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A BOLA NO BAR:

apontamentos sobre a recepção coletiva de
jogos de futebol midiatizados em locais públicos.

 

Prof. Dr. Édison Gastaldo

Rodrigo Leistner

Ronei Teodoro da Silva

Samuel McGinity

 

 

Resumo

 

Este texto visa discutir alguns aspectos da complexa relação entre futebol, mídia e sociabilidade no Brasil. Após algumas considerações sobre a presença do futebol na cultura brasileira contemporânea, buscamos analisar, a partir de dados obtidos em pesquisa etnográfica, aspectos da recepção de partidas de futebol televisionadas em lugares públicos. Estes dados são ainda iniciais, embora apontem para certas tendências gerais que nos interessaria discutir acerca da posição dos torcedores presentes com relação às definições da situação propostas pelo locutor, com o som e imagens apresentadas.

 

Palavras Chave: futebol; mídia; sociabilidade.

 

 

Introdução

 

O futebol é um fato social da maior importância na cultura brasileira contemporânea, estando intimamente ligado ao que seria uma “identidade brasileira”. Definições do Brasil como “o país do futebol” são freqüentes no discurso de senso comum e em diversos produtos midiáticos, como crônicas esportivas e anúncios publicitários (Gastaldo, 2002). Apesar de sua imensa importância em termos sociais e econômicos[1], a mediatização do esporte e as peculiaridades do contexto de sua recepção ainda são temas relativamente pouco explorados nos estudos de comunicação brasileiros.[2]

Considerando a dimensão essencialmente social do contexto da recepção do futebol midiatizado, acreditamos ser importante investigar a sociabilidade envolvida na sua recepção coletiva. Para tanto, propomos neste artigo discutir algumas impressões ainda preliminares do estudo de recepção que realizamos em bares com transmissão ao vivo de jogos de futebol na região metropolitana de Porto Alegre. Embora iniciais, essas primeiras impressões apontam para certas tendências gerais que nos interessaria colocar em discussão, como a posição dos torcedores presentes com relação às definições da situação propostas pelo(s) locutor(es), com o áudio da transmissão no setting e com as imagens apresentadas.

A midiatização do esporte

 

O caráter “espetacular” do fenômeno esportivo parece estar presente desde suas origens mais remotas. A presença do “público” nas competições foi parte inextricável dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, e mesmo competições rituais em sociedade ditas “primitivas”, como a corrida de toras praticada entre grupos indígenas brasileiros (Da Matta, 1976) também são eventos públicos, em que os “melhores”de cada grupo, clã ou tribo “representam” o grupo na competição, que assiste e incentiva seu desempenho[3]. Hoje em dia, é inconcebível pensar o universo do esporte-espetáculo sem a sua apropriação midiática. Na gênese histórica do mundo contemporâneo, é interessante notar o surgimento quase concomitante do esporte moderno e dos meios de comunicação de massa, em fins do século XIX. Por exemplo, a primeira Olimpíada da era Moderna (1896) foi realizada no ano seguinte à primeira sessão pública de cinema (1895); a Copa do Mundo de 1938 ensejou a primeira transmissão de rádio intercontinental, enquanto a Copa de 1998 foi também a ocasião da primeira transmissão internacional de televisão de alta definição (HDTV). Esporte e mídia: dois filhos diletos da Modernidade.

Contemporaneamente, a midiatização de eventos esportivos é responsável por sucessivos fenômenos de audiência. A audiência global da final da Copa do Mundo de 2002, por exemplo, foi estimada em mais de um bilhão de pessoas (fonte: revista Veja). No Brasil, a audiência média de jogos da seleção brasileira em Copas do Mundo supera largamente os 100 milhões de espectadores – mesmo em um jogo que ocorreu às 3 horas da madrugada, como Brasil x Inglaterra, em 2002 (fonte: Ibope). Ou, em um exemplo mais prosaico: a transmissão radiofônica de partidas de futebol de várzea em Goiânia pela equipe de estudantes de jornalismo “Os Doutores da Bola”, ligados à Universidade Federal de Goiás, consegue o pico de audiência da emissora universitária e a segunda audiência da capital a cada tarde de sábado (Rocha et al. 2001). A apropriação midiática dos fatos esportivos perpassa mesmo a experiência “direta” de assistir a um jogo de futebol no próprio estádio, onde muitos torcedores acompanham a partida com os olhos no gramado e com um radinho de pilha colado ao ouvido, acrescentando à própria experiência a autoridade do discurso do locutor e dos comentaristas, dizendo o que, afinal de contas, o espectador está vendo, ou seja, definindo a “realidade” dos fatos do jogo.

A transmissão de um jogo de futebol pela televisão “mimetiza” esta experiência de estar no estádio com um radinho de pilha ao ouvido. As diferentes câmaras acompanham as jogadas (ou outros lances) enquanto a voz em off do locutor define o que está acontecendo. É evidente que as duas experiências são diferentes: No estádio, o torcedor experimenta o compartilhar de um mesmo evento com milhares de outras pessoas, torna-se massa, dissolve-se na “torcida“ de seu time, enquanto em sua casa, assistindo televisão, tal fenômeno social coletivo praticamente não ocorre, salvo em circunstâncias muito especiais, como no momento de um gol importante, por exemplo.

Originalmente uma atividade para ser “praticada”, o esporte tornou-se, com o surgimento e o crescimento da comunicação de massa, cada vez mais um “espetáculo” para ser “assistido”, visando a um consumo massificado. Essa incorporação do esporte pela indústria cultural gera um divórcio entre prática e consumo, já que não é necessário ter praticado um esporte para assisti-lo pela televisão e (numa espécie de "grau zero da competência esportiva") emocionar-se com a ansiedade pelo resultado. A veiculação dos eventos esportivos (nos quais os jogadores são, em geral, profissionais) gera um aumento no número de "leigos", que necessitam "compreender" o que há para ser visto, criando, assim, uma demanda por "comentaristas" (muito freqüentemente ex-jogadores) que, com sua competência específica no assunto, "traduzem" os lances do jogo em termos técnicos e táticos, reforçando, pela oposição aos "leigos", o primado do profissionalismo.

Essa redução dos "não iniciados" ao papel de meros consumidores dos eventos esportivos possui um aspecto político importante, conforme ressalta Bourdieu:

...não é apenas no domínio do esporte que os homens comuns são reduzidos ao papel de torcedores, limites caricaturais do militante, dedicados a uma participação imaginária que não é mais do que a compreensão ilusória da despossessão em benefício dos experts. (Bourdieu, 1983: 145)

Edileuza Soares (1994) conta uma história que caracteriza particularmente  esta apropriação/construção do “fato esportivo” pela mídia.  No início dos anos 60, quando a seleção brasileira disputou uma partida na Argélia, um radialista destacado para narrar o evento não dispunha de fio suficiente para chegar com seu microfone até o campo, não podendo ver o jogo que teria de narrar. Inventou então um estratagema: o ex-jogador Leônidas, então comentarista de sua emissora, ficava à beira do gramado, e corria até o local onde estava o locutor para avisar quando acontecia um gol, e quem fora o artilheiro. Enquanto isso, o locutor narrava para os brasileiros do outro lado do Atlântico uma partida imaginária, na qual inseria subitamente as jogadas que conduziam aos gols anunciados pelo colega.

O pitoresco exemplo evidencia uma característica dos eventos veiculados na mídia: o evento passa por – e se assume como – “o real”, mas é uma construção do enunciador, uma representação. Evidentemente, a veiculação pretende ser (e se afirma) “fiel aos fatos”, mas mesmo uma transmissão de televisão ao vivo, a cores, via satélite é, em si, uma representação. Como ressalta Mauro Betti (1997), sob o ponto de vista da a televisão, o jogo acontece somente onde está a bola. Na transmissão de TV, ninguém tem a visão global do espaço de jogo que o espectador presente ao estádio tem. No início das transmissões de jogos de futebol pela televisão, uma única câmara fixa acompanhava de longe as jogadas. Atualmente, mesmo com as dezenas de diferentes câmaras, fixas e móveis, espalhadas pelo campo salientando diversos aspectos do jogo, ainda continua a existir esta construção narrativa, esta meta-representação do evento esportivo. As imagens que vão ao ar são escolhidas conforme uma codificação própria do veículo (por exemplo, replays de um gol sob diversos ângulos).[4]

Se com referência à imagem ao vivo já ocorre este processo de articulação de significado, ele ainda é mais evidente quando se levam em conta a narração e os comentários acerca do jogo, tanto na transmissão de TV e rádio quanto nos jornais do dia seguinte. É evidente que não é “privilégio” do futebol ter significados construídos pela mídia. Ela opera esta mediação como regra, construindo uma “noção de realidade” própria, que evidencia determinados fatos sob determinados enfoques, em detrimento de outros. O interesse social pelo futebol no Brasil durante a Copa é apropriado pela mídia, que, em princípio, atende a uma “demanda social” pré-existente, produzindo peças de comunicação e criando um circuito de produção e consumo motivado pelo evento em curso, no qual se inserem, além da cobertura dos jogos, cadernos especiais nos jornais e revistas, longas matérias nos telejornais, programas diversos com a temática da Copa, anúncios publicitários, etc, colaborando de modo ativo para definir a realidade nos termos ideológicos do Brasil como “o país do futebol”.

Futebol e cultura no Brasil

No Brasil, o futebol é um fenômeno cultural que supera largamente as estritas linhas do campo de jogo, ritualizando questões simbólicas profundas acerca da nossa sociedade, tematizadas em estudos acadêmicos nos mais diferentes aspectos, como relações de raça (Rial, 1998; Gastaldo, 2002), gênero (Guedes, 1998) e classe social (Guedes, 1982; Damo, 2002). No caso específico do Rio Grande do Sul, o futebol é também um emblema de identidade regional, sendo freqüente no discurso da imprensa esportiva a tensão entre o chamado “futebol gaúcho” – a que Guazzelli (2002) chama ironicamente de “província de chuteiras” – e o “futebol brasileiro”, versão esportiva do atávico conflito centro-periferia que atravessa as reações entre este Estado e o “centro do país” (para uma discussão da apropriação de conflitos regionais mediados pelo futebol no contexto da imprensa esportiva, ver Gastaldo e Leistner, 2003).

Embora a mítica do “país do futebol” seja resultado de um processo histórico e social que tem pouco mais de 50 anos (ou provavelmente por causa disso), este esporte é hoje um dos principais emblemas da “identidade brasileira”, juntamente com o samba e as chamadas “religiões afro-brasileiras”. Ao futebol jogado no Brasil são atribuídas características constituintes do que seria uma “identidade brasileira”, como a modalidade de conduta conhecida como “malandragem”. Estando historicamente datados do início do processo de industrialização da sociedade brasileira, nos anos 30 e 40, os tempos da “malandragem” constituem uma espécie de “passado mítico” da cultura brasileira, sendo a figura do malandro uma espécie de “herói popular” brasileiro. Oliven (1986: 34) considera a malandragem uma “estratégia de sobrevivência e concepção de mundo”, através de uma recusa da disciplina (e da exploração) do trabalho assalariado. Embora o contexto histórico e social contemporâneo tenha relegado o “malandro” (de navalha, terno branco e lenço de seda no pescoço) ao passado, sua figura emblemática continua presente no imaginário da sociedade brasileira. Um dos campos onde a “malandragem” é vista essencialmente como um valor no Brasil é justamente o campo de futebol, palco de ritualizações de diversos elementos da cultura brasileira.

Normalmente, o interesse dos brasileiros pelo futebol encontra-se dividido em torno da regionalidade decorrente da torcida a diferentes clubes. Os clubes de futebol simbolizam um pertencimento social com características específicas, demandando dos torcedores uma lealdade por toda a vida (“Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer...”). Muitas vezes, os locutores esportivos se referem à torcida de um clube como “nação” (“nação colorada”, “nação rubro-negra”, etc, de acordo com as cores do clube), ressaltando este sentido de “comunidade reunida” em torno do pertencimento afetivo a um grupo, a um sentimento coletivo compartilhado, no caso, mediado pelo “time do coração”. Cabe ressaltar que apenas uma ínfima parte da torcida de um “time” tem um vínculo formal com o “clube”, na qualidade de “sócio”. O pertencimento a uma torcida é muito mais uma questão afetiva (freqüentemente mediada na infância por relações familiares) do que uma relação institucional entre um clube e seus sócios (ver, neste sentido, Damo, 2002).

Futebol e sociabilidade

 

A noção de sociabilidade deriva da obra do sociólogo e filósofo alemão Georg Simmel, que a definiu como “a forma lúdica da sociação” (1983: 168). Para Simmel, a sociabilidade é um fenômeno social, uma forma de interação na qual os participantes autonomizam suas atuações no sentido de evitar qualquer demonstração de um interesse objetivo nos assuntos tratados – o tipo de conversa ocorrente em festas seria talvez um bom exemplo. Neste sentido, pode-se cotejar a noção de sociabilidade de Simmel à definição de “jogo” apresentada por Huizinga (1971: 33),

...o jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da “vida cotidiana”.

Evidentemente, as duas noções não se equivalem nos mínimos detalhes, mas, guardadas as diferenças, o paralelismo entre elas permite pensar a sociabilidade como uma espécie de “jogo da vida social”, um momento lúdico (é bom lembrar a etimologia deste termo, derivado do latim ludus, “jogo”), de prazer, distinto das coisas “sérias” da vida cotidiana, este frágil refúgio das agruras do mundo do trabalho, da economia e da política. Não pretendo aqui discutir se a sociabilidade é subsumida à noção de jogo ou o contrário. Importa é destacar estes fenômenos no enquadre similar que estabelecem na vida cotidiana, no “campo finito de significação” (Schutz, 1962) que estipulam. O fenômeno específico que pretendo discutir refere-se a uma combinação complexa entre mídia, jogo e sociabilidade: a sociabilidade estabelecida em torno da recepção de partidas de futebol midiatizadas e a tematização dos fatos do jogo nas interações sociais cotidianas.

Pelas características desta modalidade de interação – pelo menos no caso brasileiro –, um novo termo pode ser adscrito a esta problemática: o papel de gênero masculino. Embora tenha havido nos últimos anos um expressivo crescimento da participação feminina no universo futebolístico (manifesto não só na audiência, mas mesmo dentro de campo, como no sucesso internacional conquistado pela seleção brasileira de futebol feminino), o mundo do futebol continua a ser hegemonicamente um território masculino.

Assim, esta sociabilidade marcadamente masculina lida com o que Carmen Rial (comunicação pessoal, 27/12/95) denominou “homossociabilidade”, forma lúdica de interação entre participantes de um mesmo sexo, no caso, de homens. A sociabilidade entre homens pode por vezes derivar para formas bastante agressivas de interação – que trafegam no estreito limite do que possa ser chamado de “brincadeira”, na modalidade de interação a que Radcliffe-Brown (1959)  denominou “relações jocosas”, definidas como...

...uma peculiar combinação de amizade e antagonismo. O comportamento é tal que em qualquer outro contexto social ele expressaria e geraria hostilidade; mas tal atitude não é a sério e não deve ser levada a sério. Há uma pretensão de hostilidade e uma real amizade. Posto de outro modo, é uma relação de desrespeito consentido. (Radcliffe-Brown, 1959: 91)

A interação pautada pela mediação de um evento esportivo se presta de modo notável para esta forma de sociabilidade competitiva – de que a “flauta”, “gozeira” ou “sacanagem” interminável de parte a parte entre gremistas e colorados, cruzeirenses e atleticanos, flamenguistas, pós-de-arroz e vascaínos é um bom exemplo. Em um dos bares pesquisados, durante a partida final do campeonato gaúcho, entre Internacional e Ulbra, os limiares da sociabilidade ficaram bastante claros: um torcedor gremista, um senhor de seus 60 anos, cercado de colorados gozava abertamente dos quase 30 colorados em torno quando a Ulbra abriu o placar. O Inter empatou e, ao virar o marcador, um outro senhor, sentado à sua frente ergueu uma cadeira pelo encosto, ameaçando bater no gremista. O garçom  repreendeu-o, ao que ele comentou: “que é isso, meu, é só brincadeira!” De fato, no exato instante em que o árbitro apitava o final do jogo, o gremista levantou-se da cadeira e, generosamente, estendeu a mão ao “adversário”. Com um sorriso e tapinhas nas costas, se despediram. Como em Radcliffe-Brown, contrapondo-se à pretensa hostilidade, uma real amizade. Só quem não entendeu foi o garçom.

Em termos interacionais, a sociabilidade masculina brasileira tem na tematização do esporte um porto seguro. Basta perguntar a um homem qualquer qual o seu time para começar uma conversa que pode se alongar indefinidamente, sem que em qualquer momento se corra o risco de uma indiscrição ou constrangimento, uma vez que – por passionais que sejam os torcedores – nada que afete o self está em questão. Alie-se a esse tema, envolvente sem ser comprometedor, o constante fluxo de informações decorrente da tematização jornalística das editorias de esportes e temos o assunto perfeito para a sociabilidade masculina no Brasil. Como um exemplo, basta pensar nas verdadeiras “novelas” envolvendo os boatos de compra e venda de jogadores e especulações sobre resultados que são veiculadas diariamente em jornais de todo o país: a tal “falação esportiva”, contra a qual Eco (1984) bradava em vão, é a matéria-prima de interações de sociabilidade masculina por todo o país.

É claro que, a esta demanda social, corresponde uma oferta de produtos midiáticos, numa relação de mercado que não tem nada de espontâneo. O lucro de um produto de mídia está em razão direta com seu índice de audiência. A par da importância social do futebol para os brasileiros, existe a apropriação deste esporte pela mídia, em especial pelo jornalismo, que, se não “inventa” este interesse social, pelo menos o “aumenta”, com todos os meios de que dispõe. Isso fica muito evidente no caso da Copa do Mundo: por exemplo, no Jornal Nacional do dia da partida Brasil x Holanda em 1998, 94% do tempo total das matérias do célebre telejornal foram dedicados à cobertura do jogo (Gastaldo, 2002). Ou seja, aos olhos do Jornal Nacional, nesse dia nada mais aconteceu de importante no mundo do que a vitória brasileira nos pênaltis. Com agendamentos dessa ordem se sustenta não apenas a mítica do “país do futebol”, mas também uma audiência projetada em torno de 110 milhões de pessoas.

A recepção coletiva de jogos de futebol: impressões iniciais

 

Breve nota sobre método:

A pesquisa na qual estamos trabalhando foi iniciada em março de 2004, e trata da recepção de futebol midiatizado em locais públicos, nomeadamente bares da região metropolitana de Porto Alegre. A equipe é composta pelo coordenador e três assistentes de pesquisa. Cada um dos membros está, desde abril de 2004, empenhado em trabalho de campo etnográfico, cada um em um bar – sempre o mesmo. No momento, o contato com a situação de campo consiste basicamente em observação participante e redação de um diário de campo etnográfico. Semanalmente, a equipe se reúne para trocar os relatórios e discutir coletivamente a experiência etnográfica. Assim, os dados que temos para apresentar neste momento são ainda aproximações iniciais, mas que, dada sua forte recorrência – em quatro situações de campo distintas e simultâneas – nos permitem aventar a possibilidade de nomear algumas tendências em termos da interação entre os participantes e o discurso midiático, que colocamos em discussão a seguir.

a)     Aspectos da dispersão espacial dos participantes no setting:

A situação de campo pesquisada poderia ser descrita nos termos do que Goffman (1961: 7) chamou de “interação focada”:

a interação focada ocorre quando pessoas efetivamente concordam em sustentar durante um certo tempo um foco único de atenção cognitiva e visual, como em uma conversação, um jogo de tabuleiro ou uma tarefa coletiva levada a cabo por um círculo íntimo de colaboradores face-a-face.

Nos bares, o ponto de foco da atenção coletiva é o aparelho de TV, que determina a dispersão espacial dos participantes no setting produzindo um “triângulo” ou “cone”, no qual o aparelho ocupa o vértice. Participantes menos “focados” na situação – em geral casais ou famílias – tendem a ocupar as mesas vazias próximas às laterais do triângulo, e temporariamente. A participação é quase exclusiva de homens, as raras mulheres vêm acompanhando maridos ou namorados. A situação analisada dura o exato tempo do jogo: não é raro o bar estar vazio antes do jogo, começar a ser ocupado entre o início da partida e os 15 minutos do primeiro tempo e esvaziar imediatamente após o término do jogo.[5] A ocupação dos bares pesquisados em termos numéricos gira em torno de 20 a 30 participantes, dispersos como na figura a seguir:

A ambiência sonora também é um ponto importante a ser descrito. Em geral, o som da TV é bastante alto, seja colocando-a no volume máximo, seja amplificando o áudio usando um aparelho de som – ou eventualmente, utilizando uma transmissão de rádio para sonorizar as imagens de uma televisão calada. Os participantes interagem com o áudio, como veremos a seguir. Outro ponto a ser destacado na peculiar dinâmica interacional ocorrente no setting diz respeito ao consumo: como num acordo tácito, os participantes podem somente assistir ao jogo sem consumir nenhum produto do bar, desde que de pé. Quando um participante senta a uma mesa, ou chama o garçom/garçonete ou ele/ela vem sem chamar. O “grau zero” desse consumo tácito e quase compulsório é um refrigerante, embora beba-se muito mais cerveja do que qualquer outra bebida. Os participantes às vezes chegam em grupos, mas é muito freqüente pessoas sozinhas sentarem para assistir o jogo. Quando o bar fica cheio, é quase natural o pedido – e a concessão – de permissão para dividir a mesa com um desconhecido. Muito provavelmente, ele divide o mesmo pertencimento clubístico. Goffman trata deste tema, da possibilidade de conversa espontânea entre desconhecidos, sob o termo “acessibilidade mútua”:

Uma base importante da acessibilidade mútua reside no elemento de informalidade e solidariedade que se parece obter entre indivíduos que podem reconhecer um ao outro como membros de um mesmo grupo especial (...), [por exemplo] quando pessoas de uma mesma nacionalidade se encontram em um país estrangeiro eles podem se sentir compelidos ou motivados a iniciar uma conversa. (Goffman, 1963: 131)

Assuntos para se falar sobre de fato não faltam. A escalação dos times, a posição da tabela, o resultado de outros jogos, os boatos sobre compra e venda de jogadores, o mundo do futebol é um mote por excelência para sociabilidade masculina no Brasil. No setting é comum que os participantes “falem para todos”, ou seja, falem em voz alta o suficiente para que todo o bar ouça, e sem se dirigir a ninguém especificamente. Muitas dessas falas serão analisadas a seguir. A interação dos participantes com o discurso midiático será dividida aqui em dois tópicos, uma vez que há bastante diferença entre a interação com as imagens e com a locução, que trataremos a seguir.

b)     Interação com a locução:

A locução de uma partida de futebol – à qual se somam os comentários dos especialistas de cada emissora – é em princípio um poderoso elemento de definição da situação acerca dos fatos do jogo. Afinal, o locutor “diz” – define – o que o espectador está vendo, e o faz com amplo sentido valorativo, uma, digamos, “descrição interessada”. No contexto da recepção, entretanto, a concordância com o discurso midiático é completamente relativa ao “lado” tomado pelo discurso. Se o locutor define um lance do jogo – pênalti, gol, impedimento... – como favorável ao time do coração dos participantes, sua fala é tomada como mote a ser reiterado, um índice da “verdade” das definições dos torcedores: “Tá vendo?”. Já quando a definição contraria a posição dos participantes, a reação é imediata. Durante o jogo Inter x Atlético MG, o São Paulo jogava contra o Grêmio. Quando o São Paulo fez um gol, o comentarista afirmou que o gol do São Paulo seria “ruim para o Inter”, uma vez que este seria ultrapassado na tabela pelo time paulista, ao que um participante respondeu, para quem quisesse ouvir: “Que ruim, o quê?! O Grêmio que se foda!”, reiterando publicamente a rivalidade local – pensada como mais importante do que a posição do próprio time no campeonato. Um ponto interessante na interação dos participantes com o áudio consiste na permanente ironia: a zombaria a partir da sátira à definição da situação proposta pelos locutores e comentaristas é praticamente constante. Na final do campeonato gaúcho, entre Inter e Ulbra, a câmara mostrou num relance os torcedores da Ulbra, com o seguinte comentário: “Aí você vê os torcedores emergentes da Ulbra”. A réplica sarcástica no bar foi instantânea: “Torcedores emergentes? Gremista mudou de nome?” O ponto em questão parece apontar para uma atitude basicamente defensiva/crítica dos torcedores para com a definição da situação “oficial” midiática. Essa posição crítica fica evidente quando um repórter atribuiu uma falta a um jogador, tendo que se retratar logo em seguida: a falta tinha sido de outro. No bar, o comentário impiedoso: “Só agora que tu viu, ô babaca!” Outro torcedor complementou: “O pior é que eles ganham só pra fazer isso e ainda erram!” Outro ponto a destacar é a presença quase invariável, em todos os bares pesquisados, de alguns participantes com radinhos de pilha e fones de ouvido, seja durante o jogo ou no intervalo, apontando para uma recepção mais rica e complexa do futebol midiatizado – pelo menos, a partir da interação com diversas fontes.

c)      Interação com as imagens:

Em que pese a tensa relação entre os torcedores e a definição da situação proposta pelos locutores e comentaristas, parece que a principal mediação no setting é feita a partir da apreensão direta das imagens transmitidas. Comenta-se publicamente muito mais o “visto” do que o “ouvido”. Os comentários públicos se dão de modo concomitante à definição do locutor, como quando um jogador fez uma falta perigosa bem em frente à própria área. Antes mesmo do locutor falar em “falta”, já havia o comentário no bar: “Como é que vai derrubar o cara aí?!”. Por vezes, uma simples imagem periférica, mesmo que não comentada pelos locutores, vira motivo de comentários no bar. O recém-contratado atacante baiano Danilo jogava no frio em Porto Alegre usando luvas. Bastou aparecer no detalhe este jogador, que a ironia se fez ouvir: “Baiano é isso aí, qualquer friozinho passa mal...”. Ou o ex-goleiro do Grêmio Danrlei, hoje reserva no Atlético MG, que apareceu de relance em uma imagem dos jogadores no banco e suscitou o comentário público: “Olha ali a bichona... Pena que daqui não dá pra jogar um radinho de pilha nele!”. Como com relação ao áudio, a ironia é também bastante presente com relação às imagens. Um chute a gol da entrada da área, mas que passou pelo menos uns dez metros acima da goleira suscitou um grito coletivo de uma mesa com cinco torcedores: “UUUUUUUUUUHHHHH!”: as gargalhadas ecoaram pelo bar.

 

 

Para finalizar, por enquanto.

 

O futebol no Brasil, como produto midiático especial, suscita também uma dinâmica de recepção especial. Além do forte recorte de gênero, o compartilhar coletivo do mesmo jogo estimula a formação de um espaço de sociabilidade muito peculiar. A pesquisa etnográfica no contexto dos bares onde se assiste coletivamente a jogos de futebol mostra possibilidades promissoras e desafios instigantes. Tanto pela dimensão social do fato futebolístico no Brasil quanto para o estudo da relação entre produção e recepção de produtos midiáticos: a irônica/jocosa mediação ocorrente nos settings pesquisados demanda mais reflexão e pesquisa. Desafios à vista.

 

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Datos de los Autores: Prof. Dr. Édison Gastaldo: Doutor em Multimeios, Professor adjunto no PPGCC-Unisinos. Rodrigo Leistner Formando em Comunicação/PP na Unisinos.  Ronei Teodoro da Silva Graduando em Comunicação/PP na Unisinos, bolsista UNIBIC Samuel McGinity  Graduando em Comunicação/PP na Unisinos, bolsista UNIBIC.

 

 



[1] Basta pensar nos números envolvendo as transmissões no Brasil de jogos da seleção brasileira em Copas do Mundo: cotas de patrocínio de 16 milhões de dólares e audiências de 97% dos televisores ligados.

[2] Outras áreas, mais ligadas às Ciências Humanas, em particular a Antropologia, já têm uma tradição de mais de 20 anos de pesquisa nesta temática.

[3] Sobre as origens históricas do esporte, ver Elias e Dunning, 1995, e Pivato, 1994

[4] Para uma análise cuidadosa da retórica televisiva concernente à mediatização do futebol, ver Rial, 2003.

[5] Ou ainda antes: quando o Inter levou o terceiro gol do Vasco da Gama no Beira-Rio, muitos participantes deixaram o bar, ainda no meio do segundo tempo.

 



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