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Entre
o Centro e a Periferia, há mais coisas do que supõe a nossa vã
teoria: Proposta de uma matriz de análise dos fatores de mediação
na prática comunicativa, no contexto de um modelo de comunicação
para políticas públicas.[1]
O
trabalho propõe um modelo de análise e planejamento estratégico
da comunicação nas políticas públicas, especialmente nos
processos de intervenção social. O “Modelo do Mercado Simbólico”,
em rede, descentrado e multipolar, compreende uma formulação teórica,
uma representação gráfica dos principais componentes e suas
relações e uma matriz de análise e planejamento estratégico
das relações comunicativas. A matriz objetiva identificar os
fatores de mediação na prática comunicativa e inclui fontes,
campos, instâncias, comunidades discursivas e uma tipologia de
fatores.
Qualquer
produto, uma vez pronto e em circulação, passa a ser visto de
forma isolada das condições sociais que o formaram. Com modelos
não é diferente e o modelo da Comunicação &
Desenvolvimento oculta hoje suas condições de produção,
fortalecendo sua presença. Oculta também o que está fora do
modelo, impedindo uma compreensão mais abrangente da realidade.
Atualmente, em alguns espaços a noção de “comunicação”
vem sendo substituída pela de “informação”, conceito que
prejudica a compreensão dos processos sociais implícitos e
implicados no conceito de comunicação, quando usado como
equivalente deste. “Informação”, assim utilizado, é um
conceito predador, que engole as dimensões histórica, política
e econômica das relações sociais e oculta os interesses em
luta. A substituição em nada modifica a natureza e as conseqüências
do modelo desenvolvimentista.
Uma
dificuldade deste modelo em dar conta da realidade comunicativa
está na sua natureza linear e unidirecional. A comunicação é
entendida como um processo de repasse de mensagens de um pólo a
outro, cuja maior preocupação, além de utilizar códigos
reconhecíveis, é eliminar os chamados ruídos,
as interferências que possam prejudicar a decodificação dessas
mensagens. Ou seja: eliminar a polifonia social e discursiva e
garantir a linearidade do processo. Ao fazer isto, promove a dissolução
tecnocrática do político, para
usar uma expressão de Barbero (1993).
De fato, ao eliminar a polifonia, o modelo não considera as
divergências, eliminando aquilo que representa justamente o
confronto de interesses. (A tendência é, então, deixar sem
sentido as contradições, por considerá-las não como expressões
de conflitos, mas como resíduos de ambigüidade
(p. 224)). Um
outro ponto de estrangulamento é a concepção de significado,
entendido como algo imanente aos códigos lingüísticos, portanto
algo transferível.
O
deslocamento ocorrido a partir dos anos 80, em alguns espaços
acadêmicos e institucionais, que inverteu o foco do processo
comunicativo, atribuindo ao receptor a responsabilidade pela produção
dos sentidos, pouco mudou o caráter funcionalista da comunicação
(Mattelart:282). Desde os anos 50, a partir da teoria da Comunicação
em Duas Etapas, depois com a corrente dos Usos e Gratificações,
já havia o reconhecimento da importância do receptor, sem que
isto modificasse traços essenciais desses modelos, a bipolaridade
e a linearidade do processo comunicativo. Assim, tomam-se dois pólos
e são estabelecidas suas relações, apenas invertendo-se o
protagonismo da relação. O deslocamento para o receptor repete a
limitação dos modelos dominantes: oculta as determinações
estruturais, as relações de poder, as contradições. Se o
estruturalismo levava a um emissor e um receptor abstrato, o
empirismo dos estudos atuais de recepção produz um receptor tão
concreto que oculta a sociedade em que vive.
Não obstante, outras possibilidades vão se esboçando: são
postas em cena as mediações e negociações, nos diversos âmbitos
e entre os diversos atores e fatores que formam a prática
comunicativa. Adquirem relevância as noções de consumo (Certeau
e Canclini), mediações culturais (Barbero e Orozco), táticas e
estratégias (Certeau), entre outras. É nesse contexto teórico
que minha proposta se inscreve.
Introdução
ao modelo do mercado simbólico
O
modelo que proponho deseja representar a prática comunicativa nos
processos de intervenção social que dão concretude às políticas
públicas. Para tanto, articulei elementos conceituais já
existentes em outros quadros teóricos, acrescentei o conceito de
lugar de interlocução e propus uma formulação básica, com uma
correspondente representação gráfica. Que formulação é esta?
A
comunicação opera ao modo de um mercado, onde os sentidos
sociais – bens simbólicos – são produzidos, circulam e são
consumidos. As pessoas e comunidades discursivas que participam
desse mercado negociam sua
mercadoria – seu próprio modo de perceber, classificar e
intervir sobre o mundo e a sociedade – em busca de poder simbólico,
o poder de constituir a realidade.
Detalhando
os termos:
Ä
Comunicação é o processo de produzir, fazer circular e consumir
os sentidos sociais, que se manifestam através de discursos.
Ä
Esse processo caracteriza um mercado simbólico, no qual o
circuito produtivo é mediado por uma permanente negociação.
Ä
Esse mercado pode ser operado por indivíduos ou por comunidades
discursivas, considerados no modelo como interlocutores.
Ä
Comunidades discursivas são grupos de pessoas, organizados ou não
de forma institucional, que produzem e fazem circular discursos,
que neles se reconhecem e são por eles reconhecidos.
Ä
Cada interlocutor ocupa nesse mercado uma posição, que se
localiza entre o centro e a periferia discursivos, posição que
corresponde ao seu lugar de interlocução e lhe confere poder de
barganha no mercado simbólico.
Ä
Cada interlocutor desenvolve estratégias de trânsito entre as
posições, visando sempre uma maior aproximação com o Centro.
Essas estratégias se apóiam em fatores de mediação, que são
os fatores que favorecem ou dificultam o fluxo
entre as posições.
Ä
Os fatores de mediação são de ordem pessoal, grupal, coletiva
ou organizacional, material ou simbólica e ocorrem em contextos,
cuja articulação determina o lugar de interlocução.
Antes de passar à
representação gráfica do modelo, quero esclarecer sobre o modo
como a noção de mercado vem sendo tratada aqui.
A construção social dos
mercados
Apesar
do destaque adquirido na contemporaneidade, mercado é uma
categoria de análise presente na teoria econômica desde o séc.
XVIII e, na sua concepção capitalista, aparece na História
desde a revolução industrial. São diferentes, porém, os modos
de considerá-lo. Desejo destacar dois deles, o que fundamenta a
idéia de “mercado livre” e o que mais se aproxima da concepção
do mercado simbólico, que é o da “construção social dos
mercados”.
O
primeiro configura a perspectiva neoclássica, que sustenta que os
atores se encontram individualmente para transacionar, em busca do
preço melhor e acredita no homem econômico, que independe do
jogo social ou político. Acredita também que o único interesse
seria a maximização do lucro e que, como qualquer fenômeno, o
mercado possuiria leis próprias de funcionamento. Outra crença
é que a informação está disponível de modo igual para todos.
Em
contraposição, temos a perspectiva institucionalista, que afirma
que o mercado está social e culturalmente enraizado; que funciona
segundo fatores como confiança, reciprocidade, costume etc.; que,
além do preço, há outros elementos que definem as escolhas; que
o acesso à informação é assimétrico. Sendo sustentado por um
conjunto de instituições (jurídicas, sociais, políticas...),
as relações nesse mercado são estruturadas pelos interesses em
jogo.
A
noção de interesses remete para a de confronto e luta, pois os
interesses não são harmônicos. Pelo contrário, vivemos numa
sociedade desigual, com distribuição desigual dos recursos de
toda ordem. Nesta perspectiva, devemos admitir que uma negociação
de desiguais não pode prescindir do caráter de luta. É por isto
que podemos operar ao mesmo tempo com uma perspectiva de luta simbólica
e com um modelo que privilegia a noção de mercado: o mercado
simbólico é um mercado de desiguais e a negociação que nele se
processa tem o caráter de luta por posições de poder
discursivo. Como toda luta, supõe confrontos e embates, mas também
acordos, alianças, sinergias. Mas, quero ainda argumentar a favor
da opção por um modelo de mercado, ao enfocar a prática
comunicativa.
Quando
Bourdieu escreveu Ce que parler veut dire (“o valor exato do que
é dito”, numa tradução livre desta expressão popular
francesa), estava se contrapondo a uma teoria estruturalista,
baseada fortemente na lingüística, que se coloca diante dos fenômenos
simbólicos como se estivessem lidando com línguas mortas, estáticas,
diante das quais se deve reconstituir o código. É como se o fenômeno
social que o texto expressa tivesse sido produzido para ser
decifrado pelo cientista. O modelo bourdineano diz respeito a uma
teoria da ação, em particular ao ato de fala.
A
expressão francesa remete para a compreensão de que existe algo
mais no ato de falar do que simplesmente a língua. Tal como
Bakhtin, Bourdieu substitui o ponto de vista da língua pelo ponto
de vista da fala. E, além de trabalhar com a competência lingüística,
comum a todos os lingüistas, ele enfoca a competência para usar
corretamente a competência. A essa situação ele chamou de
“mercado”. E, quem fala de mercado, fala de capital, no caso
dele capital simbólico.
Quando
falamos, produzimos um produto que, sob certo aspecto, é um
produto como outro qualquer, portanto, destinado a estar sujeito não
só à interpretação, mas também à avaliação. (...) A
antecipação do preço que o produto vai receber vai intervir no
nível da produção. Concretamente, isso significa que, quando
produzo um determinado discurso, preocupo-me mais ou menos com o
efeito que ele vai produzir naquele a quem o dirijo. A antecipação
do preço que meu discurso receberá ajuda a determinar a forma e
o conteúdo dele, que será mais ou menos tenso, mais ou menos
censurado, às vezes até o ponto de ser anulado – é o silêncio
da intimidação. Se meu discurso pode receber um preço, isso
ocorre porque quando falo, digo o que digo, mas também digo algo
a mais na maneira de dizê-lo. (2000, p.53).
Ele
fala então da aceitabilidade, um conceito que determina
justamente o que pode ou não ser dito em tal ocasião ou tal
lugar. Para ele, este senso de aceitabilidade, que temos em estado
prático, exerce coerção sobre o discurso. É aí que entra a
questão da “competência” para falar, ou seja, das distinções
sociais que se exercem no domínio da fala. As competências
concorrem entre si e definem o valor que será atribuído a cada
fala. Voltamos então ao tema do mercado simbólico, espaço dessa
concorrência, na qual intervêm inúmeros fatores. A competência
lingüística se exerce desigualmente, ela é monopolizada por
alguns, outros são despossuídos em graus variados. Essas
desigualdades manifestam-se nas trocas cotidianas. A competência
é, por outro lado, um diferencial social, não só acentua, mas
produz as diferenças sociais. Então a língua, para Bourdieu, não
é um tesouro comum, mas um artefato histórico, o produto de um
trabalho social operado pelos agentes em situação de concorrência.
Em outro
lugar (1989:55-6), Bourdieu fala mais deste tema, tratando o espaço
comunicativo como um mercado lingüístico, do qual ele destaca
algumas propriedades. Uma, de ser um espaço pré-construído, ou
seja, operado por um grupo social determinado, regido por regras
determinadas, que estabelecem, entre outras coisas, quem pode
falar e o que se pode falar. Outra, ser o lugar da atualização
da interseção entre os diferentes campos. Em outras palavras,
ele põe em cena as múltiplas negociações que se verificam no
mercado simbólico, desde as textuais até as macrocontextuais. E
realça a importância daquilo que eu chamo de contexto
situacional, como a pertença a campos e o lugar que ali ocupam
– o “lugar de interlocução”, nos termos deste trabalho. As
estratégias discursivas dependem das relações de força entre
os campos e os trunfos que a pertença a estes campos conferem ao
interlocutor.
A
partir da noção de comunicação como um mercado simbólico,
pode-se definir a prática comunicativa como o ato de ativar o
circuito produtivo dos sentidos sociais. Produção e circulação
são seu espaço mais evidente. Mas, se considerarmos o processo
de semiose infinita, que estabelece que cada receptor/consumidor
é também um produtor de novos sentidos, a partir mesmo do ato e
dos modos de consumir, então o consumo é espaço essencial da
comunicação.
Uma
estratégia de comunicação é, então, o modo como se ativa
algum fragmento desse circuito e como se participa do mercado simbólico,
lugar onde os sentidos sociais são produzidos. Se pensarmos que a
prática discursiva está submetida a condições de desigualdade
do poder simbólico – poder de constituir a realidade – e se
pensarmos na noção de intertexto e interdiscursividade presentes
na formação dos sentidos sociais, teremos que pensar que é
imprescindível perceber como relevante o processo de formação
dos sentidos sociais. No fim da linha, estão conceitos como
liberdade, democracia, cidadania, política. A perspectiva do
mercado simbólico é um modo de compreender como se formam os
sentidos sociais, portanto, como se formam as condições de
percepção e ação das pessoas
sobre o mundo.
Passemos, porém, à
visualização dos componentes do modelo.
Representação
gráfica do modelo
1)
SENTIDOS
SOCIAIS
Os sentidos sociais
formam uma rede semiótica, dinamizada pela interdiscursividade. O
processo de produção – circulação – consumo, que
caracteriza o mercado simbólico, é representado no modelo por
uma malha de fios, cujo traçado ondulante busca caracterizar a
contínua transformação dos sentidos, em seu processo de circulação.
2)
OS INTERLOCUTORES
A produção, circulação
e consumo dos sentidos sociais é mediada por um processo de
negociação, que é operada por pessoas e comunidades
discursivas, os “interlocutores”. O modo de cada interlocutor
participar do mercado simbólico é produto da articulação de vários
contextos, sendo que os mais relevantes para um modelo
comunicativo são: contextos existencial, situacional, textual e
intertextual, que podem ser assim representados:
A noção de interlocutor
se opõe às de “emissor e receptor”, dissolvendo a estrutura
linear e instaurando a idéia de que cada pessoa participa por
inteiro do circuito produtivo que caracteriza a prática
comunicativa. No modelo, os interlocutores são localizados nos nós
da rede, significando que cada interlocutor é, simultaneamente,
agente e espaço de negociação dos sentidos.
3)
POSIÇÕES DISCURSIVAS
Neste
modelo, Centro e Periferia são posições móveis e negociáveis.
Optei por representá-las por uma espiral, que traz a idéia de
movimento, fundamental para compreender a proposta.
A
espiral concilia a idéia
de rede e o descentramento e multilinearidade que lhe são
inerentes, com a bipolaridade e linearidade da idéia de Centro e
Periferia. O conceito chave é “negociação”: num modelo que
representa o circuito produtivo da comunicação, “negociação”
é um conceito estratégico. Toda enunciação é um produto
negociado e esta concepção permite evitar oposições simplistas
e bipolares entre posições de poder discursivo.
A espiral também tenta
solucionar a questão de como representar a desigualdade dos
interlocutores quanto às condições de produção, circulação
e consumo: justamente através da posição discursiva, mais ou
menos distante do Centro ou da Periferia. O tema da desigualdade
está presente em todo o modelo, que pode ser entendido como uma
proposta de seu enfrentamento e superação. Ela está diretamente
relacionada com cada etapa do circuito produtivo. Nas condições
de produção, aparece de forma mais evidente, implicada na
propriedade dos meios, no lugar de interlocução, na condição
econômica (contexto existencial), no lugar que o interlocutor
ocupa na topografia social e institucional (contexto situacional)
etc. Mas, é na circulação, esquecida pelos demais modelos e tão
desprezada pelo planejamento da comunicação nas políticas públicas,
que se produz mais fortemente a exclusão social. Ou seja, na
desigualdade das condições de se fazer circular os sentidos
sociais. Quem consegue fazer circular os seus sentidos? Quem
consegue ser ouvido? É ali que os sentidos dominantes ampliam sua
hegemonia, ao silenciar os demais. O fenômeno da comunicação em
rede (basicamente fluxos, circulação) acentuou a diferenciação,
manifesta tanto na possibilidade de acesso, como no lugar que se
ocupa nas redes. No mundo simbólico, nada assume existência
antes de ser posto em circulação. É a circulação que confere
existência aos produtos simbólicos, ao mesmo tempo em que a lança
no espaço público. E é justamente aí, na capacidade de fazer
circular mensagens e sentidos privados, tornando-os públicos, que
se localiza grande parte da assimetria no poder discursivo.
Não é por acaso que as redes de comunicação são um dos
principais alvos de quem procura acumular poder.
Há desigualdade de condições
também no consumo, território onde finalmente se concretiza a
hegemonia. O que se consome, de que forma, o uso possível das
informações e do conhecimento, tudo isto é diferenciado de
acordo com os contextos e lugares de interlocução. Localiza-se aí
a questão do acesso a outras fontes de informação, tão cara ao
movimento da democratização da comunicação.
Quando a espiral é
superposta à rede dos sentidos, espaço ocupado e operado pelos
interlocutores, temos caracterizado o lugar de interlocução,
posição que cada indivíduo ou comunidade discursiva ocupa no
mercado simbólico. A representação corresponde, então, ao
modelo completo.
Este
é um modelo reticular, multipolar, multidirecional, desenvolvido
para compreensão da prática comunicativa no campo das políticas
públicas. Ele faz sentido numa perspectiva analítica que
considere as políticas públicas como espaço de confrontos
sociais, que se dão pela via discursiva. Também requer que se
considere, ao modo de Fairclough (2001), que os discursos trazem
inerentes uma dimensão e a possibilidade de transformação
social. Neste sentido, o modelo, como instrumento de planejamento
da comunicação, pretende também se opor às forças centrípetas
de concentração de poder, na medida em que percebe os lugares de
interlocução móveis e negociáveis. A compreensão dos fatores
que permitem a mobilidade desses lugares pode ser propiciada por
uma matriz de análise, cujo resumo exponho a seguir.
Matriz
de análise dos fatores de mediação
Esta
matriz tem como objetivo oferecer uma estrutura de análise das
relações de poder na sociedade, no contexto das políticas públicas
e na perspectiva discursiva, que remete para a negociação de
lugares de interlocução mais favoráveis ao exercício do poder
simbólico. Requer uma percepção do poder que considere a existência
de posições discursivas matriciais, Centro e Periferia, que são
móveis, relacionais, negociadas e por fatores de mediação, que
são elementos simbólicos e materiais que promovem o fluxo dos
interlocutores entre essas posições. É este espaço, onde se
defrontam e se articulam as forças sociais, em busca do poder
simbólico, que a Matriz busca sistematizar.
Para
compreendê-la, é necessário ter em vista que o estatuto do
sujeito central ou periférico não é fixo: mesmo que se possa
ser centro ou periferia, institucionalmente falando,
discursivamente não se ocupa sempre a mesma posição. Pode-se
afirmar que, de um modo geral: 1) as estratégias desenvolvidas
pelo centro tendem a ser no sentido de manutenção da ordem
discursiva que lhes permita continuar ocupando essa posição de
poder e 2) as estratégias da periferia tendem a ser no sentido de
permitir uma melhor posição da na escala de poder discursivo, ou
seja, um melhor lugar de interlocução.
Neste
trabalho, entendo que mediação é a propriedade exercida pelo
elemento que possibilita a conversão de uma realidade em outra.
Os fatores de mediação, ao promoverem o fluxo dos interlocutores
entre os diversos lugares de interlocução, favorecem e mesmo
determinam o equilíbrio de forças. É, então, um conceito que
encerra a idéia de movimento, mas também as de condições de
produção, o que permite perceber que as mediações constroem os
pólos da relação, não sendo destacáveis delas.
É
impossível mapear todas as possibilidades mediadoras de uma prática
discursiva. Elas compõem uma rede de sentidos, não apenas
contextuais, mas também intertextuais, que mobilizam uma enorme
diversidade de campos, instâncias e fatores. Como se sabe, o
processo de semiose social é produto da articulação desses
muitos âmbitos, cuja combinação em cada situação discursiva
é particular e única. A paradoxal natureza desse processo, ao
mesmo tempo ampla e restrita, aponta para a necessidade de uma
matriz de análise que permita ao pesquisador ou ao planejador
acercar-se de seu objeto de um modo mais preciso e delimitar um âmbito
mais circunscrito de análise, sem perder de vista a
interdiscursividade.
Foi
este meu empreendimento: procurei estruturar uma matriz composta
de níveis progressivamente mais restritos de mediações, assim
classificados menos por sua importância na composição dos
sentidos (a importância é definida pelos contextos) ou por seu
grau de inerência aos sentidos (todos os níveis são
constitutivos dos sentidos) e mais pela sua natureza e grau de
especificação. Assim, fui do mais amplo – as fontes – ao
mais restrito – os fatores de mediação entre as posições
discursivas de poder, Centro e Periferia. A realidade empírica
que se apresenta à utilização da matriz permite identificar um
elenco de fatores, percebê-los como estratégias de produção de
lugares de interlocução, relacioná-los e por fim classificá-los,
de modo a facilitar seu uso como instrumento analítico e de
planejamento.
Componentes
da Matriz
FONTES
– designa espaços simbólicos que organizam e produzem mediações
a partir do acervo individual, social e cultural dos indivíduos e
grupos sociais, os quais se apresentam como pré-construídos.
Embora estejam sempre sendo atualizadas, em contextos específicos,
pelas articulações com outros níveis, tendem a se apresentar
como “cicatrizes dos sentidos”, produzidas no campo da memória
e do imaginário (discursos fundadores, sobretudo), que são
acionadas em cada situação comunicativa e em contextos específicos.
Ex.: História, Cultura, Religião.
CAMPOS
– espaços sociodiscursivos de natureza abstrata, que podem ser
mais ou menos estruturados. Ao primeiro tipo correspondem as
instituições, como Estado, a Igreja, a Escola, o Mercado, as Forças
Armadas, a Sociedade Civil etc. Ao segundo, as temáticas e práticas
sociopolíticas, como a Saúde Coletiva, a Comunicação, o
Ambientalismo (temáticas); o movimento da saúde indígena, o
movimento da reforma sanitária, rituais mágico-religiosos (práticas
sociopolíticas), entre outros.
INSTÂNCIAS
– espaços sociodiscursivos concretos, estruturados formalmente,
como as organizações, mas também por princípios não formais
de organização, como as famílias, p.ex. As instâncias
especificam os campos, mas não guardam uma relação de equivalência.
Um campo pode compreender diversas instâncias e uma instância
pode conferir materialidade a mais de um campo. Instâncias têm
uma dimensão simbólica – território de articulação com
outras instâncias e campos – que permeia uma outra dimensão, a
material, representada por pessoas específicas, equipamentos,
recursos, rotinas, tecnologia.
COMUNIDADES
DISCURSIVAS – como antecipado, designa grupos de pessoas que
produzem, fazem circular discursos, que neles se reconhecem e são
por eles reconhecidos. Como afirmei em outro lugar, estes grupos
encarregados da produção e gestão textual possuem uma
hierarquia interna (instâncias de decisão e poder, um centro e
uma periferia) e uma organização de trabalho; desenvolvem relações
com outros que dividem o mesmo espaço discursivo, de antagonismo
ou cooperação; dispõem de mais ou menos recursos financeiros e
dependem de modo diferenciado das fontes geradoras desses
recursos; seus membros possuem uma história e uma motivação
para estar ali e desenvolver aquele trabalho. Estes fatores afetam
os discursos produzidos e as estratégias de circulação. Não são,
pois, meros porta-vozes de um discurso que lhes transcende, mesmo
que assim se julguem, sejam técnicos, religiosos, ou militantes.
(Araújo, 2000:161). Na Matriz, as comunidades discursivas ocupam
uma posição especificadora das instâncias. São o espaço onde
se manifestam e podem ser observados os fatores de mediação.
FATORES
– de natureza e amplitude diversas, os fatores emanam dos vários
contextos analisados. Por outro lado, não possuem uma valoração
em si mesmos, nem são em si mesmos estratégias de manutenção
ou transformação da ordem dominante. Sua valoração está
vinculada à noção de capital simbólico (Bourdieu). Ou seja, a
posse em maior ou menor grau daquela propriedade confere capital
simbólico ao interlocutor, modificando sua posição na escala de
poder entre Centro e Periferia. É esse mecanismo que confere aos
fatores de mediação valor como instrumento estratégico.
A
partir de um elenco de fatores identificados num universo empírico
estudado (políticas e práticas de saúde indígena), emergiu uma
tipologia de fatores. Em princípio, estes tipos têm relevância
em situações de intervenção social e fazem sentido numa análise
que se inscreva numa concepção de comunicação como um processo
de produção, circulação e consumo dos sentidos sociais. Eis a
matriz sistematizada:
FONTES
CAMPOS
INSTÂNCIAS
COMUNIDADES
DISCURSIVAS
FATORES
1.
Motivações e interesses
2.
Relações
a.
Relações pessoais, grupais e comunitárias
b.
Relações institucionais e organizacionais
3.
Competências
4.
Discursividades
a.
Discursos
b.
Sistemas de nomeações
c.
Paradigmas, teorias, modelos
5.
Dispositivos de comunicação
a.
Dispositivos de enunciação
b.
Dispositivos de produção e circulação discursiva
c.
Mediações tecnológicas
6.
Leis, normas e práticas convencionadas
O
princípio da interdiscursividade faz com que os fatores sejam
mutuamente constitutivos. Por exemplo, os dispositivos de enunciação
formam os discursos e são por eles formados; também incluem
fatores de competência cultural e de relações de interlocução,
que por sua vez são afetados pelos dispositivos; os dispositivos
de produção e circulação discursiva são fortemente permeados
pelas relações tecnológicas e pelas rotinas, cujo âmbito de
significação é em parte estabelecido pelos dispositivos etc.
Por outro lado, os espaços de organização coletiva, como fóruns
e redes, tanto são fatores do tipo “relações
institucionais” , como podem ser incluídos nos dispositivos de
produção e circulação discursiva, sejam como aparato de produção
ou circulação ou mediação tecnológica.
Últimas palavras
A
noção de mercado simbólico se opõe à de “pensamento único”
e assim como existe uma luta política para se contrapor ao
pensamento único sobre a globalização, há a possibilidade de
uma luta por um funcionamento do mercado simbólico mais eqüitativo.
O modelo foi proposto no escopo de uma tese de doutorado,
denominada “Mercado Simbólico: interlocução, luta, poder –
Um modelo de comunicação para políticas públicas”, defendida
na ECO/UFRJ, em novembro de 2002. As dimensões exigidas para este
artigo permitiram apenas uma aproximação ao tema, que supõe
maiores discussões quanto ao seu contexto teórico, metodológico
e empírico. Quanto ao modelo, antes que possa assim ser
intitulado legitimamente, requer que não só seja submetido ao
crivo teórico e metodológico dos especialistas do campo da
comunicação e da intervenção social, mas também seja exposto
à experimentação como modelo organizador do planejamento estratégico
da comunicação aplicada às políticas públicas.
BIBLIOGRAFIA
REFERIDA
Araújo,
Inesita. A reconversão do olhar: prática discursiva e produção
do sentido na
intervenção
social. São Leopoldo-RS, Ed. da Unisinos, 2000.
Bourdieu,
Pierre. O poder simbólico. Lisboa, Difel, 1989.
Fairclough,
Norman. Discurso e mudança social. Brasília, UnB, 2001.
Martín-Barbero,
Jesús. De los médios a las mediaciones: Comunicación, cultura y
hegemonía.
Barcelona, Gustavo Gilli, 1993.
Mattelart,
Armand. Comunicação-Mundo: história das idéias e das estratégias.
Petrópolis,
Vozes, 1999.
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