| Volver al Indice |

| Atras |

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
La vida como relato en Internet

Los sondeos introspectivos y retrospectivos pierden peso en la conformación del “yo”

 

Paula Sibilia

(Doctorado en Comunicación y Cultura, ECO / UFRJ, Brasil)

sibilia@ig.com.br

 

RESUMEN:

Este artículo examina la exposición pública de la vida privada a través de blogs, fotologs y webcams. Esos nuevos “relatos del yo” denotan una mutación subjetiva, en contraste con las formas modernas de actualizar la memoria de lo vivido (diario íntimo, psicoanálisis, novela clásica, autobiografías románticas). Tal transformación afecta aspectos fundamentales de la subjetividad moderna: las ideas de interioridad, intimidad y privacidad, y el valor atribuido al pasado como un pilar del yo. Decaen, así, dos estrategias básicas de las “narrativas de sí”: las miradas introspectiva y retrospectiva.

 

PALABRAS CLAVE:

Escritura de sí, interioridad, memoria

 

Numa primeira análise, fenômenos como o dos blogs, fotologs e webcams parecem recriar um hábito cuja sentença de morte já tinha sido decretada, que teve seu auge nos séculos XVIII e XIX e estava fortemente vinculado à sensibilidade da época: a paciente e minuciosa “escrita de si” nos diários íntimos tradicionais. Há, porém, um aspecto muito significativo nessas novas “narrativas do eu”: sendo expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet, as confissões (e as imagens) cotidianas dos autores revelam uma peculiar inscrição na fronteira entre o extremamente privado e o absolutamente público. Intui-se, portanto, uma instigante subversão das fronteiras que costumavam separar essas duas esferas no mundo moderno.

Por isso, consideramos que essas novas práticas podem oferecer pistas interessantes sobre as fortes transformações que hoje atravessa a produção de subjetividades. São afetadas, neste quadro, várias noções importantes, como as de intimidade e privacidade. Do mesmo modo, a idéia de interioridade perde força, diminuindo a valorização da “vida interior” como o principal eixo em torno do qual as subjetividades modernas eram construídas. Cada vez mais, a “verdade” sobre o que cada um é se desloca desse âmago secreto, radicalmente íntimo e privado, para aflorar na superfície da pele (e das telas). Em vez de nutrir o antigo olhar introspectivo, portanto, hoje assistimos à proliferação de espaços, tecnologias e práticas que permitem e que incitam uma certa “espetacularização do eu” com recursos performáticos. A Internet, nesse sentido, se apresenta como um importante cenário de experimentação.

Além da introspecção, o olhar retrospectivo também parece estar em declínio nas novas práticas auto-referentes, perdendo seu peso outrora fundamental na hora de plasmar a própria vida como um relato. Assim, portanto, em contraste com algumas formas modernas de atualizar a memória do vivido (do diário íntimo tradicional à psicanálise, passando pelo romance clássico e pelas autobiografias românticas), este trabalho examina os diários pessoais publicados na Internet como sendo tentativas atualíssimas de “recuperar o tempo perdido” em sua vertigem auto-bio-gráfica na era do “tempo real”, do “sem tempo” e do presente constantemente “presentificado”. Pois a peculiar inscrição cronológica desses novos “relatos do eu” (e a sua insistência na prioridade da atualização permanente) denota outras turbulências. Não é só a profundeza sincrônica (interioridade) do eu que está sendo desafiada nos novos “modos de ser” que emergem no mundo contemporâneo, mas também a sua coerência diacrônica. Sofre alterações, portanto, o valor atribuído a outro fator primordial na constituição da “identidade” individual: o estatuto do passado como um alicerce fundamental do eu.

Apesar da sua permanência como fatores relevantes, essas noções que desempenharam papeis de primeira ordem na conformação das subjetividades modernas hoje parecem estar perdendo gradativamente seu peso relativo na definição do que cada um é. Acreditamos que certas práticas de “escrita de si” ou de “narrações do eu” que hoje germinam na Internet, como os blogs, os fotologs e as webcams, fornecem prismas privilegiados para analisar tais mutações.

 

A arqueologia de si: mergulhar, escavar, recriar as ruínas de cada um

 

Certa tradição ocidental leva a pensar no homem como um ser dotado de uma profundeza abissal, oculta, frondosa, em cujos obscuros meandros se esconde uma bagagem tão secreta como incomensurável. Infinitos dados, acontecimentos vividos ou fantasiados, personagens queridos ou esquecidos, sonhos, desejos inconscientes, firmes ambições, vontades inconfessáveis, medos, ódios, amores, dúvidas, certezas, dores, alegrias, lembranças difusas... enfim, todos os sedimentos da experiência vivida e da imaginação de cada um. Se pudesse ser conhecida, acredita-se, toda essa substância misteriosa que se abriga sob a pele e no âmago de cada indivíduo seria capaz de revelar o que cada um é. Mas acontece que tal revelação não é nada simples pois, curiosamente, esse acúmulo de material tão significativo é gasoso, etéreo: imaterial. É feito da matéria dos sonhos, aquela que inexplicavelmente nos constitui: volátil, fluída, fantasmal. Tudo isso é intangível, e seus contornos apenas podem ser intuídos ocasionalmente, de vez em quando, como um clarão que subitamente reluz e logo se esvaece, quase sempre de maneira enviesada, turva, confusa, às vezes por acaso ou, então, após um árduo trabalho de introspecção.

Tal é, ao menos, uma certa caracterização daquilo que constitui a “essência” do homem moderno, aquele que protagonizou as sociedades industriais do Ocidente dos últimos dois séculos: o homo psychologicus. Um tipo de sujeito que pode (e deve) ser estudado com a ajuda das ferramentas e dos saberes mais característicos desse período histórico – e, dentre esses saberes, a psicanálise desempenha um papel de enorme relevância. De acordo com essa visão do mundo e do homem, o passado tem um “sentido” importantíssimo na definição do presente e de tudo quanto é. Por isso, impõe-se mergulhar na interioridade subjetiva de cada indivíduo à procura dos restos de alguma imagem fundamental alojada na memória, que permita decifrar o significado do presente e do “eu”. Essa viagem introspectiva pode ser pensada como um autêntico mergulho – pois consiste em nadar nas sombrias profundezas do sujeito para desvendar seus enigmas – ou, apelando a outro campo metafórico igualmente fértil, a proposta equivale a fazer uma escavação a fim de examinar as diversas camadas geológicas que foram se acumulando ao longo da história individual para conformar uma determinada subjetividade. Ou seja: efetuar uma arqueologia do eu.

Completamente inserido neste paradigma, ninguém menos do que Sigmund Freud – “o pai da psicanálise” – recorreu a duas belas imagens para exemplificar as diversas maneiras de praticar a arqueologia nos labirintos da mente: Roma e Pompéia. Quem exumou os textos freudianos para resgatar essas duas metáforas foi o crítico francês Philippe Dubois, em um instigante artigo dedicado a estudar uma série de filmes documentários em primeira pessoa.[1] Ao indagar os modos de inscrição do passado na psique, procurando descobrir os mecanismos de conservação das impressões mentais, Freud enunciou essas duas respostas – diferentes, opostas e complementares. A comparação com Roma aparece em seu célebre ensaio Mal-estar na civilização, e evoca a “cidade eterna” como um território em ruínas, povoado por uma infinidade de cacos, fragmentos e vestígios do passado dispersos desordenadamente em diversas camadas históricas. Com base nesta imagem, entende-se o famoso postulado da psicanálise: nada na vida psíquica se perde para sempre, pois tudo o que já aconteceu pode reaparecer e tornar-se significativo no presente. Em seu caos estilhaçado, porém, Roma também expressa seu caráter fantasmal: “o impossível sonho da manutenção de tudo no seu devido lugar, na sua totalidade”.[2] Esse sonho impossível de conservação total afetou fortemente a sensibilidade romântica, nutrindo o impulso que deu à luz aos mais diversos gêneros autobiográficos – olhar introspectivo e auto-reflexivo, gesto retrospectivo com vocação hermenêutica; dois fatores fundamentais na construção da subjetividade moderna.

Em contraste com essa acumulação de múltiplos fragmentos quebrados e dispersos que Roma emblematiza de maneira exemplar, uma infinidade de objetos descuidadamente amontoados e semi-esquecidos no desvão da memória, Freud recorre a Pompéia para oferecer uma outra metáfora arqueológica capaz de esclarecer os mecanismos das lembranças no aparelho psíquico. A alusão à cidade petrificada aparece em seu ensaio Delírio e sonhos na “Gradiva” de Jensen, a fim de ilustrar a dinâmica do recalque. O que interessa aqui, porém, é essa capacidade de evocar a preservação intacta de uma imagem, uma instantânea eternizada, uma verdadeira “lembrança fotográfica”, um único bloco de espaço-tempo congelado de uma só vez e para sempre, como a cidade mumificada sob a lava do vulcão.

Como bem esclarece Dubois em sua leitura desses dois textos freudianos, trata-se de duas temporalidades distintas e opostas, mutuamente excludentes porém complementares: “ou é Roma, a multiplicidade das camadas, mas sempre parcelares; ou é Pompéia, a totalidade preservada, porém, num momento singular”. O aparelho psíquico flutua constantemente entre ambas as modalidades de recordações, entre ambos os tipos de restos arqueológicos – marcas mnêmicas soterradas, vestígios de um “eu” que já se fora – sem jamais conseguir juntá-las, pois é impossível atualizar em forma simultânea todas essas virtualidades registradas na memória. Roma ou Pompéia. “De um lado, um tempo da acumulação, da propagação, da saturação, porém fragmentário; de outro lado, um tempo da captura, do corte, do instante, porém totalizante”. Sonho impossível, portanto, de reunir na indagação do próprio passado a multiplicidade e a integralidade, a duração e o instante.

 

A memória tecno-lógica:

ainda é possível ir “em busca do tempo perdido”?

 

Hoje, entretanto, a arqueologia aparece como uma atividade digna de outras eras e até mesmo de outros mundos. Muita poeira foi sedimentada sobre suas bases epistemológicas e sobre sua prática, de modo que hoje toda a sua mítica é reciclada em cenários de videogames ou de filmes de ação. Ou, então, ela é sedutoramente empacotada como uma atração de parque temático ou como uma das variantes do prolífico turismo-aventura. Sem desdenhar essas mitologias que ainda estão fortemente assentadas no imaginário ocidental, entretanto, outras metáforas se impõem de maneira crescente na hora de reconstruir o passado como um  arcabouço significante da história pessoal de cada indivíduo. Àquelas imagens já clássicas que aludiam à arqueologia e à geologia, somam-se as expressões provenientes da fotografia (revelar, velar, obturar, superexpor, aplicar filtros) e, também, do cinema. Assim, hoje é possível rebobinar o filme da vida, operar flashbacks ou cortes abruptos em certas seqüências, focalizar ou aplicar zoom sobre um determinado detalhe, evocar uma cena em câmera lenta ou realizar uma decupagem cuidadosa, fazer um rápido travelling numa paisagem ou num cenário particular, efetuar um close-up sobre um rosto específico, repassar uma seqüência inteira do próprio passado de maneira linear e pormenorizada, priorizar a trilha sonora de um determinado episódio ou editar a montagem de diversos eventos como se fosse um vídeo-clipe. E, ainda, reproduzem-se cada vez com mais força as metáforas procedentes do universo informático: agora também é possível arquivar ou deletar algum dado da nossa mente, escanear na memória procurando algo esquecido, gravar uma informação com segurança redobrada, clicar no ponto certo e abrir um inesperado link hipertextual.

Não são inocentes estas alterações nas formas com que pensamos as recordações, os mecanismos da memória humana e a própria vida como um relato. A vida passa a ser, com freqüência crescente neste novo contexto, uma história inspirada nos modelos cinematográficos (e multimídia) que permeiam e recreiam constantemente o mundo, enquanto o “eu” se espelha nos personagens que desbordam das telas e modelam o real. De alguma maneira, portanto, hoje parece uma empresa impossível – incompatível com os ritmos que sacodem a atualidade – a proeza de ler as duas mil e duzentas páginas dos sete volumes “autobiográficos” de Marcel Proust, Em busca do tempo perdido – uma obra auto-arqueológica monumental iniciada em 1908 e concluída com a morte do autor, em 1922. Quanto às possibilidades de escrever algo assim, de empreender essa gigantesca e trabalhosa tarefa de “recherche” na história da própria vida para estilizá-la no papel com recursos literários, isso parece até mais difícil ainda. As velocidades que turbinam os corpos, as almas e os relógios na era do tempo real parecem conspirar contra tais introspecções profundas e demoradas, muitas vezes dolorosas e, de certo modo, sempre laboriosas, necessariamente sistemáticas e disciplinadas.

Mas não se trata de um fenômeno inexplicável. Vivemos numa época em que o passado parece ter perdido boa parte do seu sentido como “causa” do presente. Mais ainda: hoje, a questão do sentido não parece estar em questão, pois a sociedade atual se projeta apenas nos efeitos (aqueles que antes eram entendidos como “meros sintomas” de uma “causa profunda”) enquanto desdenha as causas e os fundamentos, que outrora eram procurados e investigados como sendo nós significativos capazes de “explicar” todos os efeitos e sintomas. Hoje, porém, a eficiência e a eficácia – a capacidade de produzir determinados efeitos – é uma justificativa auto-suficiente, que dispensa toda explicação causal e toda pergunta pelo sentido. Assim, agora, poder-se-ia dizer que tudo o que passou, acabou. Alguma vez houve um passado, sim, mas aparentemente já não há mais. Algo começou de forma absoluta na cultura contemporânea a partir do nada, ou seja, a partir de algo que ostensivamente tinha acabado. Esse movimento coincide, precisamente, com o assentamento da tecnociência como o tipo de saber hegemônico do mundo contemporâneo; isto é, com a fusão da ciência (que é um saber-saber) e a técnica (que é um saber-fazer). E, inclusive, com a ênfase assinalando a prioridade ontológica deste último fator integrante do par, em demérito da “ciência pura” que era privilegiada antigamente. Assim, neste novo contexto, o passado só parece servir para ser utilizado ou consumido das mais diversas formas, seja recriando-o de maneira estetizada em filmes e telenovelas “de época” ou, então, comprando-o encapsulado em pílulas hiper-reais que assumem sem remorsos a sua conversão em objeto de curiosidade, de nostalgia ou de sentimentalismo – todos eles, é claro, convenientemente à venda. Como quer que seja, parece evidente que a sua velha função tem caducado ou, quando menos, que ela está perdendo força: o passado não serve mais para conceder inteligibilidade ao caótico fluir do tempo, e nem para explicar o presente ou a mítica singularidade de um determinado “eu”.

Podemos dizer, então, que hoje o tempo se perdeu completamente? Perdeu sua espessura semântica, sua potência causal, enfim, seu sentido? Já não seria mais possível, portanto, ir buscá-lo lá longe nas recônditas cavidades do passado para reencontrá-lo e recuperá-lo, de alguma maneira, trazendo-o à superfície do presente? Quer dizer que o tempo desapareceu logo agora, quando tinha se tornado um dos bens mais prezados e cotados na economia global, e quando acabara de ganhar o pomposo adjetivo de real? Ou talvez foi precisamente por isso que ele se perdeu? Ao se realizar, o tempo talvez tenha perdido a sua velha linearidade de vocação teleológica e tenha se presentificado fatalmente, petrificando tudo o que é numa mera sucessão de Pompéias instantâneas? Teria ficado, então, definitivamente obsoleto (game over?) aquele tempo laboriosamente “recuperado”? E, portanto, hoje seria virtualmente impossível efetuar uma introspecção na própria interioridade para “reconstruir” como um relato – seja de maneira artística, psicanalítica ou artesanal – as ruínas daquele passado pessoal comparáveis aos vestígios de uma velha Roma?

 

Memória, desmemória e restos da insônia:

É preciso esquecer Pompéia para vislumbrar Roma (e afixá-la)

 

Não é fácil responder às perguntas abertas no último parágrafo. Ainda hoje, apesar das intensas convulsões que sacodem o mundo, parece impossível negar uma obviedade: tudo que existe, existe no tempo. A temporalidade constitui as coisas: o que é, é no tempo. Mas o tempo também é uma categoria sócio-cultural, e as suas características mudam ao sabor da história. Uma imagem talvez sirva para esclarecer este ponto: a do relógio. Máquina emblemática do capitalismo, nas últimas décadas sofreu o upgrade de praxe ao passar das leis mecânicas e analógicas para as informáticas e digitais. Culminando um processo iniciado com a sua invenção nos rígidos mosteiros da Europa medieval, a sua função foi completamente internalizada no Ocidente industrializado dos últimos dois séculos, com uma proliferação de modelos nos lares do mundo inteiro, nos prédios e nas ruas das cidades, e inclusive embutidos nos pulsos das pessoas e nos artefatos de uso cotidiano. A tradução dos relógios analógicos para os digitais, porém, emite alguns sinais interessantes: nos novos modelos, o tempo perdeu os interstícios. Agora, ele não é mais compartimentado geometricamente. E, ao se converter em um contínuo fluido, ondulante e total, a sua função reguladora e sincronizadora dos ritmos na sociedade capitalista parece ter se intensificado e complexificado.

Como estão se refletindo essas mutações na maneira com que percebemos o tempo (próprio) passado? De acordo com as teorias apresentadas no famoso ensaio Matéria e memória, de Henri Bérgson, existe um vínculo inexorável entre percepção e memória. A percepção é um ato contínuo na experiência vital do sujeito, porém a necessidade de ação presente limita e filtra o que de fato é percebido. Desse modo, sempre se efetua um recorte no mundo percebido em função da própria subjetividade e das necessidades presentes. Assim, a memória se encarrega de trazer à tona todas aquelas representações percebidas porém não ligadas à ação presente. Por isso, a percepção do passado (com seu fluxo de lembranças e sua objetivação do tempo vivido) aumentará se o sujeito estiver inativo, se essas “necessidades de ação presentes” forem escassas ou praticamente nulas.

Tais reflexões interessam aqui pela sua capacidade de iluminar certos mecanismos na “recuperação do tempo perdido” e, talvez, sugerir algum indício sobre a sua viabilidade na nossa época. Vamos convocar, para isso, alguns personagens interessantes, que bem poderiam praticar nestas páginas um diálogo certamente improvável. Em primeiro lugar, aludiremos aos precogs, aqueles estranhos seres apresentados no filme Minority Report, de Steven Spielberg. Geneticamente projetados com fins utilitários – concretamente, para o uso da Polícia em suas investigações criminais – por terem um contato muito afinado com o passado, é sintomático (e bem bergsoniano) que eles devam permanecer completamente imóveis, com seus corpos fracos e doloridos sempre flutuando de maneira inerte numa espécie de líquido amniótico. Essa incapacidade de agir e de se movimentar combinada com uma capacidade de memória total aparece em outro personagem fictício: o famoso Ireneo Funes, “el memorioso”, criado em 1944 pelo escritor argentino Jorge Luis Borges. Vítima de um acidente que o deixara paralítico e condenado a passar o resto da vida prostrado numa cama, o jovem Funes tinha bastante mais do que uma percepção aguda e uma memória prodigiosa; ele era capaz de captar absolutamente todas as arestas da realidade com seus sentidos infalíveis e, além disso, não conseguia esquecer de nada.

Já é mítica, por outro lado, a imagem que evoca a figura de Marcel Proust se recolhendo em sua cama de doente, praticamente imobilizado nos últimos anos da sua vida, com todas as energias dedicadas a resgatar das névoas da memória as suas recordações das décadas vividas – e a redigi-las fervorosamente. Proust, sabe-se, sofria de insônia. Na solidão noturna, como também se sabe, os fantasmas andam soltos; assim, aquelas longas e terríveis noites em branco se converteram num campo fértil para o assédio das lembranças, e forneceram valiosos materiais para a sua reconstrução escrita no presente. A fábula de Funes, por sua vez, como esclarece o próprio Borges no prefácio do livro que a contém, “é uma longa metáfora sobre a insônia”.[3] Vejamos, agora, o que disse Friedrich Nietzsche em sua Segunda Consideração Intempestiva, concebida em 1873:

Pensem no exemplo mais extremo, um homem que não possuísse de modo algum a força de esquecer e que estivesse condenado a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem não acredita mais em seu próprio ser, não acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em pontos móveis e se perde nesta torrente de vir-a-ser... A todo agir liga-se um esquecer... Um homem que quisesse sempre sentir apenas historicamente seria semelhante ao que se obrigasse a abster-se de dormir... Portanto: é possível viver quase sem lembrança, sim, e viver feliz assim, como o mostra o animal; mas é absolutamente impossível viver, em geral, sem esquecimento.[4]

 

A memória (e, especialmente, as suas “falhas”) é um assunto bem debatido em anos recentes. Numa era em que o Mal de Alzheimer se espalha pelo mundo como um dos fantasmas mais temíveis e cruéis – assombrando os finais de nossas vidas, que são cada vez mais longas porém ainda sujeitas à mecânica fatal do envelhecimento e da morte – abundam os filmes como Amnésia, nos quais se problematiza a “perda da memória”. E, junto com ela, quase sempre, a perda da “identidade” do sujeito em questão. Do mesmo modo, cada vez mais, tanto das pesquisas neurocientíficas como do senso comum emanam as metáforas computacionais e informáticas para aludir ao funcionamento da memória. Filmes como Total Recall (O Vingador do Futuro), Johnny Mnemonic, eXistenZ e Estranhos prazeres, por exemplo, mostram a compatibilidade entre os dispositivos informáticos e os circuitos mentais, ambos compartilhando a mesma lógica digital do software e do hardware. Em Matrix, inclusive, um fenômeno como o dejà vu – um tipo de paramnésia – é explicado como sendo um bug (ou uma falha) no software que emula o mundo.[5] Mas as próteses informáticas e os implantes de memória digital não são meras fantasias de ficção-científica; ao contrário, o assunto está na agenda das pesquisas em Inteligência Artificial e, de acordo com seus representantes mais entusiastas, nos próximos anos promete se tornar um tipo de produto disponível no mercado global.

Essas novidades parecem sucumbir à imensa sedução de uma memória fotográfica e total, super-humana, capaz de ultrapassar as limitações do aparelho psíquico descrito por Freud, realizando a união outrora “impossível” de Roma e Pompéia, multiplicidade e integralidade, duração e instante. À luz desses sonhos tecnocientíficos, adquire novos matizes o “esquecimento feliz” proposto por Nietzsche para combater uma certa “hipertrofia da memória” – que, pelo visto, já se insinuava no longínquo final do século XIX em que atuava o filósofo alemão, uma época atacada pela febre historicista. Para isso, pode ser instigante reler uma das conclusões que inspirou em Borges o personagem de Funes: “Desconfio, no entanto, que ele não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão detalhes quase imediatos”.[6] Um mundo terrível, portanto, inundado de um excesso de dados, um gigantesco conjunto de fotos fixas completamente nítidas e absolutamente fieis ao referente, isto é, um mundo feito de infinitas Pompéias organizadas com perfeita exatidão no tempo e no espaço. “Funes discernia continuamente os tranqüilos avanços da corrupção, das caries, da fadiga. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso”.[7]

Impossível esquecer, então, sob a pressão de uma memória implacável que tudo registra e nada descarta, essa profusão de detalhes (todos eles igualmente importantes). Impossível abstrair e escolher apenas uma série de traços nesse mar prolixo para, dessa forma, poder delinear um quadro que esboce a totalidade confusa de uma Roma em ruínas. Uma meta certamente impossível no caso de Funes, sim. Mas essa foi, provavelmente, a tarefa empreendida por Proust em suas noites de insônia e em seus longos dias de escrita sem descanso na França dos inícios do século XX: com sua memória demasiadamente humana, o escritor mergulhou em sua frondosa interioridade para “resgatar” um mundo passado e recriá-lo em seu presente. Assim, preenchendo com a pluma milhares de páginas, Proust pintou todas as ruínas da sua Roma particular.

         

Do diário íntimo ao blog:

metamorfoses de um certo impulso romântico?

 

Esse tipo de atividade introspectiva que soube dar à luz a numerosas jóias da literatura universal, também se converteu em rotina na solidão do “quarto próprio” da era burguesa. E foi, sem dúvida, a chama que acendeu um certo furor da escrita de diários íntimos ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX. Qual seria, porém, a viabilidade de um “diário íntimo” no contexto atual? Numa era tão desmemoriada e tão obcecada pelo sonho de criar um substituto tecnológico da frágil memória orgânica, um tempo tão viciado na instantaneidade e tão vertiginosamente “sem tempo”, é forte a tentação de responder a essa pergunta de maneira categórica: “nenhuma”. Hoje em dia, a zelosa prática que outrora contagiou milhões de almas tem ficado ostensivamente fora de lugar (e, sobretudo, fora de tempo), confirmando a sua morte repetidamente anunciada nas últimas décadas. Tais afirmações, no entanto, contradizem alguns indícios que teimam em desconcertar as mais óbvias certezas. O sucesso editorial das biografias e das autobiografias, por exemplo, dá conta de um processo que excede as margens de um mero fenômeno de mercado.[8]  Existe, hoje, uma voracidade com relação a tudo que remeta a “vidas reais”. Como parte significativa desse movimento, cabe destacar a proliferação de documentários em primeira pessoa, o sucesso internacional dos reality-shows e o surpreendente auge dos blogs, uma novíssima espécie de “diário íntimo” publicado na Internet pelos usuários do mundo inteiro.

É possível intuir, neste novo fenômeno, alguns vestígios de um gesto tipicamente romântico. Foi no auge desse movimento estético-filosófico, de fato, que os diários íntimos e as autobiografias se multiplicaram pelo mundo ocidental. Nesses românticos séculos XVIII e XIX, a configuração de valores que acabou conformando o individualismo moderno estava afinando seus contornos, e o culto à singularidade individual se encontrava na ordem do dia; era preciso desvendá-la, cavando nos meandros interiores de cada “eu” e descrevendo no papel as suas peripécias. Hoje persiste, sem dúvida, esse culto à singularidade individual e essa vontade de “ser diferente” – uma palavra de ordem que tem se tornado, paradoxalmente, um imperativo presente em toda mensagem publicitária e uma pedra angular da sedução consumista. Para estilizar e exibir tais qualidades “únicas” de cada um, porém, já não se escavam as trevas do próprio passado, não se recorre ao cultivo e nem sequer à pesquisa da própria interioridade. Cada vez mais, ao contrário, o que cada um é passa pela superfície visível do corpo, pela epiderme trabalhada como um objeto de design – e, também, pela auto-estilização inspirada nos personagens cinematográficos. Eis uma pista, portanto, que talvez possa explicar esse curioso “detalhe” dos novos diários íntimos publicados na Internet, tão oposto a seus ancestrais genuinamente “privados”: o fato de eles nascerem com vocação exibicionista, para serem vistos e lidos por milhões de olhos alheios nas telas da Rede mundial de computadores.

Assomam, também, nesses novos relatos do eu, certos ares daquela vontade tipicamente romântica de reter o tempo, daquela ânsia de guardar algo próprio e valioso mas que inevitavelmente escapará na vertigem da aceleração contemporânea. O sonho impossível de preservar, portanto, toda a minúcia que conforma nada menos que “a própria vida”, isto é, milhões de instantes passados e enfileirados em sua duração até o presente. Assim, aquilo que os fotologs realizam de maneira literal, publicando todo tipo de imagens fotográficas dos usuários da Internet (inúmeras Pompéias freqüentemente mudas, enigmáticas fotos-múmias, pura superfície que costuma calar a sua espessura semântica), os blogs procuram fazê-lo recorrendo a uma tecnologia bem mais antiga: a palavra escrita. Assim, os autores dos diários íntimos publicados no ciberespaço realizam operações de “congelamento do tempo”, como se fotografassem certos momentos de suas vidas e os pregassem com alfinetes num imenso quadro-negro virtual de alcance global. Pílulas de tempo próprio congelado e parado, faíscas do próprio presente sempre presentificado, fotografado em palavras e exposto na Rede para todo o mundo ver.

Entretanto, cada vez mais, vivemos a experiência dos tempos fragmentados e voláteis, inexoravelmente fugidios. E, na era do Alzheimer generalizado, a fragilidade da memória está em evidência... em mais de um sentido. Por um lado, os cientistas buscam desenvolver substitutos computacionais para os fustigados circuitos orgânicos. Por outro lado, os dispositivos digitais não cessam de demonstrar as suas fraquezas como suportes para o armazenamento das informações.[9] Além disso, uma pesquisa causou certo impacto ao anunciar seus resultados, recentemente, segundo os quais “a onda dos blogs” teria ingressado numa “fase de calmaria”. De acordo com o estudo efetuado pela firma Perseus Development, dos cerca de 4,12 milhões de blogs criados nos oito principais serviços de hospedagem do mundo, 2,72 milhões (ou 66%) estão praticamente abandonados, pois não foram atualizados nos últimos dois meses. Na totalidade dos “diários virtuais” pesquisados, a média de atualização é de 14 dias. Apenas 106,5 mil são atualizados pelo menos uma vez por semana, e menos de 50 mil o fazem diariamente.[10]

De alguma maneira, entretanto, nada disso é muito surpreendente. É lógico, aliás – pois, como sabemos, “não há mais tempo para nada”. Isso se verifica em vários sentidos: não há tempo para ler, nem para escrever ou sequer para rechercher. Não há mais passado fundador do presente e do “eu”, e não há mais um futuro radicalmente diferente no horizonte. Só resta, portanto, ao que parece, apenas uma coisa: o presente constantemente “presentificado”. Nesse sentido, os blogs poderiam ser vistos como uma coleção de tempos presentes visando a uma certa espetacularização do eu. Para alguns pesquisadores do fenômeno, com efeito, é precisamente a sua organização cronológica um dos traços principais na definição do “diário virtual”: o fato de as últimas atualizações aparecerem no início do site e as mais antigas embaixo, e cada bloco de texto obstinadamente encabeçado pela data (e horário) da publicação. Como constata Raquel Recuero, por exemplo: “essa estrutura privilegia sempre a atualização mais recente, mostrando ao visitante de modo quase imediato se o site foi atualizado ou não”.[11] Os blogs exibem, portanto, uma série de fotos fixas, recortes de instantes colados um após o outro. Diversas instantâneas de momentos presentes que vão passando mas não se articulam e sedimentam para constituir um passado à moda antiga. Enfim, uma coleção de Pompéias petrificadas e primorosamente classificadas em ordem cronológica... nada de Romas eternas, infinitas e fatalmente “desordenadas” numa estrutura narrativa com sonhos de coerência e vocação totalizadora.[12] Nesse sentido, cabe perguntar: os blogs seriam uma tentativa atualíssima de “recuperar o tempo perdido” na sua vertigem auto-bio-gráfica em tempo real?

A conclusão – sempre provisória, como a frágil matéria de que somos feitos – é que se trata de mais um traço na reconfiguração das subjetividades contemporâneas. Hoje é possível detectar importantes mudanças nos valores atribuídos a dois fatores primordiais na constituição da “identidade” individual: a idéia de interioridade e o estatuto do passado como dois alicerces fundamentais do “eu”. Essas duas noções desempenharam papeis de primeira ordem na constituição das subjetividades modernas e, apesar da sua permanência como fatores relevantes ainda hoje em dia, parecem estar perdendo gradativamente seu peso relativo na definição do que cada um é.[13]

 

Bibliografia

ARFUCH, Leonor. El espacio biográfico: Dilemas de la subjetividad contemporánea. Bs. Aires: FCE, 2002.

ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges. Historia de la vida privada. Madri: Taurus, 1991.

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

BEZERRA Jr., Benilton. O ocaso da interioridade. In: PLASTINO, C. A. (org.). Transgressões. Rio de Janeiro: Contracapa, 2002.

BORGES, Jorge Luis. “Funes, el memorioso”. Obras completas, v. 1. Buenos Aires: Emecé, 1999.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M. e AMADO, J. (Orgs.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Ed. FG, 1998.

BRUSS, Elizabeth. Autobiographical Acts: The Changing Situation of a Literary Genre. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1976.

CAMPBELL, Colin. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno.Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

CELES, Luiz Augusto M. A psicanálise no contexto das autobiografías románticas. In: Cadernos de Subjetividade. São Paulo: PUC-SP, v. 1, n. 2, Set/Fev 1993. p. 177 a 203.

CHARTIER, Roger. Historia de la lectura en el mundo occidental. Madri: Taurus, 1998.

DUBOIS, Philippe. A “foto-autobiografia”. In: Revista Imagens. Campinas: Ed. Unicamp. p. 64 a 76.

ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

FOUCAULT, Michel. Tecnologias del yo. México: Paidós, 1990.

FREUD, Sigmund. Obras completas. Madri: Ed. Biblioteca Nueva, 1948.

FISCHER, Gustavo. Relações sujeito-tempo nos diários online: o “armazenamento de agoras”. In: CD-ROM do XXVI Encontro INTERCOM, Núcleo de Tecnologias da Informação e da Comunicação. Belo Horizonte: PUC-MG, 2003.

GABLER, Neal. Vida, o filme: Como o entretenimento conquistou a realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1975.

NIETZSCHE, Friedrich. Segunda consideração intempestiva: Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.

PROUST, Marcel. En busca del tempo perdido. Buenos Aires: Ed. Santiago Rueda, 1947.

RECUERO, Raquel da Cunha. Warblogs: Os Blogs, a Guerra no Iraque e o Jornalismo Online. In: CD-ROM do XXVI Encontro INTERCOM, Núcleo de Tecnologias da Informação e da Comunicação. Belo Horizonte: PUC-MG, 2003.

SENNETT, Richard. O declínio do homem público: Tiranias da intimidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SIBILIA, Paula. O homem pós-orgânico: Corpo, subjetividade e tecnologias digitais. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

SIBILIA, Paula. Os diários íntimos na Internet e a crise da interioridade psicológica. In: Olhares sobre a Cibercultura. LEMOS, André e CUNHA, Paulo (Orgs). Porto Alegre: Ed. Sulina, 2003.

TAYLOR, Charles. As fontes do self: A construção da identidade moderna. São Paulo: Ed. Loyola, 1997.

 

 

 



[1] DUBOIS, Philippe. A “foto-autobiografia”. In: Revista Imagens, p. 64 a 76.

[2] DUBOIS, op. cit. p. 71.

[3] BORGES, Jorge Luis. “Funes, el memorioso”. Obras completas, v. 1. Bs. Aires: Emecé, 1999. p. 483.

[4] NIETZSCHE, op. cit. p. 9 e 10.

[5] Sobre os filmes mencionados neste parágrafo: Amnésia (Christopher Nolan, EUA, 2000); O Vingador do Futuro (Paul Verhoeven, EUA, 1990); Johnny Mnemonic (Robert Longo, EUA, 1995); eXistenZ (David Cronenberg, EUA, 1999); Estranhos prazeres (Kathryn Bigelow, EUA, 1995) e Matrix (Andy e Larry Wachowski, EUA, 1999).

[6] BORGES, op. cit. p. 490.

[7] BORGES, op. cit. p. 489 e 490.

[8] Em um artigo sobre o “boom editorial” das biografias, publicado recentemente em um grande jornal argentino, a autora o vinculava com um fenômeno mais amplo da contemporaneidade: uma “revalorização da história individual e familiar” e um revigorado “interesse pelas vidas dos outros”. Assim, hoje “surpreende o fato de que não seja mais preciso ter vivido uma grande vida para merecer a posteridade em forma de livro. Ao que parecer, basta que a história pessoal que se escreve dia após dia, sem tinta, nem papel, nem acontecimentos rutilantes, seja digna de ser contada”. REINOSO, Susana. Tendencias: La biografía se abre paso entre los géneros literarios. Buenos Aires, La Nación, 6/10/2003. Disponível em http://www.lanacion.com.ar/03/10/06/dq_533355.asp?origen=premium.

[9] Os especialistas costumam debater sobre a vulnerabilidade dos meios digitais de armazenamento de dados, que superaria inclusive à do velho e analógico papel, pois a sua capacidade de conservar as informações sofre diversas ameaças: da incompatibilidade entre os formatos dos arquivos e dos dispositivos, que ficam velozmente obsoletos, até os ataques dos hackers, dos vírus e de outras pragas igualmente “imateriais” e difíceis de controlar. Para uma discussão recente sobre este assunto, ver GARFINKEL, Simson. “The Myth of Doomed Data”. MIT's Technology Review, 8/12/2003, http://www.technologyreview.com/articles/wo_garfinkel120303.asp.

[10] A pesquisa esclarece, no entanto, que os diários íntimos da Internet continuam a serem criados com uma velocidade que supera amplamente à do abandono: 3,3 milhões de blogs estariam ativos no final de 2003, comparados com o 1,7 milhão abandonado no mesmo período. Se no final de 2000 o total no mundo inteiro não ultrapassava os 135 mil, o estudo estimou que o ano de 2003 terminaria com cerca de cinco milhões de “diários virtuais”, e calcula-se que haverá dez milhões até o final de 2004. “Blogs vivem fase de calmaria, revela pesquisa”. IDG Now!, 26/11/2003. Mais informações em http://www.perseus.com/blogsurvey.

[11] Nesse mesmo artigo, os blogs são definidos da seguinte forma: “websites pessoais baseados nos princípios de microconteúdo e atualização freqüente, que possuem uma estrutura comum organizada em função do tempo”.  RECUERO, Raquel da Cunha. “Warblogs: Os Blogs, a Guerra no Iraque e o Jornalismo Online”. In: CD-ROM do XXVI Encontro INTERCOM. Belo Horizonte: PUC-MG, 2003.

[12] É interessante, nesta linha de pensamento, mencionar a conceituação de Gustavo Fischer em seus estudos sobre a peculiar temporalidade dos “diários virtuais”, compreendendo os blogs como um “armazenamento de agoras” ou uma coleção de momentos presentes. O autor detecta uma construção “episódica” da história de vida nos diários publicados na Internet. FISCHER, Gustavo. “Relações sujeito-tempo nos diários online: o ‘armazenamento de agoras’”. In: CD-ROM do XXVI Encontro INTERCOM, Belo Horizonte: PUC-MG, 2003.

[13] Enquanto o presente artigo privilegia o fator temporal, a questão da interioridade foi analisada com mais detalhe em um trabalho anterior: SIBILIA, Paula. Os diários íntimos na Internet e a crise da interioridade psicológica. In: Olhares sobre a Cibercultura. LEMOS, André e CUNHA, Paulo (Orgs). Porto Alegre: Ed. Sulina, 2003.

 



Todos los derechos reservados Facultad de Periodismo y Comunicación Social de La Plata.
Programación y diseño: 
PaulaRomero |Hernan Rodriguez Azpiazu
La Plata | Buenos Aires
| Argentina.
- 2004 -