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Comunicação, trabalho e valor na sociedade da informação

 

Marta de Araújo Pinheiro[1]

FACOM – Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF

 

Este trabalho pretende apontar espaços da Internet como propiciadores da socialização das informações, saberes e conhecimento. Redes de afinidades e de cooperação que propõem, através da distribuição e do copyleft, novas práticas de trabalho. A relação informação e valor na sociedade da informação e as resistências de uma cidadania globalizada.

 

Palavras-chave: comunicação; redes; trabalho; valor.

 

As questões elaboradas neste artigo são resultantes das investigações teóricas e práticas realizadas durante a pesquisa “Comunicação em redes e produção imaterial”, ainda em curso[2], que pretende avaliar e compreender as potencialidades, os efeitos socioculturais e políticos oferecidos pelas redes de comunicação que se organizam na Internet. Entrever os novos horizontes para pensar a dinâmica das tecnologias e sua eficácia nas mutações sociais em curso. Será a web um ambiente proporcionador de novos encontros ao criar interfaces flexíveis, onde poderíamos concretizar a cidadania globalizada em territórios virtuais eletrônicos?

Podemos perceber diferenças de ocupação da rede: existem sites, portais e zonas reservadas em que as hierarquias sócio-econômicas aparecem em espaços de serviços e produtos comerciais; sites governamentais; existem aqueles que mantêm regiões compartilhadas como chats, blogs, fotologs, ativistas e ainda os que têm como finalidade constituírem redes dentro da Rede através da construção de uma teia de links. Consideramos duas direções nestas diferenças: uma é apenas estar conectado, (redes centralizadas e hierarquizadas), e a outra é como se está conectado (descentralização e horizontalidade).

O ponto inicial de nossas pesquisas está na emergência da segunda direção onde ambientes e linguagens independentes e criativas são construídas em rede e que têm como objetivos a divulgação e a circulação de informação e de conhecimento, elementos vitais para a formação de uma intelectualidade democratizada, questão essencial na transformação do trabalho no modelo econômico atual denominado pós-fordismo.

Escolhemos a direção “como se está conectado” ao constatar a grande mudança que o uso das redes como uma produção "faça-você-mesmo" provoca, especialmente, pela apropriação singular das potencialidades deste meio, que se concretiza em trabalhos cooperativos de produção e de distribuição, através de conexões temporárias e vínculos transversais, não mais hierárquicos. Estas características expressam a produção informacional e comunicacional posta em circulação na Internet por meio de afinidades e interesses comuns. Estes agenciamentos, ao constituírem redes dentro da Rede Internet, revelam a tentativa de criação de uma relação de comunicação midiática radical em um mundo de fronteiras alargadas, onde o sentimento de pertencimento local ou cultural se dilui. Uma proposta de comunidade global baseada em práticas produtivas cooperativas. Como diz Benedict Anderson[3], as comunidades podem ser distinguidas pelo estilo no qual são imaginadas, pois proporciona um sentido de pertença àqueles que se julgam compartilhar um determinado lugar simbólico.

          Este lugar simbólico pode ser um espaço geograficamente unido ou sedimentado por meio de sentimentos simbólicos. Se a cultura impressa foi importante na construção do nacionalismo que pôde interconectar as pessoas além do espaço e tempo locais, será que também não podemos pensar a web como construção simbólica do novo espaço da comunidade agora global? Se a globalização das atividades econômicas e a reestruturação do capitalismo sob o impacto da informatização gerou, por um lado, a flexibilidade e instabilidade de empregos, assim como a imposição de padrões únicos ao difundir uma mesma forma de produção, baseada nas novas tecnologias, ela propicia, por outro lado, como diz Castells[4], resistências, sendo que podem ser resistências à mudança (fundamentalismos) e resistências em projetos futuros (movimentos ecológicos, ativismos contra as grandes corporações, etc), isto porque a construção de comunidades e identidades se desenvolvem em contextos marcados por relações de poder e, para Castells, estes contextos dinâmicos devem ser compreendidos, pois não existem bons ou maus movimentos.

 É a partir do final da década de 90, com a expansão do uso da Internet, que uma nova forma de comunicação surge amparada pelas idéias de nomadismo e resistência, constituindo uma outra maneira de pensar a função e os sentidos públicos da comunicação. Sites como tv.oneworl.net, indymedia.org, babels.org, cirandanet, globalproject, samizdat.net, gutemberg.net são exemplos de uma nova mídia que tem como condição os recursos dos meios digitais e o espaço das redes. Entretanto, diferentemente dos jornais e revistas on-line, essas experiências exploram estes novos recursos e criam condições para o exercício independente da comunicação em tempos globalizados. Liberdade de acesso, utilização de multimeios, resistência aos moldes e aos modelos concentradores da mídia, insistência na distribuição e circulação dos acontecimentos, das informações e dos saberes, adoção do regime de copyleft[5], seleção e disponibilização de links que agrupam afinidades e interesses em comum: uma multiplicação que, no entanto, evita o caos e o excesso aparente da internet.

O que é o caos? É um mundo no qual os fluxos de informação que chegam ao nosso cérebro são velozes demais e por demais complexos para que possam ser ordenados e, portanto, para que possam ser controlados, governados e previstos. Possibilidade de sobrevivência é a amizade, em saber que os fluxos que nos circulam não são perigosos e que o interesse comum entre os seres humanos prevalece sobre seus interesses em conflito. Somente a amizade pode regular o intercâmbio na sociedade contemporânea.[6]

 

Sejam essas redes constituídas por movimentos sociais sem espaço na grande mídia, ou locais de agenciamento de ações futuras, elas exercem uma política estratégica socializando informações, pesquisas, idéias, artigos, livros e formam uma cartografia no espaço ilimitado da Rede. A finalidade é se apropriar dos caminhos e cruzamentos, reunir esforços para a socialização dos saberes, visando uma nova sensibilidade que transforme a ação e o sentido públicos agora associados à circulação, à conexão e ao que é comum.

O hipertexto - suportes de imagem, som e texto - conecta o mundo e, dada a sua complexidade de códigos, torna-se difícil ser capturado, institucionalizado, bloqueado, apesar das tentativas incessantes de controle. Um espaço em comum e aberto atualiza-se em todos os instantes em algum ponto da rede. Como esse excesso não se torna ruído e resiste? E ele resiste ao quê?

Definimos como objeto de pesquisa sites que atendem e exploram essa pergunta. Eles podem ser tanto ativistas como propostas de mídias independentes, porém nos detemos naqueles que, para resistir à expropriação dos saberes, pretendem também ser distribuidores e conectadores de informação e de conhecimentos. Este sites, que podemos chamar mídia tática, têm como proposta uma ação mais revolucionária, no sentido de buscar a ruptura com o atual paradigma econômico e social, não de forma utópica e sim por uma ação e uma ética bem concretas, embora efetuadas em um espaço virtual. Não se trata simplesmente da exaltação de uma comunidade virtual que entrelaça pessoas com gostos, hobbies e interesses em comum diante da desterritorialização resultante dos tempos globais, como uma substituição das comunidades formadas por laços territoriais, étnicos, raciais e culturais. A proposta é mais política e estratégica: são sites que  propõem fazer da web territórios de informação contextualizados, organizados em superfície e rizomaticamente conectados por links para promover uma intelectualidade acessível a todos.[7] Em que medida, o campo da comunicação pode diagnosticar e intervir nestes processos de socialização que ocorrem hoje na Internet que têm como ponto em comum a distribuição de links sob o modelo de contribuição e doação?

 

A comunicação e as redes.

 

Quando hoje se discute os meios de comunicação e sua mediação com o campo social, político e cultural, percebe-se a impossibilidade de encontrar uma exterioridade onde possam ser construídas as ferramentas conceituais para um pensamento crítico. Diante das mídias tradicionais, o pensamento teórico da comunicação podia se concentrar nos pólos da emissão e da produção, denunciando o lugar passivo do receptor submetido ao controle e às ideologias. Ultrapassar essa impotência do receptor no processo da comunicação requeria uma política de conquista dos meios e a sua transposição para o coletivo. Outra perspectiva teórica buscou nos atos da recepção uma leitura produtiva e significativa, que indicaria a possibilidade de autonomia do receptor diante do pólo produtor, possível pela confrontação entre os valores de uma sociedade e os significados produzidos pela mídia. Restringindo a importância do emissor e do receptor, uma outra via crítica privilegiou o próprio meio como portador da mensagem, das mudanças cognitivas, sociais e políticas, posição essa que privilegiava um certo determinismo da técnica.

Atualmente, essas posições analíticas e críticas tornam-se insuficientes diante da comunicação nas redes. Podemos encontrar na Internet multiplicidades de focos de produção e de atos de leitura, evidentemente proporcionadas por essa nova tecnologia, mas que não podem ser só por ela determinada. As potencialidades da rede, sem pólos e sem limites, abertas a apropriações múltiplas e indefinidas, não ficaram restritas a uma repetição de modelos de comunicação anteriores só que agora mais ágeis, velozes e abrangentes. O que assistimos é o uso criativo da rede que se irradia a cada instante e transforma o sentido de mídia como meio, transporte, transmissão e se torna o espaço social de um mundo global. Os meios não são mais transcendentes à sociedade, mas internos a ela, destituindo as hierarquias, os valores, as cadeias de transmissão e as fronteiras.

De fato, novos problemas aparecem quando o modelo linear emissor – receptor é rompido e irrompe um fenômeno social plural de produção do próprio meio, impulsionado pelo desejo de uma totalidade conectada. A rede destitui o modelo de autoridade dos agentes ordenadores da informação e adquire o status de propriedade pública onde tudo pode circular livremente. Essa circulação se dá através do consumo, dos relacionamentos, das afinidades que proporcionam um processo inovador. Uma rede comunicacional que passa a existir através da prática dos usuários que se tornam produtores tanto de informação e sentido, como dos próprios meios, das interfaces técnicas e das linguagens, o programa Linux, por exemplo.

Essa multiplicidade de usos na Internet associa-se a um projeto político da comunicação que implica a capacidade de produzir sentidos diante do excesso, pelo excesso e isto significa escolhas. É ao redor do problema da decisão que nasce o político: um trabalho de criação de usos, uma luta nas redes que exige para ser ganha um máximo de abertura para ultrapassar a informação-objeto, espetacular e inócua.

 

Pós-fordismo e sociedade do conhecimento.

 

A Economia Informacional, característica do nosso tempo, traz mudanças na qualidade do

trabalho, em que a informação e a comunicação têm um papel fundamental nos processos de

produção. Deste modo, não podemos isolar a questão comunicacional e das mídias do momento histórico vivido - a passagem do fordismo ao pós-fordismo - quando ocorre a transformação da lógica de reprodução para a lógica de inovação, de um regime de repetição para um regime de invenção. Vários autores denominam essas mudanças como Capitalismo Cognitivo, Sociedade do Conhecimento, Sociedade da Informação para caracterizar as mudanças e o modo como o capital é dotado de valor. O valor, no fordismo, tinha origem na produção de bens homogêneos e reprodutíveis e agora, no pós-fordismo, ele tem origem na mudança e na inovação que se transformam no principal fator de valorização.

Essa mudança altera a atividade do trabalho que passa a se apoiar nos conhecimentos, nos saberes comuns e na capacidade expressiva e cooperativa, diferentemente do momento anterior, que retirava as habilidades e a cultura comum dos indivíduos para submetê-los à divisão do trabalho na forma autômata. No pós-fordismo, cabe às pessoas se apropriarem de uma cultura comum porque agora o valor se dá na inovação e na interatividade que alimentam a atividade de cada um de nós e, com isto, a fronteira entre o que faz parte ou não do trabalho se apaga. Na economia do conhecimento, o valor de troca das mercadorias não é mais determinado pela quantidade de trabalho social geral que elas contêm, mas pelo seu conteúdo de conhecimento, informação e inteligência coletiva. Como o conhecimento é impossível de ser traduzido e medido em unidades abstratas simples, pela impossibilidade de se dispor de uma medida comum que conduziria à atrofia das capacidades criativas, a noção de valor adquire um outro sentido e deixa de designar uma relação de equivalência expressa em unidades pela quais as mercadorias são trocadas. Quando o tempo socialmente necessário a uma produção torna-se incerto, essa incerteza não tem como se traduzir sobre o valor de troca do que é produzido qualitativamente.

Os saberes são parte integrante do patrimônio cultural renovável a partir do qual são construídas as competências. O novo capital fixo é o conjunto de relações sociais e de vida, modalidades de produção e de aquisição de informações que se sedimentam na força de trabalho, que são em seguida ativadas ao longo do processo de produção. Só será possível estabelecer o valor de troca do conhecimento quando ele estiver associado à capacidade prática de cercear a difusão livre, quer dizer, o valor tem origem nas limitações estabelecidas ao seu acesso. A raridade do conhecimento, isto que lhe dá valor, é então de natureza artificial. O valor é fruto da capacidade de um poder que limita temporariamente a difusão da informação, dos saberes e do conhecimento, portanto, combater a desigualdade no campo do conhecimento passa pela circulação sem entraves e pela livre distribuição da informação,
um problema de decisão e de escolha, e como já dissemos, imediatamente político. Como enfrentar os novos “enclousures” da informação e do conhecimento? A resistência às barreiras e aos cercamentos se dá pela difusão de comportamentos singulares e não por meio de atitudes alternativas, que ainda pretenderiam se contrapor à alguma coisa. É justamente essa “alguma coisa” que não é mais identificável neste mundo global e o que temos é um quadro complexo de variáveis interconectadas que se multiplicam. Deste modo, agora a política se faz de maneira extensiva, isto é, pela circulação, mobilidade, fuga, êxodo, deserção, conforme avaliação de Toni Negri.[8].

Esse quadro nos conduz para além da discussão até então realizada sobre a democracia da comunicação e sua gestão. Novos problemas, pois se trata agora de uma política de mediação generalizada, que não se reduz a um simples ato de zapping e sim a um ato gerador de encontros nas redes, e graças às novas tecnologias de comunicação e informação, os conhecimentos podem circular independentemente do capital e do trabalho. A Internet não é somente mais um operador social porque os atos de dispersão e distribuição fazem emergir uma consciência reticular como forma de socialização: a propagação e a difusão fazem parte da linha da inovação.

Como propor uma política da comunicação num quadro tão complexo e sujeito à dispersão? Talvez fosse necessário revermos o que já consideramos como ação política e como ela hoje se presentifica. Na modernidade, a resistência foi uma acumulação de forças contra a exploração que se subjetivava através da tomada da consciência. Na pós-modernidade, resistir é difundir comportamentos singulares, quer dizer, não é uma ação nem pontual nem uniforme, mas aquela que pode percorrer todo o espaço social sem fronteiras e fazer dele um bem comum. O agir político, como práxis sobre as relações sociais, seria desenvolver o caráter público desse intelecto coletivo, através da socialização do trabalho, concebido no pós-fordismo como abundância das trocas e das doações (copyleft) e não pela escassez do conhecimento (copyright).

A autonomia da mediação se exprime no exercício direto de uma função social que exige saberes especializados. Como qualquer outra nova mídia, a Internet elimina ou redistribui a função dos intermediários tradicionais. Cada um de nós exerce as funções de produtor e consumidor de informação o que dá a todos o mesmo poder comunicacional, em que a estrutura de mediação das redes permite aos atores de um acontecimento serem os produtores e os difusores da informação.

 

Trabalho e informação.

 

Mas qual o sentido que o trabalho adquire hoje e qual a sua relação com a comunicação e as redes? Como dotar de valor a informação quando somos nós que ao mesmo tempo as produzimos e as consumimos? Qual a relação entre o trabalhador que empregava sua força corporal e este que hoje empenha a sua vida? Para Marx, o homem é um ser livre, emancipado, sujeito e, por isso, o trabalho adquire uma dimensão ontológica. O trabalho concreto é uma atividade com um conjunto de qualidades capaz de gerar um objeto de uso característico. Já o que Marx denomina de trabalho abstrato é puro dispêndio de força humana de trabalho e é a substância do valor. A mercadoria é um produto do trabalho que se torna social por meio da troca e seu fetichismo consiste em confundir a forma da relação social com aquilo que lhe dá suporte, tomando naturalmente esta última por aquela. O que constitui um fetiche é a aparente autonomia das coisas e dos eventos inseridos em um processo em que as relações sociais assumem uma forma naturalizada.

No momento fordista, as necessidades de consumo foram funcionalizadas pela acumulação de capital. Os trabalhadores vendem sua força de trabalho para os representantes do capital por não deterem a propriedade dos meios de produção. Deste modo, para Marx, trabalho é atividade orientada para a realização de um fim particular, já capital é o trabalho morto que suga o trabalho vivo, valor que se valoriza, e que tem a si mesmo como um fim geral, único e absoluto. A mais-valia nasce do a mais de trabalho, quer dizer, a diferença entre trabalho necessário e o conjunto da jornada de trabalho. O trabalho de produção é mensurável em unidades de produção por unidade de tempo. O trabalhador se torna operacional depois de ter sido desvencilhado de seus saberes, habilidades, hábitos e é submetido a uma divisão do trabalho regular comandada pelo tempo homogêneo da máquina. Uma divisão do trabalho em tarefas especializadas e hierarquizadas, que separa os trabalhadores e seu trabalho coisificado e este de seu produto, por isso, Marx faz a distinção entre tempo de trabalho e tempo de produção.

No sentido econômico, o valor designa sempre o valor de troca de uma mercadoria que é uma relação de equivalência. O capitalismo industrial está fundado sobre a acumulação do capital físico e sobre a função motora da grande fábrica de produção em massa de bens estandardizados. O valor é então um quantum de tempo de trabalho abstrato; a forma de valor ou valor de troca estabelece uma relação de medida entre valores de uso distintos. Assim toda riqueza e toda mercadoria têm de ser medidas pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua produção.

Hoje a riqueza social é produzida pela ciência, pela tecnologia e pelo divertimento e não mais pelo trabalho físico efetuado pelos indivíduos. Informação, saberes, conhecimentos em geral e a cooperação são os pilares da produção. O trabalho se apresenta como comunicação, abstração, distribuição. No contexto atual do capitalismo, a nova indústria ou empresa não se enxerga como compradora de trabalho ou de tempo de trabalho, mas se vê como compradora do serviço da força de trabalho que passa a ser portadora de qualificações úteis e aparece para a empresa como capital fixo, capital humano. Em resumo, uma empresa ou uma indústria têm hoje os trabalhadores que são proprietários de capital humano e os que são proprietários dos capitais (ferramentas, máquinas, etc) e dos capitais imateriais da empresa (fórmulas dos produtos, tecnologias de processo, patentes, etc.).

A geração de valor deixa de depender inteiramente do tempo de trabalho, passando a se sujeitar também ao emprego de recursos sociais de produção que o ato de trabalhar mobiliza durante o tempo de trabalho. Se o tempo do trabalho perde relevância na geração de riqueza, o que muda? O melhoramento da qualidade do tempo de trabalho, quer dizer, o que é socialmente necessário enquanto trabalho contém, também, elementos qualitativos.

Agora, o valor transforma-se em medida desmedida, sem padrão de equivalência e ao mesmo tempo se torna cooperativo porque exige sempre muitas interações; é complexo porque requer muitas qualificações; intelectual porque depende da capacidade de raciocínio do cérebro humano. Na indústria fordista, o trabalho perdia a sua matriz subjetiva e era transformado em sua natureza para se conformar às necessidades objetivas do processo de valorização do capital. Na pós, o capital passa a controlar o trabalhador também durante o tempo de não-trabalho, quer dizer, ele passa a controlar o trabalhador não apenas como trabalhador e consumidor, mas também em todos os aspectos de sua vida. “Somos consumidores consumíveis pelo que consumimos”. Então, não é válida a idéia de que as novas tecnologias vieram para resolver os problemas da desigualdade? Elas vieram para marcar mais uma desigualdade? Podemos responder como Bernardo Sorj: “Consumo não é questão de escolha ou distinção social. É condição de integração social”.[9]

Transformar a Internet em bem coletivo é importante quando a relação econômica se define mais do que pela aquisição de um produto, pelo acesso a um serviço. O acesso a um bem é mais importante que sua aquisição ou posse. Quando se produzem conhecimento por conhecimento, a cooperação não pode ser reduzida à divisão do trabalho e não pode também ser instrumento de luta contra a incerteza. O tempo do consumo (informação) é tempo de aquisição e de produção de novos conhecimentos no âmbito das redes. O consumo de conhecimento não implica o esgotamento de sua unidade ou sua degradação e só tem valor se for trocado, ou seja, quando se difunde e pela troca se socializa. O custo de reprodução de um conhecimento é muito baixo e consumir não se reduz a comprar e a destruir um serviço ou produto, mas sim pertencer a um mundo.

A inteligência coletiva é uma força produtiva social inerentemente desterritorializada que pode estar, em princípio, em todos os lugares, ao mesmo tempo. Um sistema de produção no qual se encontram objetivados os conhecimentos científicos e tecnológicos extremamente avançados e que passa a exigir um envolvimento intelectual com seu adequado funcionamento. Trabalho em trânsito é a idéia de trabalho colaborativo e descentralizado.

No trabalho em rede a principal atividade é tornar disponível algum dado necessário. Como acentua Marcos Dantas, o trabalho passa a ser quase que um procedimento de pesquisa que precisa buscar, coletar, reunir dados diversos, além de ser um exercício de processamento, pois não basta a informação, mas é preciso contextualizar, conectar e relacionar para obter um dado novo. O que distinguirá os indivíduos entre si serão suas competências e capacidades para buscar e processar quantidades maiores ou menores de dados, logo o maior ou menor grau de complexidade, ou de redundância, de cada atividade.

No trabalho com informação, o valor de uso não está contido nos suportes materiais, mas está na ação que ela proporciona ao agente receptor. Seu valor de uso será tanto maior quanto mais acessível estiver o dado, quanto mais rapidamente ele possa ser recuperado. Este resultado tem que ser comunicado – compartilhado – para que seu valor se realize. Ao alcançar o seu efeito útil, seu valor degrada-se quase instantaneamente. “Informação não se estoca, o que se pode guardar ou estocar são os suportes materiais contendo dados, nas formas de sinais registrados ou gravados, que serão informação se e quando postos numa relação comunicativa. Uma biblioteca não contém informação, contém livros”.[10]

 

Quem tem as informações criará cercas, portais, senhas de acesso e facilitará ao usuário o valor do tempo que lhe está sendo poupado. Por outro lado, fará também o máximo para que o usuário tenha acesso a ele como fornecedor, eliminando, neste caso, os custos de tempo. Como diz o mesmo autor, a poupança de tempo se transforma em fetiche, pois ganha um valor e logo terá um preço socialmente aceito, em função de uma escassez de informação artificialmente produzida.

Sabemos que o conhecimento, os saberes e a informação são vitais no capitalismo construindo competências. Podemos verificar que o novo capital fixo, o conhecimento, quando está associado à capacidade prática de cercear a difusão livre, que é primeiramente parte integrante do patrimônio cultural renovável, adquire valor monetário. O valor, na Sociedade da Informação, é resultado dos controles estabelecidos ao acesso do conhecimento, fruto de um poder que limita, temporariamente ou espacialmente, a difusão da informação e passa a se sedimentar na força de trabalho, ativada ao longo do processo de produção. Só assim é possível estabelecer o valor de mercadoria, dos saberes e do conhecimento

Mas o valor na Internet não se dá somente pelo limite. Para Gensollen[11], a web permite menos responder questões do que deixar descobrir a questão precisa que se queira colocar. Duplo processo de aprendizagem em que o internauta aprende o que existe na web e a rede conhece quem são e o que querem os internautas. A formação de valor na Internet está em constituir comunidades ativas. Assim, o valor na internet não é criado nos sites mercantis, mas encontra sua origem nos sites gratuitos onde as pessoas podem participar, trocar, se estruturar em comunidades mais ou menos efêmeras. A Internet desenvolve os meios, técnicos e sociais, de uma criação de valor ulterior.

 

 

Conclusão.

 

Os processos comunicacionais são importantes para combater a desigualdade no campo do conhecimento e eles se fazem através do uso das redes que promovem a circulação e a livre distribuição da informação. A autodeterminação de seu próprio percurso de navegação é sempre possível, apesar da concentração de acesso aos portais. A presença na rede de lugares outros, que saibam oferecer linhas de fuga é necessário, assim como abrir ao máximo as comunidades virtuais para se reapropriar o espaço público como espaço global. Para atuar nesta nova comunidade global – nem local e nem só virtual - são também importantes experiências de comunicação, de interatividade, de relações sociais que ultrapassem a informação sob controle, informação coisificada, informação espetáculo e permitam criar uma sociedade global em rede.

Podemos concluir que os sites até então pesquisados são instigadores desta práxis ao exercitarem estratégias de resistência na própria estrutura da rede, subvertendo os protocolos habituais e os fluxos de informação. Eles também demonstram a capacidade de gerar, através de sua teia de links, uma rede de comunicação onde se formam os valores cooperativos, políticos e econômicos e, deste modo, constituem uma tecnologia que não é mais só gerenciadora de informações, mas meio de relacionamento. Sem abandonar o papel ativo de gestão, eles se alimentam sempre com novas descobertas para sustentar sempre o desequilíbrio como fonte de inovação porque inteligência geral é a cultura comum, saber vivo e vivido. Um espaço de exercício da cidadania global que absorve o hardware, o software, a vida e o trabalho.

 

 

Referências

 

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BERARDI, F.  Notas sobre o conceito de cibernáutica.  In.: Lugar comum. nº 1, março, 1997. RJ: NEPCOM/UFRJ

____________  O futuro da tecnosfera de rede. In.: Moraes, D. (org.)  Por uma outra comunicação.  RJ: Record, 2003. p.289-313

CASTELLS, M.  O poder da identidade.  SP: Paz e Terra, 2001

_____________“Internet e sociedade em rede”.In.: MORAES, D. (org.). Por uma outra comunicação. RJ: Record, 2003  p. 255-287

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GENSOLLEN,M.  La création de valeur sur internet.  Réseaux. n. 91 Paris: Hermes Science, 1999.

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SORJ, B.  Brasil@povo.com.  RJ: Zahar, 2003

VIRNO, P.  Grammaire de la multitude.  Montréal, Québec: Editions de l’éclat, 2002.

 

 

 

 

 



[1] Professora adjunta da Faculdade de Comunicação (FACOM, da UFJF.  Doutora em Comunicação pela Escola de Comunicação (ECO), UFRJ.  Pesquisadora na área de novas tecnologias, cultura e sociedade.  Líder do Grupo de Pesquisa “Comunicação e Artes” e participante do Grupo de Pesquisa “Memória Social, Criação e Política”. Membro da Comissão de Pós-Graduação da FACOM/UFJF.  E-mail: martapinheiro@uol.com.br

[2] Esta pesquisa tem a participação dos alunos Daniel Martins de Lima Silva, PIbIc/CNPq/UFJF  e Flávia Silva Souza/BIC/UFJF e está construindo o site “Redes em Rede”:  redesemrede.ufjf.br.

[3] Cf.: ANDERSON ( 1991)

[4] Cf.: CASTELLS (2001) (2003) (2003 a)

[5] Copyleft: reprodução de textos desde que citada e linkada a fonte.

[6] BERARDI. (2003) p305

[7] Os principais sites explorados pela nossa pesquisa foram: www.sherwood.it, infos.samizdat.net,  projetometafora.midiatatica.org e rizoma.net

 

[8] Cf.: NEGRI (2001)

[9] SORJ (2003)

[10] DANTAS (2002) p. 142-143

[11] GENSOLLEN (1999)

 



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