar um close-up sobre um rosto
específico, repassar uma seqüência inteira do próprio passado
de maneira linear e pormenorizada, priorizar a trilha sonora de um
determinado episódio ou editar a montagem de diversos eventos
como se fosse um vídeo-clipe. E, ainda, reproduzem-se cada vez
com mais força as metáforas procedentes do universo informático:
agora também é possível arquivar ou deletar algum dado
da nossa mente, escanear na memória procurando algo
esquecido, gravar uma informação com segurança redobrada, clicar
no ponto certo e abrir um inesperado link hipertextual.
Não são inocentes estas alterações nas formas
com que pensamos as recordações, os mecanismos da memória
humana e a própria vida como um relato. A vida passa a ser, com
freqüência crescente neste novo contexto, uma história
inspirada nos modelos cinematográficos (e multimídia) que
permeiam e recreiam constantemente o mundo, enquanto o “eu” se
espelha nos personagens que desbordam das telas e modelam o real.
De alguma maneira, portanto, hoje parece uma empresa impossível
– incompatível com os ritmos que sacodem a atualidade – a
proeza de ler as duas mil e duzentas páginas dos sete
volumes “autobiográficos” de Marcel Proust, Em busca do
tempo perdido – uma obra auto-arqueológica monumental
iniciada em 1908 e concluída com a morte do autor, em 1922.
Quanto às possibilidades de escrever algo assim, de
empreender essa gigantesca e trabalhosa tarefa de “recherche”
na história da própria vida para estilizá-la no papel com
recursos literários, isso parece até mais difícil ainda. As
velocidades que turbinam os corpos, as almas e os relógios na era
do tempo real parecem conspirar contra tais introspecções
profundas e demoradas, muitas vezes dolorosas e, de certo modo,
sempre laboriosas, necessariamente sistemáticas e disciplinadas.
Mas não se trata de um fenômeno inexplicável.
Vivemos numa época em que o passado parece ter perdido boa
parte do seu sentido como “causa” do presente. Mais
ainda: hoje, a questão do sentido não parece estar em questão,
pois a sociedade atual se projeta apenas nos efeitos
(aqueles que antes eram entendidos como “meros sintomas” de
uma “causa profunda”) enquanto desdenha as causas e os
fundamentos, que outrora eram procurados e investigados como sendo
nós significativos capazes de “explicar” todos os efeitos e
sintomas. Hoje, porém, a eficiência e a eficácia
– a capacidade de produzir determinados efeitos – é uma
justificativa auto-suficiente, que dispensa toda explicação
causal e toda pergunta pelo sentido. Assim, agora, poder-se-ia
dizer que tudo o que passou, acabou. Alguma vez houve um passado,
sim, mas aparentemente já não há mais. Algo começou de forma
absoluta na cultura contemporânea a partir do nada, ou seja, a
partir de algo que ostensivamente tinha acabado. Esse movimento
coincide, precisamente, com o assentamento da tecnociência
como o tipo de saber hegemônico do mundo contemporâneo; isto é,
com a fusão da ciência (que é um saber-saber) e a
técnica (que é um saber-fazer). E, inclusive, com
a ênfase assinalando a prioridade ontológica deste último fator
integrante do par, em demérito da “ciência pura” que era
privilegiada antigamente. Assim, neste novo contexto, o passado só
parece servir para ser utilizado ou consumido das mais diversas
formas, seja recriando-o de maneira estetizada em filmes e
telenovelas “de época” ou, então, comprando-o encapsulado em
pílulas hiper-reais que assumem sem remorsos a sua conversão em
objeto de curiosidade, de nostalgia ou de sentimentalismo –
todos eles, é claro, convenientemente à venda. Como quer que
seja, parece evidente que a sua velha função tem caducado ou,
quando menos, que ela está perdendo força: o passado não serve
mais para conceder inteligibilidade ao caótico fluir do tempo, e
nem para explicar o presente ou a mítica singularidade de um
determinado “eu”.
Podemos
dizer, então, que hoje o tempo se perdeu completamente? Perdeu
sua espessura semântica, sua potência causal, enfim, seu
sentido? Já não seria mais possível, portanto, ir buscá-lo lá
longe nas recônditas cavidades do passado para reencontrá-lo e
recuperá-lo, de alguma maneira, trazendo-o à superfície do
presente? Quer dizer que o tempo desapareceu logo agora, quando
tinha se tornado um dos bens mais prezados e cotados na economia
global, e quando acabara de ganhar o pomposo adjetivo de real?
Ou talvez foi precisamente por isso que ele se perdeu? Ao se realizar,
o tempo talvez tenha perdido a sua velha linearidade de vocação
teleológica e tenha se presentificado fatalmente, petrificando
tudo o que é numa mera sucessão de Pompéias instantâneas?
Teria ficado, então, definitivamente obsoleto (game over?)
aquele tempo laboriosamente “recuperado”? E, portanto, hoje
seria virtualmente impossível efetuar uma introspecção na própria
interioridade para “reconstruir” como um relato – seja de
maneira artística, psicanalítica ou artesanal – as ruínas
daquele passado pessoal comparáveis aos vestígios de uma velha
Roma?
Memória, desmemória e restos da
insônia:
É preciso esquecer Pompéia para
vislumbrar Roma (e afixá-la)
Não é fácil responder às perguntas abertas no último
parágrafo. Ainda hoje, apesar das intensas convulsões que
sacodem o mundo, parece impossível negar uma obviedade: tudo que
existe, existe no tempo. A temporalidade constitui as
coisas: o que é, é no tempo. Mas o tempo também é uma
categoria sócio-cultural, e as suas características mudam ao
sabor da história. Uma imagem talvez sirva para esclarecer este
ponto: a do relógio. Máquina emblemática do capitalismo,
nas últimas décadas sofreu o upgrade de praxe ao passar
das leis mecânicas e analógicas para as informáticas
e digitais. Culminando um processo iniciado com a sua invenção
nos rígidos mosteiros da Europa medieval, a sua função foi
completamente internalizada no Ocidente industrializado dos últimos
dois séculos, com uma proliferação de modelos nos lares do
mundo inteiro, nos prédios e nas ruas das cidades, e inclusive
embutidos nos pulsos das pessoas e nos artefatos de uso cotidiano.
A tradução dos relógios analógicos para os digitais, porém,
emite alguns sinais interessantes: nos novos modelos, o tempo
perdeu os interstícios. Agora, ele não é mais compartimentado
geometricamente. E, ao se converter em um contínuo fluido,
ondulante e total, a sua função reguladora e sincronizadora dos
ritmos na sociedade capitalista parece ter se intensificado e
complexificado.
Como estão se refletindo essas mutações na
maneira com que percebemos o tempo (próprio) passado? De acordo
com as teorias apresentadas no famoso ensaio Matéria e memória,
de Henri Bérgson, existe um vínculo inexorável entre percepção
e memória. A percepção é um ato contínuo na experiência
vital do sujeito, porém a necessidade de ação presente limita e
filtra o que de fato é percebido. Desse modo, sempre se efetua um
recorte no mundo percebido em função da própria subjetividade e
das necessidades presentes. Assim, a memória se encarrega de
trazer à tona todas aquelas representações percebidas porém não
ligadas à ação presente. Por isso, a percepção do passado
(com seu fluxo de lembranças e sua objetivação do tempo vivido)
aumentará se o sujeito estiver inativo, se essas “necessidades
de ação presentes” forem escassas ou praticamente nulas.
Tais reflexões interessam aqui pela sua capacidade
de iluminar certos mecanismos na “recuperação do tempo
perdido” e, talvez, sugerir algum indício sobre a sua
viabilidade na nossa época. Vamos convocar, para isso, alguns
personagens interessantes, que bem poderiam praticar nestas páginas
um diálogo certamente improvável. Em primeiro lugar, aludiremos
aos precogs, aqueles estranhos seres apresentados no filme Minority
Report, de Steven Spielberg. Geneticamente projetados com fins
utilitários – concretamente, para o uso da Polícia em suas
investigações criminais – por terem um contato muito afinado
com o passado, é sintomático (e bem bergsoniano) que eles devam
permanecer completamente imóveis, com seus corpos fracos e
doloridos sempre flutuando de maneira inerte numa espécie de líquido
amniótico. Essa incapacidade de agir e de se movimentar combinada
com uma capacidade de memória total aparece em outro personagem
fictício: o famoso Ireneo Funes, “el memorioso”, criado em
1944 pelo escritor argentino Jorge Luis Borges. Vítima de um
acidente que o deixara paralítico e condenado a passar o resto da
vida prostrado numa cama, o jovem Funes tinha bastante mais do que
uma percepção aguda e uma memória prodigiosa; ele era capaz de
captar absolutamente todas as arestas da realidade com seus
sentidos infalíveis e, além disso, não conseguia esquecer de
nada.
Já é mítica, por outro lado, a imagem que evoca a
figura de Marcel Proust se recolhendo em sua cama de doente,
praticamente imobilizado nos últimos anos da sua vida, com todas
as energias dedicadas a resgatar das névoas da memória as suas
recordações das décadas vividas – e a redigi-las
fervorosamente. Proust, sabe-se, sofria de insônia. Na solidão
noturna, como também se sabe, os fantasmas andam soltos; assim,
aquelas longas e terríveis noites em branco se converteram num
campo fértil para o assédio das lembranças, e forneceram
valiosos materiais para a sua reconstrução escrita no presente.
A fábula de Funes, por sua vez, como esclarece o próprio Borges
no prefácio do livro que a contém, “é uma longa metáfora
sobre a insônia”.
Vejamos, agora, o que disse Friedrich Nietzsche em sua Segunda
Consideração Intempestiva, concebida em 1873:
Pensem
no exemplo mais extremo, um homem que não possuísse de modo
algum a força de esquecer e que estivesse condenado a ver por
toda parte um vir-a-ser: tal homem não acredita mais em seu próprio
ser, não acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em pontos móveis
e se perde nesta torrente de vir-a-ser... A todo agir liga-se um
esquecer... Um homem que quisesse sempre sentir apenas
historicamente seria semelhante ao que se obrigasse a abster-se de
dormir... Portanto: é possível viver quase sem lembrança, sim,
e viver feliz assim, como o mostra o animal; mas é absolutamente
impossível viver, em geral, sem esquecimento.
A memória (e, especialmente, as suas “falhas”)
é um assunto bem debatido em anos recentes. Numa era em que o Mal
de Alzheimer se espalha pelo mundo como um dos fantasmas mais temíveis
e cruéis – assombrando os finais de nossas vidas, que são cada
vez mais longas porém ainda sujeitas à mecânica fatal do
envelhecimento e da morte – abundam os filmes como Amnésia,
nos quais se problematiza a “perda da memória”. E, junto com
ela, quase sempre, a perda da “identidade” do sujeito em questão.
Do mesmo modo, cada vez mais, tanto das pesquisas neurocientíficas
como do senso comum emanam as metáforas computacionais e informáticas
para aludir ao funcionamento da memória. Filmes como Total
Recall (O Vingador do Futuro), Johnny Mnemonic, eXistenZ e
Estranhos prazeres, por exemplo, mostram a compatibilidade
entre os dispositivos informáticos e os circuitos mentais, ambos
compartilhando a mesma lógica digital do software e do hardware.
Em Matrix, inclusive, um fenômeno como o dejà vu –
um tipo de paramnésia – é explicado como sendo um bug
(ou uma falha) no software que emula o mundo.
Mas as próteses informáticas e os implantes de memória digital
não são meras fantasias de ficção-científica; ao contrário,
o assunto está na agenda das pesquisas em Inteligência
Artificial e, de acordo com seus representantes mais entusiastas,
nos próximos anos promete se tornar um tipo de produto disponível
no mercado global.
Essas
novidades parecem sucumbir à imensa sedução de uma memória
fotográfica e total, super-humana, capaz de ultrapassar as limitações
do aparelho psíquico descrito por Freud, realizando a união
outrora “impossível” de Roma e Pompéia,
multiplicidade e integralidade, duração e instante.
À luz desses sonhos tecnocientíficos, adquire novos matizes o
“esquecimento feliz” proposto por Nietzsche para combater uma
certa “hipertrofia da memória” – que, pelo visto, já se
insinuava no longínquo final do século XIX em que atuava o filósofo
alemão, uma época atacada pela febre historicista. Para isso,
pode ser instigante reler uma das conclusões que inspirou em
Borges o personagem de Funes: “Desconfio, no entanto, que ele não
era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é
generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão
detalhes quase imediatos”.
Um mundo terrível, portanto, inundado de um excesso de dados, um
gigantesco conjunto de fotos fixas completamente nítidas e
absolutamente fieis ao referente, isto é, um mundo feito de
infinitas Pompéias organizadas com perfeita exatidão no tempo e
no espaço. “Funes discernia continuamente os tranqüilos avanços
da corrupção, das caries, da fadiga. Notava os progressos da
morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um
mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente
preciso”.
Impossível
esquecer, então, sob a pressão de uma memória implacável que
tudo registra e nada descarta, essa profusão de detalhes (todos
eles igualmente importantes). Impossível abstrair e escolher
apenas uma série de traços nesse mar prolixo para, dessa forma,
poder delinear um quadro que esboce a totalidade confusa de uma
Roma em ruínas. Uma meta certamente impossível no caso de Funes,
sim. Mas essa foi, provavelmente, a tarefa empreendida por Proust
em suas noites de insônia e em seus longos dias de escrita sem
descanso na França dos inícios do século XX: com sua memória
demasiadamente humana, o escritor mergulhou em sua frondosa
interioridade para “resgatar” um mundo passado e recriá-lo em
seu presente. Assim, preenchendo com a pluma milhares de páginas,
Proust pintou todas as ruínas da sua Roma particular.
Do
diário íntimo ao blog:
metamorfoses
de um certo impulso romântico?
Esse tipo de atividade introspectiva que soube dar
à luz a numerosas jóias da literatura universal, também se
converteu em rotina na solidão do “quarto próprio” da era
burguesa. E foi, sem dúvida, a chama que acendeu um certo furor
da escrita de diários íntimos ao longo do século XIX e
na primeira metade do século XX. Qual seria, porém, a
viabilidade de um “diário íntimo” no contexto atual? Numa
era tão desmemoriada e tão obcecada pelo sonho de criar um
substituto tecnológico da frágil memória orgânica, um tempo tão
viciado na instantaneidade e tão vertiginosamente “sem
tempo”, é forte a tentação de responder a essa pergunta de
maneira categórica: “nenhuma”. Hoje em dia, a zelosa prática
que outrora contagiou milhões de almas tem ficado ostensivamente
fora de lugar (e, sobretudo, fora de tempo), confirmando a sua
morte repetidamente anunciada nas últimas décadas. Tais afirmações,
no entanto, contradizem alguns indícios que teimam em
desconcertar as mais óbvias certezas. O sucesso editorial das
biografias e das autobiografias, por exemplo, dá conta de um
processo que excede as margens de um mero fenômeno de mercado.
Existe, hoje, uma voracidade com relação a tudo que
remeta a “vidas reais”. Como parte significativa desse
movimento, cabe destacar a proliferação de documentários em
primeira pessoa, o sucesso internacional dos reality-shows
e o surpreendente auge dos blogs, uma novíssima espécie
de “diário íntimo” publicado na Internet pelos usuários do
mundo inteiro.
É possível intuir, neste novo fenômeno, alguns
vestígios de um gesto tipicamente romântico. Foi no auge desse
movimento estético-filosófico, de fato, que os diários íntimos
e as autobiografias se multiplicaram pelo mundo ocidental. Nesses
românticos séculos XVIII e XIX, a configuração de valores que
acabou conformando o individualismo moderno estava
afinando seus contornos, e o culto à singularidade individual se
encontrava na ordem do dia; era preciso desvendá-la, cavando nos
meandros interiores de cada “eu” e descrevendo no papel as
suas peripécias. Hoje persiste, sem dúvida, esse culto à
singularidade individual e essa vontade de “ser diferente” –
uma palavra de ordem que tem se tornado, paradoxalmente, um
imperativo presente em toda mensagem publicitária e uma pedra
angular da sedução consumista. Para estilizar e exibir tais
qualidades “únicas” de cada um, porém, já não se escavam
as trevas do próprio passado, não se recorre ao cultivo e nem
sequer à pesquisa da própria interioridade. Cada vez mais, ao
contrário, o que cada um é passa pela superfície visível
do corpo, pela epiderme trabalhada como um objeto de design – e,
também, pela auto-estilização inspirada nos personagens
cinematográficos. Eis uma pista, portanto, que talvez possa
explicar esse curioso “detalhe” dos novos diários íntimos
publicados na Internet, tão oposto a seus ancestrais genuinamente
“privados”: o fato de eles nascerem com vocação
exibicionista, para serem vistos e lidos por milhões de olhos
alheios nas telas da Rede mundial de computadores.
Assomam, também, nesses novos relatos do eu, certos
ares daquela vontade tipicamente romântica de reter o tempo,
daquela ânsia de guardar algo próprio e valioso mas que
inevitavelmente escapará na vertigem da aceleração contemporânea.
O sonho impossível de preservar, portanto, toda a minúcia que
conforma nada menos que “a própria vida”, isto é, milhões
de instantes passados e enfileirados em sua duração até
o presente. Assim, aquilo que os fotologs realizam de
maneira literal, publicando todo tipo de imagens fotográficas dos
usuários da Internet (inúmeras Pompéias freqüentemente mudas,
enigmáticas fotos-múmias, pura superfície que costuma calar a
sua espessura semântica), os blogs procuram fazê-lo
recorrendo a uma tecnologia bem mais antiga: a palavra escrita.
Assim, os autores dos diários íntimos publicados no ciberespaço
realizam operações de “congelamento do tempo”, como se
fotografassem certos momentos de suas vidas e os pregassem com
alfinetes num imenso quadro-negro virtual de alcance global. Pílulas
de tempo próprio congelado e parado, faíscas do próprio
presente sempre presentificado, fotografado em palavras e exposto
na Rede para todo o mundo ver.
Entretanto, cada vez mais, vivemos a experiência
dos tempos fragmentados e voláteis, inexoravelmente fugidios. E,
na era do Alzheimer generalizado, a fragilidade da memória está
em evidência... em mais de um sentido. Por um lado, os cientistas
buscam desenvolver substitutos computacionais para os fustigados
circuitos orgânicos. Por outro lado, os dispositivos digitais não
cessam de demonstrar as suas fraquezas como suportes para o
armazenamento das informações.
Além disso, uma pesquisa causou certo impacto ao anunciar seus
resultados, recentemente, segundo os quais “a onda dos blogs”
teria ingressado numa “fase de calmaria”. De acordo com o
estudo efetuado pela firma Perseus Development, dos cerca de 4,12
milhões de blogs criados nos oito principais serviços de
hospedagem do mundo, 2,72 milhões (ou 66%) estão praticamente
abandonados, pois não foram atualizados nos últimos dois meses.
Na totalidade dos “diários virtuais” pesquisados, a média de
atualização é de 14 dias. Apenas 106,5 mil são atualizados
pelo menos uma vez por semana, e menos de 50 mil o fazem
diariamente.
De alguma maneira, entretanto, nada disso é muito
surpreendente. É lógico, aliás – pois, como sabemos, “não
há mais tempo para nada”. Isso se verifica em vários sentidos:
não há tempo para ler, nem para escrever ou sequer para rechercher.
Não há mais passado fundador do presente e do “eu”, e não há
mais um futuro radicalmente diferente no horizonte. Só resta,
portanto, ao que parece, apenas uma coisa: o presente
constantemente “presentificado”. Nesse sentido, os blogs
poderiam ser vistos como uma coleção de tempos presentes
visando a uma certa espetacularização do eu. Para alguns
pesquisadores do fenômeno, com efeito, é precisamente a sua
organização cronológica um dos traços principais na definição
do “diário virtual”: o fato de as últimas atualizações
aparecerem no início do site e as mais antigas embaixo, e cada
bloco de texto obstinadamente encabeçado pela data (e horário)
da publicação. Como constata Raquel Recuero, por exemplo:
“essa estrutura privilegia sempre a atualização mais recente,
mostrando ao visitante de modo quase imediato se o site foi
atualizado ou não”.
Os blogs exibem, portanto, uma série de fotos fixas, recortes de
instantes colados um após o outro. Diversas instantâneas de
momentos presentes que vão passando mas não se articulam
e sedimentam para constituir um passado à moda antiga.
Enfim, uma coleção de Pompéias petrificadas e primorosamente
classificadas em ordem cronológica... nada de Romas eternas,
infinitas e fatalmente “desordenadas” numa estrutura narrativa
com sonhos de coerência e vocação totalizadora.
Nesse sentido, cabe perguntar: os blogs seriam uma tentativa
atualíssima de “recuperar o tempo perdido” na sua vertigem auto-bio-gráfica
em tempo real?
A conclusão – sempre provisória, como a frágil
matéria de que somos feitos – é que se trata de mais um traço
na reconfiguração das subjetividades contemporâneas. Hoje é
possível detectar importantes mudanças nos valores atribuídos a
dois fatores primordiais na constituição da “identidade”
individual: a idéia de interioridade e o estatuto do passado
como dois alicerces fundamentais do “eu”. Essas duas noções
desempenharam papeis de primeira ordem na constituição das
subjetividades modernas e, apesar da sua permanência como fatores
relevantes ainda hoje em dia, parecem estar perdendo
gradativamente seu peso relativo na definição do que cada um é.
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Sobre os filmes mencionados neste parágrafo: Amnésia
(Christopher Nolan, EUA, 2000); O Vingador do Futuro (Paul
Verhoeven, EUA, 1990); Johnny Mnemonic (Robert Longo,
EUA, 1995); eXistenZ (David Cronenberg, EUA, 1999); Estranhos
prazeres (Kathryn Bigelow, EUA, 1995) e Matrix (Andy
e Larry Wachowski, EUA, 1999).
Em um artigo sobre o “boom editorial” das biografias,
publicado recentemente em um grande jornal argentino, a autora
o vinculava com um fenômeno mais amplo da contemporaneidade:
uma “revalorização da história individual e familiar” e
um revigorado “interesse pelas vidas dos outros”. Assim,
hoje “surpreende o fato de que não seja mais preciso ter
vivido uma grande vida para merecer a posteridade em forma de
livro. Ao que parecer, basta que a história pessoal que se
escreve dia após dia, sem tinta, nem papel, nem
acontecimentos rutilantes, seja digna de ser contada”. REINOSO,
Susana. Tendencias: La biografía se abre paso entre los géneros
literarios. Buenos
Aires, La Nación, 6/10/2003. Disponível em http://www.lanacion.com.ar/03/10/06/dq_533355.asp?origen=premium.
A pesquisa esclarece, no entanto, que os diários íntimos da
Internet continuam a serem criados com uma velocidade que
supera amplamente à do abandono: 3,3 milhões de blogs
estariam ativos no final de 2003, comparados com o 1,7 milhão
abandonado no mesmo período. Se no final de 2000 o total no
mundo inteiro não ultrapassava os 135 mil, o estudo estimou
que o ano de 2003 terminaria com cerca de cinco milhões de
“diários virtuais”, e calcula-se que haverá dez milhões
até o final de 2004. “Blogs vivem fase de calmaria, revela
pesquisa”. IDG Now!, 26/11/2003. Mais informações
em http://www.perseus.com/blogsurvey.
Nesse mesmo artigo, os blogs são definidos da seguinte forma:
“websites pessoais baseados nos princípios de microconteúdo
e atualização freqüente, que possuem uma estrutura comum
organizada em função do tempo”.
RECUERO, Raquel da Cunha. “Warblogs: Os Blogs, a
Guerra no Iraque e o Jornalismo Online”. In: CD-ROM do
XXVI Encontro INTERCOM. Belo Horizonte: PUC-MG, 2003.
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