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JORNALISMO,
AGENDAMENTO E A CONSTRUÇÃO DE UMA ESFERA PÚBLICA DE DISCUSSÕES
SOBRE INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: A EXPERIÊNCIA DA AGÊNCIA DE NOTÍCIAS
DOS DIREITOS DA INFÂNCIA
Guilherme
Canela de Souza Godoi
Resumo
Este
trabalho discute as conexões entre 4 eixos: a prática de um
jornalismo que cobre as temáticas pertinentes à infância e a
adolescência e sua relação com o agendamento de decisões públicas
direcionadas a esta parcela da população, assim como a construção
de uma esfera pública que tenha por objetivo último refletir
sobre estes mesmos temas. Os dados empíricos apontam que a
imprensa brasileira, sem dúvida, incluiu a pauta da infância e
da adolescência em sua cobertura cotidiana, com isto colaborou
para a consolidação de um novo paradigma sobre o lugar de crianças
e adolescentes na sociedade.
Introdução
As
mais diferentes áreas do conhecimento, se é que podemos
sintetizar assim as grandes divisões do empreendimento humano,
podem ser caracterizadas ao longo da história pelos paradigmas
que perduram durante determinado período de tempo. É e foi assim
com a sociologia, a política, as artes, a cultura, a economia.
Não
raro mais de um paradigma –em geral conflitantes– convivem
durante um mesmo intervalo para uma mesma área. Esta convivência,
com muita freqüência, se dá entre a derrocada de um paradigma e
a consolidação do outro (romantismo e realismo na literatura,
por exemplo). Ou seja, a dinâmica da História, das Ciências e
da Filosofia, com a ausência de verdades eternas, nos dão a
certeza de que velhos paradigmas vão sendo substituídos por
novos. Às vezes, a novidade nada mais é do que um aprimoramento,
às vezes é uma verdadeira revolução.
Neste
momento, nos interessa olhar mais de perto esta passagem de um
velho paradigma para um novo. Na dinâmica da história muitos
paradigmas são defendidos por correntes conflitantes de
pensamento, neste jogo de idéias alguns paradigmas jamais são
consolidados, outros suplantam antigos e acabam por sair da posição
revolucionária para a posição de status quo.
Entretanto,
a substituição de um paradigma por outro, não raro, é um
processo difícil e há um intervalo de tempo até que todos os
atores relevantes incorporem este novo paradigma. Este intervalo
será tanto menor quanto mais intensas e consistentes forem as
estratégias de comunicar a nova forma de pensar o mundo àqueles
atores sem cuja adesão o novo paradigma não se consolidará. O número
destes atores varia conforme o cenário: podem ser poucos (numa
oligarquia, por exemplo, basta que os oligarcas abracem o novo
paradigma para que ele se torne o novo status quo) ou podem
ser muitos (numa democracia é preciso que maioria esteja
convencida das novas idéias).
Seja
como for, há a necessidade de estratégias consistentes de
comunicação. Para tanto, faz-se relevante saber comunicar bem
quantitativa e qualitativamente; também é importante comunicar
aos atores certos, alguns serão centrais para uma difusão mais
veloz para os demais.
Veja-se
que os partidários de distintas ideologias políticas –espécies
de paradigmas– entenderão rapidamente que a difusão e
consolidação de novas idéias, modernamente, não pode se dar
sem a colaboração dos meios de comunicação de massa. Se no
capitalismo o marketing sempre foi a alma do negócio (de
empresários a cientistas), no socialismo a estatização dos
meios de comunicação foi uma prática constante.
Resumindo:
de posse de um novo paradigma necessita-se encontrar uma forma de
comunica-lo através dos meios de comunicação de massa, sob pena
de ele demorar muito a se consolidar ou, na pior das hipóteses,
sequer vir a se consolidar.
Este
trabalho pretende apontar, a partir da experiência da Agência de
Notícias dos Direitos da Infância, a importância da imprensa
brasileira na consolidação de um novo paradigma: a compreensão
de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos.
Para
tanto, o que se segue está assim dividido: na seção 2
apresentaremos brevemente a construção deste novo paradigma no
Brasil e a necessidade de comunica-lo à sociedade brasileira; na
seção 3, mais teórica, abordaremos a questão do agendamento e
da esfera pública; na seqüência traremos alguns dados de
pesquisas realizadas no âmbito da Agência de Notícias dos
Direitos da Infância e, por fim, apresentaremos nossas conclusões.
A
criança e o adolescente como atores: um novo paradigma
Em
questões de Estado um ponto sine qua non para a mudança
de paradigmas é a transformação dos marcos legais que dão
fundamento ao status quo que se almeja alterar. Neste
sentido, não é possível, por exemplo, se consolidar um
paradigma de democracia racial sob a égide da Constituição
Nazista.
A
maioria das questões da infância e da adolescência eram, até
1990, regidas, no Brasil, pelo Código de Menores. Tal legislação
trazia uma concepção de Estado e de família absolutamente
ditatorial sob a criança e o adolescente: estes estavam sob a
tutela atenta daqueles, nada mais.
Os
elementos de participação cidadã advindos com a Carta Magna de
1988 já anunciavam que o Código de Menores era incompatível com
a filosofia de país que foi desenhada pela Assembléia
Constituinte. Adolescentes eram vistos como capazes de escolher o
novo Presidente da República pela Constituição, mas eram
tratados como caso de política pelo Código de Menores. Ganha força,
então, a idéia de se adotar no Brasil um novo paradigma em relação
ao papel de crianças e adolescentes na sociedade.
Estes
passariam da condição de tutelados absolutos da família e do
Estado para sujeitos de direitos. Uma revolução. Um sistema de
garantias de direitos destas crianças e adolescentes foi criado,
conselhos de participação democrática deveriam ser eleitos em
cada município do país, os princípios das Convenções
Internacionais das Nações Unidas estavam, de forma inovadora no
mundo, sendo implantados no Brasil.
Em
1990 é aprovado, após um intenso processo de negociação com a
sociedade civil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O
diploma legal definia pormenorizadamente o novo paradigma, estava
tudo pronto para que uma nova forma de se encarar a infância e a
adolescência fosse rapidamente absorvida pela sociedade
brasileira.
Entretanto,
logo de início se percebeu que a alteração do marco legal era
uma etapa, fundamental, é verdade, mas era uma etapa do processo.
Era preciso que crianças e adolescentes antes desconsideradas
pela sociedade, sem voz, sem direitos, sem proteção, passassem a
ser vistas como cidadãos do país. E mais: dadas as suas condições
especiais, meninos e meninas em formação, que passassem a ser
vistas como cidadãos especiais, que necessitavam se um sistema de
proteção de seus direitos.
O
tal sistema estava pronto, precisava, agora, ser conhecido e
reconhecido. Precisava de
legitimidade.
Conforme
ressaltamos na introdução deste paper, o reconhecimento
de um novo paradigma depende, fundametalmente, da capacidade de
comunica-lo. A sociedade civil, ator fundamental na concepção do
novo Estatuto e ator que desde muito antes participou ativamente
das garantias de direitos de crianças e adolescentes, não raro
substituindo o Estado e a família, estava diante de um novo
desafio: como tornar o novo paradigma conhecido, como fazer com
que ele fosse a forma de se pensar as políticas para a infância
e adolescência.
Foi
como resposta a este tipo de inquietação que, dois anos mais
tarde, foi criada a Agência de Notícias dos Direitos da Infância.
A Andi nasceu como uma Ong única, no Brasil, na relação com a
infância e a adolescência. Enquanto a maioria das outras
instituições ou praticavam atendimento direto ou faziam advocacy
junto aos governos sempre com o intuito de proteger os
direitos da infância e da adolescência, a Andi nascia com a missão
de trabalhar com um ator que até então não era visto como
parceiro preferencial no complexo sistema de garantias de
direitos: os meios de comunicação.
Com
o entendimento de que sem uma estratégia consistente de disseminação
do novo Estatuto, então um bebê de dois anos, a criança não
vingaria, a organização passa a estimular os meios de comunicação
para que fossem parceiros desta mudança de rumos na sociedade.
O
cenário, entretanto, não era animador. A cobertura da infância
e adolescência era praticamente inexistente nos jornais e a que
existia estava ainda sob a ótica do antigo paradigma. Após anos
de inflação elevada e de governos autoritários, a mídia
brasileira estava altamente capacitada para falar de correção
monetária e da política presidencial e legislativa de Brasília,
contudo muito pouco familiarizada com as questões sociais que
ganhavam corpo desde a aprovação da Constituição.
Assim,
muito mais do que uma estratégia de monitoramento dos meios de
comunicação, muito comum nos países desenvolvidos, era necessário
o desenvolvimento de uma estratégia de convencimento da importância
do tema e, paralelamente, de uma estratégia de capacitação
daqueles profissionais e/ou veículos que se convencessem.
Voltaremos a estas estratégias.
Ainda
que sem uma formulação conceitual e teórica muito clara, estes
atores sociais dos inícios dos anos 90 acabaram por entender dois
papéis centrais dos meios de comunicação: eles são corresponsáveis
para definição da agenda pública e são fundamentais para a
formação de uma esfera pública de discussões. É a esta
discussão que passamos neste momento.
Quem
guarda os guardiães? A mídia no olho do furacão
Os
pais da democracia norte-americana, nos famosos artigos
federalistas, já apontavam a imprensa como elemento fundamental
para o regime democrático, pensavam em sua tarefa de vigia das
instituições, de fiscalizador do governo. Seria através da
imprensa que os debates relevantes para o eleitorado se daria, era
através da observação que a mesma faria do Estado que cidadãos
e cidadãs poderiam formar sua opinião e decidir o rumo da nação
nas próximas eleições.
Muito
antes dos federalistas Aléxis de Tocquevielle, em sua Democracia
na América, já havia notado que a consolidação de um
sentimento democrático entre as associações de cidadãos
norte-americanos tinha como ponto fundamental a leitura de jornais
e a disseminação de informações através deles.
O
cientista político italiano Giovanni Sartori (1994:133), ao
discutir a importância dos meios de comunicação em uma de suas
obras sobre a democracia, enfatiza:
Nas
democracias de hoje, são os meios de comunicação de massa que
desempenham o papel mais amplo e mais central na formação da
opinião pública. [...] Resumindo tudo numa única frase, diríamos
que o mundo é –para o público em geral – a mensagem dos
meios de comunicação.
Sartori,
é claro, está referindo-se à comunicação de massa. Não
obstante, a construção do espaço público, para utilizar
expressão do filósofo alemão Jürgen Habermas,
no qual se dá a gestação dos formadores da opinião pública
(entre eles os policy makers) e, portanto, da própria
opinião pública, está intrinsecamente ligada ao comportamento
da mídia impressa. É aqui que são iniciados, escondidos,
valorizados ou deturpados os debates fundamentais para o Público
(assim mesmo, com P maiúsculo) como um todo.
Nesse
sentido, a mensagem dos meios de comunicação contribui para a
construção da realidade em que vivemos; “o aparecer na mídia”,
não raro, é o fiel da balança na decisão pública de se atirar
determinada política governamental nas gavetas do esquecimento ou
trazê-la à tona, reforçando-a com o debate e as verbas necessários
para que a mesma se torne realidade. Estamos, portanto, assumindo
que a mídia tem um poder central nas democracias contemporâneas:
definir a agenda pública. A hipótese (do agenda-setting)
que está por detrás disto salienta:
[...]
em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos
outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta
atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos
dos cenários públicos. As pessoas têm tendência para incluir
ou excluir dos seus próprios conhecimentos aquilo que os mass
media incluem o excluem do
seu próprio conteúdo. Além disso, o público tende a
atribuir àquilo que esse conteúdo inclui uma importância que
reflete de perto a ênfase atribuída pelos mass media aos
acontecimentos, aos problemas, às pessoas.
Assim,
pesquisar a cobertura da imprensa sobre determinado assunto é
entender um pouco melhor como tal assunto refletir-se-á na
realidade cotidiana; mais do que isso, é entender como ele não
se refletirá, a partir da observação das lacunas dessa mesma
cobertura.
À
figura do watchdog, ou à do guardião, cabe a indagação:
“quem guarda os guardiães?” O central, contudo, é que os
guardiães estejam propensos a modificarem posturas, práticas, hábitos
com o objetivo último de, sem abdicar do pragmatismo diário,
estabelecer os fundamentos de uma sociedade melhor. Não parece
haver alternativa mais lógica do que iniciar esta caminhada pelo
começo: a Infância e a Adolescência.
A
percepção destes papéis definir a agenda e estimular umz esfera
pública de discussões– do ator “mídia” na sociedade é o
que pautou a ação da ANDI –Agência de Notícias dos Direitos
da Infância– desde o princípio, talvez mais pragmaticamente do
que a partir de uma construção teórica, àquele momento, bem
sedimentada. Ou seja, para que o paradigma do ECA suplantasse o
paradigma do antigo Código de Menores era preciso que: 1) a
agenda pública fosse pautada a partir desta nova filosofia, pois
com a aprovação da nova lei pelo Congresso Nacional, era preciso
que o executivo se sentisse suficientemente pressionado para
implementá-la; 2) o espaço público de reflexão sobre a infância
e a adolescência criado de maneira piloto com a discussão do ECA
fosse fortalecido, a implementação e efetiva construção do
novo sistema de garantias dependeria da concepção de estratégias
inovadoras e da parceria de toda sociedade, a qual precisaria de
subsídios para adentrar neste debate.
Certamente,
muitos eram os caminhos. Não obstante, os fundadores da ANDI
imaginaram o seguinte: o ECA necessita de aceitação e precisa,
para tanto, ser mais discutido e difundido entre os diferentes
atores sociais.
Ora, se a mídia é quem define a agenda e quem liga o motor das
discussões públicas, nada melhor do que trabalhar este ator
primordialmente.
Depois
desta ação inicial, percebeu-se na ANDI, e paralelamente a communication
research foi demonstrando cientificamente, que os meios de
comunicação eram e são atores fundamentais a serem trabalhados
no processo de promoção e defesa de quaisquer políticas públicas.
Os direitos não são diferentes! Admitindo que o poder público
precisa definir a promoção dos direitos como fundamental, que os
atores sociais necessitam adquirir a informação necessária para
trabalhar com seus público-alvos e que a sociedade, por sua vez e
como em um ciclo virtuoso, necessita pressionar seus
representantes para que se interessem por determinada temática e,
para tanto, ela precisa saber mais sobre ela, admitindo tudo isto,
é central que reconheçamos que a mola propulsora do processo é
a mídia, conforme a teoria do agendamento e da definição da
esfera pública salientam.
Entretanto,
a mídia não é uma espécie de ator onisciente que
automaticamente incorpora o que há de mais novo em termos,
digamos, de legislação para a infância e a adolescência. Ela
também precisa ser convencida, instrumentalizada, cobrada. Aqui
entra o papel de organizações como a ANDI. Nosso próximo passo
é abordar, rapidamente, o modus operandi e alguns
resultados desta ação.
Construindo
um jornalismo de qualidade
Observadores
de mídia, em geral, estão preocupados em sistematizar e, um
pouco mais além, analisar criticamente o conteúdo e as ações
dos meios de comunicação. Efetivamente, estas se constituiriam
em duas ações a serem levadas à cabo pela Andi.
Entretanto,
a organização compreendeu que: 1) os jornalistas não estavam
preparados conceitual e profissionalmente para assumir uma
cobertura sob a orientação do novo paradigma; 2) a própria matéria
prima da atividade jornalística, os fatos que compõem a
realidade cotidiana, era, basicamente, orientada pelo novo
paradigma. Neste sentido, era preciso fazer um esforço de
capacitar os jornalistas e de colaborar para que eles pudessem
cobrir ações/iniciativas nacionais e internacionais que fossem
reflexos e demonstrações da mudança efetiva de pensar a
sociedade no tocante àquele tema.
Para
tanto, 4 linhas de ações foram desenvolvidas:
Associação
com as fontes: era preciso capacitar e estimular as fontes de
informação já interrelacionadas com novo paradigma para que as
mesmas atuassem como facilitadoras do trabalho da imprensa.
Afinal, o produto do trabalho jornalístico depende em muito da
atuação das fontes de informação;
Mobilização:
era preciso mobilizar os jornalistas para que passassem a
trabalhar sob a ótica do novo paradigma. Conceitos como menor,
precisavam ser substituídos por criança e adolescente. Era
preciso investigar a implementação mandatória dos conselhos
tutelares e de direitos. Para tanto, foram criadas iniciativas
como o reconhecimento “Jornalista Amigo da Criança” e o
“Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo”;
Monitoramento:
para a verificação dos resultados foi criado um sistema diário
de monitoramento dos 50 mais importantes jornais brasileiros;
Análise:
em algumas temáticas especiais (educação, violência, saúde,
desenvolvimento) era fundamental se aprofundar a análise do
material veiculado pelos meios de comunicação. Para tanto,
ancorados na metodologia de análise de conteúdo, a Andi e seus
parceiros passaram a produzir conhecimento e pesquisa em comunicação.
Os resultados destas análises passaram a se constituir em
importante instrumento de capacitação de fontes e jornalistas,
realimentando o processo.
Resultados
Em
1996, 4 anos após sua criação, a Andi passou a monitorar
diariamente 50 jornais impressos brasileiros. A evolução da
cobertura destes jornais em relação à temática da infância e
da adolescência apontam uma estratégia inicial de elevado
sucesso.
A
cobertura deu um salto quantitativo de 900% em 6 anos de
monitoramento, houve a consolidação de questões públicas
importantes entre os assuntos mais abordados pelos meios de
comunicação. Também houve uma diversidade de vozes na cobertura
da mídia.
O
gráfico 1, abaixo, apresenta a evolução numérica da cobertura
sobre infância e adolescência em 50 jornais brasileiros (de 24
estados da federação) ao longo destes 6 anos. Este crescimento
exponencial da cobertura indica que os temas pertinentes aos
interesses de adolescentes e crianças adentraram definitivamente
na pauta da imprensa brasileira.
Gráfico
1
Fonte:
Relatório “Imprensa, infância e desenvolvimento humano”, no
prelo.
O
quadro 1 também traz informações importantes, há uma consolidação,
nos primeiros lugares da análise, das políticas públicas que
mais afetam a qualidade de vida de crianças e adolescentes. Os
temas relacionados à educação passam, já em 1998, para a condição
de temas mais abordados pelos jornais e aí se mantêm até o
levantamento mais recente. Em segundo e terceiro lugares aparecem
as questões de violência e saúde. Ou seja, a mídia está
pautando uma agenda de discussões, ao menos do ponto de vista temático,
nas direções que mais deveriam merecer a atenção da sociedade.
Quadro
1
Fonte:
Relatório “Infância, imprensa e desenvolvimento humano”
A
construção de uma esfera pública de discussões só pode ser
adequadamente lograda se se conseguir uma pluralidade de vozes
nesta esfera. As temáticas envolvendo as políticas sociais para
a infância e adolescência não são consensuais e, em muitos
casos, estão em fase de construção. Neste sentido, é
central que se dê espaço aos mais diferentes atores para que a
agenda pública, dentro da esfera de discussões, seja construída
com a complexidade que é inerente ao tema. Neste item também
foram obtidos resultados positivos, as fontes de informação
ganharam em diversidade e mais atores passaram a fazer parte do
cardápio de interesses dos meios de comunicação, conforme fica
claro pela tabela
Tabela
1.
A
despeito destes resultados quantitativamente positivos, não se
pode deixar de reconhecer que, qualitativamente, há muito por se
fazer. As análises especiais conduzidas pela Andi mostram que as
matérias ainda relutam em entender crianças e adolescentes como
sujeitos de direitos, não há uma adequada cobertura de causas,
soluções e conseqüências, apesar da pluralidade de fontes, não
há pluralidade de opiniões divergentes.
Os
meios de comunicação também encontram dificuldades para situar
as temáticas da infância e adolescência em um contexto mais
amplo, fazendo relações múltiplas e apontando, para todas as áreas,
desafios comuns que precisam ser superados. Assim, relações de gênero,
questões de raça/ etnia e a própria cobertura de políticas públicas
per se ainda precisam ser melhor consolidadas.
Conclusão
Ao
longo dos últimos 14 anos o Brasil vem conseguindo afirmar e
legitimar um novo paradigma de entendimento do papel de crianças
e adolescentes na sociedade. Os dados estatísticos oficias e de
organismos internacionais apontam queda nas taxas de mortalidade
infantil, aumento do número de alunos matriculados nas escolhas,
diminuição dos níveis de trabalho infantil.
Muitas
destas conquistas foram resultado de uma parceria bem sucedida com
os meios de comunicação que aprenderam a redefinir seu próprio
papel dentro de uma nova realidade de país e uma nova realidade
da infância.
Assim
como as políticas públicas que ganharam a batalha da quantidade,
precisam ganhar a batalha da qualidade, o jornalismo também
enfrenta desafio semelhante. Os primeiros passos foram dados, é
preciso seguir caminhando.
Bibliografia
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Equilíbrio distante: tabaco, álcool e adolescência no
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Que país é este? Pobreza, desigualdade e desenvolvimento
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O grito dos inocentes: os meios de comunicação e a violência
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WOLF,
Mauro – Teorias da comunicação. 5ª ed. Lisboa:
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DATOS
DEL AUTOR
Coordenador
de Relações Acadêmicas da Andi – Agência de Notícias dos
Direitos da Infância
Mestrando
em Ciência Política – Unviersidade de São Paulo
Pesquisador
do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política – UnB
Alguns autores salientam, por exemplo, que enquanto a mídia
argentina, por diversos motivos, boicotou a discussão acerca
dos direitos humanos, tal assunto não entrou para a agenda pública
e ficou anos estagnado. Cf. PARK (2002)
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