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PULGA NA IDÉIA–DIVUGAÇÃO CIENTÍFICA PARA CRIANÇAS NA INTERNET

 

Daniel Camargo Maganha

Juliana Maroto

Ingrid Lemos Costa

Ana Luiza Sério

 

Resumo

Pulga na Idéia (www.pulganaideia.com.br) é um site sobre ciência para público infanto-juvenil, entre 09 e 12 anos. Apresenta, mensalmente, as principais notícias de ciência divulgadas na mídia. Pulga na Idéia pretende colaborar para preencher a lacuna existente, no Brasil, entre veículos que apresentam conteúdo científico atualizado para crianças. A estruturação do hipertexto, navegação e design do site foram estudados para atingir a criança. A apresentação visual do site cria um universo lúdico de leitura e viagem infantis.

 

 

Introdução

Pulga na Idéia (www.pulganaideia.com.br) é um site que coloca a Ciência nas idéias da crianças. O site é apresenta uma adaptação mensal das principais notícias sobre ciência divulgadas na grande mídia de forma leve e divertida. Os termos e conceitos "difíceis", usualmente presentes em conteúdos científicos, mesmo quando adaptados ao público leigo, são “traduzidos” em linguagem infanto-juvenil, para despertar o interesse do público-alvo.

O conteúdo do site (Figura 1) é voltado para crianças em idade escolar, especialmente de 9 a 12 anos, que têm acesso à Internet na escola ou em casa. A faixa etária foi escolhida pela disposição ao aprendizado.

Pulga na Idéia apresenta a visão da criança sobre a atividade desenvolvida pelos cientistas com entrevistas, desenhos e a participação direta do internauta mirim. O site tem espaço aberto para que crianças, educadores e o público em geral manifestem suas opiniões e interesses específicos nas recentes pesquisas científicas. Pulga na Idéia traz também dicas de livros, filmes e experiências voltadas ao conhecimento científico.

 

Justificativa

No Brasil, tradicionalmente, as crianças têm seus primeiros contatos com a ciência por meio das atividades escolares ou pelos meios de comunicação. A escola trabalha com um conteúdo previamente estabelecido em seu plano pedagógico. Entretanto, muitas vezes não aborda as novidades científicas com a mesma velocidade da produção de conhecimentos científicos da sociedade. Dessa forma, em ambiente escolar, as crianças têm menos contato com conhecimento científico atualizado ou demoram mais para fazê-lo.

Quando a criança recebe informações sobre as novidades científicas pelos meios de comunicação, normalmente o faz por meio de veículos de comunicação para adultos. Nesse caso, ela encontra barreiras lingüísticas ou de conteúdo avançado demais para o universo infantil. Sobre os veículos de comunicação para o público infantil, a lacuna entre a criança e a produção científica que é notícia nos meios de comunicação para adultos não é ainda satisfatoriamente preenchida. "Ao que parece, o jornal para crianças ainda não descobriu o seu verdadeiro papel na vida do seu público leitor e permanece oscilando entre ser literatura, instrumento paradidático ou jornal de verdade (ALVES, 1993)". Assim, permanece atrelado aos conteúdos escolares formais.

Pulga na Idéia pretende colaborar para preencher a lacuna existente, no Brasil, entre veículos que apresentam conteúdo científico atualizado para crianças.

 

Bases conceituais para a construção do site

Para divulgar e difundir o conhecimento para o público-alvo, alguns princípios orientadores da educação básica (Guerreiro, 2000) serão seguidos:

Vincular a aquisição de conhecimento sobre o mundo natural com a formação e a prática de ações e habilidades científicas;

Relacionar o conhecimento científico com suas aplicações técnicas;

Outorgar atenção aos temas associados com a preservação do meio ambiente e da saúde;

Propiciar a relação da aprendizagem das ciências naturais com os conteúdos de outras disciplinas.

Estes conceitos serão aprofundados nos capítulos a seguir.

 

Adaptação de conteúdo e linguagem

A adaptação do conteúdo e linguagem é baseada em alguns pressupostos. Os pressupostos são considerados para adaptação de conteúdo no site:

1. Saber que os conhecimentos são respostas à questões, que ultrapassam a passividade do leitor e encaminham para reflexão e busca de explicações. Quanto mais desafiadora a questão, maior é o entusiasmo e a curiosidade. As questões possibilitam:

dialogismo com o internauta;

interatividade na própria construção do texto, estruturado em blocos de informações relacionadas a diferentes questões sobre um conteúdo;

base para criação de ferramentas de hipertexto, curiosidade ou demais ferramentas para Internet.

2. Reconhecer a existência de concepções espontâneas das crianças. Em situações de comunicação, as crianças trazem conhecimentos já construídos com os quais interpretam o que se comunica. Esses conhecimentos foram construídos durante sua vida por meio de interações com o meio físico e social na procura de explicações do mundo (CARVALHO et al.., 1998).

Negar as concepções espontâneas na comunicação com as crianças, por mais distantes do conhecimento científico considerado correto, pode dificultar o seu entendimento. Desse modo, é preciso resgatar as concepções espontâneas e trazê-las para o mais próximo do conceito científico. Como é comum que as crianças atribuíam a diversos fenômenos a origem mágica, é necessário utilizar sempre explicações coerentes e não-mágicas.

3. Interagir com a realidade da criança. A adaptação de conteúdos deve buscar aproximação ao dia-a-dia da criança para que ela possa construir um referencial lógico para compreensão dos conceitos comunicados. Desse modo, é importante a utilização de analogias com situações de cotidiano.

4. Aceitar o conhecimento como um processo contínuo. O processo cognitivo evolui por meio de reorganização do conhecimento e o aprendizado acontece por aproximações sucessivas, que permitem a reconstrução do conhecimento que a criança já tem (CARVALHO et al., 1998).

A comunicação de ciência para o público infantil deve partir dos mesmos pressupostos de aproximações sucessivas para construção de um conceito. O texto deve valorizar variáveis envolvidas nos fenômenos abordados e suas relações. Evitar fórmulas prontas ou abordagem conteudista de acúmulo de informações é uma atitude necessária para elaborar o texto. A navegação pelo hipertexto permite que a criança aprofunde os conteúdos abordados.

5. Utilizar a linguagem dialógica. O “texto dialógico” valoriza a relação discursiva circular entre o EU e TU. “É o texto no qual o emissor e receptor se expressam, dialogam entre si e com o universo que os cerca” (ALVES, 1993).

O texto dialógico visa envolver a criança emocionalmente, estimulando-a diretamente a prosseguir a navegação pelo site e selecionar os conteúdos mais interessantes. O texto deve estar "em oposição ao 'texto normativo ou didático' aquele que tem por objetivo 'ensinar' alguma coisa, passar conceitos, direcionar a relação da criança com o conhecimento. É um texto fechado, que não estimula o leitor a extrapolá-lo" (ALVES, 1993).

6. Adequar a linguagem sem perder qualidade. A linguagem deve respeitar a fase de desenvolvimento da criança. Dessa forma, deve-se evitar o uso de diminutivos ou de linguagem extremamente infantilizada e utilizar, sempre que necessário, termos e jargões científicos, desde que seguidos de explicações.

 

Utilização do meio Internet

Escrever para a Internet é diferente de escrever um texto impresso. É desse pressuposto que Jakob Nielsen e outros cientistas realizam seus estudos com o texto na Internet. Pesquisas exploratórias, qualitativas e quantitativas foram realizadas para descobrir como realmente se escreve para a Internet.

O foco dessas pesquisas geralmente é a leitura do texto e, com isso, também promovem estudos sobre Navegação, Arquitetura de Informação, Pesquisas de Informação, Design de Páginas, Elementos Gráficos e Ícones. A partir daí, suas conclusões ajudam o produtor de texto a atingir melhor o seu público e efetivamente transmitir seu pensamento. Alguns desses critérios foram adotados para a estruturação do site Pulga na Idéia. São eles a concisão, scannabilidade, hipertexto, navegação e usabilidade.

 

Concisão

Ler na tela do computador é mais lento que ler no papel. Essa inadequação usuário-Internet é causada pela própria tela do computador com sua baixa definição. No caso das crianças, que ainda desenvolvem seus hábitos de leitura, a lentidão pode ser ainda maior na tela. Além disso, muitas vezes o usuário não utiliza o scroll (rolagem de página). Desse modo, quanto mais conciso for o texto na Internet, maiores são as chances de se obter a compreensão do leitor, ainda mais se ele for uma criança.

 

Escanabilidade

A escanabilidade de uma página é a disposição de seus elementos visando uma melhor leitura do usuário. Alguns recursos da escanabilidade são: títulos, tipos grandes, textos em negrito, textos iluminados, listas com cabeçalhos, capturas, sentenças com tópicos e tabelas. Devido à dificuldade de se ler na tela do computador, o internauta costuma ‘escanerizar’ sua leitura, lendo com saltos de palavras, lendo apenas sentenças, parágrafos ou palavras-chave que lhe são interessantes etc. e pulando as partes que não lhe importam.

 

Hipertexto

O Hipertexto é explorado partindo dos pressupostos de organização e aprofundamento do conteúdo.

Em relação à organização do conteúdo: os conteúdos científicos das notícias no site Pulga na Idéia são organizados em blocos de informação, cada um deles com um objetivo específico. Essa estrutura busca auxiliar a compreensão da criança sobre os processos envolvidos na formação do conhecimento científico por meio da organização do hipertexto. Os processos identificados foram:

Fato científico em si (O QUÊ): geralmente, as notícias sobre ciência estão apoiadas em descobertas ou desenvolvimento de novas tecnologias. No primeiro bloco de informações, esse fato é apresentado: é o lead da notícia, com a descrição do conteúdo a ser abordado. Partindo do conceito de pirâmide invertida, a idéia principal do texto está exposta logo no seu início, o que dá ao usuário a real noção do conteúdo da página e a opção de a continuar lendo ou não. Um exemplo dessa aplicação é apresentado na Figura 2.

 

Os mecanismos do fato científico (COMO): apresentação de conceitos científicos envolvidos na notícia ou os mecanismos de produção de determinada pesquisa ou descoberta. Na Figura 3, apresenta-se um exemplo do site baseado nesse conceito.

 

Estabelecimento de relações (POR QUÊ): descrição de relações entre o conteúdo apresentado na notícia e os conhecimentos já estabelecidos para a criança e, enfim, aproximação ao universo da criança. Na Figura 4, apresenta-se um exemplo do site baseado nesse conceito.

 

Sobre o aprofundamento de conteúdo, o usuário pode obter as informações apresentadas nas notícias por meio de links inseridos em meio aos textos, que o levam a um glossário com temas específicos da ciência. A organização desse glossário permite que o leitor selecione os tópicos que deseja saber mais, sem prejudicar a leitura da notícia. Um exemplo dele está apresentado na Figura 5.

 

Navegação

A Navegação é um dos pontos-chave da interação usuário-Internet. No site Pulga na Idéia, a interatividade foi maximizada por meio do uso das perguntas “O quê?”, “Como?” e “Por quê?”, que permitem a navegação nos três blocos de conteúdo em que são estruturadas as notícias. Desse modo, a criança é estimulada a navegar para responder às questões e navegar pelos assuntos que mais lhe interessam. Ela também pode se aprofundar em conteúdos específicos.

Os botões e tipografia em tamanhos grandes facilitam a visualização e a localização no site. Além dos tipos grandes, cores saturadas são utilizadas.

 

Usabilidade

A usabilidade de um site é um dos focos da pesquisa de Jakob Nielsen. Ela é a facilidade do internauta de obter a informação em um site, levando em conta vários itens de navegabilidade (informatividade, tempo para obtenção da informação, entendimento da estrutura, linguagem do texto, satisfação em relação ao site, entre outros) – ou seja, verificar o quanto um site é ‘usável’.

Nas pesquisas de Jakob Nielsen, seus resultados são sempre medidos em Overall Usability, sendo que compreende também aspectos como a colocação de links, a perfeita conecção entre páginas, a disponibilidade de serviços, ao não aparecimento de bugs ou problemas de programação etc.

 

Design

A escolha do nome foi a principal definição para construção visual do site. O nome deveria ser fácil de ser lembrado, atrativo e simples. Em um site que trata da ciência, a abordagem é voltada ao conhecimento e descoberta – e o caminho para o conhecimento é a curiosidade, o questionamento, estar sempre com a “pulga atrás da orelha” e com a cabeça cheia de idéias. Foi assim que surgiu o Pulga na Idéia.

Posteriormente, foi criada a personagem, uma simpática pulga com lâmpadas de idéias na cabeça, como nas histórias em quadrinhos.

O design gráfico é primordial nos sites que pretendem atingir a públicos específicos e trabalhar com educação. A linguagem visual é imprescindível na maioria dos meios de comunicação, seja na sala de aula por meio de materiais, livros ou do quadro negro, seja em uma conversa informal em que as nossas roupas, os nossos gestos e o local onde estamos influencia a conversa.

Na Internet, é pela linguagem visual que o internauta realiza juízos de valor acerca da mensagem. Ele pode aceitar ou rejeitar o site e é por meio dela que encontrará as informações desejadas. A linguagem do hipertexto caracteriza-se principalmente pela rapidez com que o usuário apreende a informação e sua principal característica é a interatividade.

 

De acordo com Dondis (1997):

“O nível representacional da inteligência visual é fortemente governado pela experiência direta que ultrapassa a percepção. Aprendemos sobre coisas das quais não podemos ter experiência direta através (sic.) dos meios visuais, de demonstrações e de exemplos em forma de modelo. Ainda que uma descrição verbal possa ser uma explicação extremamente eficaz, o caráter dos meios visuais é muito diferente do da linguagem, sobretudo no que diz respeito a sua natureza direta. Não se faz necessário a intervenção de nenhum sistema de códigos para facilitar a compreensão, e de nenhuma decodificação que retarde o entendimento. Às vezes basta ver um processo para compreender como ele funciona. Em outras situações, ver um objeto já nos proporciona um conhecimento suficiente para que possamos avaliá-lo e compreendê-lo. Essa experiência da observação serve não apenas como um recurso que nos permite aprender, mas também atua como nossa mais estreita ligação com a realidade de nosso meio ambiente. Confiamos em nossos olhos e deles dependemos”.

O design e as cores do site foram estudados para atingir a criança, e foi esse o motivo da escolha de cores saturadas e desenhos e fotos coloridos. Dondis (1997) também nos revela que “a cor saturada é simples, quase primitiva, e foi sempre a preferida pelos artistas populares e pelas crianças”.

O amarelo foi escolhido como cor principal para instigar a curiosidade infantil e estimular a leitura na tela. Pois, como nos diz Pedrosa (1982):

“Amplo e ofuscante como uma corrida de metal incandescente, é a mais desconcertante das cores, transbordando dos limites onde se deseja encerrá-lo, parecendo sempre maior do que é na realidade devido a sua característica expansiva. Segundo Kandinsky, o amarelo, representando o calor, a energia e a claridade, assume a primazia do lado ativo das cores, em oposição a passividade, frigidez e obscuridade representadas pelo azul. Olhando-o fixamente, ‘percebe-se logo que o amarelo irradia, que realiza um movimento excêntrico e se aproxima quase visivelmente do observador’.

O verde, o vermelho e o violeta são utilizados para contrastar e destacar as seções e os espaços vazios e transformar cada página em um local amigável e atrativo.

Muitas fotos coloridas digitalmente trabalhadas e desenhos (cliparts) ilustram o site e complementam o visual colorido e atrativo, criando um universo lúdico de leitura e viagem infantis.

 

BIBLIOGRAFIA

ALVES, J. C., O Jornal Infantil: Expressão e Participação. São Paulo, dissertação (mestrado), Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1993.

CARVALHO, Anna Maria Pessoa de, VANNUCCHI, Andréa Infantosi, BARROS, Marcelo Alves, GONÇALVES, Maria Elisa Resende, REY, Renato Casal Del. Ciências no ensino fundamental: o conhecimento físico. São Paulo: Editora Scipione, 1998.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem Visual. São Paulo, Martins Fontes, 2ª ed., 1997.

Guerreiro, J.A.C. O ensino e a divulgação das ciências naturais no México. In: Hamburger, E.W. & Matos, C. (org.) O desafio de ensinar ciências no século XXI. Edusp, 20-27, 2000.

NIELSEN, Jakob. Projetando Websites. São Paulo, Campus, 2000.

Pedrosa, Israel. Da cor a Cor inexistente. Rio de janeiro, Léo CHristiano Editorial Ltda. 3ª edição - 1982, co-editadop pela Universidade de Brasília.

WURMAN, Richard Saul. Ansiedade de Informação. São Paulo, Cultura Editores Associados, 1991.

Sun Usability. www.sun.com. Abril de 2004

UseIt – Jakob Nielsen. www.useit.com. Abril de 2004.

Instituto Multifocus. www.multifocus.com.br. Junho de 2004.

 

 

Trabalho de Conclusão Curso de Jornalismo Científico

Orientação: Prof. Dr. Marcelo Knobel

e-mail: knobel@ifi.unicamp.br

Labjor – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo – UNICAMP

 



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