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Comunicação,
trabalho e valor na sociedade da informação
Marta
de Araújo Pinheiro
FACOM
– Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF
Este
trabalho pretende apontar espaços da Internet como propiciadores
da socialização das informações, saberes e conhecimento. Redes
de afinidades e de cooperação que propõem, através da
distribuição e do copyleft, novas práticas de trabalho. A relação
informação e valor na sociedade da informação e as resistências
de uma cidadania globalizada.
Palavras-chave:
comunicação; redes; trabalho; valor.
As
questões elaboradas neste artigo são resultantes das investigações
teóricas e práticas realizadas durante a pesquisa “Comunicação
em redes e produção imaterial”, ainda em curso,
que pretende avaliar e compreender as potencialidades, os efeitos
socioculturais e políticos oferecidos pelas redes de comunicação
que se organizam na Internet. Entrever os novos horizontes para
pensar a dinâmica das tecnologias e sua eficácia nas mutações
sociais em curso. Será a web um ambiente proporcionador de novos
encontros ao criar interfaces flexíveis, onde poderíamos
concretizar a cidadania globalizada em territórios virtuais eletrônicos?
Podemos perceber diferenças de ocupação da rede:
existem sites, portais e zonas reservadas em que as hierarquias sócio-econômicas
aparecem em espaços de serviços e produtos comerciais; sites
governamentais; existem aqueles que mantêm regiões
compartilhadas como chats, blogs, fotologs,
ativistas e ainda os que têm como finalidade constituírem redes
dentro da Rede através da construção de uma teia de links.
Consideramos duas direções nestas diferenças: uma é apenas
estar conectado, (redes centralizadas e hierarquizadas), e a outra
é como se está conectado (descentralização e horizontalidade).
O ponto inicial de nossas pesquisas está na emergência
da segunda direção onde ambientes e linguagens independentes e
criativas são construídas em rede e que têm como objetivos a
divulgação e a circulação de informação e de conhecimento,
elementos vitais para a formação de uma intelectualidade
democratizada, questão essencial na transformação do trabalho
no modelo econômico atual denominado pós-fordismo.
Escolhemos
a direção “como se está conectado” ao constatar a grande
mudança que o uso das redes como uma produção "faça-você-mesmo"
provoca, especialmente, pela apropriação singular das
potencialidades deste meio, que se concretiza em trabalhos
cooperativos de produção e de distribuição, através de conexões
temporárias e vínculos transversais, não mais hierárquicos.
Estas características expressam a produção informacional e
comunicacional posta em circulação na Internet por meio de
afinidades e interesses comuns. Estes agenciamentos, ao constituírem
redes dentro da Rede Internet, revelam a tentativa de criação de
uma relação de comunicação midiática radical em um mundo de
fronteiras alargadas, onde o sentimento de pertencimento local ou
cultural se dilui. Uma proposta de comunidade global baseada em práticas
produtivas cooperativas. Como diz Benedict Anderson,
as comunidades podem ser distinguidas pelo estilo no qual são
imaginadas, pois proporciona um sentido de pertença àqueles que
se julgam compartilhar um determinado lugar simbólico.
Este lugar simbólico pode ser um espaço geograficamente
unido ou sedimentado por meio de sentimentos simbólicos. Se a
cultura impressa foi importante na construção do nacionalismo
que pôde interconectar as pessoas além do espaço e tempo
locais, será que também não podemos pensar a web como
construção simbólica do novo espaço da comunidade agora
global? Se a globalização das atividades econômicas e a
reestruturação do capitalismo sob o impacto da informatização
gerou, por um lado, a flexibilidade e instabilidade de empregos,
assim como a imposição de padrões únicos ao difundir uma mesma
forma de produção, baseada nas novas tecnologias, ela propicia,
por outro lado, como diz Castells,
resistências, sendo que podem ser resistências à mudança
(fundamentalismos) e resistências em projetos futuros (movimentos
ecológicos, ativismos contra as grandes corporações, etc), isto
porque a construção de comunidades e identidades se desenvolvem
em contextos marcados por relações de poder e, para Castells,
estes contextos dinâmicos devem ser compreendidos, pois não
existem bons ou maus movimentos.
É
a partir do final da década de 90, com a expansão do uso da
Internet, que uma nova forma de comunicação surge amparada pelas
idéias de nomadismo e resistência, constituindo uma outra
maneira de pensar a função e os sentidos públicos da comunicação.
Sites como tv.oneworl.net, indymedia.org, babels.org,
cirandanet, globalproject, samizdat.net,
gutemberg.net são exemplos de uma nova mídia que tem como
condição os recursos dos meios digitais e o espaço das redes.
Entretanto, diferentemente dos jornais e revistas on-line,
essas experiências exploram estes novos recursos e criam condições
para o exercício independente da comunicação em tempos
globalizados. Liberdade de acesso, utilização de multimeios,
resistência aos moldes e aos modelos concentradores da mídia,
insistência na distribuição e circulação dos acontecimentos,
das informações e dos saberes, adoção do regime de copyleft,
seleção e disponibilização de links que agrupam
afinidades e interesses em comum: uma multiplicação que, no
entanto, evita o caos e o excesso aparente da internet.
O que é o caos? É um mundo no qual os fluxos de
informação que chegam ao nosso cérebro são velozes demais e
por demais complexos para que possam ser ordenados e, portanto,
para que possam ser controlados, governados e previstos.
Possibilidade de sobrevivência é a amizade, em saber que os
fluxos que nos circulam não são perigosos e que o interesse
comum entre os seres humanos prevalece sobre seus interesses em
conflito. Somente a amizade pode regular o intercâmbio na
sociedade contemporânea.
Sejam
essas redes constituídas por movimentos sociais sem espaço na
grande mídia, ou locais de agenciamento de ações futuras, elas
exercem uma política estratégica socializando informações,
pesquisas, idéias, artigos, livros e formam uma cartografia no
espaço ilimitado da Rede. A finalidade é se apropriar dos
caminhos e cruzamentos, reunir esforços para a socialização dos
saberes, visando uma nova sensibilidade que transforme a ação e
o sentido públicos agora associados à circulação, à conexão
e ao que é comum.
O hipertexto - suportes de imagem, som e texto -
conecta o mundo e, dada a sua complexidade de códigos, torna-se
difícil ser capturado, institucionalizado, bloqueado, apesar das
tentativas incessantes de controle. Um espaço em comum e aberto
atualiza-se em todos os instantes em algum ponto da rede. Como
esse excesso não se torna ruído e resiste? E ele resiste ao quê?
Definimos como objeto de pesquisa sites que
atendem e exploram essa pergunta. Eles podem ser tanto ativistas
como propostas de mídias independentes, porém nos detemos
naqueles que, para resistir à expropriação dos saberes,
pretendem também ser distribuidores e conectadores de informação
e de conhecimentos. Este sites, que podemos chamar mídia
tática, têm como proposta uma ação mais revolucionária,
no sentido de buscar a ruptura com o atual paradigma econômico e
social, não de forma utópica e sim por uma ação e uma ética
bem concretas, embora efetuadas em um espaço virtual. Não se
trata simplesmente da exaltação de uma comunidade virtual que
entrelaça pessoas com gostos, hobbies e interesses em
comum diante da desterritorialização resultante dos tempos
globais, como uma substituição das comunidades formadas por laços
territoriais, étnicos, raciais e culturais. A proposta é mais
política e estratégica: são sites que
propõem fazer da web territórios de informação
contextualizados, organizados em superfície e rizomaticamente
conectados por links para promover uma intelectualidade
acessível a todos.
Em que medida, o campo da comunicação pode diagnosticar e
intervir nestes processos de socialização que ocorrem hoje na
Internet que têm como ponto em comum a distribuição de links
sob o modelo de contribuição e doação?
A
comunicação e as redes.
Quando hoje se discute os meios de comunicação e
sua mediação com o campo social, político e cultural,
percebe-se a impossibilidade de encontrar uma exterioridade onde
possam ser construídas as ferramentas conceituais para um
pensamento crítico. Diante das mídias tradicionais, o pensamento
teórico da comunicação podia se concentrar nos pólos da emissão
e da produção, denunciando o lugar passivo do receptor submetido
ao controle e às ideologias. Ultrapassar essa impotência do
receptor no processo da comunicação requeria uma política de
conquista dos meios e a sua transposição para o coletivo. Outra
perspectiva teórica buscou nos atos da recepção uma leitura
produtiva e significativa, que indicaria a possibilidade de
autonomia do receptor diante do pólo produtor, possível pela
confrontação entre os valores de uma sociedade e os significados
produzidos pela mídia. Restringindo a importância do emissor e
do receptor, uma outra via crítica privilegiou o próprio meio
como portador da mensagem, das mudanças cognitivas, sociais e políticas,
posição essa que privilegiava um certo determinismo da técnica.
Atualmente, essas posições analíticas e críticas
tornam-se insuficientes diante da comunicação nas redes. Podemos
encontrar na Internet multiplicidades de focos de produção e de
atos de leitura, evidentemente proporcionadas por essa nova
tecnologia, mas que não podem ser só por ela determinada. As
potencialidades da rede, sem pólos e sem limites, abertas a
apropriações múltiplas e indefinidas, não ficaram restritas a
uma repetição de modelos de comunicação anteriores só que
agora mais ágeis, velozes e abrangentes. O que assistimos é o
uso criativo da rede que se irradia a cada instante e transforma o
sentido de mídia como meio, transporte, transmissão e se torna o
espaço social de um mundo global. Os meios não são mais
transcendentes à sociedade, mas internos a ela, destituindo as
hierarquias, os valores, as cadeias de transmissão e as
fronteiras.
De fato, novos problemas aparecem quando o modelo
linear emissor – receptor é rompido e irrompe um fenômeno
social plural de produção do próprio meio, impulsionado pelo
desejo de uma totalidade conectada. A rede destitui o modelo de
autoridade dos agentes ordenadores da informação e adquire o
status de propriedade pública onde tudo pode circular livremente.
Essa circulação se dá através do consumo, dos relacionamentos,
das afinidades que proporcionam um processo inovador. Uma rede
comunicacional que passa a existir através da prática dos usuários
que se tornam produtores tanto de informação e sentido, como dos
próprios meios, das interfaces técnicas e das linguagens, o
programa Linux, por exemplo.
Essa
multiplicidade de usos na Internet associa-se a um projeto político
da comunicação que implica a capacidade de produzir sentidos
diante do excesso, pelo excesso e isto significa escolhas. É ao
redor do problema da decisão que nasce o político: um trabalho
de criação de usos, uma luta nas redes que exige para ser ganha
um máximo de abertura para ultrapassar a informação-objeto,
espetacular e inócua.
Pós-fordismo
e sociedade do conhecimento.
A Economia Informacional, característica do nosso
tempo, traz mudanças na qualidade do
trabalho, em que a informação e a comunicação têm
um papel fundamental nos processos de
produção. Deste modo, não podemos isolar a questão
comunicacional e das mídias do momento histórico vivido - a
passagem do fordismo ao pós-fordismo - quando ocorre a transformação
da lógica de reprodução para a lógica de inovação, de um
regime de repetição para um regime de invenção. Vários
autores denominam essas mudanças como Capitalismo Cognitivo,
Sociedade do Conhecimento, Sociedade da Informação para
caracterizar as mudanças e o modo como o capital é dotado de
valor. O valor, no fordismo, tinha origem na produção de bens
homogêneos e reprodutíveis e agora, no pós-fordismo, ele tem
origem na mudança e na inovação que se transformam no principal
fator de valorização.
Essa mudança altera a atividade do trabalho que
passa a se apoiar nos conhecimentos, nos saberes comuns e na
capacidade expressiva e cooperativa, diferentemente do momento
anterior, que retirava as habilidades e a cultura comum dos indivíduos
para submetê-los à divisão do trabalho na forma autômata. No pós-fordismo,
cabe às pessoas se apropriarem de uma cultura comum porque agora
o valor se dá na inovação e na interatividade que alimentam a
atividade de cada um de nós e, com isto, a fronteira entre o que
faz parte ou não do trabalho se apaga. Na economia do
conhecimento, o valor de troca das mercadorias não é mais
determinado pela quantidade de trabalho social geral que elas contêm,
mas pelo seu conteúdo de conhecimento, informação e inteligência
coletiva. Como o conhecimento é impossível de ser traduzido e
medido em unidades abstratas simples, pela impossibilidade de se
dispor de uma medida comum que conduziria à atrofia das
capacidades criativas, a noção de valor adquire um outro sentido
e deixa de designar uma relação de equivalência expressa em
unidades pela quais as mercadorias são trocadas. Quando o tempo
socialmente necessário a uma produção torna-se incerto, essa
incerteza não tem como se traduzir sobre o valor de troca do que
é produzido qualitativamente.
Os
saberes são parte integrante do patrimônio cultural renovável a
partir do qual são construídas as competências. O novo capital
fixo é o conjunto de relações sociais e de vida, modalidades de
produção e de aquisição de informações que se sedimentam na
força de trabalho, que são em seguida ativadas ao longo do
processo de produção. Só será possível estabelecer o valor de
troca do conhecimento quando ele estiver associado à capacidade
prática de cercear a difusão livre, quer dizer, o valor tem
origem nas limitações estabelecidas ao seu acesso. A raridade do
conhecimento, isto que lhe dá valor, é então de natureza
artificial. O valor é fruto da capacidade de um poder que limita
temporariamente a difusão da informação, dos saberes e do
conhecimento, portanto, combater a desigualdade no campo do
conhecimento passa pela circulação sem entraves e pela livre
distribuição da informação,
um problema de decisão e de escolha, e como já dissemos,
imediatamente político. Como enfrentar os novos “enclousures”
da informação e do conhecimento? A resistência às barreiras e
aos cercamentos se dá pela difusão de comportamentos singulares
e não por meio de atitudes alternativas, que ainda pretenderiam
se contrapor à alguma coisa. É justamente essa “alguma
coisa” que não é mais identificável neste mundo global e o
que temos é um quadro complexo de variáveis interconectadas que
se multiplicam. Deste modo, agora a política se faz de maneira
extensiva, isto é, pela circulação, mobilidade, fuga, êxodo,
deserção, conforme avaliação de Toni Negri..
Esse quadro nos conduz para além da discussão até
então realizada sobre a democracia da comunicação e sua gestão.
Novos problemas, pois se trata agora de uma política de mediação
generalizada, que não se reduz a um simples ato de zapping
e sim a um ato gerador de encontros nas redes, e graças às novas
tecnologias de comunicação e informação, os conhecimentos
podem circular independentemente do capital e do trabalho. A
Internet não é somente mais um operador social porque os atos de
dispersão e distribuição fazem emergir uma consciência
reticular como forma de socialização: a propagação e a difusão
fazem parte da linha da inovação.
Como propor uma política da comunicação num
quadro tão complexo e sujeito à dispersão? Talvez fosse necessário
revermos o que já consideramos como ação política e como ela
hoje se presentifica. Na modernidade, a resistência foi uma
acumulação de forças contra a exploração que se subjetivava
através da tomada da consciência. Na pós-modernidade, resistir
é difundir comportamentos singulares, quer dizer, não é uma ação
nem pontual nem uniforme, mas aquela que pode percorrer todo o
espaço social sem fronteiras e fazer dele um bem comum. O agir
político, como práxis sobre as relações sociais, seria
desenvolver o caráter público desse intelecto coletivo, através
da socialização do trabalho, concebido no pós-fordismo como
abundância das trocas e das doações (copyleft) e não
pela escassez do conhecimento (copyright).
A autonomia da mediação se exprime no exercício
direto de uma função social que exige saberes especializados.
Como qualquer outra nova mídia, a Internet elimina ou redistribui
a função dos intermediários tradicionais. Cada um de nós
exerce as funções de produtor e consumidor de informação o que
dá a todos o mesmo poder comunicacional, em que a estrutura de
mediação das redes permite aos atores de um acontecimento serem
os produtores e os difusores da informação.
Trabalho
e informação.
Mas qual o sentido que o trabalho adquire hoje e
qual a sua relação com a comunicação e as redes? Como dotar de
valor a informação quando somos nós que ao mesmo tempo as
produzimos e as consumimos? Qual a relação entre o trabalhador
que empregava sua força corporal e este que hoje empenha a sua
vida? Para Marx, o homem é um ser livre, emancipado, sujeito e,
por isso, o trabalho adquire uma dimensão ontológica. O trabalho
concreto é uma atividade com um conjunto de qualidades capaz de
gerar um objeto de uso característico. Já o que Marx denomina de
trabalho abstrato é puro dispêndio de força humana de trabalho
e é a substância do valor. A mercadoria é um produto do
trabalho que se torna social por meio da troca e seu fetichismo
consiste em confundir a forma da relação social com aquilo que
lhe dá suporte, tomando naturalmente esta última por aquela. O
que constitui um fetiche é a aparente autonomia das coisas e dos
eventos inseridos em um processo em que as relações sociais
assumem uma forma naturalizada.
No momento fordista, as necessidades de consumo
foram funcionalizadas pela acumulação de capital. Os
trabalhadores vendem sua força de trabalho para os representantes
do capital por não deterem a propriedade dos meios de produção.
Deste modo, para Marx, trabalho é atividade orientada para a
realização de um fim particular, já capital é o trabalho morto
que suga o trabalho vivo, valor que se valoriza, e que tem a si
mesmo como um fim geral, único e absoluto. A mais-valia nasce do a
mais de trabalho, quer dizer, a diferença entre trabalho
necessário e o conjunto da jornada de trabalho. O trabalho de
produção é mensurável em unidades de produção por unidade de
tempo. O trabalhador se torna operacional depois de ter sido
desvencilhado de seus saberes, habilidades, hábitos e é
submetido a uma divisão do trabalho regular comandada pelo tempo
homogêneo da máquina. Uma divisão do trabalho em tarefas
especializadas e hierarquizadas, que separa os trabalhadores e seu
trabalho coisificado e este de seu produto, por isso, Marx faz a
distinção entre tempo de trabalho e tempo de produção.
No sentido econômico, o valor designa sempre o
valor de troca de uma mercadoria que é uma relação de equivalência.
O capitalismo industrial está fundado sobre a acumulação do
capital físico e sobre a função motora da grande fábrica de
produção em massa de bens estandardizados. O valor é então um
quantum de tempo de trabalho abstrato; a forma de valor ou valor
de troca estabelece uma relação de medida entre valores de uso
distintos. Assim toda riqueza e toda mercadoria têm de ser
medidas pelo tempo de trabalho socialmente necessário à sua
produção.
Hoje a riqueza social é produzida pela ciência,
pela tecnologia e pelo divertimento e não mais pelo trabalho físico
efetuado pelos indivíduos. Informação, saberes, conhecimentos
em geral e a cooperação são os pilares da produção. O
trabalho se apresenta como comunicação, abstração, distribuição.
No contexto atual do capitalismo, a nova indústria ou empresa não
se enxerga como compradora de trabalho ou de tempo de trabalho,
mas se vê como compradora do serviço da força de trabalho que
passa a ser portadora de qualificações úteis e aparece para a
empresa como capital fixo, capital humano. Em resumo, uma empresa
ou uma indústria têm hoje os trabalhadores que são proprietários
de capital humano e os que são proprietários dos capitais
(ferramentas, máquinas, etc) e dos capitais imateriais da empresa
(fórmulas dos produtos, tecnologias de processo, patentes, etc.).
A geração de valor deixa de depender inteiramente
do tempo de trabalho, passando a se sujeitar também ao emprego de
recursos sociais de produção que o ato de trabalhar mobiliza
durante o tempo de trabalho. Se o tempo do trabalho perde relevância
na geração de riqueza, o que muda? O melhoramento da qualidade
do tempo de trabalho, quer dizer, o que é socialmente necessário
enquanto trabalho contém, também, elementos qualitativos.
Agora,
o valor transforma-se em medida desmedida, sem padrão de equivalência
e ao mesmo tempo se torna cooperativo porque exige sempre muitas
interações; é complexo porque requer muitas qualificações;
intelectual porque depende da capacidade de raciocínio do cérebro
humano. Na indústria fordista, o trabalho perdia a sua matriz
subjetiva e era transformado em sua natureza para se conformar às
necessidades objetivas do processo de valorização do capital. Na
pós, o capital passa a controlar o trabalhador também durante o
tempo de não-trabalho, quer dizer, ele passa a controlar o
trabalhador não apenas como trabalhador e consumidor, mas também
em todos os aspectos de sua vida. “Somos consumidores consumíveis
pelo que consumimos”. Então, não é válida a idéia de que as
novas tecnologias vieram para resolver os problemas da
desigualdade? Elas vieram para marcar mais uma desigualdade?
Podemos responder como Bernardo Sorj: “Consumo não é questão
de escolha ou distinção social. É condição de integração
social”.
Transformar
a Internet em bem coletivo é importante quando a relação econômica
se define mais do que pela aquisição de um produto, pelo acesso
a um serviço. O acesso a um bem é mais importante que sua aquisição
ou posse. Quando se produzem conhecimento por conhecimento, a
cooperação não pode ser reduzida à divisão do trabalho e não
pode também ser instrumento de luta contra a incerteza. O tempo
do consumo (informação) é tempo de aquisição e de produção
de novos conhecimentos no âmbito das redes. O consumo de
conhecimento não implica o esgotamento de sua unidade ou sua
degradação e só tem valor se for trocado, ou seja, quando se
difunde e pela troca se socializa. O custo de reprodução de um
conhecimento é muito baixo e consumir não se reduz a comprar e a
destruir um serviço ou produto, mas sim pertencer a um mundo.
A inteligência coletiva é uma força produtiva
social inerentemente desterritorializada que pode estar, em princípio,
em todos os lugares, ao mesmo tempo. Um sistema de produção no
qual se encontram objetivados os conhecimentos científicos e
tecnológicos extremamente avançados e que passa a exigir um
envolvimento intelectual com seu adequado funcionamento. Trabalho
em trânsito é a idéia de trabalho colaborativo e
descentralizado.
No trabalho em rede a principal atividade é tornar
disponível algum dado necessário. Como acentua Marcos Dantas, o
trabalho passa a ser quase que um procedimento de pesquisa que
precisa buscar, coletar, reunir dados diversos, além de ser um
exercício de processamento, pois não basta a informação, mas
é preciso contextualizar, conectar e relacionar para obter um
dado novo. O que distinguirá os indivíduos entre si serão suas
competências e capacidades para buscar e processar quantidades
maiores ou menores de dados, logo o maior ou menor grau de
complexidade, ou de redundância, de cada atividade.
No trabalho com informação, o valor de uso não
está contido nos suportes materiais, mas está na ação que ela
proporciona ao agente receptor. Seu valor de uso será tanto maior
quanto mais acessível estiver o dado, quanto mais rapidamente ele
possa ser recuperado. Este resultado tem que ser comunicado –
compartilhado – para que seu valor se realize. Ao alcançar o
seu efeito útil, seu valor degrada-se quase instantaneamente.
“Informação não se estoca, o que se pode guardar ou estocar são
os suportes materiais contendo dados, nas formas de sinais
registrados ou gravados, que serão informação se e quando
postos numa relação comunicativa. Uma biblioteca não contém
informação, contém livros”.
Quem tem as informações criará cercas, portais,
senhas de acesso e facilitará ao usuário o valor do tempo que
lhe está sendo poupado. Por outro lado, fará também o máximo
para que o usuário tenha acesso a ele como fornecedor,
eliminando, neste caso, os custos de tempo. Como diz o mesmo
autor, a poupança de tempo se transforma em fetiche, pois ganha
um valor e logo terá um preço socialmente aceito, em função de
uma escassez de informação artificialmente produzida.
Sabemos que o conhecimento, os saberes e a informação
são vitais no capitalismo construindo competências. Podemos
verificar que o novo capital fixo, o conhecimento, quando está
associado à capacidade prática de cercear a difusão livre, que
é primeiramente parte integrante do patrimônio cultural renovável,
adquire valor monetário. O valor, na Sociedade da Informação,
é resultado dos controles estabelecidos ao acesso do
conhecimento, fruto de um poder que limita, temporariamente ou
espacialmente, a difusão da informação e passa a se sedimentar
na força de trabalho, ativada ao longo do processo de produção.
Só assim é possível estabelecer o valor de mercadoria, dos
saberes e do conhecimento
Mas o valor na Internet não se dá somente pelo
limite. Para Gensollen,
a web permite menos responder questões do que deixar descobrir a
questão precisa que se queira colocar. Duplo processo de
aprendizagem em que o internauta aprende o que existe na web
e a rede conhece quem são e o que querem os internautas. A formação
de valor na Internet está em constituir comunidades ativas.
Assim, o valor na internet não é criado nos sites
mercantis, mas encontra sua origem nos sites gratuitos onde
as pessoas podem participar, trocar, se estruturar em comunidades
mais ou menos efêmeras. A Internet desenvolve os meios, técnicos
e sociais, de uma criação de valor ulterior.
Conclusão.
Os processos comunicacionais são importantes para
combater a desigualdade no campo do conhecimento e eles se fazem
através do uso das redes que promovem a circulação e a livre
distribuição da informação. A autodeterminação de seu próprio
percurso de navegação é sempre possível, apesar da concentração
de acesso aos portais. A presença na rede de lugares outros, que
saibam oferecer linhas de fuga é necessário, assim como abrir ao
máximo as comunidades virtuais para se reapropriar o espaço público
como espaço global. Para atuar nesta nova comunidade global –
nem local e nem só virtual - são também importantes experiências
de comunicação, de interatividade, de relações sociais que
ultrapassem a informação sob controle, informação coisificada,
informação espetáculo e permitam criar uma sociedade global em
rede.
Podemos concluir que os sites até então
pesquisados são instigadores desta práxis ao exercitarem estratégias
de resistência na própria estrutura da rede, subvertendo os
protocolos habituais e os fluxos de informação. Eles também
demonstram a capacidade de gerar, através de sua teia de links,
uma rede de comunicação onde se formam os valores cooperativos,
políticos e econômicos e, deste modo, constituem uma tecnologia
que não é mais só gerenciadora de informações, mas meio de
relacionamento. Sem abandonar o papel ativo de gestão, eles se
alimentam sempre com novas descobertas para sustentar sempre o
desequilíbrio como fonte de inovação porque inteligência geral
é a cultura comum, saber vivo e vivido. Um espaço de exercício
da cidadania global que absorve o hardware, o software,
a vida e o trabalho.
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