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A
participação do receptor no processo comunicacional
Graziela
Soares Bianchi
UNISINOS-RS
- Brasil
Resumo
As
relações simbólicas que se dão no relacionamento entre o rural
vivido e as lógicas da mídia radiofônica constroem o rural
midiatizado. Nesse artigo está presente a investigação e análise
de como essa relação se configura a partir da escuta de
programas de rádio. Os ouvintes participantes da pesquisa residem
em três comunidades rurais distintas. Busca-se então compreender
de que maneira se constroem e são veiculados os sentidos que se
estabelecem entre o rural vivido e midiatizado no relacionamento
entre a mídia radiofônica e os ouvintes que participaram da
investigação.
Palavras-chave-
recepção, rádio, rural.
Ao
relacionar sentidos que estão presentes no consumo midiático, em
uma perspectiva da recepção, ressalta-se a maneira como nesta
pesquisa busca-se observar um dos pontos chave no processo
comunicacional.
Percebe-se
a recepção como sendo constituída no interior de um processo
comunicativo, onde co-habitam múltiplas operações que buscam
uma articulação, entre elas a própria linguagem. Por parte
daquele que é considerado como o sujeito receptor, essas operações
são percebidas de maneira individual, entretanto, os mecanismos
utilizados na apropriação de uma informação, uma mensagem, são
social, histórica e culturalmente construídos.
Exclui-se
a visão difusionista, vigente durante algum tempo na pesquisa em
comunicação onde apresentava-se a passividade como característica
inerente ao receptor. Procura-se compreender também as apropriações
da recepção face à oferta midiática, no entanto, sabe-se que
ela é parte integrante de um processo amplo e complexo, permeado
por contradições.
Nesse
artigo, serão abordadas questões pertinentes à recepção e que
estão relacionadas com uma investigação[1]
realizada no período de 2001 a 2002, onde buscou-se analisar e
refletir sobre relações estabelecidas entre o rural vivido por
habitantes de comunidades rurais e midiatizado via programas
radiofônicos.
Os
programas de rádio estudados foram Brasil de Norte a Sul,
transmitido pela emissora Difusão AM e Hora do Chimarrão,
veiculado pela emissora Erechim AM. Ambas as emissoras estão
localizadas no município de Erechim, no estado do Rio Grande do
Sul. Os dois programas são transmitidos no horário matutino,
entre 5h e 6h30 da manhã. Ambos também são um misto de notícias,
músicas, publicidades e têm como marca bastante forte a intervenção
de seus apresentadores.
Interessava
então a essa investigação saber das apropriações, recusas,
relações estabelecidas e sentidos gerados pelos receptores
habitantes do meio rural a partir
da escuta desses programas radiofônicos. Partindo desta proposição,
elencou-se três comunidades[2]
situadas na região norte do estado do Rio Grande do Sul, próximas
ao município de Erechim. Em uma diversidade de grupos com
características socioeconômicas aparentemente semelhantes, a
determinação das comunidades se deu em função de uma primeira
pré-observação realizada que apontou Linha
Bigolin, Linha Batistela e Povoado Coan
possuindo habitantes consumidores de mídias, especialmente rádio,
o foco da pesquisa. A partir de então, o estudo que relaciona
aspectos da recepção passou a ser direcionado a essas
comunidades. O forte relacionamento com o rádio, instaurado a
partir de uma matriz familiar é uma importante característica
que fez com que essas comunidades fossem investigadas.
A
respeito das características das comunidades em estudo, todas estão
localizadas no meio rural. Linha
Batistela a
aproximadamente 5Km do centro de Erechim, Povoado
Coan 20 Km e Linha
Bigolin 30Km.
O Povoado Coan
é constituído por 40 famílias, Linha
Batistela 15
famílias[3]
e a Linha Bigolin
15 famílias.
As
atividades econômicas a que se dedicam[4]
são: Linha Batistela: produção de hortigranjeiros com destino
à feira do produtor, especialmente, realizada duas vezes por
semana em Erechim, produção de uvas e vinho e criação de
frangos com destino à Cooperativa Tritícola Erechim Ltda
(Cotrel). Linha Bigolin: criação de frangos com destino à
Cotrel e plantio de grãos para consumo próprio. Povoado Coan:
criação de frangos destinados à Cotrel, comercialização de
leite, plantações de pêssego, figo e melão.
O
universo de indivíduos participantes da pesquisa é composto por
sete mulheres e dois homens. A preponderância feminina se dá em
função das mulheres terem suas atividades, na maioria das vezes,
mais próximas a casa, sendo mais difícil interromper o trabalho
dos homens, que geralmente estão em lavouras mais distantes da
residência. Essas pessoas foram escolhidas para participar da
pesquisa após a aplicação de um questionário exploratório,
onde pode-se perceber a disponibilidade e potencialidade de cada
um em estar participando da pesquisa.
A
grande maioria dos entrevistados possui o primeiro grau
incompleto, moram desde a infância no campo e consideram que,
apesar das inúmeras dificuldades encontradas para a produção
agropecuária, o campo ainda é o melhor lugar para se viver. A
faixa etária predominante supera os 45 anos. A maioria dos filhos
dessas pessoas se não reside definitivamente na cidade, trabalha
e estuda, retornado ao meio rural apenas para dormir.
As
histórias de vida dessas pessoas, juntamente com a história de
vida midiática, apresentam muitos pontos em comum. Por estarem
situados em uma faixa etária semelhante, tiveram infância e
juventude marcados por acontecimentos sociais, culturais, econômicos
semelhantes. Por viverem em espaços geográficos próximos e
compartilharem de uma mesma atividade profissional, a agricultura,
têm histórias e vivências semelhantes a serem relatadas.
A
região do Alto Uruguai gaúcho, onde estão localizadas as três
comunidades que participam da pesquisa, é composta por uma certa
diversidade no que diz respeito à imigração, especialmente
européia. Apesar do povoamento da região ter sido realizado por
poloneses, alemães, judeus, nas comunidades investigadas
predominam os descendentes de italianos. A religião preponderante
é a católica. Essa diversidade de características foi
importante na medida em que revelou consigo também uma
diversidade de sentidos produzidos a partir das escuta dos
programas.
Para
conseguir dar conta da riqueza de aspectos presentes nas manifestações
da recepção, foram realizadas entrevistas em profundidade com
cada um dos entrevistados, bem como entrevistas com inserção
radiofônica
A
entrevista em profundidade consiste em uma técnica onde se busca,
a partir de um roteiro de questões, estruturadas em blocos de
interesse, fazer com que o receptor revele dados que possam
apontar para pontos importantes do seu histórico de
relacionamento com as mídias, nesse caso mais específico, o rádio.
São realizadas em mais de uma sessão, sempre respeitando a
disposição e disponibilidade do entrevistado.
A
entrevista com inserção radiofônica, foi uma metodologia
desenvolvida nessa investigação pela necessidade de se colocar o
receptor em contato com os meios de comunicação. Em meio a
perguntas relacionadas aos programas e ao contexto midiático dos
receptores, partes deles, previamente editadas, eram colocadas
para que o entrevistado pudesse se manifestar, seus gostos, suas
rejeições, preferências.
Desta
maneira, pouco a pouco os sentidos produzidos pelos receptores a
partir da escuta dos programas, foram sendo revelados. Sem dúvida,
o sentido mais presente e que se revela de diferentes formas é o
que está relacionado ao rural.
O
rural é a mediação que relaciona o cotidiano, interações
sociais, o trabalho. Relaciona também os usos, consumos, apropriações
do midiático. De uma forma ou outra, atravessa os mais diferentes
campos da vida dos ouvintes; é a mediação que media as demais
mediações.
O caráter preponderante que tem o rural nessa investigação
faz com que ele seja considerado mais que um lugar onde habitam
indivíduos, visto comumente como o espaço da tranquilidade, da
natureza farta, da abundância de alimentos. Nessa pesquisa, o
rural atua como a mediação principal na escuta dos programas
radiofônicos, figurando como ponto de partida das demais mediações.
Essa afirmação é baseada em observações realizadas em
quase dois anos de investigação do cotidiano dos ouvintes que
vivem em comunidades rurais. A ligação que estabelecem com o
ambiente em que habitam desde a infância se dá de maneira muito
profunda. A terra, as plantas, os alimentos, a água, são
elementos que possuem uma significação que vai além da
necessidade do uso, são partes constituintes de suas próprias
vidas.
Quando
se consideram as relações estabelecidas entre o midiático e
consumidores que habitam o meio rural, a presença do ambiente
como mediação não se apaga, revela-se de distintas maneiras.
A sensibilidade com relação ao local, traduzida pela
busca de notícias, de músicas que falem sobre o seu cotidiano,
de referências feitas pelo apresentador do programa com citações
nominais de pessoas e comunidades conhecidas evidenciam a forte
relação com o meio rural. Esse interesse vai além da
necessidade de reconhecimento local em meio ao global, mas está
vinculado ao meio rural enquanto local.
Os graus de identificação que o ouvinte estabelece com os
programas radiofônicos passam também pelo papel exercido pelo
apresentador. Nas suas intervenções, o ouvinte busca reconhecer
alguma manifestação que tenha vínculo como o meio rural. A voz,
as entonações, os termos utilizados são elementos que mobilizam
as relações de identificação, que guardam algum sentido que
pode ter vinculação com o meio rural. Em diferentes manifestações,
o rural se revela como o lugar por onde os sentidos passam, onde são
produzidos e por onde também circulam.
A vivência do e no rural é demonstrada pelos ouvintes
como sendo determinante na forma como se dá o relacionamento com
o midiático. As interações propiciadas pelo rural, as
dificuldades da vida no campo, os prazeres, as relações entre o
campo passado e presente são expressas como o ambiente, o espaço
em que os vínculos com os meios de comunicação se estabelecem.
Sentidos acerca do relacionamento entre campo e cidade também
estão presentes no cotidiano e no imaginário dos habitantes do
meio rural. O reconhecimento do campo como o lugar da vida saudável,
do local onde se pode desfrutar da tranqüilidade, convive lado a
lado com o sentimento de incerteza quanto ao futuro da
agricultura, sobre as condições de infra-estrutura que hoje
existem no meio rural. Educação, saúde, lazer, condições
longe do ideal, anseios nem sempre satisfeitos e que acabam
gerando a impressão da realidade estática, do poder de mudança
sempre pertencente ao outro[5],
ao governo, ao morador urbano.
O outro, na
concepção do indivíduo que vive no campo, geralmente ocupa a
posição do sujeito urbano. É visto como o diferente, o seu
oposto, aquele que é ao mesmo tempo invejado e de quem se tem
pena, pelas difíceis condições de vida na cidade. O fascínio
construído em torno do cotidiano do homem urbano, seu trabalho
“menos desgastante”, a posição social que ocupa, os bens aos
quais tem acesso, todas essas construções passam também pelo
midiático, pela relação estabelecida com as diferentes mídias.
Se o sentido que se constrói sobre a cidade contém muito de um
padrão de vida imaginado, mas quase sempre inatingível, a relação
cotidiana de trânsito pelos dois mundos, o urbano e o rural, faz
transparecer um sentimento de inferioridade, discriminação pelo
fato de ser um habitante do campo, um agricultor.
“O
campo e a cidade são inimigos. Os da cidade, urbanos, eles
desprezam os colonos, e os colonos desprezam os urbano. Isso
acontece porque os urbanos são responsáveis. Eles vêem uma
pessoa meio mal arrumada, mal ajeitada, que é o meu caso, eu não
gosto de andar bem arrumada não, e tenho condições de andar bem
arrumada, mas eu me sinto mal, então eles começam a chamar de
colono, começam a rir da pessoa, e é claro, os colonos também não
vão ficar pra trás, chama eles de loucos de fome, porque na colônia
pelo menos bem eles comem, e ao passo que os urbanos não, se eles
tem dinheiro eles comem, do contrário é negativo”. Ebraima[6].
O que se
coloca aqui também nessa geração de sentidos é o
relacionamento entre uma cidade imaginada e uma cidade midiática,
bem como um campo midiático com um campo imaginado. A cidade
experencial, vivida, faz parte da vida de somente uma pessoa das
nove que participam da pesquisa. Para a maioria dos ouvintes, a
cidade é construída através de referencias de amigos, parentes,
vizinhos, dos trânsitos rápidos que efetuam pela cidade e dos
referenciais diários ofertados pela mídia.
É a partir
dessa cidade imaginada que os colonos constroem seus discursos,
externam suas percepções e criações mentais. Uma cidade
repleta de perigos, violências, dificuldades, mas compensadora,
na medida em que representa um lugar limpo, com oportunidades, salário
garantido no final do mês, pagamento por um trabalho pouco
desgastante.
No que se
refere à vida no campo, o imaginado cede lugar ao vivido.
Entretanto, existe o contato com o campo midiático, que mescla o
rural experenciado e o rural representado pela mídia,
especialmente pelo rádio. Nessa junção o colono se reconhece,
se insere em uma realidade mista, onde está presente seu
cotidiano e outras construções simbólicas sobre o rural.
O
rádio e a construção da história pessoal
De formas diferenciadas, com diferentes intensidades, todas
as pessoas que participaram da pesquisa têm o rádio como parte
integrante de suas vidas. Mais do que isso, a escuta radiofônica
está diretamente vinculada à construção da história de cada
indivíduo, a trajetória de vida que se estabelece e onde o midiático
também marca presença.
As manifestações da presença do rádio como elemento de
construção da história individual se dão de diversas maneiras.
Vinculações são estabelecidas através de identificações com
matrizes radiofônicas, especialmente gêneros de programas em que
estão presentes o musical, o jornalístico, a publicidade, o
apresentador como um elemento que exerce o papel de mediador entre
os diferentes gêneros existentes em um programa e também acaba
transformando seu espaço de intervenção em um outro gênero.
Todos esses aspectos possuem relação direta ou indireta
com a forma como foram sendo estabelecidas as referências de cada
indivíduo e principalmente a maneira como se construiu o consumo
midiático.
Para os participantes da pesquisa, é muito forte o
relacionamento que estabeleceram com o rádio desde a infância.
Vinculam então relações entre o rádio do passado e o rádio
atual, buscando estabelecer estas mesmas relações com as suas próprias
vidas.
“Eu devia
ter uns cinco anos, eu mal me lembro. Nós compramos um rádio
desses grandes, eu tenho ainda lá no porão, é bem antigo, um
radião a bateria, o pai comprou, daí as primeiras vezes que eu
ouvi assim, tinha o terço de noite. Na minha casa minha mãe era
muito religiosa, o pai também. Eles rezavam o terço. Era assim,
a gente jantava, lavava a louça e depois ia pra sala e rezava o
terço, todo mundo de joelhos. Quem rezava era sempre minha irmã
que fazia o catecismo, então ela rezava o terço e ficava todo
mundo lá. Depois veio o terço no rádio e todo mundo ouvia.
Quando o pai trouxe o rádio, Mamma Mia, que alegria! Ninguém se
segurava, sentava todo o mundo pra escutar o rádio. Aquilo era
uma coisa de sentar e ouvir o rádio” Cristina.
Essa vinculação que se estabelece entre o vivido e o midiático
não acontece de maneira automática, é fruto de construções
simbólicas que são efetuadas ao longo de toda a vida. O midiático
não se apresenta de maneira isolada na vida dos indivíduos, ele
estabelece sentidos com todas as demais mediações existentes na
vida das pessoas.
Da escuta radiofônica do passado, guardam-se recordações
de matrizes radiofônicas que acabam sendo recriadas, repetidas,
reconfiguradas com o passar dos anos. Dos programas que se ouvia
em anos passados, se têm poucas lembranças de detalhes, nomes de
apresentadores ou mesmo dos próprios programas. O que se tem vivo
na lembrança são os formatos principais apresentados. Esses
programas radiofônicos que foram ouvidos e que em sua grande
maioria já não existem mais são lembrados especialmente por
apresentarem o local, o regional. Essa relação com o local é
determinante na identidade dos ouvintes, no seu reconhecimento
como pertencentes a um lugar, como parte ativa em uma sociedade,
como pessoas úteis pelo trabalho que desenvolvem.
Os sentidos que são vinculados ao passado, deixando
transparecer marcas simbólicas que evidenciam que o que já não
existe mais era o melhor, estabelecem relação com matrizes de
uma cultura tradicionalista, conservadora, saudosista. Isso pode
ser vinculado também ao fato dos ouvintes pertencerem a uma mesma
faixa etária, tendo participado e vivenciado situações que
concernem a uma mesma época.
De uma
outra perspectiva, pode-se dizer que essa vinculação tão forte
com o passado atue como uma espécie de mecanismo de defesa, uma
maneira de se assimilar a realidade presente, caracterizada por
dificuldades na agricultura, pelo abandono do campo pelos filhos,
pela falta de
perspectivas de um futuro promissor.
Um relato
que se apresenta como característica comum nas construções
discursivas dos ouvintes quando se estabelecem relações
vinculadas à memória midiática radiofônica diz respeito a toda
uma ritualidade que se construía em torno do uso do rádio.
Os primeiros exemplares de aparelhos radiofônicos que começaram
a ser popularizados eram movidos à bateria. As temporalidades de
escuta do rádio eram determinadas pelo uso desse equipamento. Em
todos os casos, a fonte de energia possível de ser utilizada
vinha de rodas d’água dos moinhos de farinha. Esses moinhos
estavam localizados em pontos estratégicos das comunidades
rurais, sendo que para os moradores que viviam em lugares mais
afastados, o tempo dispensado para que se levasse a bateria para
ser recarregada era grande.
Nas casas, além da mediação familiar na escuta,
representada pelo poder de decisão do pai sobre os momentos e
programas a serem ouvidos, todos precisavam conviver com as restrições
impostas pela dificuldade que representava o processo de
recarregar a bateria.
“Em casa,
antigamente, tinha aquele rádio a bateria. As vezes a gente tava
lá na roça e meu finado pai não sabia ligar o rádio baixinho,
ele ligava aquele rádio allllto que lá de cima a gente escutava
aquela barulheira lá. Quando acabava aquela carga de bateria aí
a gente colocava numa caixa enrolada em sacos de estopa e ia, ia
em um riozinho que tinha um rodão onde carregavam. Aquela bateria
ficava lá, cinco, seis dias”. Irene.
“Rádio
faz uns 63, 64 anos que eu ouço. Foi lá m casa mesmo, rádio a
bateria. Meu finado padrasto tinha comprado um rádio, mas era um
caixão, maior que essa TV. Tinha que ir longe para carregar a
bateria, num moinho. As vezes levava três, quatro dias pra
carregar a bateria e a gente sem rádio”. Ebraima.
Toda essa ritualidade colaborava para
agregar valores simbólicos ao rádio, seja enquanto um objeto, um
utensílio doméstico, seja como meio de comunicação. As
dificuldades de obtenção de um aparelho de rádio, as relações
de poder estabelecidas no momento da escuta, são fatores que
fazem com que a escuta do passado tenha ficado marcada na vida e
no imaginário de cada um desses receptores.
A música e
seus sentidos
A presença
da música na vida dos ouvintes se revela como um forte elemento
de identificação e que adquire diferentes sentidos nas distintas
situações e etapas da vida. A relação entre a música e a história
de cada indivíduo se constrói de acordo com a forma como esse gênero
se vincula à sua vivência. Os sentidos que a música irá
adquirir variam de acordo com as relações familiares, o ambiente
de trabalho, a sua significação ligada ao lazer, entre outros.
Cada um, de
acordo com o seu cotidiano, irá estabelecer tempos e espaços próprios
para a música. O tempo de despertar, o tempo de adormecer, o
tempo da refeição, o tempo do lazer, o tempo do trabalho, em
algum deles, a música irá se estabelecer e construir um sentido
próprio.
Gêneros
musicais, ritmo, voz, letra são os elementos mais observados
pelos ouvintes e que exercem uma identificação maior. O
sertanejo e o gauchesco aparecem como únicos na escolha da escuta
musical e mais do que isso, em grande parte os programas Brasil de
Norte a Sul e Hora do Chimarrão só são ouvidos por trabalharem
exclusivamente com esse tipo de músicas.
As letras,
a sonoridade, os ritmos, as vozes, todos esses elementos se
constituem de maneira singular nos gêneros sertanejo e gauchesco.
A relação do homem com a natureza, histórias de vida, de
trabalho, de amor são temas recorrentes nesses tipos de música e
que promovem uma identificação com o indivíduo que vive no
campo, que vê seu cotidiano, sua vida, sua história retratados
em forma de canção.
A vinculação
existente entre os ouvintes e esses dois gêneros musicais faz
parte de um gosto social e historicamente construídos. É
recorrente a lembrança da escuta na infância, um costume
adquirido com os pais, que se perpetua até hoje e que de alguma
maneira também foi repassado a outras gerações.
Em diversas
ocasiões, mencionam o fato da busca de uma mensagem na música,
traduzida em forma de letra; uma mensagem de otimismo, uma
mensagem de identificação, alguma coisa que lhe emocione, lhe
conforte, fale sobre seu mundo, seu cotidiano, seus sentimentos.
Essa também é uma justificativa para a escuta de músicas
sertanejas e gauchescas, que trariam em sua constituição todos
esses sentidos procurados.
“O
que eu gosto mais na música é a letra. Às vezes ele canta
alguma coisa, a gente pensa alguma coisa assim: aconteceu comigo,
ou será que vai acontecer...fica pensando assim. Uma música tão
bonita e eu fico pensando: bah, porque não é assim pra gente
também, fico comparando uma coisa com a outra”. Ivani.
Assim como
a letra, a sonoridade e a intensidade se revelam importantes na
escolha e escuta das músicas. De acordo com o seu repertório,
construído ao longo dos anos, o indivíduo irá eleger o ritmo
lento em detrimento do rápido, a música mais antiga ao invés do
lançamento, a escuta em volume mais alto ou não. Todos esses
aspectos estão presentes na escuta e dizem muito sobre um gosto
musical construído ao longo de uma vida toda. (“Eu gosto de uma
música mais rapidinha. Hoje eu tava vendo um programa gauchesco
na TV e tinham duas senhoras cantando. Uma cantava leeento, aí eu
já não gosto. A outra era diferente, aí eu já gosto mais”).
Matilde.
Sentidos
relacionados ao apresentador
O modo alegre como os apresentadores
conduzem o programa, carregando sempre o seu discurso de humor,
faz com que o ouvinte seja atraído pela maneira de comunicar
apresentada. O jeito simples de falar, as expressões ou mesmo um
tom repressivo muitas vezes adotado, favorecem a identificação
com o ouvinte. O apresentador fala aquilo que o ouvinte gostaria
de falar, mas não pode, não tem um veículo para isso e nem
mesmo a legitimidade do apresentador. O apresentador se transforma
na sua voz, na voz do colono.
“Eu acho
ele assim uma pessoa bem simples, e ele dá valor assim a tudo.
Ele vem aqui e diz que gosta muito dos agricultores, que são
gente que trabalha, que não reclamam de nada, não atrapalham, e
assim, bem simples ele é. Ele diz assim: bah, se os governos
ajudassem mais, vocês poderiam tr isso, poderiam ter mais, então
parece assim que ele vê o ponto dos outros”[7].
Ivani.
“Eu pra
mim que ele é brincalhão, meu marido acho que até não gosta. O
dia que não ta ele na rádio não tem graça, porque o cara lá,
o outro radialista conversa um pouquinho ali e depois já bota a música,
ao invés esse ali ele já...ele é muito conversador”[8]. Nilva.
O espaço de mediador, de condutor das atrações do
programa é considerado como essencial pelos ouvintes. É um espaço
respeitado, legitimado. A sua presença, através da voz e do que
sua voz transmite faz a ligação com o que buscam: a música, a
notícia, o entretenimento, a informação. A voz, considerada
bonita, declarada, a voz que é autorizada pelo midiático a
falar, participa da construção dos sentidos que os ouvintes irão
estabelecer com o programa.
As intervenções do apresentador, na maioria dos casos, são
vistas como pertinentes, convincentes, autorizadas. O espaço que
ocupa é visto como legítimo e essa legitimidade é justificada
pela competência, que muitas vezes perpassa o espaço do midiático,
penetra outras áreas, outros setores. Se o indivíduo se
apresenta como um bom apresentador, um bom locutor, logo deve ser
uma “boa pessoa”.
Mais
importante do que conhecer o apresentador, é poder compartilhar
com ele mesmas referências culturais. Sua voz, o programa que
apresenta, materializam não apenas notícias, músicas,
comerciais, mas remetem o ouvinte a sua própria história, sua própria
origem.
Aí está o caráter identificatório que a mídia é capaz
de mobilizar. O consumidor midiático procura a informação, o
entretenimento, o serviço, mas elege os programas que de alguma
maneira tenham correspondência com o seu repertório cultural,
social e também midiático. Esse processo não acontece de
maneira simples, é uma construção que se perpetua por toda a
vida.
Notícias
e informação
Para os ouvintes dos programas Brasil de Norte a Sul e Hora
do Chimarrão, as informações jornalísticas são imprescindíveis
no dia-a-dia. Tão valorizadas quanto a música sertaneja e
gauchesca, recebem uma atenção especial.
O interesse maior evidenciado na escuta das informações
está vinculado à agricultura e também os acontecimentos
caracterizados por acidentes, mortes, fatos imprevisíveis e
sempre de interesse jornalístico. Essas informações
caracterizam-se como importantes por possibilitarem a convivência
social, por se ter assunto para debater na comunidade.
Já as notícias sobre agricultura interessam por estarem
vinculadas ao cotidiano, ao trabalho, ao espaço em que se vive.
No entanto, é recorrente a constatação de que não só nos
programas radiofônicos Brasil de Norte a Sul e Hora do Chimarrão,
mas na mídia de forma geral, há uma escassez de abordagem do
tema.
Os ouvintes vêem o fato como desinteresse pelo setor
rural. Esse fato só vem reiterar uma percepção que está
relacionada a um sentimento de abandono, da sociedade, de políticas
públicas e também da mídia.
“Alguma
notícia que eles dão é tipo roubo de gado. Outras notícias tu
não ouve não. Dizer que aquele colono ta indo mal porque não
tem ajuda, ou aquele vai bem porque tem ajuda do governo,não,
nadica de nada”. Ebraima.
Para esses agricultores, a mídia deveria se preocupar em
levantar discussões sobre os diversos problemas existentes na
agricultura brasileira, mostrar na TV, no rádio, no jornal a
realidade vivida no meio rural. Refletir sobre a concessão de créditos
para a agricultura, incentivos para o desenvolvimento rural
sustentável, auxílio técnico para o plantio, a colheita, a criação
e comercialização de animais são apenas alguns dos pontos que o
agricultor gostaria de ver no midiático.
De alguma maneira, todas as notícias parecem interessar os
ouvintes. De acordo com sua história, sua vivência, seu
cotidiano, seu relacionamento com a mídia, cada um irá construir
a sua preferência. Exceto na questão relacionada à agricultura,
o espaço para a informação existente nos programas tem sido
visto como satisfatório.
O interesse, a preferência por informações locais se
coloca de maneira bastante forte. Na maioria dos casos, a televisão,
com seus telejornais noturnos, se presta ao fornecimento das notícias
nacionais e internacionais. O local é quase sempre de competência
do rádio e é onde o interesse pelo jornalístico se apresenta de
maneira mais intensa.
Os ouvintes
têm a percepção da diversidade de assuntos que as notícias
abordam, entretanto, a violência tem povoado o imaginário do
morador do meio rural. Pela mídia, tem acesso a uma realidade que
o amedronta, que está na cidade. Como a cidade está cada vez
mais próxima, espacial e temporalmente, está mais próxima de
seu cotidiano também.
“A
gente gosta de ver as notícias boas, mas às vezes não vêm as
boas. Às vezes vem assalto, morte, assassinato. Assaltaram o ônibus
da cidade, atiraram no motorista, ele que não fez mal nenhum. Não
se sabe nem quem foi, quem não foi. Então, não é porque a
gente gosta que a gente ouve as coisas. As vezes a gente ouve
coisas que a gente não gosta. A gente gostaria sempre de uma notícia
boa, preço bom do produto, que bom que sempre fosse assim”.
Irene.
Sentidos
do rural midiatizado
De diferentes maneiras, em distintas abordagens buscou-se
estimular os ouvintes a estabelecerem relações entre o rural
cotidiano, vivenciado no dia-a-dia, presente na história e na
trajetória de cada um deles, e o rural veiculado pela mídia.
Comparações, descrições, afirmações e negações sobre a
existência isolada de cada um deles e também o relacionamento
entre as duas instâncias foram propostos aos ouvintes sem que
houvesse uma resposta esperada, supostamente relacionada à presença
do conflito, da disputa por significação, da luta entre os dois
campos no imaginário de quem habita o meio rural.
O relacionamento entre o rural vivido cotidianamente e o
rural presente nos programas de rádio, evidenciado em músicas,
notícias, publicidade, participação dos apresentadores, se
mostra aos ouvintes de maneira natural, automática, desprovida de
qualquer tipo de conflito, de contradição. O rural que apresenta
pelo viés do midiático é considerado como o ‘seu’ rural,
com mesmas lógicas, mesmas rotinas, mesmos temas, mesmas relações.
Em um universo de pequenos produtores, com pequena produção
destinada à comercialização, tendo mais o caráter de subsistência,
é surpreendente a percepção de que integram um mesmo universo
dos grandes investidores do agrobusiness, interessados na ascensão
e queda do dólar, na cotação de bolsas internacionais e que
participam do mercado exportador.
O local, tão buscado nas notícias, tão referendado nas
canções que escutam, cede lugar ao global, a referências que só
têm acesso via mídia. O midiático então se configura como
parte do vivido, participando ativamente nas construções
cotidianas de sentido.
Esse processo, que apresenta uma constituição complexa,
é incorporado à vida rural de maneira simples e natural. Tudo
quanto o rádio divulga sobre o rural tem correspondência e
identificação imediata com o ouvinte. Não há um questionamento
sobre as distinções existentes na constituição desses
‘rurais’.
Esse fenômeno explicita mais do que um uso vinculado à mídia,
demonstra a forma como o midiático está presente na vida, na
história, nas percepções dos indivíduos que, nesta pesquisa,
passam a naturalizar referências que estão situadas em outros
lugares que não originalmente os seus.
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