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Condições de produção da recepção: a subjetividade como mediação

Luiz Felipe Bastos Duarte

 

Resumo:

O presente trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado que visa compreender a relação entre a mídia e o processo de constituição da subjetividade. A etapa de pesquisa corporificada neste escrito tem por função situar o problema de pesquisa e, também, iniciar o esboço de uma definição de subjetividade. A subjetividade é, sem dúvida, um dos lugares dos quais provém a construção que configura o processo de recepção. A dificuldade que o campo da Comunicação tem encontrado é de ordem metodológica: como se pode visualizar a forma de interferência dos aspectos subjetivos na recepção?

Nesse sentido, o presente trabalho pretender contribuir para a compreensão dos nexos existentes entre os processos subjetivos e o estudo da Comunicação.

 

Palavras-chave: mediação, subjetividade, recepção         

 

1. Introdução

 

O presente trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado que visa compreender a relação entre a mídia e o processo de constituição da subjetividade. A etapa de pesquisa corporificada neste escrito tem por função situar o problema de pesquisa e, também, iniciar o esboço de uma definição de subjetividade.

 

            A teoria das mediações de Martin-Barbero (2003), ao deslocar o foco da pesquisa em recepção para “os lugares dos quais provêm as construções que delimitam e configuram a materialidade social” abre, assim, um novo campo de pesquisa em Comunicação, e demanda a contribuição de outras áreas do saber, como o da Psicologia.

 

            Nesse sentido, é muito esclarecedora a proposta de pesquisa coordenada pela professora Imacollata (2000), na medida em que busca compreender, a partir de dados empíricos, os nexos existentes entre os processos subjetivos e o estudo da Comunicação. A síntese teórica entre estes dois campos do saber passa, segundo os pesquisadores, pelo mapeamento das interfaces conceituais entre a noção de subjetividade e a de mediação, bem como pela identificação de categorias psicológicas que permitam pensar a mediação na recepção.

 

            A subjetividade é, sem dúvida, um dos lugares dos quais provém a construção que configura o processo de recepção. A dificuldade que o campo da Comunicação tem encontrado é de ordem metodológica: como se pode visualizar a forma de interferência dos aspectos subjetivos na recepção?

 

            E, neste ponto, os dois campos de saber parecem convergir: a Psicologia, na medida em que se interessa em compreender a influência que os avanços tecnológicos no campo da Comunicação tem sobre a psique e, a Comunicação, que busca o esclarecimento do papel da subjetividade no processo de recepção.  

 

            Nesse sentido, o presente trabalho pretender contribuir para a compreensão dos nexos existentes entre os processos subjetivos e o estudo da Comunicação. Talvez a primeira pergunta a ser respondida seja, o que são os processos subjetivos, como se pode definir subjetividade.

 

 

2. Noção de subjetividade

 

            A noção de subjetividade é central para Psicologia e a tentativa que aqui se fará de defini-la está, evidentemente, limitada em função das normas estipuladas para a apresentação dos trabalhos. É, assim, uma aproximação momentânea, a qual será aprofundada ao longo da pesquisa.

           

Segundo o dicionário da língua portuguesa (1986), o termo subjetividade é definido como: o caráter do que é subjetivo; campo ou domínio das atividades subjetivas, interpretação de um sujeito individual; característica de uma opinião ou atitude marcada por sentimentos; impressões ou preferências pessoais.

 

            Já o termo subjetivo define-se como: o que pertence ao sujeito enquanto ser consciente; o que é do domínio da consciência ou do psiquismo, aparente, ilusório, o que é próprio do sujeito ou relativo a ele; relativo a sentimentos, impressões e opiniões pessoais, individual, particular.(Ferreira, 1986).

 

            A Psicologia enquanto campo saber sempre buscou compreender o que constitui os sujeitos e, apesar de ser uma ciência relativamente nova, tem uma longa pré-história ligada à Filosofia. As primeiras manifestações da vida mental estão relacionadas às preocupações com as forças responsáveis pelo sucesso ou fracasso, individual ou coletivo. As vitórias ou fracassos eram decorrentes do poder de forças onipresentes e misteriosas, capazes de modificar o curso das coisas. A crença na existência dessas forças, e o desejo de domesticá-las através de práticas religiosas eram fundamentais para os povos primitivos constituindo-se no tema principal de suas religiões.(Jung, 1986).

 

Para o homem primitivo o psíquico aparece como uma fonte de vida, um primeiro motor, uma presença de natureza “espiritual”, mas objetiva. Por isto o primitivo sabe conversar com sua alma: ela tem voz dentro dele, porque simplesmente não se identifica com ele nem com sua consciência. Para a experiência primitiva o psíquico não é a algo subjetivo ou arbitrário, é algo de objetivo, subsistente em si mesmo e possuidor de vida própria.

 

As pesquisas na área da Antropologia reforçam esta idéia, e hoje se sabe que a noção de uma subjetividade privatizada não é algo universal, mas um fenômeno histórico que aparece em determinadas culturas e, em alguns momento especiais de crise. Segundo Figueiredo (2000), a noção de subjetividade privatizada data dos últimos três séculos. O homem renascentista abandona a confiança num Deus superpoderoso, que lhe definia um papel individual e social e, a partir disto, liberto, tem que dar respostas a perguntas do tipo: Quem sou?  Como devo agir?

 

Passam a surgir grandes personalidades e seus feitos históricos. A mídia parece, já nesta época, cumprir um papel importante como agente constitutivo da subjetividade. Segundo Ariès apud Figueiredo (2000), o surgimento da imprensa proporcionou a difusão da leitura silenciosa, e essa nova forma de experiência cultural favoreceu o surgimento de uma subjetividade privatizada, na medida em que a leitura é uma prática que se dá longe da comunidade e cria um diálogo interno do sujeito consigo mesmo, favorecendo a construção de um ponto de vista próprio. O trabalho intelectual e até mesmo a prática religiosa passam a ser atividades que podem ser exercidas de forma individual.

 

Descartes, autor considerado o marco da Modernidade, traz em seu pensamento a marca deste período de desconfianças nas velhas categorias explicativas e resolve fundamentar todo seu conhecimento em si mesmo. Utiliza a dúvida como método e chega a uma certeza clara e distinta: se penso, existo. Descartes fundamenta o sujeito do conhecimento na razão, somente a razão nos permite ter uma visão fiel do mundo. As representações obtidas por meio da razão são correspondentes ao mundo fora de nós.(Figueiredo, 2000).

 

Outro filósofo importante para a definição contemporânea de subjetividade é Kant. Kant toma como ponto de partida de sua teoria do conhecimento a discussão sobre o status do sujeito cognoscente e, também, do objeto ou da realidade.

 

Nessa perspectiva, para que haja conhecimento é necessário que algo afete o sujeito. O homem é inicialmente passivo; para que alguma coisa seja conhecida, é preciso que o sujeito cognoscente seja afetado, sensibilizado por algo.

 

Assim, a primeira faculdade mobilizada pelo conhecimento é a sensibilidade. Mas a sensibilidade humana, embora passiva, não é neutra; ela constitui um campo. O que ela recebe transforma passivamente. Isso quer dizer que os estímulos vindos do mundo exterior são necessariamente recebidos em um espaço - nada é percebido, isto é, visto, sentido, ouvido, sem que esse dado seja introduzido no espaço. Também não se podem receber as mensagens que vêm do próprio sujeito ou do exterior, sem que essas mensagens estejam situadas no tempo.  A sensibilidade é conformada; ela tem formas, e toda mensagem se dá na espaço - temporalidade.

 

A relação sujeito/objeto ocorre de forma não consciente; acontece, como diz Châtelet (1993), transcendentalmente. Na medida em que todo estímulo é afetado pela sensibilidade, não se pode responder à questão de saber se aquilo que afeta o sujeito cognoscente, a coisa em si, é acessível fora do conhecimento que se tem dela.

 

Kant considera que o eu cognoscente aplica as regras do entendimento ao material que é dado à sua sensibilidade. Essas regras são por ele chamadas de categorias.As categorias são os princípios gerais que governam, ao mesmo tempo, a concepção e a percepção da realidade sensível.

 

O sujeito cognoscente é o eu que aplica as regras ou categorias do intelecto ao material dado à sensibilidade. O objeto conhecido é o resultado dessa operação. A realidade sensível, o real, não é uma coisa que está ali, diante do sujeito cognoscente. O que se chama real é produzido pelo sujeito cognoscente: é em função da sensibilidade e da organização intelectual que o sujeito cognoscente transforma o material que lhe é dado, imposto, por essa exterioridade incognoscível. Kant declara que o que se conhece é o mundo dos fenômenos e que esse mundo é constituído por um material irredutível, que não depende absolutamente do homem.

 

O Romantismo desbanca a crença da modernidade na razão ao afirmar que o homem é um ser passional e sensível. Aponta para a presença no homem de forças naturais e impulsos. O eu racional e metódico da modernidade é deslocado do centro da subjetividade, e “é tomado agora como uma superfície mais ou menos ilusória que encobre algo profundo e obscuro” (Figueiredo, 2000, p.35).

 

O movimento romântico de certa forma é um antecedente do movimento psicanalítico. A grande reviravolta da psicanálise em relação à concepção corrente de subjetividade da época é a noção de que a subjetividade, ou o psiquismo não coincide com a nossa consciência. Esta é apenas uma superfície. A origem de nossas motivações apenas em parte é consciente. O Inconsciente, que só responde ao principio do prazer, é constituído de forças instintivas, de natureza sexual, que buscam a satisfação imediata de seus desejos. As experiências que os sujeitos vivenciam nos primeiros anos de vida cristalizam formas de ser que irão condicionar seus comportamentos futuros.

 

Dentre as experiências dos primeiros anos de vida, a relação com pai e mãe são as mais decisivas. Esta relação é responsável por um conflito universal, segundo Freud, nos seres humanos: o complexo de Édipo. A forma como o sujeito vivencia este conflito irá determinar a forma de configuração de sua subjetividade.  

 

Jung, inicialmente discípulo de Freud, rompe com o mestre justamente por não aceitar que o complexo de Édipo seja a única estrutura responsável pela organização de sentido da subjetividade humana.

 

Jung está interessado em descrever os elementos que constituem o psiquismo. Através de um teste por ele criado, - o teste de associação de palavras[1] - ele identifica algumas estruturas que denominou de complexos.

 

O complexo inconsciente é definido pelo autor como:

 

·        Uma imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional;

·        Incompatível com as disposições ou atitudes habituais da consciência;

·        Um agrupamento de idéias com um núcleo de sentido. Esse núcleo tem um caráter fortemente emocional.

·        Dotado de uma poderosa coerência interior, tem sua totalidade própria.

·        Gozando de um grau relativamente elevado de autonomia.

·        Comportando-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum, animado de vida própria.

 

Outro teórico a que Jung remonta ao tentar circunscrever a definição de complexo é Pierre Janet, no que concerne à sua idéia da extrema dissociabilidade da consciência.  Para Janet apud Jung (1986), a personalidade pode cindir-se em diversas partes autônomas com componentes caracteorológicos próprios e uma memória separada.  Esses fragmentos existem lado a lado na psique e podem revezar-se a qualquer momento, mostrando extrema autonomia. Os estudos sobre os complexos de Jung seguem essa mesma direção, confirmando sua concepção sobre o caráter fragmentário da consciência.

 

Segundo Jung (1986), os complexos são aspectos parciais e dissociados da psique. A etiologia de sua origem é muitas vezes um trauma, um choque emocional ou coisa semelhante que arrancou fora um pedaço da psique. Uma de suas causas mais freqüentes é, segundo o autor, um conflito moral, cuja razão última reside na impossibilidade aparente de aderir à totalidade da natureza humana. Tal impossibilidade pressupõe uma dissociação imediata, quer a consciência do eu saiba, quer não. A inconsciência a respeito dos complexos, fato comum, confere-lhes uma liberdade ainda maior. A inconsciência do complexo ajuda a assimilar, inclusive, o eu, resultando daí uma modificação momentânea e inconsciente da personalidade, chamada identificação com o complexo. Na Idade média, esse fenômeno foi designado de possessão.

 

Para Jung, os complexos fazem parte da estrutura psíquica. Eles não possuem apenas um caráter mórbido, são manifestações vitais próprias da psique. A discussão sobre os complexos é de suma importância para o autor, pois, segundo ele, os complexos condicionam todo o conhecimento sobre o objeto.

 

Como se pode ver a idéia de Jung de complexos se aproxima de alguma forma da concepção kantiana das categorias de entendimento. A diferença talvez seja que em Jung, estas categorias são históricas, ao contrário de Kant que as concebe como categorias universais. O interesse de Kant era chegar àqueles elementos invariáveis do aparato cognitivo humano, imune às variações históricas. Jung, no entanto, está interessado na perspectiva psicológica das categorias.[2]

 

A gênese dos complexos tem um caráter absolutamente histórico, eles são a decorrência de uma história de vida, da convivência de um sujeito com uma família específica, com uma cultura específica. Estas vivências deixam marcas emocionais, estruturas que vão configurar uma idiossincrasia na forma de interpretação do mundo.

 

Ao se examinar mais de perto esta pretensa individualidade, percebe-se que muitas vezes ela está encapsulada por uma significação familiar, ou mesmo cultural. Jung demonstra em seu teste de associação de palavras o fato de que pessoas da mesma família têm um alto índice de respostas semelhantes às mesmas palavras estímulo, isto significa que existe um substrato psicológico comum que as fazem compreender emocionalmente as coisas de uma mesma forma.

 

Não é apenas a história individual que configura categorias explicativas da realidade, mas também a cultura e sua força de influência sobre os sujeitos, ela cria categorias, muitas vezes inconscientes, que determinam a forma como os sujeito compreendem, não apenas o mundo, mas, também, a si próprios. Segundo Jung “o neurótico sofre a doença de seu tempo”.

 

Jung desenvolve em sua obra uma abertura para as questões sociais. Toma de empréstimo da Sociologia o conceito de consciência coletiva, e afirma que assim como os complexos, que são decorrência da história individual determinam as estruturas da subjetividade humana, também a história coletiva de um povo, a cultura através das estruturas sociais, é um elemento constitutivo do psiquismo.

 

A consciência coletiva funciona como um a priori que, enquanto inconsciente, influencia forma de pensar e de agir dos sujeitos. É semelhante, neste ponto, à concepção de Kuhn de paradigma.

 

Mas, no sistema junguiano, não apenas a história coletiva recente age como um elemento pré-formador da consciência, mas a história humana em geral. E foi em função desta sua concepção mais histórica de psique que Jung vai criticar o modelo psíquico de Freud, pois, para o autor, a psicologia de Freud serve para explicar o homem vitoriano, reprimido sexualmente, que mantém uma relação hipócrita com sua própria natureza e sociedade. Para além desta época ele falha em explicar a subjetividade. Para Jung a psicologia necessita de um modelo do psiquismo que seja mais universal, no sentido de que possa abranger outros períodos históricos.

 

Ë assim que vai conceber a psique como constituída de “estados sucessivos de consciência”, o que ele denominou de inconsciente coletivo. Cada época histórica agrega uma nova camada em nosso psiquismo. O autor defende a idéia de que, por exemplo, o fenômeno do nazismo não poderia ser explicado apenas a partir de questões econômicas e sociais. Através da análise de símbolos utilizados pela campanha nazista, e de uma pesquisa sobre as raízes mitológicas do povo alemão, demonstra que Hitler de alguma forma encarnou aspectos míticos do Deus Wotam (um Deus da mitologia alemã), e é somente por exibir semelhanças em termos de significado com esta dinâmica mitológica, é que consegue ter a adesão do povo alemão. Esta imagem (ou este significado mítico) diz respeito ao nível mais profundo e geral do inconsciente do povo alemão e, ao referir-se a este nível tão inconsciente das pessoas, Hitler ativou uma resposta totalmente emocional e automática no povo, o que impediu qualquer tipo de crítica racional.       

    

Existem alguns autores do marketing e da publicidade, que tentam explorar as conexões entre a teoria do inconsciente coletivo e a valorização e preferência dos consumidores por determinadas marcas (Martins 1999).

 

Estas conexões ficam claras na exploração do mito do herói, na campanha presidencial de Collor, com suas peripécias em avião, jet sky, etc, ou ainda o mito marxista do herói que vem de baixo e ocupa o poder, o torneiro mecânico e analfabeto que conquista a presidência da república.      

 

A Psicologia social surge na história da psicologia como uma forma de crítica a concepções exclusivamente personalistas que buscam explicar o homem apenas a partir de elementos internos, ou a partir de configurações históricas menores como a família. É esclarecedor neste sentido a crítica de Bakhtin a uma idéia corrente nas teorias psicológicas de uma essência humana individual, independente da relação social.

 

Como afirma Bakhtin (1981), a consciência só pode surgir e afirmar-se como realidade mediante a materialização em signos; a própria compreensão não pode manifestar-se senão através de um material semiótico. Esse material semiótico tem por natureza um caráter ideológico, não podendo ser explicado em termos de raízes supra ou infra-humanas; seu verdadeiro lugar é o material social particular dos signos criados pelo homem. Os signos só podem aparecer em um terreno interindividual.  Bakhtin critica a posição segundo a qual o sujeito existiria independente da linguagem. Para o autor, o sujeito, sem a mediação da linguagem, é apenas um sujeito biológico. A subjetividade, o monólogo interior, é constituído de linguagem e só pode ser acessado através dela. O signo lingüístico, instrumento de apreensão e de expressão do mundo, é, por natureza, ideológico.

 

Para o autor o lócus da consciência situa-se no limite entre o organismo individual do corpo e as elaborações do mundo externo. Mas, o encontro destas duas esferas dessemelhantes necessita ser mediado, e o signo é o meio para a tradução entre ambos.

Nessa mesma direção, para Vigotsky o self vem dos outros, o eu é uma função das forças sociais. O self não é algo completamente interno, mas, antes, um fenômeno limítrofe que goza de status extraterritorial, visto tratar-se de uma entidade social que penetra dentro do organismo da pessoa individual.

 

A Psicologia social contemporânea, representada por autores como Deleuze e Guatarri, defendem idéias semelhantes ao afirmarem, segundo Rolnik, que a subjetividade é de natureza industrial sendo essencialmente fabricada e podendo ser modelada e consumida. A subjetividade é considerada como a matéria prima da evolução de forças produtivas. Injetam-se representações subjetivas nas pessoas, da mesma forma que se produz leite.

 

Assim, a produção da subjetividade é o efeito do funcionamento integrado de diferentes máquinas sociais e tecnologias que disparam o funcionamento de máquinas de signos. Essas máquinas sígnicas veiculam e produzem códigos culturais de subjetividades, segmentando e fixando os indivíduos segundo o poder de adquirir e acumular. 

 

Como se pode observar nos autores acima descritos, parece evidente a participação dos aspectos sociais e culturais na constituição da subjetividade. Muitas das teorias aqui trabalhadas avançam no sentido de ampliar os horizontes das antigas concepções psicológicas, que centravam seu foco na vida intrapsíquica e não davam atenção a influência dos aspectos sociais na constituição do psiquismo. Por outro lado, algumas teorias contemporâneas exageram o papel ocupado pelo social na determinação do indivíduo, de sua subjetividade. Neste sentido se aproximam das teorias apocalípticas no campo da Comunicação que dotam os meios de comunicação de um poder excessivo sobre os receptores.

 

2. Noção de mediação

 

As mediações são segundo Barbero apud Orozco (2000), o lugar de onde se outorga o sentido ao processo da comunicação. A cultura é uma das grandes mediadoras deste processo. A comunicação sempre se dá dentro de alguma cultura. A relação emissor- mensagem- receptor, não é direta, mas mediada por diversas circunstâncias. Assim para se compreender o processo comunicativo se deve analisar os contextos nos quais se dá a comunicação. 

 

As mediações se dão em práticas concretas, e as mais relevantes são, segundo Barbero:

  • A sociabilidade, relacionada às práticas cotidianas em que os sujeitos negociam a autoridade;
  • A ritualidade, que diz respeito à forma repetitiva com que as pessoas vivenciam determinadas situações de vida e que contribuem para a produção de sentido;
  • A tecnicidade, que provoca mudanças na forma de percepção da realidade e assim, configuram novas formas de apreensão de sentido.

 

      Orozco amplia o modelo de Barbero ao propor um modelo empírico que concebe a recepção a partir de múltiplas mediações[3]. As mediações individuais segundo Orozco (2000) são aquelas que provém de nossa individualidade como sujeitos cognoscentes, elas dizem respeito aos “esquemas mentais”, por meio dos quais outorgamos sentido às novas informações.  Estes esquemas podem ser concebidos tanto da perspectiva da Psicologia, como esquemas comportamentais, ou na perspectiva dos culturalistas como repertórios culturais. Orozco fala também, de “guiones mentales”, esquemas que prescrevem como as pessoas devem agir e pensar, estes esquemas condicionam a percepção e o processamento das informações.   

 

Outra importante mediação é a institucional, que se dá na família, na escola, no trabalho, na Igreja. Ela é decorrente do fato que os sujeitos participam de distintas instituições que concorrem, também, para a constituição de sentido das informações. O sentido não se constitui como um ato individual, mas se dá através do contato com uma comunidade interpretativa, dentro da qual a cosmovisão da família de outras instituições desempenham um papel fundamental enquanto regra de interpretação.

 

 

 

 

4. Mapeamento de interfaces conceituais

 

      A falta de caminhos metodológicos para a investigação da subjetividade enquanto mediação do processo de recepção demonstra, em certo sentido, a complexidade e a conseqüente dificuldade na abordagem do tema. Mas, em relação às teorias abordadas, se podem lançar alguns pressupostos que, acredita-se, devem ser considerados pré-condições para a investigação da subjetividade enquanto lugar de construção de sentido no processo comunicativo. São eles:

    

  • A subjetividade humana estrutura-se através do que Jung denominou complexos;
  • Os complexos são a conseqüência daquilo que nos caracteriza enquanto sujeitos únicos, são a conseqüência da nossa história,
  • Os complexos influenciam e condicionam a forma como outorgamos sentido ao processo comunicativo;
  • A subjetividade humana é um produto não apenas da história individual, mas, também, da história coletiva do homem, de sua cultura, e esta história é um elemento que influencia a construção de sentido no processo comunicativo;
  • A compreensão do papel da subjetividade como elemento constitutivo da construção de sentido no processo comunicativo de um indivíduo ou de uma comunidade passa: pelo levantamento dos complexos individuais (no caso de ser um sujeito), das temáticas dominantes da consciência coletiva na qual está inserido e, num nível mais profundo, pela compreensão da constelação arquetípica específica na qual se dá o fenômeno da recepção.

 

A partir dos pressupostos acima expostos se compreende que a investigação da subjetividade enquanto mediação do processo de recepção é uma investigação complexa, que abrange uma rede de correlações históricas e culturais. Ao mesmo tempo fica evidente a importância deste tipo de mediação. Talvez se possa afirmar que ela é central em relação a todas as outras, pois é somente no sujeito que as outras mediações se efetivam.

 

Se de um lado se pode afirmar que o processo de recepção é interposto por mediações que modulam a construção de sentido dos processos comunicativos, por outro lado se pode afirmar que a subjetividade do sujeito é mediada, ao mesmo tempo em que, constituída por sua história pessoal, social, cultural (e aqui se inclui a história das tecnologias da sociedade em que se está inserido).

 

A Psicologia Social, segundo Freitas (2000), tem como desafio superar a concepção segundo a qual o homem é um mero reprodutor do discurso social[4]. A grande questão da contemporaneidade é o resgate da humanidade do homem. E esta tarefa só ser feita na medida em que se compreender que o homem além de determinado pode ser também determinante.

 

A maior parte das concepções em Psicologia Social são eficientes ao traçar um diagnóstico do homem contemporâneo, mas são pouco eficazes ao propor soluções. A concepção junguiana de processo de individuação, como o processo de posicionamento do sujeito em relação às estruturas individuais e coletivas se constitui como um caminho que retira o homem de um estado de passividade e o alça a condição de sujeito partícipe das forças de construção social e individual. (Freitas, 2000).

 

Essa concepção parece aproximar-se das últimas tendências no campo da recepção, as quais reservam um papel ativo ao receptor enquanto produtor inserido em uma luta pela construção de sentido.

 

As reflexões aqui desenvolvidas são ainda rudimentares, necessitando de um maior aprofundamento e do importante teste empírico a fim de se verificar a sua validade enquanto contribuição para o desenvolvimento de categorias teóricas e metodológicas.  

 

 

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

BAKTHIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1981.

BARBERO, Martin. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2003.

FREITAS, M.G.de. Os desafios da psicologia social. Revista Insight Psicoterapia e Psicanálise. Ano X - nº 112 - novembro de 2000, p. 08-12. 

FERREIRA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

GOMES, G. Orozco. La investigación en comunicación desde la perspectiva cualitativa. México: Universidade nacional de la Plata, 2000.

JUNG, C. Gustav. A Dinâmica do Inconsciente. Rio de Janeiro: Vozes, 1986.

LOPES, M.I.V. et alii. Vivendo com a telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade.São Paulo: Summus, 2002.

MARTINS, José. A natureza emocional da marca. São Paulo: negócio editora, 1999.

Datos del Autor: Luiz Felipe Bastos Duarte: Doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação da professora Dra. Nilda Jacks



[1] O experimento consiste em dizer uma palavra para o sujeito da experiência e pedir que esse verbalize a primeira associação que lhe venha à cabeça, o mais rápido possível, e sem pensar. O que observa é que, diante de algumas palavras, os sujeitos emitem um tempo de resposta muito mais prolongado do que diante de outras, alterando a respiração e os batimentos cardíacos. Tal reação, segundo sua opinião, é indício de uma emoção interferindo na atividade habitual da consciência. Com esse experimento, Jung consegue comprovar empiricamente a existência de uma atividade inconsciente. As palavras-estímulo que apresentam um tempo maior de reação são consideradas como a expressão da atividade de complexos inconscientes.

 

[2] Devo a Miriam Gomes de Freitas a compreensão da diferença entre o pensamento de Kant (que foca sua investigação na busca de categorias universais) e o de Jung (interessado nas categorias históricas constitutivas do psiquismo).

 

[3] No escopo do presente trabalho se abordará apenas algumas das mediações identificadas por Orozco, apenas àquelas que interessam às idéias que, momentaneamente se quer desenvolver.

[4] Assim como a Comunicação precisou fazer um esforço em abandonar a concepção da recepção como um processo determinado no nível da produção.

 



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