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BOLA
NA REDE: O CIBERESPAÇO, AS TORCIDAS VIRTUAIS EA CULTURA DO
FUTEBOL NO SÉCULO XXI
Ary
José ROCCO JUNIOR1
Universidade
de Santo Amaro (UNISA/SP) / Pontifícia Universidade Católica
(PUC/SP)
RESUMO
As
comunidades virtuais constituem verdadeiros agrupamentos de indivíduos
usuários de redes de computadores que determinam fontes de
valores que moldam comportamentos e organizações sociais na
Internet. O objetivo deste trabalho é investigar as modificações
que essas comunidades inserem na cultura que envolve o futebol
enquanto forma de entretenimento e consumo. A importância desse
esporte como elemento de afirmação da identidade nacional vai,
paulatinamente, perdendo espaço para os clubes de futebol
supranacionais. Isso se deve, em grande parte, às transformações
provocadas pelo surgimento e expansão das tecnologias
comunicacionais, sendo a Internet e a TV Digital os melhores
exemplos. Surge assim, no seio dessa cibercultura, a torcida
virtual, verdadeira forma de inteligência coletiva em torno do
futebol, que ultrapassa as relações locais em função de uma
dinâmica de comunicação planetária.
Palavras-chave:
Cibercultura, comunidades virtuais, futebol e torcidas
organizadas.
INTRODUÇÃO
Fenômenos
relevantes têm marcado a emergência de uma sociedade global
derivada de transformações ocorridas no mundo durante as três
últimas décadas. Por se tratar de um processo ainda em
andamento, o impacto da globalização ainda não pode ser
apurado; no entanto, isso não nos impossibilita de procurar traçar
uma compreensão relativa deste fenômeno, na medida em que nele
podemos enxergar mudanças estruturais que incidem sobre nossos
comportamentos, valores, hábitos, em suma, nossa própria existência.
Diante
de um mundo cuja tecnologia se torna força motriz, organizando a
vida dos homens; quando ocorre a passagem de uma economia “high
volume, para uma economia high value; a sociedade
globalizada mostra com toda força seus tentáculos, conferindo
sentidos outros para a problemática nacional e cultural”
(Santos, 1998 : 54).
As
redes comunicacionais, condicionadas pelos intensos
desenvolvimentos técnico e tecnológico presentes na segunda
metade do século passado e início desse, são fenômenos de
extrema importância no que se refere às transformações
ocorridas nas sociedades contemporâneas. Em menos de meio século,
elas contribuíram, entre outras coisas, grandemente na
remodelagem das culturas, na terceirização da economia e na
rearticulação política.
Ao
falar-se em redes comunicacionais, considera-se seu alinhamento em
duas grandes matrizes: as redes convencionais e as redes avançadas.
“Aquelas
são, em geral, possibilitadas pelo encadeamento dos media eletrônicos
anteriores ao advento dos computadores, tais como, imprensa,
telefonia, rádio e TV; estas, por sua vez, referem-se aos media
informáticos, como o ciberespaço, e a Internet é o exemplo mais
conhecido e acabado” (Coletivo NTC, 1996 : 264).
Alguns
autores consideram que as redes comunicacionais fundamentam a
conceituação da sociedade atual como sociedade da comunicação.
Isso porque não apenas a circularidade e saturação de informações,
imagens e dados lhes são característicos, como também elas estão
na base das profundas mudanças no metabolismo do imaginário
social e na percepção cotidiana do tempo e do espaço.
Pierre
Lévy (1995 : 67), por exemplo, defende a idéia de que
“os
novos meios de comunicação permitem aos grupos humanos pôr em
comum seu saber e seu imaginário. Forma social inédita, o
coletivo inteligente pode inventar uma ‘nova democracia em tempo
real’, uma ética da hospitalidade, uma estética da invenção,
uma economia das qualidades humanas”.
Nesse
sentido, surge o conceito de comunidades virtuais. No entender de
autores como Pierre Lévy (1995) e Howard Rheingold (1993),
“esses agrupamentos podem ser entendidos como uma comunidade
entre iguais, nas quais haveria um sentimento de homogeneidade e a
ausência de hierarquias sociais”. (Corrêa, 2002 : 10). Outras
características dessas comunidades virtuais seriam a liberdade de
expressão e a constituição de uma inteligência coletiva, nos
quais se valorizariam a enorme heterogeneidade sócio-cultural dos
seus participantes.
O
futebol, como fenômeno cultural, não poderia ficar de fora desse
universo. Rapidamente, entidades ligadas ao esporte, como clubes e
federações, invadiram a internet. “É quase impossível achar
um grande clube europeu que não ponha em seu site, no mínimo, as
principais notícias do time e as fichas completas de todos os
jogadores. Esse é o básico, mas, em geral, os clubes oferecem
muito mais” (Revista Placar, Setembro 2003 : 80).
Esse
trabalho procura demonstrar que as ditas comunidades virtuais,
enquanto formadoras de uma consciência coletiva e de tudo aquilo
que não é considerado presencial, não são um fenômeno
recente, sempre existindo na formação e identificação dos
torcedores de futebol. O que mudou, durante todo o século XX, foi
a dimensão que os meios de comunicação deram a esses
agrupamentos de seguidores do esporte mais popular do planeta.
Diversos fatores de identificação, criados e disseminados pelas
diferentes mídias em seu tempo, permitiram o desenvolvimentos de
distintos elementos de pertencimento, com alcance territorial
definido por esses meios de comunicação de massa.
É
nossa intenção identificar
as comunidades virtuais, ou como chama Lévy, uma inteligência
coletiva ligada aos clubes de futebol e sua contribuição para
aquilo que poderíamos chamar de “torcida virtual”,
estabelecendo uma relação entre a formação dessas “torcidas
virtuais” e seu relacionamento com a ideologia da globalização,
especialmente no que diz respeito à cultura mundial - o
relacionamento clube local x clube global -, e a substituição
das violentas torcidas organizadas pelas controladas “torcidas
virtuais”, uma vez que essas últimas interessam à sociedade
capitalista, pois facilitam o controle, estimulam o consumo e
incentivam a indústria de entretenimento. Além disso,
pretendemos mostrar que sempre houve uma relação entre as
comunidades virtuais, os meios de comunicação de massa e os
torcedores de futebol, buscando
esclarecer como a mídia sempre influenciou na formação desses
agrupamentos de torcedores, criando uma “inteligência
coletiva”.
1.
O CONCEITO DE COMUNIDADE E SUA VIRTUALIZAÇÃO
A noção de
comunidade, que sempre permeou a vida em sociedade, está ligada
à idéia de um espaço de partilha, a uma sensação de pertencer
a um grupo, de inter-relacionamento íntimo a determinado
agrupamento social. Para André Lemos (2002:152),
“sociologicamente, a idéia de comunidade é uma invenção dos
primeiros expoentes dos estudos sociais (...) que partiram de uma
perspectiva evolucionista que consiste em marcar a passagem de
sociedade tradicional (a comunidade) para a sociedade moderna (a
sociedade)”.
Zygmunt Bauman
(2001 : 196-197), ao analisar o conceito de comunidade, escreve:
“Como
observou amargamente Eric Hobsbawn, ‘a palavra comunidade nunca
foi utilizada tão indiscriminadamente quanto nas décadas em que
as comunidades no sentido sociológico se tornaram difíceis de
encontrar na vida real. Homens e mulheres procuram grupos de que
possam fazer parte, com certeza e para sempre, num mundo em que
tudo o mais se desloca e muda, em que nada mais é certo’. Jock
Young faz um sumário sucinto da observação de Hobsbawn:
‘Exatamente quando a comunidade entra em colapso, inventa-se a
identidade’. (...) E como observou Orlando Petterson (citado por
Eric Hobsbawn), ‘embora as pessoas tenham que escolher entre
diferentes grupos de referência de identidade, sua escolha
implica a forte crença de que quem escolhe não tem opção a não
ser o grupo específico a que ‘pertence’”.
Penso
que todas as noções de comunidade, apresentadas acima, apontam
para um único desejo do ser humano: o de pertencer a um grupo de
indivíduos onde possa, em algum momento, partilhar sentimentos
comuns. O amor a um clube de futebol, por exemplo, torna-se marca
de identificação do indivíduo. Manifestações de fidelidade e
paixão por uma mesma agremiação criam fortes laços de união
entre pessoas de diferentes classes sociais, etnias ou religião.
Historicamente, esses agrupamentos, ou torcidas, já partilhavam,
na expressão do seu amor ao clube do coração, um sentimento de
homogeneidade e de ausência de hierarquia.
A
evolução das novas tecnologias permitiu o surgimento de uma nova
dimensão social – o ciberespaço, com sua face mais visível
que é a Internet, a rede mundial de computadores.
Esta
nova dimensão não elimina as demais preexistentes. Relaciona-se
com elas, é condicionada, mas também altera as demais. Portanto,
não se pode esperar uma nova dimensão alheia aos problemas e
conflitos existentes na sociedade, pois é daí que ela será
construída. Sua característica mais importante é a
possibilidade de interatividade, do diálogo entre os milhões de
terminais espalhados pelo mundo inteiro. Ele se revela como dimensão
de convivência e convergência de qualidades humanas, apesar da
ausência física dos interlocutores.
A
fragmentação social, fruto de um longo percurso de
desenvolvimento contraditório, estabeleceu grupos que se
caracterizavam como coletivos inteligentes. Enfrentando
especificidades temáticas e por áreas, estes grupos, separados
entre si, empreendiam muitas vezes esforços numa mesma direção,
sem, no entanto, se alimentarem ou se conectarem para a troca,
para o pensar junto.
Com
o ciberespaço abre-se a possibilidade de um passo à frente neste
sentido. Possibilita-se o surgimento, no lugar de coletivos
inteligentes, de inteligências coletivas, ou de produção
intelectual e simbólica de maneira amplamente compartilhada,
potencializando capacidades individuais, de grupos e setores numa
mesma direção.
Os
coletivos inteligentes seriam espaços de debate racional e
argumentado, visando ao convencimento e à unificação de propósitos.
“Esse
projeto convoca um novo humanismo que inclui e amplia o
‘conhece-te a ti mesmo’ para um ‘aprendamos a nos conhecer
para pensar juntos’, e que generaliza o ‘penso, logo existo’
em um ‘formamos uma inteligência coletiva, logo existimos
eminentemente como comunidade” (Lévy, 1995 : 23).
O
global pode encontrar nesta dimensão espaço de sua articulação,
principalmente no que tange aos movimentos sociais e culturais, já
que os setores dominantes já dispõem em abundância de
instrumentos para sua articulação. Lemos (2002:154), ao
identificar essa tendência, conclui que “atualmente, as novas
tecnologias servem para constituir e, permanentemente, destruir a
dimensão agregadora. Este é um dos paradoxos da cibercultura. A
tecnologia moderna passa a ser apropriada pela socialidade, vetor
de reliance”.
A
forma de associação de pessoas em grupos com interesses e
afinidades comuns, as comunidades virtuais (Rheingold, 1993), são
típicas do ciberespaço. Porém, não constituem nenhuma
novidade. Stone (1991:81-112) pensa essa idéia em quatro fases:
1a)
no século XVII, em 1669, Robert Boyle inventou um método chamado
testemunho virtual que permite formar uma comunidade de cientistas
pelo testemunho à distância para a validação do trabalho de
seus pares;
2a)
nas comunicações elétricas (1900), fase em que surgiram o telégrafo,
o telefone, o fonógrafo, o rádio e a televisão, todos eles
formas de compartilhamento que criam vínculos virtuais na formação
de comunidades de espectadores, ouvintes e telespectadores;
3a)
na informática (1960), com o primeiro computador e os primeiros
BBSs apareceu a primeira comunidade virtual com base na tecnologia
da informação e, finalmente;
4a)
na fase do ciberespaço e realidade virtual, com a emergência do
ciberespaço, da comunicação mediada por computador, surgiram as
comunidades virtuais das redes telemáticas.
As
etapas propostas por Stone, que também foram aceitas por
Santaella (2003:122) e Lemos (2002:155), serão fundamentais
quando estudarmos as formas de organização coletivas que
envolvem o ato de torcer na cultura do futebol, uma vez que é
impossível dissociar a atitude do torcedor e a relação que os
meios de comunicação travam com o futebol e a cultura que o
envolve.
2.
O ATO DE TORCER, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A MASSA
A
constituição do futebol – como esporte – esteve
estreitamente ligada, tanto no Brasil quanto na Europa, à
industrialização e ao surgimento das grandes cidades. O futebol,
como uma necessidade de aproveitamento esportivo nas horas livres,
não pode ser desvinculado das condições históricas que
marcaram o fim do século XIX e o início do século XX. É
somente nas primeiras décadas do século XX que começa a
popularização do esporte. Sua democratização e consagração
como elemento da cultura nacional dá-se nos anos de 1930, quando
ocorre a profissionalização em 1933 (Moura 1998:19).
Quando
o esporte tornou-se um fenômeno de massas, atingindo as
diferentes classes sociais do Brasil, nos anos 30, surgiram as
primeiras torcidas uniformizadas de futebol, principalmente, em São
Paulo e no Rio de Janeiro. Durante as primeiras décadas do século
XX, alguns clubes contavam com indivíduos que representavam toda
a torcida de um determinado time e tinham certo prestígio com a
imprensa da época. Tratava-se, pois, de torcedores símbolos,
cuja liderança era tão intensa, que mantinham seus comandados
sob uma disciplina quase severa.
Segundo consta,
o primeiro desses torcedores a equipar seus seguidores com
uniformes e música, no Rio de Janeiro, foi um funcionário público
chamado Jaime Rodrigues de Carvalho, fanático pelo Flamengo. Ele
fundou uma charanga1
que animava os jogos do time.
Em 1939, foi
inaugurada por Manoel Raymundo Paes de Almeida, a primeira torcida
organizada do estado de São Paulo, chamada Grêmio São-Paulino.
Muitos a consideram a torcida mais antiga do Brasil,
transformando-se depois, na TUSP – Torcida Uniformizada do São
Paulo, fundada por Manoel Porfírio da Paz e Laudo Natel em 1940.
Até a década
de 60, associava-se a torcida uniformizada aos torcedores símbolos.
Naquela época, as torcidas não apenas eram vinculadas aos
clubes, como na maioria das vezes, a alguém envolvido na organização
institucional do futebol (político, funcionários de ligas,
federações de futebol, dirigente).
Os torcedores que faziam parte das uniformizadas, antes dos
anos 70, participavam da vida social dos clubes, de forma que
alguns eram até levados para suas diretorias.
A
mudança na relação entre o torcedor e o futebol ocorre a partir
da década de 70. O advento da televisão, o sucesso internacional
do futebol brasileiro e os interesses políticos da ditadura
militar em tirar proveito desse sucesso, fizeram surgir no imaginário
popular uma identidade nacional em torno do esporte. “A
participação dos torcedores no futebol tornou-se mais problemática
em razão de um contexto mais complexo e dinâmico que aquele
vivido pelos torcedores símbolos desde a década de 40”
(Toledo, 1996:30). Além de todos os elementos citados, Santos
(1998:62) aponta “o aumento no mercado de bens culturais, com os
torcedores como consumidores em potenciais”, como outra causa
para essa nova relação que se estabelece entre o torcedor e o
futebol.
As
torcidas organizadas consolidam-se na década de 80, tornando-se
organizações burocratizadas, com estatutos e normas próprias,
aprovados pelos seus membros. A partir de então passam a ser
apontadas, fundamentalmente, como as principais responsáveis pela
violência nos estádios de futebol.
Para
Lopes & Maresca (1992:132), as organizadas seriam um dos
sinalizadores da autonomização crescente no futebol
profissional, cada vez mais bem estabelecido como um mundo à
parte, com regras próprias e tropas especializadas. Nessa
perspectiva, aponta-se, igualmente, para o fato de que o fim do
futebol-arte (praticado anteriormente) e o cultivo do futebol-força
(de força física e resultados, através da crescente
profissionalização deste esporte). Além do advento da televisão,
“para quem o artista importa mais que a sua arte” , acabaram
deslocando também o espetáculo em direção aos torcedores, cada
vez mais conscientes de seu papel.
A
última década do século XX e os primeiros anos do século XXI têm
como característica o aparecimento de grupos ou tribos urbanas
que, apesar de diferenças internas, buscam identidades a fim de
se diferenciarem da massa, tida como anônima, indefinida e
dispersa. Os membros desses grupos constróem signos que os
representam socialmente, distinguindo-se dos outros. O caso das
torcidas de futebol, especialmente as organizadas é emblemático
na medida em que, ao andar em bando, vestindo a camisa do seu
time, eles acabam diferenciando-se do todo.
Diante
de um espaço e tempos urbanos deteriorados, a sociabilidade clássica,
“marcada pelas relações face a face, outrora definidas pelas
relações de vizinhança e enraizamento no meio social, não
desaparece por completo” (Coletivo
NTC, 1996:97). No entanto, suas novas modulações ressurgem e
submetem-se a um redimensionamento dos lugares. Hoje, como palco
onde as novas sociabilidades se agregam estão basicamente os
shopping centers, os estádios de futebol e shows de rock.
Os
membros dos grupos, que fazem parte do cenário urbano, como é o
caso das torcidas organizadas, não apenas constróem para si uma
nova forma de sociabilidade e de identidade, como também a
desdobram na violência e na negação do outro. Além disso,
conforme mostrou Baudrillard (1992), a violência coletiva
praticada por esses grupos de jovens, em sua espetacularização,
também parece indicar o êxtase de pertencimento, principalmente,
quando a violência é televisionada e mostrada através dos meios
de comunicação. Nas palavras do autor, “existe sempre perigo
que esta classe de transição possa ocorrer, que os espectadores
possam cessar de ser espectadores e se tornem vítimas ou
assassinos, que o esporte possa deixar de ser esporte e passe a
ser transformado em terrorismo” (Baudrillard, 1992 : 88).
Os
estádios de futebol, em dias em que ocorrem os jogos, apresentam
uma característica comum: uma intensa reunião de pessoas fazendo
com que estes espetáculos de massa atuem como fenômenos
coletivos e provoquem momentos tanto de violência quanto de união
entre seus participantes. A participação concreta do ser humano
em fenômenos coletivos, como os aqui investigados, talvez seja
uma prova de que ele não apenas deseja, como também necessita se
dissolver na massa.
Para
Elias Canetti (1995), o homem e a sociedade são produtos de um
conflito; ou seja, ele teme o contato com os seus semelhantes
(sentimento que faz surgir a ordem, a hierarquia e as distâncias
individuais), mas este medo só é superado quando ele se dissolve
na massa. Nela o homem sente o desejo de ser tocado, perdendo sua
individualidade:
“Somente
na massa é possível libertar-se de temor do contato (...) tão
logo nos entregamos à massa não tememos o seu contato. Na massa
ideal, todos são iguais, tudo se passa como que no interior de um
único corpo. Talvez essa seja uma das razões pelas quais a massa
busca concentrar-se de maneira tão densa: ela deseja libertar-se
tão completamente quanto possível do temor individual do
contato. Quanto mais energicamente os homens se apertam uns contra
os outros, tanto mais seguros eles se sentirão de não se temerem
mutuamente. Essa inversão do temor do contato é característica
da massa” (Idem, 1995:14).
Canetti
afirma, ainda, que a massa é marcada por um fenômeno chamado
“descarga”, que seria o momento onde os indivíduos se sentem
iguais, sendo acompanhado de um “alívio impressionante”.
Nos
esportes, de uma maneira geral, e no futebol, especificamente, os
espectadores se comportam de modo diverso de outros contextos.
Trata-se de uma vibração que vem conjugada a um contato corporal
intenso e, por isso, violento, pelo menos em relação aqueles que
estão pouco familiarizados com o ambiente do jogo. Para os
torcedores, o seu comportamento não tem nada de estravagante,
fazendo parte de um ritual inúmeras vezes encenado.
Ocorre
que nesses momentos limítrofes, porque fora do domínio das
regras consideradas civilizadas, estamos diante de experiências
exaltadas e imponderáveis; na medida em que, a experiência
vivida naquele instante reduz nossa auto-consciência a quase
nada, afastando pensamentos como os pertencentes ao domínio da
individualidade e, portanto, da hierarquia e da ordem. Talvez a
corporalidade e a igualdade presentes nas arquibancadas, bem como
o desenrolar da partida permitam aos torcedores vivenciar uma
experiência que por si só já predispõe ao descontrole.
O
envolvimento do torcedor com o transcorrer da partida envolve, então,
um labirinto de relações humanas, que vai desde a vivência
momentânea da catarse, à poderosa força ritualística, passando
pela relação de dimensões religiosas com o ídolo e o time, até
a identidade que se cria entre os torcedores; além, da experiência
do ganhar ou perder.
3.
O FUTEBOL NO MUNDO VIRTUAL E O TORCEDOR CONSUMIDOR
Hoje,
para as maiores equipes do “Calcio” Italiano, da Liga
Espanhola de Futebol e da “Premier League” inglesa, a Internet
é muito mais que um lugar comum e virtual em que se reúnem os
simpatizantes de uma mesma agremiação. Para muitas equipes
(sociedades anônimas em sua maioria), sua página de Internet é
um veículo oficial e idôneo para dar a conhecer não somente o
relato da última partida que o clube jogou e dos detalhes de sua
história, mas também, e sobretudo, para tratar de outros
assuntos, incluídos os mais importantes e atuais, aqueles que
fazem a saúde do clube.
“O
Manchester United, por exemplo, possui um dos melhores sites da
rede. O seu banco de dados tem registrados os jogos disputados
desde 1886 e inclui também as categorias inferiores e femininas.
É difícil que alguma pergunta sobre o time inglês não tenha
resposta no site. Venda de ingressos e carnês, fichas completas
das partidas, lojas virtuais com mil e um tipos de produtos,
toques e logotipos para celulares, acesso às rádios e televisões
oficiais dos clubes, seções de fotos e vídeos são algumas das
atrações dos sites de clubes como Barcelona, Real Madrid,
Arsenal, Juventus, Milan...” (Revista Placar, setembro 2003 :
80).
Mesmo
no Brasil, onde os mais puristas se recusam a acreditar que o
futebol está inserido no mundo globalizado, a Internet já é uma
realidade, com objetivos bem definidos na hora de atrair seus fãs
na web, como mostra reportagem publicada no jornal Folha de São
Paulo, de 24 de abril de 2004:
“Serve
para informar, mas também para vender, para promover cartolas e
mandar recados. Na Internet, o (Campeonato) Brasileiro ferve. Os
24 clubes, pela primeira vez, começaram o torneio com sites
oficiais funcionando de forma integral. (...) O objetivo é ganhar
corações e mentes e conquistar o bolso dos fãs. (...) A maioria
dos sites dos clubes virou um balcão de negócios”.
O
futebol pode ser considerado a prática cultural dominante, em
escala global, durante a década de 90, tal como foi o rock nos
anos 60 e 70. A difusão do futebol, como todos sabemos, é um fenômeno
prévio à atual onda globalizadora.
Richard
Giulianotti (1999:9), sociólogo britânico, especialista no
esporte, divide o futebol em três fases:
“a
‘tradicional’, ou ‘pré-moderna’, onde vestígios da era
pré-industrial ou pré-capitalista são ainda muito influentes,
(...) de modo geral, isso envolve a aristocracia ou a classe média
tradicional; (...) a ‘modernidade’, relacionada à rápida
urbanização e ao crescimento político da classe trabalhadora
(...), em matéria de lazer (...) ocorre a divisão entre alta
cultura (burguesa e legitimada) e baixa cultura (operária e
popular), sendo que o futebol passa a ser um marco desta última
categoria; (...) e a ‘pós-modernidade’, marcada pela dimensão
crítica ou pela rejeição real da modernidade (...), as
identidades sociais e culturais tornam-se cada vez mais fluidas e
‘neotribais’ em suas tendências de lazer (...). A globalização
dos povos, da tecnologia e da cultura dá origem a uma cultura híbrida
e a uma dependência econômica das nações em relação aos
mercados internacionais”.
Agora,
e esta é uma grande diferença com outros fenômenos globais,
como o rock, a difusão do futebol está, até o momento,
estreitamente relacionada com outro fenômeno que lhe foi
contemporâneo: a difusão da forma moderna de comunidade política,
isto é, a constituição dos Estados-Nação. Isto se evidencia
na forma de organização que adquiriu o futebol: a FIFA, criada
no auge do nacionalismo europeu (1904), foi concebida para ser uma
instituição de caráter internacional, uma vez que seus membros
são federações – e não estados – nacionais. A função
mais importante deste ente internacional tem sido, além de
homogeneizar, regular e promover a prática do futebol em todo o
planeta, a de organizar competições esportivas em que se
enfrentam “representações nacionais”. Essas “seleções
nacionais” estavam, e ainda estão, compostas exclusivamente por
jogadores que nasceram em seus respectivos países.
O
futebol se converteu, então, em um elemento útil para estimular
a integração simbólica tão necessária para a conformação
das identidades que estão na base dessas comunidades imaginadas
que são as nações. Para muitos, a assistência ativa aos espetáculos
esportivos é um verdadeiro dever
cívico, independentemente do gosto pelo esporte. Apoiar a seleção
nacional é uma sentida declaração pública de lealdade à nação.
Neste
processo, a mídia, em especial a crônica esportiva
especializada, atua como elemento de reafirmação do
nacionalismo, difundindo ideais de amadorismo e de amor
desinteressado às cores da pátria. Graças à mídia, o
nacionalismo tem nos campeonatos internacionais de futebol – com
sua expressão máxima a Copa do Mundo de Futebol, cuja final em
1998 congregou 1,7 milhões de telespectadores em todo planeta –
um reduto que até hoje parecia intocável.
A fusão de nacionalismo e futebol na indústria massmediática
permitiu aos meios de comunicação aumentar sua audiência e aos
patrocinadores o aumento de suas vendas.
Porém, nos últimos anos da década de 90, a forma
estatal-nacional foi sendo paulatinamente colocada em questão
como comunidade político-cultural. Os processos de globalização,
que se manifestam em conformidade com as novas identidades sub,
trans e supraestatais, estão desgastando o sentido comum
nacionalista que, até então, os seres humanos valorizavam e sob
os quais atuavam socialmente.
Acredito
que estamos presenciando um enfraquecimento da até então exitosa
articulação entre futebol e nacionalismo, provocando uma
transformação na cultura futebolística mundial, já acentuada
pela televisão, uma mídia, como já vimos, dita tradicional.
Como ocorre em outros âmbitos da vida social, a globalização do
futebol implica uma modificação da organização desde formas
internacionais até formas que têm um caráter mais
supranacional, como os grandes clubes do futebol mundial, em
especial, os espanhóis, italianos e ingleses.
A
organização do G-14 (entidade que reúne os grandes clubes
europeus) marcou uma pauta fundamental no campo sociológico do
esporte mais popular do planeta, uma vez que o futebol está começando
a se separar – institucionalmente – da carga de nacionalismo
que carregava, mas não para se conformar como uma prática autônoma,
mas sim para ceder sua independência às leis do mercado global,
em todos os seus aspectos, inclusive tecnológicos e culturais.
Como conseqüência, o futebol está perdendo cada vez mais não
somente seus valores humanistas particulares – inspirados em
ideais olímpicos e amadores, reciclados no ideal de “fair
play”-, senão também sua associação com o nacionalismo e a
regulamentação estatal.
Assim,
o critério de valorização legítima dentro do campo de futebol,
que alguma vez se pensou seria exclusivamente o rendimento
esportivo dos jogadores e de suas equipes, se está distanciando
dos sentimentos e valores culturais baseados em uma organização
calcada em critérios de nacionalidade, para favorecer elementos
de legitimação alicerçados em sua capacidade para servir de
instrumento para as estratégias de marketing das grandes empresas
transnacionais de entretenimento e de comunicação.
Nesta
direção, aponta também a paulatina conversão, verificada em
escala global, dos clubes em Sociedade Anônima e/ou em empresas
que operam com capital transnacional, assim como a crescente
flexibilização das medidas protecionistas do “futebol
nacional” que limitavam o número de estrangeiros que podiam
atuar nas equipes. O mesmo pode ser dito da flexibilização das
obrigações de empréstimos de jogadores às seleções por parte
dos clubes.
Desta
forma, o futebol, que alguma vez se pensou ser propriedade da
sociedade civil (do mundo, da vida), parece ser, cada vez menos,
uma questão de Estado e se converte, como tudo na era neoliberal,
em um monopólio do mercado globalizado. Desde esta perspectiva,
em um futuro próximo, parecerá sem sentido falar de “futebol
nacional”, como já ocorre com a “indústria nacional”: como
os eletrodomésticos de hoje, as equipes serão – algumas já são
– consumidas em qualquer parte do mundo.
Por
outro lado, parece que, neste início de século XXI, as torcidas,
pouco a pouco, estão deixando de ser nacionais para assumir um
caráter supranacional: clubes como o Barcelona ou o Manchester
United, apenas para citar alguns, não somente contam com atletas
das mais diversas origens geográficas, senão arregimentam
torcedores de muitas nacionalidades.
Não
será estranho que, graças às novas tecnologias, aqui incluída
a televisão, e à revolução digital, em um futuro muito próximo
estas torcidas se organizem e formem comunidades virtuais
supranacionais, trocando opiniões e experiências em torno de um
clube de futebol, formando aquilo que Lévy (1995) convencionou
chamar, como já mencionamos neste trabalho, de inteligência
coletiva. No momento em que torcer para esses clubes seja mais
importante que apoiar um clube nacional, como acontecia antes, as
adesões e lealdades futebolísticas locais serão, evidentemente,
coisas do passado. Com o apoio da tecnologia parece que, pouco a
pouco, a cultura global do futebol deverá superar o mesmo caráter
local, desvinculando os seres humanos envolvidos no esporte com
sua nacionalidade e a representação da identidade nacional.
Além
de auxiliar na supremacia do global sobre o local, as novas
tecnologias estão provocando uma alteração na territorialidade
do futebol. Por territorialidade podemos entender a relação
entre espectadores e jogadores, ou na interferência daqueles na
disputa do jogo em si.
O
esporte televisivo produz uma paisagem esportiva de igualdade. A
transmissão de uma partida pela televisão provém sua audiência
de um contexto social, de uma forma de união à massa presente no
estádio. John Bale (1998) se refere à televisão “como um
lugar de reunião, os fãs esportivos confinados domesticamente,
se relacionando com outras pessoas. Indubitavelmente compõem
significativas experiências humanas”.
Porém,
Bale (1998) faz questão de salientar que
“a
audiência televisiva não pode influenciar no resultado da
partida que está assistindo. Além disso, está confinada a um
espaço doméstico onde seu comportamento está restrito tão
rigidamente – senão mais – do que o daquelas pessoas
presentes ao estádio onde ocorre o evento”.
De
certo modo, essa situação satisfaz às normas de realização
esportiva e também ao desejo dos fanáticos. Permite ao indivíduo,
pela televisão, se sentir próximo aos lances do jogo.
Exemplifica uma tensão entre a necessidade aparentemente lógica
de participar e sua localização potencial na torcida. Também
ilustra a tensão entre determinado mundo “científico” e o
ambíguo mundo “humano”. Tensão que, de uma certa forma, será
abrandada pelas novas tecnologias, uma vez que essas permitem ao
indivíduo sua interação com a partida e a troca compartilhada
de experiências em tempo real com outros torcedores, somente possível
nos estádios de futebol, modificando, novamente, o espaço e o
tempo relacionados com o esporte.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Vimos,
pelo exposto neste trabalho, que existe uma crise ampliada pela
globalização, crise que aprofunda a exclusão social e que
revela a fragilidade da representação e das instituições do
mundo ocidental como referência de democracia. Democracia que não
garante direitos iguais para os diferentes, mais que isso,
aprofunda, através da dinâmica global, o distanciamento do poder
decisório da realidade da vida cotidiana vivida e compartilhada
pela população.
As
novas tecnologias geraram uma nova dimensão social, chamada
ciberespaço, que está em processo de definição de sua
arquitetura, em torno da qual existem conflitos manifestos.
Vimos
que, por suas possibilidades técnicas, a depender de sua
arquitetura, o ciberespaço pode ambientar o embate, praticamente
inexistente nas mídias tradicionais, entre as classes e setores
da sociedade, que têm interesses distintos e, muitas vezes, antagônicos.
Este caminho permite às pessoas atuarem como sujeitos sociais
através do ciberespaço, a partir de sua cultura local e vivida,
na dimensão do regional, do nacional e do global.
Esta
deontologia da arquitetura e do funcionamento do ciberespaço não
tem a pretensão de superar os problemas existentes e evidentes de
nossa formação social contemporânea, mas procura abrir brechas,
trilhas, que podem ajudar a encontrar caminhos novos e
consistentes. O futebol, enquanto elemento de composição da
cultura jovem, não é exceção à regra, buscando seu espaço na
arquitetura desse novo domínio tecnológico.
O
incremento das novas tecnologias, em especial da Internet, está
formando uma nova geração de admiradores do futebol, a, como
dissemos acima, do torcedor globalizado. Além disso, cria uma
relação entre clube e torcedor, que antes era impossível com a
televisão ou o rádio. Agora os clubes têm a possibilidade de
colher informações que podem ser aproveitadas em um banco de
dados, por exemplo. Já as visitas aos sites podem ser exploradas
para tirar dos torcedores informações precisas na hora de
elaborar políticas de marketing e vendas.
Televisão,
computadores e telefonia estão se unindo numa tendência que os
transformará num único meio de comunicação. Essa união, a
convergência, pretende eliminar a diferença existente entre meio
e mensagem, obrigando as empresas de mídia e telecomunicações a
se reinventar diante das modificações que estão acontecendo tão
rapidamente.
Nesse
contexto, a Internet desempenhará papel importantíssimo em
virtude dos inúmeros recursos de comunicação que possui. O site
oficial da Copa do Mundo de 1998, por exemplo, registrou, em um único
dia – o da final entre França e Brasil -, 38 milhões de
acessos em todo o mundo. O pontapé inicial da TV interativa, que
combina as tecnologias de transmissão de TV (broadcast) e de
Internet em uma série de serviços, já foi dado em países como
Estados Unidos, Canadá e Japão. Agora é permitido o acesso
simultâneo aos programas de televisão e à Internet já no próprio
aparelho de TV.
Todas
essas modificações devem alterar a cultura do futebol mundial.
Resta saber de que forma essas novas tecnologias poderão provocar
modificações na já mutante cultura do futebol mundial.
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