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Experimentando
com os Programas. A Leitura Analítica na Recepção de
Telenovelas
Márcia
Gomes Marques
Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul, UFMS
Resumo:
O argumento central deste artigo diz respeito a como, no caso das
telenovelas, o conhecimento dos elementos de feitura dos textos
interferem na experiência emocional e cognitiva que se desenvolve
a partir do contato entre texto e receptor. Para isto, são
expostos resultados de um estudo de recepção de telenovela, onde
foram identificadas dimensões complementares de leitura, através
das quais as participantes organizavam e apropriavam o que viam
nesses programas. Das dimensões identificadas, são discutidos os
resultados relativos à leitura analítica, a partir da qual se
apresentam e discutem esses programas desde suas regras
constitutivas.
Palavras-chave:
telenovelas, leitura analítica, compreensão.
Entre
os aspectos que caracterizam o debate sobre o que fazem os
espectadores com os produtos culturais com os quais entram em
contato, um dos mais relevantes diz respeito a se a explícita
consciência da forma, do conteúdo e das regras de feitura dos
textos constitui pré-requisito necessário para uma compreensão
ampla e adequada dos produtos culturais. Dentro desta perspectiva,
Höijer trabalha a interconexão entre o processo cognitivo e as
especificidades implicadas no discurso televisivo (conteúdos e
organização da narrativa), analisando a correlação entre a
compreensão e os pensamentos (reflexão) evocados pelos programas[1].
Em The Export of Meaning, Liebes e Katz contrapõem uma forma de
leitura mais distanciada e presa aos elementos de composição dos
textos, com uma forma de exposição onde o telespectador
demonstra envolver-se emocionalmente ao discutir seus valores e os
comportamentos observados no programa. O contato mais distanciado,
cuja característica fundamental seria o fato do receptor
demonstrar-se consciente e discutir os textos enquanto construções,
é denominado leitura crítica, pela ênfase posta pelos
telespectadores em decifrar os aspectos sintáticos e semânticos
dos programas. Oposta à leitura crítica, o contato em que o
receptor “entra no texto” seria marcado, segundo estes
autores, pelo fato dos receptores ligarem programa e vida real,
pela habilidade de generalizar o que é proposto pelos produtos,
de não estabelecerem fronteiras claras e bem definidas entre os
programas e a realidade social[2].
A
categorização das formas de compreensão e assimilação dos
componentes culturais enquanto textualizadas ou gramaticalizadas[3] tem sido trabalhada, quando se busca caracterizar o
contato dos telespectadores com os diferentes tipos de produtos
disponibilizados pelos meios de comunicação. As maneiras
distanciada e “próxima” de se relacionar com os textos têm
sido relacionadas, principalmente, a diferentes níveis da
complexidade de entendimento[4], ligados seja ao grau de formação escolar e à
especificidades culturais ligadas ao grupo étnico de proveniência[5],
seja às atitudes relativas a posições de classe social[6].
Em um trabalho sobre os modos de ver telenovelas, Sonia Muñoz
contrapõe um grupo de jovens estudantes de classe média com
mulheres adultas de setores populares, indicando como o primeiro
grupo fazia uma leitura gramaticalizada devido à influência da
formação escolar, enquanto o segundo teria um contato
textualizado, em um ir e vir entre os vários textos e mesclando
aspectos desses com a experiência adquirida nos meios de comunicação
e na vida cotidiana[7].
Em
lugar de identificar características ou formas de ser dos
receptores a segunda de se aproximam-se dos textos desde o
discernimento de suas regras, ou a partir do conjunto de rotinas e
significados apresentados, aqui se sustenta que, no caso das
telenovelas, o contato é textualizado pela maneira de propor-se
desses programas, que invocam primeiramente respostas dos
receptores desde suas próprias vivências, ainda que, para isto,
utilizem o conhecimento acumulado sobre o que há de regularidade
no gênero. Em um trabalho sobre a recepção de telenovela
verificou-se que, dentre as várias formas de acercar-se das histórias
que assistiam, as telespectadoras discerniam elementos de forma e
de conteúdo, e utilizavam as percepções construídas a esse
respeito para interpretar e apropriar, como sentido construído, o
que viam nesses programas. Embora a percepção das regras do gênero
não aflorassem imediatamente no discurso feito pelas
telespectadoras, quando eram feitas perguntas específicas a esse
respeito, elas demonstravam possuir um amplo repertório de
saberes sobre isto, e utilizar dessas noções para aproveitar
melhor, como experiência emocional e cognitiva, o que viviam com
as telenovelas.
Após
definir as dimensões de leitura observadas, neste artigo serão
expostos os resultados obtidos sobre um dos tipos de leitura
identificada, a analítica, onde as receptoras expressaram usar o
discernimento das regras para compreender melhor as telenovelas, e
para enriquecer a interpretação que faziam das situações e
conflitos que mais lhes interessavam. A pesquisa em questão
visava indagar se as telespectadoras utilizavam as telenovelas
como ambiente de socialização. Combinadas a análise sócio-narrativa
no gênero, foram aplicados questionários e realizadas
entrevistas em profundidade com mulheres brasileiras de diferentes
gerações, que assistiam regularmente a esses programas. Como
dimensões de leitura foram identificadas: a analítica, que se
detém na análise do gênero; a interpretativa, que se refere à
compreensão e à interpretação dos aspectos semânticos dos
textos; e a referencial, onde a ênfase é posta no vínculo,
aplicativo, entre texto e experiência de vida.
As
dimensões de leitura:
Entre
os aspectos relativos à atividade cognitiva na recepção de
telenovelas, foram individuadas dimensões de leitura por meio das
quais as telespectadoras apreendiam os aspectos percebidos e
explicavam o que eram esses programas para elas. Além da percepção
da pluralidade de elementos que compõem esses produtos, a presença
de distintos ângulos de discernimento expressava a coexistência
de distintas formas de atividade que marcam a qualidade da interação
com as telenovelas. As dimensões constitutivas dos programas se
traduzem nas formas e na qualidade da relação, que expressam os
elementos utilizados para “ler” e assimilar o que é proposto
pelos textos. A individuação das dimensões de leituras se
relaciona, então, com a identificação dos “ângulos de visão”
que propiciam a apropriação dos conteúdos sociais propostos, e
com a discriminação das características consideradas
relevantes, no gênero, para a apropriação que se dá no contato
com as telenovelas.
Ainda
que fruto da atividade do receptor, a variedade de leituras, como
repercussão do contato texto/receptor, deve-se, também, às
especificidades do produto em questão. As dimensões de leitura
que emergem da interação com um determinado tipo de texto estão
sujeitas, então, à combinação entre o que é proposto pelo
texto e o modo como nele se organizam e dispõem os elementos
apresentados. Elas dependem, ainda, do que estando no texto, e do
que nele é predisposto como estratégia de interpelação, é
utilizado pelos receptores para apreender os elementos observados
nas sucessivas etapas da recepção. À diferença dos níveis ou
das modalidades de leitura, as dimensões de leitura aqui
propostas não se referem às formas de posicionar-se[8]
e de decifrar o sentido dos textos[9].
Neste caso, referem-se à percepção da variedade de aspectos
que, combinados, fazem com que as telenovelas sejam como são.
Cada parte constitutiva (dimensão) demanda e estimula o
desenvolvimento de determinados tipos de competências, e solicita
uma variedade de abordagens para que se consiga apreender e
articular os elementos necessários para interpretar o que o
texto, no conjunto, tenciona propor ou sugerir como significado.
As
dimensões de leitura identificadas se aproximam aos tipos de
respostas cognitivas propostas por Neuman, a partir das quais,
segundo este autor, os receptores exprimem as idéias elaboradas
sobre os programas, e a relação que fazem entre os programas e a
própria vida, a comunidade e a sociedade em geral[10].
As dimensões de leitura se avizinham, em menor medida, aos tipos
de leituras propostas por Liebes e Katz, porquanto eles exploram,
como mencionado, o tipo de leitura onde o receptor conecta o
programa à vida real, com aquele onde os programas são
discutidos como construções ficcionais e nos seus aspectos estéticos[11].
As
dimensões de leitura manifestam, então, os aspectos
constitutivos da interação com os textos. Na combinação dos ângulos
de visão presentes no discurso sobre as telenovelas, as
participantes demonstraram perceber e elaborar, de forma associada
e separadamente, os aspectos que para elas se mostravam mais
significativos. As dimensões revelam diferentes facetas da
qualidade da interação com as telenovelas, e da contribuição
dessa interação para o desenvolvimento social e intelectual das
telespectadoras. Ao mesmo tempo que a percepção das dimensões
demonstra a capacidade de circunscrever e evidenciar aspectos
específicos dessas obras, evidencia, também, que as receptoras
pensavam e refletiam sobre os seus aspectos constitutivos, e que
assimilavam e apropriavam, de modo organizado, muitos dos
elementos e dos saberes que compõem e articulam essas dimensões.
As leituras aqui individuadas permitem resgatar, então, à versão
construída sobre o que e como são as telenovelas, sobre o que se
acredita que elas propõem e tencionam “transmitir”. Com elas
se resgata, também, a como o receptor se posiciona, como sujeito
social, perante o que observa neste tipo específico de construção
narrativa.
A
dimensão de leitura analítica
Mesmo
que, quando solicitadas a relatar a experiência com as
telenovelas, a reação primeira apontasse para o predomínio da
dimensão referencial na relação com esses programas, em um
segundo momento veio sistematicamente a tona que, junto e
entrecortando esta primeira dimensão, coexistia outro ângulo de
visão desses programas: a dimensão analítica. Em lugar de
insistir na idéia de que a apreensão dos conteúdos culturais é
feita de forma textualizada, a presença desta dimensão reforça
a idéia de que a percepção da semântica e da gramática que
organizam esses programas dá suporte para as operações
cognitivas realizadas com esses textos.
Esta
estratégia de leitura tem como objeto o gênero em si mesmo.
Neste caso, o destaque é posto nas características, nos pontos
de melhora e nas qualidades das telenovelas como produto. A
especificação das particularidades, do modo de fazer de se
propor aos telespectadores, era usada como suporte para descrever
as reações e as emoções suscitadas pelos programas. Os
elementos fixos, as características preferidas e as menções
sobre o que “poderia ser melhorado”, ajudavam a compor a
exposição sobre os conteúdos, os recursos narrativos e o
sentimento de implicação[12]
suscitado na relação com os programas. Este tipo de interação
cognitiva com os programas acompanha e apóia, então, as outras
dimensões de leituras observadas, pois o domínio dos mecanismos
de funcionamento dos textos dava sustentação para os movimentos
interpretativos e as operações de conhecimento necessárias para
construir sentido e apropriar os conteúdos sócio-culturais
propostos pelos textos.
A
leitura analítica se refere, então, à percepção dos aspectos
ligados à forma de ser do gênero, às competências que as
telespectadoras desenvolvem a partir da experiência que têm dos
programas, sobre o que compreendem de como eles são feitos. É
nesta dimensão de leitura que se manifestam as reflexões sobre o
modo de interagir e de cooptar os receptores que tipifica esses
produtos. É desde este ângulo de visão que observam-se os
fatores que distinguem estes produtos, como semelhança e diferença,
dos outros tipos de programas televisivos. A abordagem analítica
dos programas tem a ver, portanto, com a identificação dos
recursos que, por sua centralidade e regularidade, servem para
distinguir o que é ou não é telenovela. Sendo assim, a expressão
desta forma de abordar os conteúdos sociais desses programas está
ligada a percepção dos elementos de repetição no modo de
construir a narrativa, na redundância com relação à
caracterização dos personagens centrais. A atitude analítica se
faz presente, ainda, quando se critica os programas desde seu modo
típico de ser, e na ação colaborativa – no sentido de agir
para preencher, para completar, para ajudar o texto a funcionar
– onde o receptor usa o que sabe para ajudar o texto a funcionar[13].
Através deste último aspecto se expressa, também, a competência
adquirida sobre os programas, pois a construção de inferências
e hipóteses sobre o desenvolvimento das tramas se dá,
principalmente, a partir do domínio das regras que regem os
diferentes tipos de histórias.
a)
O conhecimento do gênero
A
competência do gênero, no caso desses programas, era construída
a partir do conhecimento acumulado ao longo de décadas de recepção,
na observação e apreensão contínua dos fatores que
caracterizam esses programas e os diferenciam dos demais. As
participantes recordavam-se de uma vasta quantidade de obras, e
conservavam na memória detalhes sobre o elenco de atores e a
trama de obras que foram ao ar, algumas, há mais de duas ou três
décadas. Descreviam os elementos característicos das obras,
comparavam umas com as outras desde vários aspectos de sua forma
de fazer, e indicavam como, ao longo dos anos, formaram-se subgêneros
dentro do gênero. Na experiência de ver televisão as
telespectadoras vão desenvolvendo competências sobre a
linguagens típicas dos diferentes produtos, constroem parâmetros
de diferenciação entre os vários tipos de programas
televisivos, desenvolvem critérios para classificar os programas
dentro da lógica dos gêneros.
“Quase
sempre é a respeito de relacionamento. Homem, mulher. Sempre
aparece um trio, sempre tem um homem disputado por duas mulheres,
ou dois homens disputando uma mulher. A base é isso aí.”
(Terezinha, 68)
“Normalmente
é uma trama amorosa, em oitenta por cento dos casos é um triângulo
amoroso, duas pessoas que gostam da mesma. E é assim, a novela
das oito normalmente tem alguma coisa da realidade do momento
inserida na novela. […] E as outra novelas de outros horários já
são mais leves, são temas mais leves, não tem tanta violência.”
(Rose, 39)
“Sempre
tem um inimigo, um segredo na novela, um filho que não é filho.
Sabe aquela coisa de descobrir depois” (Sherry, 28)
“os
assuntos estão repetitivos. Pode ser nos anos quarenta ou nos
anos noventa, é o bem e o mal. Muda o cenário, muda a
vestimenta, muda a trilha sonora, mas é o bem e o mal.” (Patrícia,
27)
A
partir da experiência e do ensaio-erro, circunscrevem-se os
limites temáticos (“de romance, de amor”, “a traição, os
desejos, as necessidades, as expectativas, os sonhos”) e
estruturais (“um trio”, “um inimigo, um segredo”) a partir
dos quais os enredos se desenvolvem. A partir da comparação
entre os muitos programas observados, elaboram-se tipologias com
as regularidades de conteúdo e forma, dos mecanismos de
funcionamento identificados, de como através da porosidade essas
obras reafirmavam o sentido de atualidade e proximidade à vida
real. Através da comparação entre as diferentes obras é que se
ancora o discernimento dos elementos de regularidade e o modelo de
realidade social representadas por essas obras. Assim sendo,
individuam-se os personagens fixos nesse tipo de narrativa, os
seus atributos e o percursos característicos dentro das histórias.
“Na
presença ele [o mau] é uma pessoa normal, ele é uma pessoa,
vamos dizer, meiga, ele está procurando te seduzir, enfim. Agora
quando ele sai dali ele faz uma cara feia, e diz assim: ‘eu hei
de vencer’ (risos); ou então ‘eu já consegui’ (risos).”
(Julieta, 67)
“Você
nunca vê uma heroína que acabe sozinha (risos), né? E sempre um
príncipe bonito. Normalmente sempre são os dois, que se
encontram no final da telenovela, o bom e a boa.” (Rosana, 39)
“No
fim ou ela [a vilã] vai ficar louca ou morre, que é a punição.
Punição na novela ou é ficar louco ou morrer. Ou ficar sozinho
em um asilo. Essa é a punição.” (Rose, 39)
Outra
maneira de tipificar o gênero é através da comparação entre
ele e os outros tipos de programas do palimpsesto televisivo. É
através do confronto entre os elementos observados que se pode
delimitar, neste sentido, o que está dentro, o que é emprestado
e o que está fora do que são os programas de um gênero. Mesmo
sem utilizar um vocabulário especializado, as receptoras
constroem tipologias sobre como se usa a câmara nos vários tipos
de produtos, sobre como se organizam a fragmentação do relato,
sobre o conteúdo das propagandas veiculadas durante as transmissões,
sobre a presença ou não de elementos factuais, sobre o uso de códigos
e recursos narrativos na composição do sentido proposto. O
conhecimento sobre como são esses produtos e sobre o que os
distinguem dos demais é elaborado, também, a partir da percepção
de como envolvem os telespectadores e chamam a atenção sobre si:
através do uso bem sucedido do suspense, dos conflitos e dos
momentos de tensão, das propagandas que feitas para atrair os
telespectadores.
“Entre
um filme e uma novela já não é tanta a diferença. Porque as
novelas hoje estão verdadeiros filmes, não é? No sentido do
enredo, do desenvolvimento, do segmento da novela ou do filme, é
tudo mais ou menos a mesma coisa. Só que tem que um é novela e
outro é filme. Um é de longa tiragem, e esse outro são séries,
não é?” (Joaquina, 91)
“Bom,
a novela talvez mostre na íntegra e o jornal mostra em flashes.
Porque desgraça acontece nos dois. No Jornal Nacional, no jornal
‘fulano matou fulana porque estava traindo’, ‘a criança
pegou o revólver dos pais e matou doze’. A novela contaria como
aconteceria, e no jornal saem flashes. A não ser as matérias
culturais, mas também nas novelas tem partes culturais.” (Patrícia,
27)
“por
causa que a gente assiste a novela pra se distrair, pra relaxar,
então a gente fica observando os artistas. Cada dia que passa, o
suspense mesmo, a gente sempre comenta que a novela fica sempre na
parte melhor. Mas por que? É pra no outro dia ter audiência, e
até porque a gente já fica naquela ansiedade pra assistir, pra
ver o que vai dar.” (Gleci, 44)
“eu
ligo a televisão ao meio dia para ver a novela, mas no que eu
ligo eu já vejo que o que está dando é o jornal do meio dia.
Pelas propagandas, você percebe que não é o horário da novela,
e sim que é o horário do jornal. As propagandas que passam no
horário do jornal não passam no horário da novela. Passam
diferentes. No horário das novelas passam muitas propagandas de
lojas, de shopping, de supermercado. Na hora do jornal você vê
as propagandas das novelas: “ah, na ‘Suave veneno’ vai
acontecer isso”.” (Jacira, 59)
b)
Os atores/personagens e qualidade da atuação:
Outro
aspecto importante na construção de conhecimento sobre o gênero
é a percepção sobre os personagens/atores que davam vida às
obras do gênero. A observação das obras, neste sentido, é
influenciada por elementos relacionados à atribuição de talento
e a força interpretativa dos atores, que fomentam a assiduidade
no acompanhamento das tramas, o “voto de confiança” dado a
cada nova história que vai ao ar, o interesse por acompanhar e
registrar (gravando em videocassete) a trajetória profissional e
pessoal dos atores prediletos, a vontade de voltar a ver as
novelas que são reapresentadas, a lembrar, anos depois, dos
principais momentos de algumas histórias. Três foram os fatores
que, basicamente, se destacaram com relação aos atores: a
capacidade interpretativa atribuída, a beleza física e os papéis
representados.
“A
novela chamava-se ‘O machão’ [Sérgio Jockyman, TV Tupi,
1974/1975], e foi a primeira vez que eu vi o Fagundes interpretar.
Eu sou vidrada naquele cara, porque eu sei que ele não decora,
ele pega o texto da cena que vai ser rodada, lê e sai dali pro
ensaio e ele não esqueceu mais. Eu acho a cabeça dele uma coisa
única. Eu sei disso por coisas lá do Rio de Janeiro que eu
assisti, entrevistas dele e coisas assim. Eu sei disso e é assim
realmente. Dão um texto na hora, eu vi ele gravar um comercial,
que ele chegou para o comercial, não sabia nem do que era. Eu
assisti essa gravação. Deram o texto e fizeram o ensaio umas três
vezes. O outro rapaz errando e se atrapalhando e ele sempre firme,
com a maior paciência esperando e tudo mais. Ele leu ali na hora
e já fez. O que me chama a atenção é a maneira do ator
trabalhar.” (Elmina, 57)
“Eu
tenho todas elas gravadas [as novelas de Thalia]. Na íntegra.
Ela
é a mocinha, coitadinha. Mas não é por isso que eu vejo, não
é por causa da história. Claro, tem cenas, tem… Não é a história
em si que chama a atenção, é ela. Tem uma novela que tá
passando, que apareceu agora há pouco, eu não conhecia, que é
uma tal de Quinze anos. Eu gravei essa também.
-
Quais as novelas dela que você tem aí gravadas? * María
Mercedes, Marimar, Maria do Bairro e a Quince años. E muitos
clipes de música.” (Patrícia, 27)
“Eu
gosto, eu gostei muito dessa novela, que eu assisti porque tinha
um personagem muito forte, que era a Maria de Fátima. Que era um
personagem que tinha personalidade. Ela se chamava “Vale tudo”
[Rede Globo, 1988/89].
Eu
sou muito ligada em televisão pra induzir o sono, então eu não
durmo sem televisão. Nesse momento eu assistia o capítulo
gravado, porque eu nunca paro em casa pra assistir o ‘Vale a
pena ver de novo’. É a uma hora de tarde, né? [tom irônico]
Mas eu gravava sistematicamente e assistia todos os dias. Na hora
de dormir, ‘pum’, ligava lá.” (Jussara, 34)
A
predileção por determinados atores se deve, em alguns casos, a
um personagem representado que “marcou época”, ao fascínio
causado pela presença física de alguns atores, a especialização
de alguns atores com relação a determinados tipos de papéis
que, por sua vez, chamam particularmente a atenção de alguns
telespectadores. O fato de, no caso das novelas, os receptores
utilizarem seja o nome dos atores que dos personagens para narrar
o que contou cada história não significa, no entanto, que se faça
confusão entre personagem e ator, ou que não se separe os papéis
preferidos devido à força interpretativa do ator, dos que se
passa a gostar por afinidade com os projetos de identidade
representados.
“Por
exemplo, o Raul Cortez é admirável como Jeremias. Ele, como
ator, tá excelente. Então nessa parte eu gosto muito dele. Da
atuação dele. Como ator, a atuação dele, eu gosto dele. Agora,
como personagem eu gosto do Bruno e da Luana.” (Heloísa, 52)
“Olha,
eu não sei porque eu gosto das novelas que a Regina Duarte
trabalha. […] Em todos os papéis que ela pega, o lado
emocional, familiar, é muito forte. Tem aqueles conflitos,
aquelas coisas, que te toca mesmo.” (Sherry, 28)
“novela
em branco e preto. Eu me lembro só de uma, que era o ‘Nino, o
italianinho’ (Geraldo Vietri, 1969/70, TV Tupi). Era ainda com o
Sérgio Cardoso; ah, a gente era apaixonada por ele (risos)!”
(Elizabetha, 71)
“eu
preferia o Walmor Chagas, um velho de cabelo branco, bonito. Ele
sempre foi o meu ator preferido. […] ele é o meu ator
preferido. Se eu fosse escolher um ator [prá ter como namorado],
eu queria um igual a ele.” (Aparecida, 31)
c)
A crítica às telenovelas:
As
críticas dirigidas às telenovelas são de três tipos: se
referem ao que as telenovelas mostram ou deixam de mostrar, em
primeiro lugar; se dirigem à qualidade dos programas, em segundo
lugar; e questionam certas características dos programas que não
correspondem aos gostos ou expectativas dos receptores. Quanto ao
que aparece e desaparece no mundo das telenovelas, as objeções
se referem, principalmente, ao conteúdo apresentado: aos costumes
sociais reafirmados, à posição social da mulher nas histórias,
ao modo de viver apresentado como comum na atualidade, aos padrões
de comportamento considerados “normais”. As críticas feitas
ao gênero expressam, também, insatisfação a respeito do que as
telenovelas mostram demais ou não mostram o suficiente. Entre
esses fatores se pode elencar, por exemplo, a falta de realismo, a
ênfase em certos aspectos da realidade (violência, sexo, o
“lado” dos ricos), a sentença dada a determinados modelos de
comportamentos e projetos de identidade (conciliar vida
profissional e familiar).
“Eu
acho que os canais de televisão ainda são muito machistas. […]
quando a mulher é isso aqui que eu digo pra você, que a mulher
é determinada, eles sempre procuram levar pro lado que não está
muito certo. Pra novela, geralmente, ou a mulher tem que ser
submissa, como foi o caso de ‘Éramos seis’ [SBT, 1994], que a
mulher vivia dentro de casa, ou então eles procuram deixar uma
mulher sozinha no fim da novela, frustrada. Por quê? Simplesmente
porque ela tentou conseguir ‘um lugar ao sol’ e vencer também
na parte profissional. Eles não aceitam, não conciliam que a
mulher vença tanto na parte profissional: se ela vencer na parte
profissional, ela não pode vencer na parte familiar; se ela
vencer na parte familiar, ela tem que ser submissa, não pode ser
uma profissional de destaque.” (Elci, 56)
“Eu
gostaria que eles fizessem as novelas, algumas, com menos,
mostrassem menos sexo. Tem novelas dessas que são um atentado ao
pudor. Eu gostaria que eles fizessem umas novelas mais, como eu
posso dizer? Umas novelas mais recatadas, ouviu? Porque pode se
falar em sexo, mas de outra maneira, não abertamente, com atos e
coisas assim. Eu acho que eu gostaria.” (Joaquina, 91)
“Eu
acho que porque têm vergonha de mostrar a realidade que a gente
vive mesmo. Os autores, né? Porque eu acho que muitas vezes eles
escrevem, muitas vezes baseados nas famílias deles, neles. Igual
tem assim coisas boas, são novelas ricas, né? Você pode ver que
nas novelas tem pouco pobre, a maioria é rico nas novelas. Tem
pouco preto, a maioria é branco. Tem pouco gordo.” (Luciene,
25)
Além
das exigências relativas ao que fazia parte e ao que era deixado
de lado no que é apresentado pelos programas do gênero, as críticas
feitas a como são os produtos se referem, também, à expectativa
de que se mantenha a um certo padrão de qualidade, que sejam
excluídas as cenas ou procedimentos considerados mal feitos ou
medíocres. As críticas que se dirigiam à qualidade desses
programas reivindicavam basicamente a “demonstração”
respeito e consideração pelo público receptor. Os receptores
dedicam atenção, tempo e empenho emocional, renunciam a outras
atividades para acompanhar essas obras ao longo dos meses; em
contrapartida, desejam que os capítulos apresentados estejam à
altura do esforço e das renúncias feitas para assistir as
telenovelas. A consideração se refere, nesse sentido, que se
veja o esmero na qualidade dos produtos apresentados, ou seja, que
se respeite o “pacto” de simulação da realidade, que se
“copie” a realidade de forma fidedigna, sem degenerar no
exagero grosseiro. As críticas feitas se referem, por último, a
certas características ou formas de fazer dos programas que não
correspondem às expectativas dos telespectadores: ou porque
exagerando em algo as telenovelas dificultavam a fruição das
telespectadoras, ou porque se sente que a obra não “retribui”
suficientemente, gratificando aquém do que as telespectadoras
esperam em algum de seus aspectos.
“Eu
acho às vezes uma falta de respeito o final de novela: você fica
oito meses ali na frente, de repente acontece tudo no último dia.
Eu preferiria que fosse mais compassado, que o fim fosse assim
mais o fim mesmo. Não aquilo de deixar tudo pro último dia,
saber quem é o bandido, quem é que matou, quem aquela coisa.
Quem que vai ficar com quem.” (Sherry, 28)
“A
morte mesmo, por exemplo, de novela. Eu acho totalmente diferente,
não vejo como uma coisa real. Certas são, outras não. Tem umas
que eles colocam uns bonecos e você vê que é um boneco que está
caindo de cima pra baixo. Eu acho que eles podiam pôr uma coisa
mais real ali, né? Pra fazer aquelas cenas. Ou pelo menos não
mostrar aquilo lá. É diferente. Eu fico desapontada e vejo como
uma falta de respeito com o povo. Esses dias mostrou uma queda lá
daquela Claudia Raia que “pelo amor de Deus”! Um boneco, um
bonecão de pano! Deu pra ver direitinho. Aí mostrou que ela
tinha morrido.” (Valdecy, 37)
“Muito
longas. Espicham, espicham essas novelas. Porque às vezes não
está pronta a outra que vai sair, então eles vão desdobrando
aqueles capítulos que fica, um ranço! Passam dois, três capítulos
e o assunto não vai pra frente. Aquilo fica patinando, patinando.
Eu digo, ‘mas meu Deus, ainda está nesse assunto!’. Então,
quando tem um filho pra nascer (risos), é uma tristeza! Passa o
capítulo inteiro aquela pobre mulher tendo aquele filho (risos).
No outro dia, ainda não teve o filho, outro dia, não teve. Bá,
aí não dá pra agüentar! Quando começa o parto eu desligo, eu
saio de perto. Não dá! (risos) Tu não achas? Agora, eu acho que
a gente não pode é se escravizar, porque a novela está ali, tu
tens que assistir novela. Não. Não adianta, porque passam dois,
três capítulos e está igual. Tem umas que são assim, né?
Arrastam!”(Silvéria, 78)
A
crítica das novelas “desde dentro” demonstra conhecimento
“de causa”, capacidade de discernir e manipular as regras e as
convenções que caracterizam esses programas, o haver
desenvolvido gostos e preferências sobre os aspectos internos e
constitutivos desses produtos. É justamente a bagagem de
conhecimento adquirida que possibilita a ciência sobre as próprias
exigências, gostos e expectativas.
d)
A colaboração com o texto:
Todos
os três aspectos mencionados anteriormente – o interesse por
descobrir as regras do gênero, a curiosidade suscitada pelos
atores/personagens, as críticas e objeções ao que assistiam –
colocam em evidência o envolvimento com as obras, o empenho em
compreender e entender o que se assiste, e a atividade cognitiva
desenvolvida a partir do que se vê nas telenovelas. Dos fatores
que dizem respeito à leitura analítica das telenovelas, o que
expressa de modo mais explícito a atividade cognitiva e a
participação na recepção desses programas é, no entanto, a
colaboração realizada que, sem dúvida, exprime a força
interpelativa das telenovelas sobre as suas telespectadoras.
As
formas de colaboração verificadas, por sua vez, certificam o
sucesso de algumas das estratégias textuais utilizadas pelos
programas, pois confirmam que o público sente-se chamados a
intervir, completando e agindo a convite das obras. As receptoras
correspondem às expectativas do texto, por exemplo, ao lançar
hipóteses, elocubrando e construindo inferências sobre as
lacunas deixadas pelos textos em relação ao passado das histórias,
ou fazendo previsões a respeito dos futuros desenvolvimentos das
tramas que acompanham. Parte do que surge como colaboração se
deve, principalmente, à experiência acumulada sobre os elementos
de regularidade no gênero, sobre os aspectos constantes, sobre o
que eles tinham em comum: é sobre eles que se construíam previsões,
que se intuía a possibilidade de apresentar-se soluções ou
desfechos típicos aos dilemas introduzidos. É, também, o bom
manejo das regras que permite antecipar a ruptura dos padrões
estabelecidos, ou que causa curiosidade e convida a inferir quando
algo não se “ajusta” completamente ao esquema conhecido. É
também a competência no gênero que ajudava a “imaginar” os
futuros desenvolvimentos das tramas, pois tal como existem temáticas
recorrentes nos programas, existem também os dilemas e as situações
de tensão típicas do gênero.
“Em
geral essas mocinhas, que às vezes não são mocinhas, já são
bem velhinhas, né? Quase sempre elas são um bocado sofridas, pra
depois então a vida melhorar pra elas. Então elas começam meio
a sofrer, às vezes, andam quase querendo morrer e alguém da sala
diz assim: “ela não morre, porque ela é a mocinha da
novela”. Então a gente já notou que ela é o centro da novela,
a novela tá girando em torno dela, então ela não morre, porque
ela é a mocinha da novela. Senão acaba a novela: se a mocinha
morrer, acaba a novela!” (Julieta, 67)
“Então
o interessante na novela é isso, aquele que era o presidiário,
que queria se vingar, que faz o Tony Ramos, acaba se tornando uma
boa pessoa. Então no começo da novela o que você imaginava, o
que normalmente acontecia nas novelas, que aquele que é ruim, é
ruim o tempo todo. Nesta tem uma roupagem, digamos, diferente. A
personalidade, ou o perfil no desenvolvimento da novela, o perfil
muda.” (Rosana, 39)
“essa
casou com o barão e foi morar na fazenda. E teve esses dois
filhos lá, sendo que um não era do barão, não é? Era daquele
que tinha sido namorado dela e numa ocasião se aproveitou dela e
ela ficou grávida. Ainda não tá bem delineado aí na novela,
mas ele é filho do outro. Tanto é que eu acho que ele vai gostar
da irmã e depois é que vão descobrir que eles não podem casar.
Porque ele está encantado com a irmã.” (Antônia, 91)
Além
dos incitamentos para pôr em prática tudo o que já se sabe
sobre como funcionam esses produtos, para saber se a cada vez vai
dar para adivinhar outra vez o desenrolar da história, o
sentir-se chamado a cooperar se apresenta, em geral, como resposta
a uma requisição, a um desafio ou a um estímulo lançado pelo
texto. Como resposta aos convites feitos pelos textos, pode-se
mencionar a ação desencadeada quando se mostra uma situação
omitindo o que a gerou, deixando de explicar quais foram as causas
do que o telespectador está vendo. O que não foi esclarecido e
explicado no passado da história deve, então, ser
“descoberto” pelo telespectador. Nestes casos, conectam-se os
indícios, as informações e as pistas lançadas pelo texto.
Outras vezes a novela vai configurando uma situação, vai
tencionando os elementos que a compõe, mas adia indefinidamente o
resultado da situação de conflito (mal-estar, desordem)
introduzida. A tendência do telespectador diante disso é, então,
a de perguntar-se no que aquilo vai dar, de questionar-se a
respeito de quais serão as conseqüências futuras de tais
acontecimentos. Desta maneira, então, em lugar de reconstruir o
passado da história, como é o caso quando se procuram as causas
de alguma situação, o movimento vai na direção ao futuro da
história, no que vem depois, como conseqüência ou resultado.
“Dá
a entender na novela que ele [San Marino, Andando nas nuvens,
1999] matou o pai do Otávio pra ficar com o jornal, e que o Otávio
sofreu esse acidente porque ele viu alguém matando o pai dele:
ele caiu do prédio e perdeu a consciência. Então parece que ele
é o vilão da história. Mas não é muito claro isso aí não,
porque ele também tem o lado bom dele. Isso você suspeita, não
é claro.” (Rose, 39)
“A
gente fica pensando que poderá vir adiante aquilo ali. […] A
gente não adivinha, a gente prevê que possa acontecer
aquilo.”(Antônia, 91)
“Tem
o Eliseu [Rodrigo Santoro], que eu to achando que ele ta começando
a gostar da Giovana, que é a dona do apartamento onde ele morava
que chegou. Eles ficam brigando, brigando, brigando, mas eu to
achando que ele ta começando a gostar dela. E eu acho que é
mentira aquele telefonema que ela dá pra Antantida, pro noivo
dela, eu acho que é mentira aquilo lá.” (Aparecida, 31)
“às
vezes até eu imagino bem o contrário [o que vai acontecer]. Às
vezes eu penso: ‘vai ser fulano que vai descobrir isso’. Eu
fico imaginando naquela hora que eu estou aqui assistindo, depois
que eu sai daqui, que terminou, não penso mais. Amanhã, no outro
dia, eu ligo pra eu saber. E às vezes ainda passam dois ou três
dias, três capítulos, que é pra recém aparecer. Então a gente
fica nessa expectativa.” (Julieta, 67)
Fazendo
conjecturas, imaginando, refletindo e pensando sobre o que viam,
as receptoras entram no jogo dos textos, colaboram para o seu
funcionamento, para que eles concretizem e ponham em prática sua
capacidade comunicativa e sua potencialidade significativa[14].
Os textos são bem sucedidos enquanto a finalidade de alimentar a
expectativa das telespectadoras, em preparar a espera, em usufruir
da ansiedade por completar as lacunas deixadas e a informação
mantida em suspenso/suspense. De qualquer maneira, ao entrar no
jogo do texto já se sabe que se tem que aguardar o veredicto
final, a resposta dada pela história, que irá confirmar ou
descartar as previsões do receptor.
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