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NEGOCIAÇÃO
DE SENTIDO: recepção da programação de TV aberta
Profa.
Dra. Márcia Perencin Tondato
Universidade
Metodista de São Paulo
Este
trabalho é um estudo da recepção da programação da TV aberta
para verificação dos hábitos de consumo dos meios de comunicação
e opinião sobre a programação com características
sensacionalistas. Os resultados da pesquisa de campo, entrevistas
focalizadas e análise de discurso mostram uma sociedade mediática,
dependente da televisão como fonte de informação, informação
essa elaborada conforme o entorno social e cultural. O receptor é
imediatista. A violência fica mais caracterizada nos programas
relacionados ao entretenimento, na medida em que desrespeitam o
ser humano.
Palavras-chaves:
Televisão, recepção, violência.
O
homem constrói os significados a partir da Cultura em que está
inserido, a qual intercambia com a Ideologia. Esse é o ponto de
partida neste trabalho em que procuramos entender o significado da
televisão para as pessoas avaliando o que elas efetivamente
recebem de uma programação criticada, porém com índices de
audiência significativos. Para responder a essa pergunta,
procuramos compreender
os efeitos de sentido a partir do fato de que é no discurso que ocorre
a relação entre o pensamento, a linguagem e o mundo e que a
Ideologia é um mecanismo estruturante dos processos de significação,
das maneiras como o sentido é mobilizado para manutenção das
relações de dominação (ORLANDI, 2001, p.96).
Hoje vivemos
num contexto mais do que ideológico, em que o 'real' é orientado
por interesses, que se compactuam em alianças com bases na dinâmica
de escolhas culturais. A análise dos significados dados aos conteúdos
dos programas de televisão, os comportamentos notados: a aversão
(nada presta), em alguns casos a des-sensibilização (o mundo é
assim mesmo), em outros até a apatia ou mesmo a elaboração (eu
converso sobre os programas), nos mostra a superfície de uma
leitura que reflete, acima de tudo, uma assimilação hegemônica
da representação dos acontecimentos.
A guerra pela
audiência não permite mais que as intenções da emissão sejam
restritas a grupos muito específicos, principalmente em uma
televisão generalista como a brasileira, em um país de dimensões
territoriais como o nosso, dominado por
dois, no máximo três, grupos de comunicação. Os conteúdos,
ainda que produzidos para um determinado perfil de público,
devem, na medida do possível, contemplar expectativas de públicos
secundários. Isso aponta caminhos para entendermos como pessoas
supostamente diferentes consomem os mesmos conteúdos. Cada grupo
lê no conteúdo aquilo que melhor convier para sua posição no
contrato hegemônico.
Esta
assimilação hegemônica a que chegamos, entretanto, não reflete
os pressupostos de uma abordagem "apocalíptica", que vê
os receptores como um grupo à mercê de um sistema simbólico
dominante, que alimenta a passividade e o conservadorismo (TODA Y
TERRENO, 1996, p.41), pelo contrário, cada um 'se vê na televisão'
a partir de um ponto de vista, vítima ou algoz, reflexo ou fonte.
A televisão funciona como uma oportunidade de sentir-se parte do
contexto maior, concorrendo para a identificação popular na
cultura hegemônica, permitida pelas indústrias culturais,
defendida por Martín-Barbero.
Diante deste cenário, entender os processos comunicativos
é tarefa que vai além de procedimentos operacionais, de
metodologias específicas. Significa verificar a interação entre
discurso, subjetividade e contextos, o que implica a reflexão
sobre questões epistemológicas do campo da comunicação, teóricas
da efetivação dessa comunicação e metódicas da observação e
apreensão de todo o processo (LOPES, 1990). Tendo isso em mente,
estruturamos nossa busca sobre a construção de significados,
empregando abordagens qualitativas e quantitativas, permitindo a
apreensão das interações dos ambientes micro, constituintes do
contexto macro.
O foco no receptor tem como base a perspectiva desse como
ator social, não como decisor incondicional, na linha das novas
abordagens mercadológicas que o vêem como "rei e
senhor", cujos desejos e vontades devem ser satisfeitos, mas
como parte de um sistema de troca, em que "verdades, valores
e comportamentos dos indivíduos/sujeitos de ambos os pólos - da
emissão e da recepção - (...), formando a consciência social,
ideológica e estética, vão atualizar as manifestações dos
produtos da indústria cultural, em leituras diversas"
(BACCEGA, 2000, p.40).
Nesse
contexto, a leitura do conteúdo dos programas de televisão
caracterizados pelo sensacionalismo com a exploração de cenas
que remetem à violência como apelo à audiência torna-se objeto
de estudo, em uma época cuja quantidade de opções de informação
e entretenimento oferecida pelos meios de comunicação de massa não
necessariamente significa variedade ou qualidade, quando a informação
sofre de um excesso pela fragmentação, produzindo "a implosão
do sentido, a perda do real, o reino dos simulacros"
(BAUDRILLARD apud MATTELART, 1999, p.182). A opção por esse tema
justifica-se ainda pelas características de uma sociedade que
apresenta "um universo ideológico diferenciado", no
qual coexistem modelos holísticos e individualistas de construção
da realidade, em constante tensão, fazendo com que a "violência
seja uma possibilidade sempre presente" (VELHO e
ALVITO, 2000, p.15).
Para
melhor compreender as relações discursivas entre a emissão, a
recepção e a realidade cotidiana, verificamos também o discurso
dos programas destacados como característicos dessa programação
no mapeamento feito. Analisamos esses discursos e os dos
receptores como enunciações manifestas que refletem e refratam o
contexto social e ideológico do sujeito enunciador-enunciatário
(BACCEGA, 1998, p.40). Nessa análise, problematizamos o cotidiano
como espaço e tempo de construção de sentido.
A leitura
feita dos conteúdos televisivos - o objeto
O
levantamento histórico da televisão brasileira nos mostra uma
trajetória que se inicia nos anos 50, explorando a novidade
tecnológica para uma audiência de elite e chega, nos anos 90,
com uma programação mais 'popular', entendendo essa como
constituída por formatos e temáticas que exploram e dramatizam
situações cotidianas, na conquista de uma audiência constituída
também pelas pessoas de nível socioeconômico D e E, inseridas
no mercado de consumo após o Plano Real.[1]
No
Brasil, os telespectadores são o público principal de uma
televisão essencialmente comercial, cuja preocupação maior é
atender às expectativas de seu público apenas na medida em os
conteúdos contemplem suas demandas, com vistas nos índices de
audiência. Para que isso ocorra, entretanto, é preciso que os
discursos sejam verossímeis, "entendendo-se aqui a palavra
verossímil como a possibilidade da existência desse discurso já
virtualmente prevista naquele domínio (histórico ou literário)
e assim reconhecida socialmente" (BACCEGA, 1995, p.82). Essa
verossimilhança passa pela questão da assimilação do popular
pelo hegemônico, em uma estratégia que ao contemplar as demandas
do receptor, sedimenta os valores hegemônicos.
Tais
colocações servem como base das hipóteses norteadoras de nossa
busca, ou seja, as pessoas constroem os significados para os conteúdos
dos meios a partir de suas próprias experiências, cuja percepção
é realimentada com os mesmos conteúdos. Nesse processo, o papel
do telespectador é diferentemente percebido, ora visto como
potencial consumidor dos bens materiais veiculados pela televisão,
ora como consumidor dos conteúdos em si, entendidos como bens
culturais, promotores de informação e entretenimento. No
primeiro grupo estão os telespectadores com mais opções de
acesso à informação e entretenimento, que polemizam os conteúdos
sensacionalistas, sem entretanto questionar os formatos ou deixar
de consumí-los. A mistura de gêneros, nesse caso, é recebida,
mas talvez não percebida, como uma preocupação em informar, sem
saturar; em entreter, com diversificação.
No segundo
grupo, estão as pessoas com menos acesso à informação/entretenimento
que vêem os conteúdos televisivos como modelos de vida, a serem
(per)seguidos ou evitados, construindo os significados a partir de
suas experiências cotidianas e da interação em seu ambiente
social. Podem até polemizar o caráter dos conteúdos, porém,
entendem que a televisão mostra a vida como ela é para eles, no
formato informação, e como é para os privilegiados, no formato
ficção/entretenimento. Para esse grupo, a questão da
homogeneização vertical não se apresenta como uma característica
importante para ser notada.
Nossa
outra hipótese de trabalho é que o público assiste a esses
conteúdos não tanto porque gosta deles, mas sim porque lhes são
oferecidos em uma "bandeja de prata", criando um consumo
televisual sem reflexão sobre o real significado, elaborando as
seqüências fragmentadas e repetitivas a partir de um contexto
misto de curiosidade e busca de informação, consumo esse
justificado não mais pelo pressuposto básico do paradigma das
gratificações, mas pela aquisição de um hábito, condicionado
social e circunstancialmente.
Como
conceitos-guia do trabalho, adotamos cultura, ideologia, hegemonia
e violência, entendendo que os conteúdos dos produtos
televisivos não fazem distinção entre força, poder e violência,
promovendo uma ideologia da violência, em contraponto a uma
cultura da paz. Ao destacar, em alguns casos, a não-utilização
da violência, confundida aqui como força, pelas autoridades,
salientam valores hegemônicos de preocupação com um crescimento
da insegurança que nada tem a ver com o volume efetivo da
criminalidade, mas sim com as normas a partir das quais são
concebidos os fenômenos.
O
conteúdo lingüístico dos programas de televisão[2]
é analisado em sua construção discursiva e, junto ao receptor,
verificamos os aspectos a partir dos quais uma situação é
definida como violenta, para então analisarmos o que consideramos
ser a pièce de résistance desse estudo, ou seja, suas opiniões,
suas impressões e suas percepções sobre os conteúdos dos
programas de televisão. Essa avaliação é realizada a partir da
verificação dos hábitos de consumo dos meios e, em especial, da
televisão nos aspectos gênero, freqüência, preferências. A
comparação com os discursos presentes nesses conteúdos
possibilita a exploração do modo de recepção da programação,
o processo de construção de sentidos e as mediações feitas
para essa leitura. Um levantamento da grade de programação da TV
aberta quanto aos gêneros nela presentes, bem como os índices de
audiência são utilizados como apoio às análises.
Da
mesma forma que Orlandi pensou a definição de brasileiro a
partir de um discurso "que define o brasileiro como um
'sintoma', como um discurso que é constitutivo dos processos de
significação que constituem o imaginário pelo qual se rege a
nossa sociedade, ou seja, como ela nos significa" (ORLANDI,
1990, p.47), neste estudo, procuramos entender, pensar a recepção
como sintoma dos processos de significação que constituem o
imaginário das pessoas em relação à sociedade; entender como
essa sociedade (se) significa para as pessoas através dos conteúdos
da televisão. O ponto principal de nossos questionamentos pode
ser resumido no fato de uma programação tão polemizada manter
índices de audiência acima de 25%.
A
abordagem teórica do objeto
Para
responder ao nosso objetivo maior que é entender por que as
pessoas assistem ao que assistem apesar das constantes reclamações
a respeito da qualidade da programação, buscamos chaves de
investigação desses motivos considerando, a partir de Martín-Barbero,
que a recepção não pode ser tratada como "uma etapa do
processo de comunicação", mas deve ser entendida como
"um lugar novo, de onde devemos repensar os estudos da
comunicação" (1995, pp.39-40).
Fiske
nos alerta para a importância da compreensão da recepção
como um processo cultural, entendendo que a televisão e seus
programas não têm um efeito sobre as pessoas, mas sim uma eficácia
na sociedade (FISKE, 1999, p.19). Segundo esse autor, uma análise
do processo de recepção deve buscar o trabalho ideológico da
televisão que promove valores que dêem aos eventos significados
conforme interesses deste ou daquele grupo hegemônico. Nesse
sentido, estudar a recepção implica entender os processos de
mediação entre as necessidades do "sistema industrial e
estratégias comerciais e as exigências que vêm da trama
cultural e dos modos de ver" (MARTIN-BARBERO, 1995, p.40). Ao
fazer isso lembramos, mais uma vez, Martín-Barbero, para quem
"a televisão não funciona sem assumir - e, ao assumir,
legitimar - as demandas que vêm dos grupos receptores; mas, por
sua vez, não pode legitimar essas demandas sem ressignificá-las
em função do discurso social hegemônico" (1995, p.40).
Nossa
proposição é estudar a recepção fazendo intersecção desta
com a emissão e a mensagem, ou seja, procurando ver a recepção
não só ponto de chegada, mas também como "lugar de produção
de sentido", o que entendemos reduz a confusão epistemológica
causada por uma abordagem que mistura "a significação da
mensagem com o sentido do processo e o das práticas de comunicação,
ao mesmo tempo que reduz o sentido destas práticas na vida das
pessoas ao significado que veicula a mensagem"
(MARTIN-BARBERO, 1995, p.40). A recepção individual destes
programas é possível considerados os textos como estruturas (daí
nossa abordagem de gênero como estrutura) que se abrem a algumas
leituras e se fecham para outras (FISKE, 1999, p.65), e neste
estudo investigamos essas estruturas procurando como os receptores
percebem e utilizam estas aberturas e fechamentos. Além disso,
avaliamos o que Pêcheux chamou de "interdiscurso", que
está relacionado ao fato de não estarmos isolados na sociedade,
de "experimentarmos uma multiplicidade de discursos",
levando em conta que "no processo de decodificação e
interpretação das mensagens dos meios sempre participam outras
mensagens, outros discursos, tenhamos consciência disso ou não"
(apud MORLEY, 1996, pp.113-114), num procedimento já
anteriormente identificado como 'palimpsesto'.
A
coleta de dados - os procedimentos metodológicos
Para
responder às questões propostas, propomo-nos a realizar este
estudo em três fases, que não chamamos de etapas, pois não são
seqüenciais, cujos resultados foram analisados transversalmente.
Como apoio à comparação, utilizamos um levantamento da grade de
programação da TV aberta, em termos quantitativos, de 1965 a
2002,[3]
com dados coletados no jornal diário O Estado de S. Paulo, da
terceira semana de março, período este em que as emissoras estão
voltadas para sua programação normal. Neste levantamento, as
grades são classificadas em entretenimento, informação, educação
e especial, com detalhamento da presença dos programas
caracterizados pela 'exploração' da violência.
Para
conhecer os hábitos de consumo dos meios, fazemos um mapeamento
quantitativo do perfil socioeconômico e de consumo mediático do
telespectador aplicando questionários estruturados, com perguntas
fechadas, junto a um público composto pelas classes AB, C e DE,[4] morador na região do Grande ABC, na Grande São Paulo,
pois entendemos que este perfil contempla a média da população
urbana, pela diversidade de origens, profissões e atividades,
características dos moradores desta região.
Na
fase que denominamos primeira, foram realizados Grupos Focais, num
total de seis. O objetivo dessa fase foi explorar os sentidos
construídos, procurando reproduzir a situação de interação
que acontece no processo de recepção dos conteúdos, ou seja, as
pessoas comentam os programas assistidos com familiares e amigos.
Na
fase quantitativa, foram entrevistadas 418 pessoas, tamanho de
amostra escolhido observando-se o requisito mais severo de
amostragem para variáveis de escala de intervalo,[5]
considerando-se uma margem de erro de +/-5% para 95% de intervalo
de confiança (REA e PARKER, 2000, pp.128 e 133). A seleção da
amostra foi não-probabilística por cotas, representadas pelas
cidades de aplicação.[6]
Os questionários foram aplicados em pontos de maior movimento, em
dias alternados, procurando-se contemplar pessoas mais ativas e
pessoas com atividades mais restritas às vizinhanças da moradia.
Este levantamento quantitativo serviu para triangulação das
descobertas na fase qualitativa uma vez que o interesse maior é a
análise da construção de sentidos dados aos conteúdos
televisivos.
Após
o levantamento quantitativo do perfil de consumo dos meios e opiniões
sobre a programação de televisão, realizamos entrevistas
focalizadas[7]
para coleta do discurso do telespectador sobre esta programação.
Da amostra desta terceira. fase participaram tipos selecionados na
primeira fase, a partir de critérios
de representação de diferentes experiências: recém chegados -
pessoas que adquiriram o primeiro aparelho de televisão após o
Plano Real; grupos marginais - pessoas que assistem a menos de 4
horas de TV por semana e pessoas que assistem a mais de 10 horas;
divergentes - pessoas contra a televisão e pessoas que adoram a
telinha.[8]
Na análise destas entrevistas, buscamos identificar as formações
discursivas, entendendo-as como "o que pode e deve ser dito a
partir de uma posição do sujeito, em uma certa conjuntura"
(ORLANDI, 1990, p.39), dando sentido às variações encontradas.
Essa busca de sentido(s) é feita utilizando-se a Análise
do Discurso a partir da noção de formação discursiva,
entendendo que "as palavras não têm um sentido nelas
mesmas, elas derivam seus sentidos das formações discursivas em
que se inscrevem", sendo estas "aquilo que numa formação
ideológica dada - ou seja, a partir de uma posição dada em uma
conjuntura sócio-histórica dada - determina o que pode e deve
ser dito" (ORLANDI, 2001, p.43).
Na
fase de análise da mensagem de um programa com as características
de interesse deste estudo, verificamos o discurso de três
programas, definidos por ocasião da fase quantitativa, visando
comparar as formas de recepção e o discurso da emissão. As
bases desta análise foram as mesmas utilizadas para a análise
dos discursos dos receptores, ou seja, buscamos as formações
discursivas que "definem o universo do 'dizível' (...)
cujo jogo remete o texto à sua exterioridade (...) que só
vai ser constitutiva ao definir-se em função do
interdiscurso" (ORLANDI, 2001, pp.38-44). Nesse processo
entendemos a linguagem como interação social, em que o Outro
desempenha papel fundamental na constituição do significado,
integrando todo ato de enunciação individual num contexto mais
amplo, revelando as relações intrínsecas entre o lingüístico
e o social (BRANDÃO, s.a, p.10).
Interpretando
textos em busca de discursos
Na
perspectiva dos estudos da linguagem desenvolvidos por Bakhtin
(1999), os significados são produtos da interação social em que
se concretiza a palavra. O homem só é capaz de pensar aquilo que
está ao alcance de sua cognição e seu reconhecimento, ou seja,
dentro de sua cultura, essa vista como o conjunto de elementos
simbólicos e concretos representativos de uma determinada rede de
interação social. Para que o conjunto de palavras adquira o
status de língua e seja entendido como linguagem dentro de uma
cultura, é necessário que seus agentes, os indivíduos,
“penetrem na corrente da comunicação verbal” (FREIRE, 1983),
sendo capazes de dar sentido às palavras, num processo de
significação no qual os textos são entendidos a partir da
superposição dos vários discursos aos quais são ou foram
expostos.
No estudo da
recepção dos conteúdos televisivos, o que interessa ao
pesquisador é o texto que se inicia na palavra do
produtor/emissor e é decodificado/transcodificado na palavra do
receptor. Este texto é uma manifestação lingüística dentro de
uma mesma comunidade sociocultural, situacional, cognitiva que se
transforma em discurso na interação verbal, cujo sentido reflete
e refrata a ideologia no espaço entre enunciador e enunciatário.
Cabe ao pesquisador interpretar "a relação do sujeito com a
língua, com a história, com os sentidos" (ORLANDI, 2001,
p.47), revelando os efeitos dos esquecimentos, paráfrases e
polissemia, produtos da ideologia que dá sentido aos discursos.
Esse movimento de interpretação é melhor realizado rompendo os
limites do "fetichismo" da evidence, que não deve ser
confundida com rigor científico, ou seja, com a " extrema
vigilância das condições de utilização das técnicas, da sua
adequação ao problema posto e às condições do seu
emprego"(BOURDIEU, 2001).
Uma
de nossas hipóteses é que o estado de insegurança em que
vivemos é fruto, ainda que em parte, da forma como os fatos
relacionados ao cotidiano nas grandes cidades são relatados na mídia,
ou seja, o discurso do receptor re-produz o discurso da mídia, e
esse reproduz o discurso daquele.
Para
compreensão do processo de construção de sentido das mensagens
recebidas dos conteúdos televisivos e sua intersecção com o
cotidiano, buscamos esse cotidiano nas palavras dos receptores,
interpretando-as paralelamente aos discursos explicitados nas
mensagens. Neste estudo, realizamos Análises de Discurso de
programas representativos do aspecto da 'exploração' da violência,
e das falas dos receptores sobre esses mesmos programas, numa
abordagem do processo a partir da perspectiva de produção de
significados, onde os elementos deixam de ser
emissor-mensagem-receptor para serem discurso e locutores. O corte
de análise é a definição dada à violência e a forma como
esta é tratada nos textos e os programas escolhidos na grade de
programação no horário das 19h às 22h, na televisão de canal
aberto, dentro da categoria de programas caracterizados pelo apelo
à violência.
Resultados
O
consumo dos meios de comunicação de massa, especificamente
jornais, revistas, rádio e televisão, aqui analisado no contexto
urbano de grandes cidades, é caracterizado pela rapidez e
necessidade de informação sobre o ambiente social, econômico e
político, nessa ordem. Dos meios impressos, o jornal dá uma visão
geral dos acontecimentos e só se busca a revista quando há
necessidade de ‘detalhamento’ e aprofundamento das informações.
Os meios eletrônicos, rádio e TV, fazem parte do cotidiano. O rádio,
opção para os horários em que não é possível ver a TV, por
questões físicas (deslocamento, trabalho) e a TV, centro do
relacionamento receptor-meios, principal fonte de informação,
paliativo para diversão e lazer. Com todos os meios, respeitados
os limites de acesso temporal e financeiro, a relação é
constante, contínua, rotineira, mas superficial.
No
processo de avaliação, o que é dizível é melhor expressado no
lúdico. O jornalismo não precisa ser ‘inteligente’,
“jornal comentado é chato, longo”, basta informar sobre os
acontecimentos. Já o humorismo tem que ser inteligente, os
filmes, interessantes e as novelas, coerentes com os valores e
experiências de cada um. Pessoas das classes socioeconômicas AB
usam mais estereótipos para expressarem suas percepções e opiniões,
o que atribuímos a um maior acesso aos meios, que se reflete em
uma maior assimilação de critérios hegemônicos. Os comentários
desse grupo demonstram que seus componentes supõem possuir um
senso crítico mais desenvolvido, ou pelo menos mais alerta, porém,
isso não se reflete em uma prática diferenciada. Consomem os
mesmos programas, com rotinas semelhantes aos demais grupos.
Pessoas da classe D são mais ‘espontâneas’, descrevem seus hábitos
com mais liberdade, o que resulta em um perfil de maior aproximação
dos meios, especialmente rádio e TV: gostam de ouvir rádio e
assistir à televisão, e somente fazem isso quando há forte
identificação com os conteúdos, caso contrário, “vão
dormir, ou conversar com os vizinhos”.
Buscando
o sentido dado aos conteúdos televisivos, focados no
sensacionalismo, a partir do questionamento sobre ‘o que há de
pior na televisão’, descobrimos que a dramatização e a
manipulação são os principais fatores de desagrado. No
delineamento da presença da violência na TV fica claro que a
exploração de situações fora do comum (aberrações e
exotismo) e o uso de vocabulário vulgar constituem-se nos
aspectos mais citados, sendo que na relação imagem x palavras,
as palavras adquirem maior peso entre as pessoas com maior
diversidade de acesso aos meios, enquanto aquelas com acesso
restrito praticamente não fazem a diferenciação.
Pergunta-chave
deste trabalho, ‘o que é realmente violento na televisão?’
teve como resposta o desrespeito ao indivíduo, a exploração da
desgraça. A audiência se dá pela falta de opção, e a
curiosidade é um dos principais aspectos motivacionais de recepção
de conteúdos criticados pelo sensacionalismo e exposição
desnecessária de mazelas e situações desrespeitosas do ser
humano. As pessoas não consideram os programas violentos porque
na verdade nada é exposto com lógica. A carnavalização dos
acontecimentos dificulta a reflexão. A programação de TV de
modo geral não é violenta, por isso reclamam e reclamam, mas não
fazem nada efetivo para mudar. Na realidade a TV é uma grande
catarse, um canal através do qual as pessoas refletem seus medos
e angústias em morar em uma cidade complexa.
O
emissor tem uma concepção de um receptor consumidor, que é
curioso e individualista. Para ele, a complexidade da cidade
favorece a exploração da curiosidade natural das pessoas, por
meio de oportunidades diversas de mostrar um ambiente violento,
para o qual o receptor necessita de proteção, obtida com as
informações sobre os “últimos acontecimentos, ao vivo e com
exclusividade”. A emissão é feita por meio de um discurso
superficial, repetitivo, fragmentado, visando refletir ação e
dinamismo, com emoção, aproximando-se do épico, da epopéia e
do drama. O uso
enfatizado da tecnologia - equipes móveis, replays – são
indicadores de modernidade, exclusividade, prestação de serviço.
Percebe-se
que a matriz social do discurso dos entrevistados se constitui dos
aspectos percebidos pelo receptor, de acordo com seu ambiente
social e cultural, fazendo uma leitura emocional, individualizada,
das narrações, “os apresentadores mostram os fatos, e eu
aproveito o que interessa”. Separa informação de
entretenimento, quando requisitado a fazer uma avaliação
conjunta, sem que isso, entretanto, se reflita no consumo geral,
quando emoção e razão não se separam. O discurso do receptor
reflete o discurso do emissor: meios de comunicação de massa
significam informação, que não necessita ser detalhada. A
tecnologia significa a possibilidade de captação do fato, na sua
forma mais real. O controle interacional é exercido pelos
recursos lingüísticos, por silêncios e pelos intervalos
comerciais, traduzidos em oportunidade para mudar de canal.
Quando
o receptor diz que a televisão "não faz nada além do que
retratar a realidade", ele está em consonância com um
contexto ideológico que mostra uma sociedade violenta como nunca,
sem que isso se confirme nas estatísticas históricas. Tal
interpretação é fruto do bombardeio de informações. Os fatos
são vistos isoladamente, não há contextualização ou reflexão.
Daí a interpretação da violência apenas como sendo atos
individuais (as pegadinhas, a falta de respeito ao ser humano
praticada no programa do Ratinho). A exploração de imagens e
relatos que retratam sangue, morte, atos físicos é considerada
elemento necessário a um conteúdo fragmentado.
Brasil
Urgente e Cidade Alerta, selecionados para análise conforme
identificação feita pelos receptores, juntamente com o Programa
do Ratinho têm características diferentes, um sendo mais
argumentativo, sem que isso signifique profundidade de análise
por parte do apresentador, e o outro mais expositivo, também sem
significar uma exploração reflexiva. Os dois trabalham com
recursos discursivos de argumentação e persuasão, metáforas,
exageros, generalizações, sendo o discurso do Brasil Urgente
mais subjetivo, o que serve como argumento de atração para
aquela parcela da audiência que considera isso uma prestação de
serviço na medida em que aponta caminhos, soluções para as
situações apresentadas. Outros efeitos utilizados são os silêncios,
as repetições, incluindo aí o tratamento dado às imagens, que
se tornam peça-chave do discurso na medida em que é marcante a
atuação dos apresentadores na descrição das mesmas.
Brasil
Urgente e Cidade Alerta têm
um discurso
mais preocupado com a concorrência do que com a informação.
As
estratégias são as mesmas, variando apenas em função da
caracterização do apresentador. Datena
trata os assuntos de forma subjetiva,
investindo na criação e manutenção de sua
imagem pessoal, enquanto Milton
Neves trabalha mais
no sentido da equipe. Essa diferença se reflete na percepção e
conseqüentemente na preferência do telespectador,
que vê em Datena um representante do povo, alguém que fala
pelos menos favorecidos.
Em
um discurso repleto de lugares-comuns, repetições, vazios e não-ditos,
os apresentadores se colocam como expositores da verdade sobre a
situação sócio-econômica do país, apropriando-se de diversas
falas, sem elaboração lógica ou conseqüente. Assim como Hannah
Arendt fala da banalidade do mal como "uma possibilidade
humana, uma contingência e, sendo assim, (acha-se) inscrito na
sua liberdade" (SOUKI, 1998, p.144), podemos falar aqui da
banalidade da (des)informação promovida pela mídia, que
apresenta acontecimentos desconectados de qualquer seqüência lógica
explicativa, ligados por uma exposição ideológica, que resulta
um panorama ficcional de uma realidade que nunca é mostrada.
O
texto é homogêneo. O mesmo padrão de sobreposição de imagens,
assuntos, retomadas é seguido do início ao fim, possibilitando
ao telespectador uma recepção sem compromisso com a elaboração,
sem exigir reflexão, um ponderar entre diferentes abordagens. É
um texto aparentemente produzido individualmente, no qual o
apresentador é o senhor do programa, mas conduzido pelas exigências
da conquista da audiência. Os apresentadores criam relações
entre as ocorrências, forçando um palimpsesto ao sobrepor
informações sem preocupação com a coerência. A ordem da
apresentação é a ordem dos fatos e estes ocorrem a todo
momento. A cidade está um caos, é essa a mensagem dos programas.
As
estratégias de comunicação presentes no discurso do
apresentador Ratinho são diversas das adotadas nos programas
Cidade Alerta e Brasil Urgente. Enquanto que nesses programas o
discurso é trabalhado no sentido da utilização dos silêncios,
das metáforas, da construção de um contexto discursivo que
enfatiza a prestação de serviço de informação, no Ratinho a tônica
é a busca do inusitado, num contexto que mistura informação,
entretenimento e assistencialismo. A análise do discurso dos
meios, aqui representados pelo conteúdo dos programas Cidade
Alerta, Brasil Urgente e Programa do Ratinho, mostra uma edição
dos fatos, atendendo a normas ficcionais.
Percebe-se
o reconhecimento das estratégias de comunicação, porém cada um
fazendo a sua leitura, conforme a vivência e capital cultural.
Para uns é a representação da realidade, e nesse grupo
identificamos as pessoas com menos possibilidade de diversificação
de fontes de informação e maior carência material. Este grupo
considera informativos os programas na medida em que orientam, e
alertam, sobre a questão da sobrevivência na grande cidade.
Outro grupo vê essa programação como produto de uma demanda
social, dentro de uma visão hegemônica, de que a televisão
atende aos anseios da sociedade e que a saída é a ampliação de
horizontes pela diversificação de fontes de informação, a
cujo acesso,
infelizmente,
nem todos têm condições.
Os
comentários dos telespectadores a respeito desses programas
ilustram estes aspectos. Todos, ou a maioria, dizem não gostar do
Programa do Ratinho, porém, esse mesmo grupo assiste ao programa,
todo ou parte, e comenta suas características com propriedade de
quem refletiu sobre o que está falando, ou seja, revelando uma
recepção ainda que não crítica, pelo menos bastante ativa.
Pela polêmica causada em torno desse programa, as pessoas
procuram justificar a audiência, vêem o programa “por
acaso”, “pela diversão”, “porque ele ajuda os outros”.
Comentam que a participação das pessoas em quadros considerados
desrespeitosa e de mau gosto se faz por questões financeiras, o
que se torna uma justificativa, principalmente em tempos de
dificuldades econômicas.
Sem
ter o objetivo de condenar ou absolver os meios de comunicação
de massa, ou a televisão, nossa conclusão geral é que vivemos
em uma sociedade mediática em que as relações são elaboradas
pelas mediações. Mesmo que existam extremos, nosso foco é o médio,
e esse médio nos indica um consumo ativo, porém não reflexivo,
um consumo caracterizado por um contrato hegemônico. Notamos, porém,
que há espaço para experiências a partir do lúdico.
Estimulados a refletir sobre o que assistem, as novelas, os
filmes, os programas de humorismo são os gêneros mais
problematizados, uma vez que jornalismo é o real, e o real não
é objeto de discussão.
Neste
trabalho,
o que fica claro é a necessidade de diversificação de
abordagens para alcançarmos
as motivações
das pessoas para uma determinada recepção. As
exteriorizações
de uma certa preocupação com os rumos que a programação de TV
toma e o que isso pode significar para a sociedade são
momentâneas, terminando sempre com uma posição de que "é
assim mesmo" e se tem audiência é porque alguém gosta.
Vivemos em uma cultura individualista que colabora
para a manutenção
de uma
condição de dominação hegemônica. As pessoas
não se sentem parte de um todo, responsáveis
por esse todo, acreditam
que agem individualmente, que suas ações não têm repercussão
porque são individuais. O
que fica das observações e análise dos discursos dos receptores
é
que vivemos em uma cultura em que se percebe a hegemonia
dos meios de comunicação e em especial da televisão.
Esta, para
se manter hegemônica,
propaga
a ideologia da diversidade,
da liberdade de escolha, embora não seja a prática
analisada.
Mesmo
realizando as leituras dentro de um contexto hegemônico, mesmo
que as estratégias comunicacionais não permitam leituras que
extrapolem as situações sociais estabelecidas por uma dinâmica
capitalista, consumista, em que "muitos 'nasceram' para ter
pouco e poucos para terem muito", percebemos que cada um
'reflete' sobre esses conteúdos e seu significado dentro
da sua realidade, de certa forma concordando com Newcomb quando
diz, especificamente falando da influência dos meios sobre o
comportamento das crianças, que "se os pais optam por uma
reação negativa ao invés de uma crítica positiva, serão
culpados por não estarem educando seus filhos"(apud TODA Y
TERRENO, 1996, p.42). Concordamos com isso reconhecendo as diferenças
econômicas e sociais existentes entre os Estados Unidos e o
Brasil, entretanto, se, por um lado, o contexto de recepção é
diferente, por outro, também diferente é o contexto emissor,
mais competitivo, mais segmentado, porém mais hegemônico em
termos simbólico e cultural. Se nos Estados Unidos as pessoas têm
maior acesso à educação, aos meios de comunicação e aos bens
materiais, no Brasil, apesar do menor acesso a tudo isso, temos
uma maior diversidade cultural popular, produto de regionalismos,
ou mesmo de processos de exclusão, que resultam em mediações
nas leituras dos conteúdos televisivos.
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WHITE,
Robert (editor). Televisão como Mito e
Ritual. Comunicação & Educação, São Paulo: USP/Moderna,
no. 1, ano I, set./dez., 1995.
[8]
Estes critérios de seleção têm como base teórica as
considerações de SELLTIZ In: SELLTIZ, JAHODA, DEUTCH, COOK.
Métodos de pesquisa nas relações sociais. São Paulo:
E.P.U./USP, 1975, pp. 71-75.
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