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Práticas de recepção
mediática: cultura da imagem e identidade cultural
Marcelo Henrique Leite
Mauro Wilton de Sousa
Rafael Luis Pompéia Gioeilli
Resumo: A cultura da imagem
caracteriza hegemonicamente o processo mediático na
contemporaneidade e exerce papel importante na configuração das
praticas sociais de vida. O presente texto indaga sobre as
mediações, especialmente a identidade cultural, nesse contexto.
Palavras-chave: Imagem,
Identidade Cultural, Pertencimento.
O presente trabalho incorpora a
contribuição de pesquisa de três autores, em três textos
aparentemente distintos e com redações diferenciadas,
estabelecendo olhares sobre um mesmo tema: o estudo das
mediações presentes nas práticas de recepção mediática ante
dois contextos paradoxais. De um lado, o de uma cultura
comunicacional cada vez mais baseada na imagem, e, de outro, o da
diversidade e pluralidade culturais que marcam hoje a sociedade
globalizada. Com a preocupação de problematizar estas questões
mais do que indicar conclusões, aqui se busca dimensionar os
nexos existentes entre esses dois contextos, na perspectiva das
práticas de recepção mediática, envolvendo as temáticas da
cultura da imagem, da identidade cultural e do espaço publico
mediático.
1. Imagem fotográfica e temporalidade social
Os acontecimentos terroristas
ocorridos com um trem na Espanha, em março de 2004, foram o
estopim de uma série de manifestações em todo o mundo sobre o
terrorismo internacional. Mas alguns detalhes do atentado ficaram
circunscritos ao domínio dos editores e profissionais dos maiores
jornais do mundo. A maioria da imprensa internacional usou uma
imagem, fornecida pela agência Reuters, dos destroços do trem
espanhol. Porém, um detalhe que chamava a atenção nessa
fotografia era uma pequena parte que se caracterizou como restos
de um membro inferior do corpo humano encontrados a alguns metros
de distância. Por todo o mundo, essa mesma fotografia teve uma
rápida e sutil manipulação a fim de se encobrir, ou até mesmo
excluir, esse fragmento. Os jornais The Times, Gazet Van Antwerpen
e The Telegraph preferiram excluir o referido detalhe. O jornal
The Guardian optou por mudar a cor da parte do corpo para cinza, a
fim de ser menos perceptível. Já os jornais The Washington Post,
Daily News, El Pais e Folha de São Paulo optaram por deixar a
imagem intacta.
Esta imagem fotográfica suscitou discussões nos principais
jornais do mundo sobre a ética nos meios de comunicação em
tempos em que os editores de imagens digitais fotográficas podem
alterar substancialmente e muito rapidamente seu sentido e valor.
Decorrem daí indagações sobre o fato, com o objetivo de
analisar quais foram os significados trazidos pela omissão, ou
não, do detalhe, bem como interpretar o lugar da imagem no
contexto político-cultural: o tempo social padronizado de
distribuição globalizada de conteúdos mediáticos corresponde
ao tempo social de sua recepção-consumo? A alteração do
detalhe da fotografia rompe culturalmente com a sua distribuição
globalizada, já que estruturalmente sua maior parte (80%),
manteve-se inalterada? No contexto de discussão sobre as
múltiplas possibilidades da imagem, da mídia, do tempo e da
cultura na atualidade, aqui se situa a proposta de especular sobre
o papel da imagem, em específico da fotografia digital, como
espaço de construção de realidades na contemporaneidade.
Dois teóricos são aqui referenciados na busca de entendimento do
papel da imagem como construtora de realidades no contexto de um
mundo globalizado: Vilém Flusser especula sobre uma futura
filosofia da fotografia em tempos onde a imagem técnica torna-se
onipresente e Jean Baudrillard indaga sobre a filosofia da
imagem-simulação como construtora de um nova realidade.
Para Flusser, "as imagens são superfícies que pretendem
algo. Devem sua origem à capacidade de abstração específica
que podemos chamar de imaginação." (2002:7). Nessa mesma
linha, ele fala sobre a imaginação: "imaginação é a
capacidade de codificar fenômenos de quatro dimensões em
símbolos planos e decodificar as mensagens assim codificadas.
Imaginação é a capacidade de fazer e decifrar imagens."
(2002:7). A imagem, portanto, seria nossa capacidade de imaginar,
criar e decodificar o mundo a nossa volta, daí sua importância
na caracterização da atualidade como construtora do conhecer, do
saber, do prazer, da vida.
Entretanto, ao representar o mundo em seus mais diversos olhares,
as imagens exercem o papel de mediadoras entre nós e esse mundo,
como se fossem mapas de um território, e essa mediação faz
desse mapa um espaço mais importante do que o próprio
território em si: "imagens têm o propósito de representar
o mundo. Mas ao fazê-lo, interpõem-se entre o mundo e o homem.
Seu propósito é serem mapas do mundo, mas passaram a ser
biombos". (2002:9).
É o que Flusser resume quando assinala:
"ou seja, as imagens técnicas (e, em primeiro lugar, a
fotografia) deviam construir denominador comum entre o
conhecimento científico(... ) Na realidade, porém, a revolução
das imagens técnicas tomou rumos diferentes: ela não torna
visível o conhecimento científico, mas o falseia; não
reintroduz as imagens tradicionais, mas as substitui; não torna
visível a magia subliminar, mas a substitui por outra."
(2002: 18).
Sendo assim, nossa capacidade de
imaginação torna-se alucinação, estamos entre biombos, e o
homem fica incapaz de poder decifrá-las, isto é, de decompor as
dimensões perdidas no ato de registrar a imagem fotográfica.
Essa abordagem sobre o papel da imagem técnica na atualidade e
suas conseqüências frente à cultura são as intersecções que
ligam os postulados iniciais de Flusser com as indagações de
Baudrillard. Para esse, a abstração já não é a do mapa, do
duplo, do espelho ou o do conceito: "A simulação já não
é a simulação de um território, de um ser referencial de uma
substância. O território já não precede o mapa, nem lhe
sobrevive. É agora o mapa que precede o território - precessão
dos simulacros." (1981:8) Caracteriza-se aqui, tanto em
Flusser quanto em Baudrillard, a dimensão de superioridade da
simulação do mapa frente ao território.
A perspectiva filosófica de Flusser busca, inicialmente,
denunciar a possibilidade do fotógrafo tornar-se um funcionário
do equipamento. Para ele, o futuro da fotografia está na
capacidade humana de ainda poder construir os mapas dos
territórios e também intervir de forma presente nos processos de
elaboração da imagem. Já a filosofia de Baudrillard aponta a
perda de referencial trazido pelas imagens simuladas no contexto
da sociedade atual. Ele assim se refere a essa ruptura com a
realidade através da simulação: "A partir do momento em
que vivemos no tempo real, em que os acontecimentos desfilam como
num 'traveling' o tempo de reflexão sofre um curto circuito. A
tela quebrou a distância entre o acontecimento, o fato e a
percepção .
Tanto Baudrillard quanto Flusser apontam, mesmo que de forma
indireta, o papel do tempo e da cultura na construção da imagem
na sociedade atual. Para o segundo, estamos perdendo nossa
capacidade, através da imagem técnica, de recodificar o tempo e
o espaço abstraídos pelo processo de criação das imagens. Tal
crise decorre da caracterização do tempo como fator primordial
na capacidade cognitiva de absorção e interpretação das
informações visuais.
As indagações sobre a atualidade das sociedades contemporâneas,
trazidas pelos dois pensadores, são espaços teóricos que
possibilitam o entendimento da globalização da imagem como forma
de massificação e simulação, situações essas, possibilitadas
pela economia global. Daí a leitura de que quase a totalidade dos
meios de comunicação usou, em princípio, a mesma fotografia do
atentado, o que reflete esse caráter globalizado e ao mesmo tempo
padronizado com que a mídia trata as informações hoje.
Porém, conforme abordado nas questões aqui colocadas, qual o
poder que o detalhe fotográfico trouxe à imagem e a sua
conseqüente utilização ou não, no contexto acima exposto?
Haveríamos de pensar que, apesar de ter a maior parte da
fotografia (80%) globalizada, isto é, não alterada desde sua
produção, houve na mesma foto um outro contexto, o dos 20% do
detalhe e que não só suscitaram as discussões sobre seu
conteúdo, como também a presente reflexão.
As considerações teóricas apontadas por Flusser e Baudrillard
parecem, no entanto, enfraquecidas quando se procura compreender a
sutileza do detalhe rompendo com uma cadeia de aspectos
massificados das mídias e da cultura na atualidade. Diante disso,
há de se considerar a existência de outros fatores que estão
envolvidos e que não se restringem só ao caráter de
globalização ou massificação da informação através da
fotografia. Nesse sentido, outras posturas teóricas que abrangem
de uma forma mais completa e complexa a imagem, a mídia e a
cultura são possíveis caminhos para se entender a importância
da manipulação do detalhe e dos questionamentos derivados, como
para romper com o modelo fechado do simulacro baudrillardiano.
Abordagens mais abrangentes sobre a relação entre comunicação
e cultura possibilitam um novo olhar. Assim, observe-se que para
Martín-Barbero não se trata mais de medir os efeitos produzidos
pelos meios de comunicação e suas imagens sobre as pessoas, mas
construir uma análise mais integral do consumo pelos diversos
segmentos, entendendo-os como "conjunto de processos de
apropriação de produtos." (1997:290). Isso esclarece sobre
os novos modos de consumo: "não estamos nem no terreno da
tão combatida 'compulsão consumista' nem no repertório de
atitudes e gostos recolhidos e classificados pelas pesquisas de
mercado, mas tampouco no vago mundo da simulação e do simulacro
baudrillardiano". (1997: 290)
Ao se avaliar a importância do detalhe fotográfico sob esta
ótica, percebe-se que o contexto de leitura da fotografia por
diversos jornais em diferentes países, fez-se perpassando
sentidos culturais que de alguma forma pressupõe os leitores e
suas práticas de vida, ainda que estejam presentes interesses
mercadológicos. Esses sentidos levaram a que cada prática
cultural, no ato de se apropriar do material fotográfico, o
redefinisse segundo essas mesmas práticas. A omissão ou não do
detalhe deu-se nesse processo.
Diferentes mediações culturais se colocam de forma hegemônica
nessa leitura decodificada, como em um espaço de confronto, de
relações de forças dentro de um sistema onde grupos passam a
ser preponderantes, mas não exclusivos. Mediações como a da
cotidianidade familiar, da temporalidade social e da competência
cultural, como apontado por Martim-Barbero, entram nesse processo
de construção de hegemonias. No caso aqui estudado, vale a pena
ressaltar um pouco mais sobre a pertinência das mediações
ligadas à temporalidade social e à competência cultural na
caracterização das diversas utilizações dadas à fotografia em
questão.
O tempo social tem uma contextualidade histórica. Na atualidade
da sociedade capitalista e industrial, o tempo é sempre um
componente vital e muito valorizado pelo capital, que o mensura,
planifica e calcula na produção. Este é o contexto do tempo
cronológico, ou o tempo do relógio. Porém, essa forma de se
pensar o tempo começa a conviver com uma visão mais
diversificada, isto é, de uma cotidianidade que começa e acaba
para recomeçar novamente, ou um tempo não feito de unidades
contábeis, ou cíclicas, mas de fragmentos de tempos assim como o
tempo do mundo pessoal e cultural vividos. Bergson, Heidegger,
entre outros, introduzem o conceito de temporalidade nas questões
relativas ao tempo nas sociedades capitalistas modernas. Essa
apropriação do caráter de temporalidade também está presente
nos estudos de Martín-Barbero, sinalizando a importância da
recepção mediática e de seu contexto histórico-cultural na
forma diversificada de apropriação tanto da imagem quanto dos
modos e gêneros com que ela se realiza na indústria cultural
contemporânea.
Assim, o tempo torna-se um valor de extrema significação na
trama de diversidade cultural, dado que o tempo social da
produção da imagem tem dimensão de poder que não se esgota na
sua própria produção, manipulação e estandardização pelos
medias, mas tem sua fonte de poder igualmente ampla e até muitas
vezes superior na diversidade dos significados da temporalidade
social dos receptores. É neste contexto, que a massificação, o
agenciamento, o consumo e a simulação propostos por Flusser e
Baudrillard estariam, em princípio, a contento desse primeiro
momento, o da produção da imagem, mas insuficientes para darem
conta da pluralidade de acepções existentes quanto ao detalhe
fotográfico. Em síntese, o detalhe fotográfico teve sua
significação definida pela dimensão cultural que lhe foi
atribuída por cada jornal em cada país. O detalhe determinou o
sentido hegemônico da foto.
2. Mediação e identidade
cultural: do nacional ao global
Se durante toda a modernidade as
identidades estiveram protegidas no interior das diversas culturas
nacionais, com a consolidação recente do mundo global e o
conseqüente enfraquecimento dos Estados, estão sendo obrigadas a
se movimentar em busca de novas configurações. Isso se deve ao
fato de que os discursos que forneciam os mapas simbólicos dentro
dos quais se constituíam, agora encontram-se tensionados pelos
fluxos globais, sendo insuficientes a este propósito. A
globalização não só colocou em xeque a capacidade do Estado
Nação em circunscrever e limitar os processos culturais ao seu
interior, como ampliou largamente as trocas simbólicas e as redes
de construção de significado dentro das quais as identidades se
sustentam. Assim, aquela que era a configuração hegemônica da
identidade cultural durante toda a modernidade, a nacional, entrou
em uma forte crise de significação, o que tem transformado
decisivamente as percepções dessa questão. Dizer que um sujeito
é brasileiro, inglês ou japonês já não diz muito no mundo
global. Sabe-se que no interior de cada nação, ou perpassando
por várias delas, há outras redes de significado sustentando
outras posições-de-sujeito que se apresentam mais relevantes.
Hoje, a nacionalidade já não é suficiente para posicionar e
diferenciar os sujeitos nas relações estabelecidas na dinâmica
de suas vidas cotidianas.
Mas será que podemos falar que a crise da identidade nacional é
uma crise generalizada da identidade? Ao que indicam as práticas
cotidianas, essa afirmação não seria verdadeira. Afinal, o que
se observa é que a identidade ao romper com sua faceta nacional,
vive um momento rico de experimentações, hibridizações e
fragmentações, o qual vem pluralizando suas configurações.
Quando sai de campo a mediação da nação, entra em jogo uma
variedade de outras: a tradição, a religião, a raça, a
sexualidade, o lazer, as práticas de consumo, por exemplo.
Diversificadas, as identidades culturais tornaram-se duplamente
incertas. A dúvida não está apenas nos posicionamentos
hegemônicos que assumem no cotidiano. O processo contínuo de
reconstrução na qual estão inseridas gera também uma crise de
conceitos e obriga a uma revisão do entendimento fixado para o
assunto desde a modernidade.
Ainda que haja alguma controvérsia a este respeito, acreditamos
estar diante de um momento histórico de transformações sociais
significativas. De fato, o capitalismo nascido na modernidade
ainda se mantém como o modelo econômico hegemônico, mas sua
evolução em direção à globalização associada ao mal-estar
que se abateu sobre a episteme moderna nas últimas décadas e às
possibilidades de interação abertas pelas novas tecnologias
informacionais criou um cenário novo que evidencia mudanças
sociais substanciais. Algo que interfere diretamente nos processos
de construção das comunidades, no pertencimento e nos obriga a
repensar a identidade cultural.
Apesar de se encontrar em uma nova fase, o interesse pelo tema da
identidade cultural nas ciências sociais não é um fenômeno
recente e diversos entendimentos vem sendo formulados ao longo do
tempo. Sinteticamente, e de maneira recorrente em quase toda a
pluralidade de visões disponíveis, a identidade é entendida
como aquilo que posiciona e localiza o indivíduo frente ao
diverso. É a mediação que possibilita estabelecer relações de
igualdade e singularidade, de inclusão e exclusão em meio à
coletividade. Um recurso que opera baseado em sistemas de
classificação e atua no sentido de identificar e diferenciar o
sujeito dos demais indivíduos e dele próprio ao longo do tempo.
Está vinculada a uma idéia que é simbólica e a uma prática
concreta pelo meio da qual ganha vida (vide SILVA, 2003).
"A identidade é um significado - cultural e socialmente
atribuído"(SILVA 2003:89). Precisa ser entendida como um
processo simbólico, uma teia de significados que se constrói no
interior das relações sociais. Trata-se do resultado obtido na
eleição e articulação de elementos diversos diante das
diferentes situações de vida experimentadas pelos sujeitos, um
sentido negociado no interior do universo cultural e simbólico do
indivíduo e do grupo. É contingente, passível de mudanças e
posições múltiplas. A identidade não se dá a priori da vida
social, mas através desta. Em cada contexto social experimentado
pelo sujeito em que há novas relações, há uma nova
articulação e novas posições-de-sujeito. Portanto, uma
configuração diferenciada da identidade. Hall (2003:109) explica
que:
"é precisamente porque as identidades são construídas
dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las
como produzidas em locais históricos e institucionais
específicos, no interior de formações e práticas discursivas
específicas, por estratégias e iniciativas específicas."
É apenas quando inserida em um
contexto específico que a identidade ganha contornos e
significado. Por isso, em cada situação, para cada grupo de
sujeitos, há mediações específicas atuando. Numa dada
relação, a mediação hegemônica pode ser a diferença de
gênero e as identidades serão construídas a partir da idéia de
"homem" e "mulher". Em outra situação, a
mediação fundamental pode ser a cor da pele e os mesmos sujeitos
serão re-identificados, agora como "brancos" ou
"negros". As identidades estão sempre em construção,
dependentes desses sistemas classificatórios estabelecidos no
momento específico em que as diferenças são evocadas. Por traz
da construção das identidades há sempre a mediação de um
processo simbólico e discursivo que marca as diferenças.
Se nas sociedades pré-modernas a comunhão das práticas
tradicionais e da religiosidade eram os fundamentos que conferiam
a identidade aos indivíduos, com o processo de secularização
envolvido na modernidade e o conseqüente distanciamento e
negação desse vínculo com o passado, a identidade aparece pela
primeira vez como uma questão a ser pensada, afirmada. Antes,
eram os ritos, os mitos, a história partilhados os pontos de
sustentação que mantinham vivas e reunidas as diversas tribos,
clãs e lhes conferiam identidade. Com a negação da tradição
promovida pela filosofia moderna, que a caracterizava como atraso,
bem como com a consolidação de Estados multiétnicos, é a
cultura nacional que surge como o novo elemento de mediação
capaz de constituir as novas identidades modernas. Trata-se de um
elemento imaginado, simbólico e discursivo que passa a garantir a
identidade às comunidades recém criadas. Nesse sentido, as
culturas nacionais podem ser descritas como tradições
inventadas, idealizadas, que sustentam uma comunidade que só pode
ser concebida como sendo imaginada (HALL, 2003A). Isso, porque
quando da delimitação das fronteiras nacionais, a população
que se inscreve no âmbito do Estado nacional não é
necessariamente uma formação culturalmente homogênea ou ligada
por elos de solidariedade e por um passado comum. A cultura
nacional é justamente a rede de significados forjada com o
objetivo de garantir a unidade representacional ao conjunto de
pessoas reunidas na nação. Essa é uma comunidade simbólica que
se sustenta imaginariamente por meio da representação. Assim
Hall (2003A: 50) afirma que "uma cultura nacional é um
discurso - um modo de construir sentidos que influencia e organiza
tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós
mesmos".
Porém, na contemporaneidade, quando o capitalismo global passa a
integrar o mundo em um único mercado e não se irradia mais a
partir de um centro, mas opera de maneira dispersa e integrada por
todo o globo, as trocas simbólicas mundializadas e o
enfraquecimento dos diversos Estados rompem com o poder de
significação das identidades nacionais. Aquele discurso que
oferecia um mapa para a constituição das identidades na
geografia moderna perde deu poder de orientação quando se
estabelece o novo território global. O que nos interessa perceber
aqui é que o processo de globalização ao se sobrepor à
configuração geopolítica da modernidade, diminui gradativamente
o lugar do Estado Nação como instituição mediadora das
identidades. A globalização precisa ser concebida como um
paradigma que opera pela desnacionalização e desloca as
economias, as culturas, as políticas e as comunidades em
direção a uma
economia-cultura-política-comunidade-mercado-mundo. Porém, esse
evento que induz ao enfraquecimento do nacional, ao passo que ruma
em direção a um processo de mundialização, também abre
espaço para o resgate de algumas tradições que haviam sido
encobertas pelo processo de consolidação do Estado Nação. Se
as diversas culturas nacionais que se constituíram como a
negação da tradição, ao serem fragmentas e rompidas rumam em
direção a uma configuração que é mundializada, a cultura que
Ortiz (2003) denomina de internacional popular mas também a outra
que retoma a tradição. Os fundamentalismos religiosos são
exemplos desse resgate. Assim, o processo que envolve a
construção da cultura na sociedade global não se dá de maneira
homogênea ou em sentido único como foi na modernidade. Ao
contrário promove também a diversidade. A tradição e as trocas
que constituem novas comunidades aparecem como contraponto a uma
possível homogeneização.
Obviamente, a relação entre a recuperação da tradição e a
inserção na cultura internacional popular não é uma
movimentação horizontal e equilibrada. Há, na verdade, um
processo de reconstrução cultural em que esses dois sentidos se
somam, se hibridizam, se misturam, sendo que o sentido hegemônico
só se revela no contexto concreto do acontecimento. O que opera
nesse momento de reconstrução da cultura é o processo que Hall
(2003A) denomina de tradução. A partir dele, cada grupo de
indivíduos pode ressignificar ou se apropriar da cultura
mundializada tendo como base a cultura tradicional ou, ao
contrário, fazer a tradução da tradição sustentando-se na
cultura mundializada. O resultado é um espectro cultural diverso,
mas em permanente comunicação.
No mundo globalizado há um fluxo permanente de pessoas,
informações, bens materiais e simbólicos. Esse fluxo opera por
meio do comércio, das migrações, da indústria cultural e das
redes informatizadas de troca de informações e acaba
pluralizando as práticas culturais e gerando novos ambientes de
pertencimento. Parece interessante a idéia de que é na partilha
desses universos culturais plurais, vistos aqui como espaços de
representação, que estão surgindo as novas comunidades e sendo
sedimentadas as identidades contemporâneas. Na mídia, nas redes
de computadores, na publicidade, na moda circulam e são formados
ambientes culturais que sustentam práticas de vida,
comportamentos, pensamentos e gostos. É através do acesso aos
bens materiais e simbólicos e no seu consumo por públicos
específicos que essas parecem ganhar forma como as novas
comunidades do mundo global. Como propõe Canclini (1999) essas
comunidades estão se formando como redes de consumidores que
compartilham universos culturais próximos e os mesmos padrões de
consumo. Comunidades desterritorializadas que podem constituir-se
dessa maneira graças ao fluxo mundializado de bens materiais e
simbólicos. É na apropriação de produtos, sejam culturais ou
não, que as identidades são manifestadas e construídas. O ato
do consumo é o lugar de materialização das identidades no mundo
globalizado.
Se na modernidade as identidades vinculavam-se a comunidade
imaginada da nação, no mundo globalizado vinculam-se a
comunidades imaginadas de consumidores. Se ontem materializavam-se
através de símbolos como a bandeira e narrativas como a
história e o mito fundacional nacionais, hoje encontram sua
materialidade nos produtos da moda e da mídia e na carga
simbólica que esses carregam. Se na modernidade era o Estado,
através de instituições como a Escola e os museus, o
responsável por manter viva a representação da identidade, na
globalização essa função é desempenhada pelos meios de
comunicação e pela publicidade que mantêm clara a simbologia
dos produtos e permitem que os consumidores se diferenciem a
partir de sua apropriação. Porém, se a cultura da modernidade
negava a tradição, no plano da globalização essa não é
descartada, integra-se pela tradução à rede de construção de
significados como mais um objeto de significação e de consumo.
Na dinâmica do mundo global, o discurso da identidade imaginada
na nação como projeto de progresso perde poder de significação
e representação e é fragmentado em outros discursos como o da
negritude, do esporte e da sexualidade sustentados nas práticas
cotidianas. A adesão dispersa a esses discursos acaba por criar
uma comunidade distanciada fisicamente, mas que se aproxima
através do consumo e da partilha de um mesmo imaginário e
comportamento. Levar para a esfera do consumo a representação
das identidades no mundo global não é a fetichização dessa,
mas a possibilidade de manifestá-la em um mundo em que a
circulação de idéias e produtos é vertiginosa e os universos
culturais e as comunidades imaginadas se transformam com extrema
rapidez. É o mundo do consumo que oferece respostas rápidas a
uma possível flutuação das identidades e, devido ao seu alcance
ampliado, possibilita a construção da identidade e da diferença
na partilha de uma ou mais comunidades (sempre imaginadas), ainda
que em distância, ainda que desterritorializadas.
3. Identidade cultural e espaço
publico
O estudo sobre as praticas de
recepção mediática se apoiam cada vez mais em perspectivas
interdisciplinares. É o reconhecimento da complexidade de seu
objeto de estudo tanto quanto da pluralidade de enfoques que se
colocam hoje possíveis de serem aglutinados e disponibilizados
para sua compreensão. Assim, se de um lado é desafiadora a
compreensão da identidade cultural numa sociedade com as marcas
da sociedade contemporânea, é igualmente complexo entender o
papel do processo comunicacional, sustentado hegemonicamente em
suportes imagéticos, na construção dessas praticas sociais.
Nesse sentido, é instigante a perspectiva de Beaud (1985:151)
quando afirma ser importante buscar "a ligação entre as
práticas sociais e a evolução conjunta do espaço público e
dos processos de comunicação".
O sentimento de pertencimento é uma das dimensões presentes nas
praticas de recepção mediática. Pode parecer uma temática de
importância secundária, quando os eixos de investigação se
situam mais nos âmbitos do poder desses mesmos meios sobre as
pessoas, da qualidade cultural de sua produção ou da
construção da cidadania no contexto da sociedade globalizada.
Essa é, por outro lado, uma temática que de imediato parece mais
se associar a estudo de questões da intimidade pessoal, de vida
comunitária de pequenos grupos, pouco indicando sobre o público
político e social, sobre os meios de comunicação cada vez mais
consumidos.
De fato, o estudo do sentimento de pertencimento tem sua origem
vinculada aos estudos sobre socialização e especialmente aos que
se reportam a organização e funcionamento de comunidades
baseadas em contato face a face. É nessa perspectiva que surgem
as acepções de sentimento de pertencimento, fazer parte,
inserção, ser membro, participar (Silverstone, 1999).
Horckheimer e Adorno (1973:156) citam Warner para definir
comunidade como sendo "uma pluralidade de homens com
interesses, comportamentos e finalidades comuns, em virtude de sua
pertença ao mesmo grupo social como estrutura constante em toda e
qualquer forma de sociedade antiga ou moderna". Essas
acepções originais de comunidade foram sendo ampliadas na
extensão de sua significação e hoje se percebe a pluralidade
com que os conceitos de comunidade e de pertencimento são
utilizados: Comunidade Imaginada, Comunidade Virtual, Comunidade
de Apropriação, Comunidade Interpretativa, Comunidade
Hermenêutica, Comunidade e Comunicação Comunitárias, entre
outros.
Veja-se, por exemplo, que pertencimento também se liga à
socialização política, como observa Monteiro:
"a reivindicação (e o reconhecimento) de direitos supõe,
em princípio, que os atores sociais se sintam parte de uma
sociedade política mais abrangente do que aquela definida pelo
seu pertencimento à rede de sociabilidades primárias (família,
etnia, religião, etc.). No entanto, talvez esteja aí um dos nós
górdios da questão da democracia do mundo contemporâneo: o
enfraquecimento da capacidade dos sistemas democráticos de gerar
sentimentos de pertencimento a coletividades mais abstratas
organizadas em torno de reconhecimento de direitos"
(1996:104).
Essas diferentes conceituações
de pertencimento são indicativas da pluralidade de
significações que envolve. Duas perspectivas são adiante
apontadas.
Entre diferentes pesquisadores que recentemente têm envolvido a
temática do pertencimento aos estudos sobre o processo
comunicacional estão Canclini e Martin-Barbero. O segundo
trabalha a questão em vários de seus textos, nos quais assume
duas direções complementares: primeiro quando reconhece que a
sociedade contemporânea é fragmentada, contexto que facilita a
determinação e transformação de questões como aquelas
relativas a povo e nação. Povo vem sendo substituído por
público, base de um novo espaço público à medida que há um
entrelaçamento do público com os novos modos de simbolização e
representação abertos pelas redes comunicacionais e pelos fluxos
de informação (l997:91). Por outro lado, ao reconhecer a
des-espacialização das cidades, o autor indica que vêm surgindo
"reconfigurações do sentido de pertencimento e identidades
cidadãs, num contexto conflitivo entre povo-público, de uma
cidade cada vez mais mediada por veículos de comunicação e de
informação donde a cidade virtual" (1997:92). Esse lugar
mediador dos diferentes media e especialmente aquele que ocupa na
busca de identidade numa sociedade fragmentada se revela quando se
percebe que "se a televisão atrai é porque a rua expulsa,
é dos medos que vivem os meios" (l996:33). Medos que provêm
secretamente da perda do sentimento de pertencimento em cidades
nas quais a racionalidade formal e comercial acaba com a paisagem
em que se apoiava a memória coletiva" (1996:33).
Numa segunda direção, o sentimento de pertencimento é visto, em
textos de Martin-Barbero, associado ao consumo, ora sendo
"espaço de integração e comunicação de sentidos, como
modo de circulação e popularização de sentido", ora sendo
espaço de objetivação de desejos: "dimensão fundamental
(...) a dimensão libidinal, dimensão desejante(...) consumir faz
parte da relação desejante entre sujeitos da interpretação que
nos constitui como sujeitos" (1995:62). Os meios de
comunicação se situam como mediadores desse caos e dessa
fragmentação, ou muitas vezes chegam a ser
"uma compensação dessa desarticulação, produzindo no
imaginário das pessoas certas articulações (...) compensando as
novas formas de solidão, os novos isolamentos, através da
diferenciação, as convocações tribais que estimulam a
configuração de audiência e de públicos" (1995:152).
Os diferentes media são vistos
enquanto espaço aglutinador na fragmentação social, espaço de
centralização nos processos de exclusão das pessoas. Identidade
se confunde com a busca de um comum, com mediações entre o
vivido isolado, fragmentado e diferente, e a necessidade de seu
oposto pela inclusão. Embora essa noção de identidade exija ser
melhor detalhada, essa dimensão política, através da qual se
introduz o conceito de cidadania, é chave nos estudos Canclini,
sobretudo pela análise do significado do consumo na vida
contemporânea.
É o que se observa quando o autor diz:
"ser cidadão não tem a ver com os direitos reconhecidos
pelos aparelhos estatais para os que nasceram em um território,
mas também com as práticas sociais e culturais que dão sentido
ao pertencimento e fazem com que se sintam diferentes os que
possuem uma mesma língua, formas semelhantes de organização e
satisfação de suas necessidades" (1995:22).
Assume-se que a cidadania não se
refere apenas à satisfação dos direitos que levam à igualdade
mas também daqueles que se reportam à diferença como
componentes também da democracia. A questão envolve o debate
sobre as ciladas que a diferença pode assumir quando tomada como
discriminação, o que leva à sua denúncia, e seu lugar
transformador ou então como justificativa conservadora de se
buscar a sua manutenção pelo direito de igualdade (Pierucci,
1999).
O pertencimento se reforça como estratégia simbólica de busca
de inclusão ante contextos de fragmentação derivados de
processos de desigualdade cada vez mais intensos. Os meios de
comunicação, especialmente os imagéticos, como mediadores desse
processo e atuando na esfera simbólica através de gêneros e
formatos tanto quanto de veículos diversos, lidam com um comum
social de informações, valores e necessidades que constituem a
representação do que passa a ser buscado e circulado na
concretude de práticas cotidianas, segundo espaço e tempo
sociais definidos.
Saliente-se, no entanto, a significação da busca de
pertencimento a um comum social quando se concebe este se
expressando através do que se denomina de espaço público. A
busca de pertencimento teria a sua realização quando a
identidade se realiza na esfera pública. É bem verdade que o
conceito de esfera publica é complexo, sobretudo a partir das
perspectivas de Habermas, onde predomina a importância de que
esse espaço seja antes de mais nada um espaço de argumentação,
discursiva, de senhores livres, com fins politico-sociais.
Pode-se aqui, no entanto, a partir de Miege (1995) sinalizar o
espaço publico mediático como sendo basicamente um espaço de
expressão dos diferentes tipos e razões de conflitos que
permeiam a vida social. Faz evidenciar o campo de formação
simbólica que constrói a opinião publica, a vontade
democrática, e como tal exprime os conflitos de uma sociedade
entre a igualdade desejada e a desigualdade vivida.
As perspectivas aqui apontas quanto ao sentimento de
pertencimento, embora derivadas de tradições distintas de
pesquisa e voltadas a objetos igualmente diferentes de estudos,
têm muitos aspectos em comum: 1. A compreensão da dimensão
simbólica que estrutura o sentimento de pertencimento; 2. O
reconhecimento do lugar singular que a comunicação representa
hoje na construção de identidades culturais tanto quanto na
construção e espaços públicos, donde dimensões novas que
permeiam a compreensão do sentimento de pertencimento e as
práticas de recepção mediatica; 3. O sentimento de
pertencimento parte da esfera subjetiva para se realizar na
dimensão de algo que ora é chamado de comum, ora de público,
mas que alguma forma traduz e desoculta a relação entre as
práticas de vividas no cotidiano e sua realização no social e
cultural mais amplo, no estar junto coletivo. É essa dimensão de
comum social que os diferencia e aproxima.
Enfim, se entendida a hegemonia da imagem na definição do papel
dos meios de comunicação social hoje, aqui estão pistas para se
aprofundar a busca das mediações sobre o lugar da imagem na
construção de realidades sociais e culturais na
contemporaneidade.
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Datos de los Autores: Marcelo
Henrique Leite, Mauro Wilton de Sousa, Rafael Luis Pompéia
Gioeilli: Pesquisadores junto ao Grupo de Estudos sobre Práticas
de Recepção Mediatica da Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, Brasil.
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