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Sob o signo do prazer: contribuições da estética da recepção para o ensino de literatura

 Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira – UNESP – Assis/São Paulo – Brasil

 

 

Resumo: Pretende-se neste artigo apresentar uma análise da recepção do filme Os goonies. Objetiva-se com essa análise compreender quais são os conceitos prévios, bem como o horizonte de expectativa do jovem leitor que o levam a considerar atraente e prazeroso um produto da cultura de massa que apresenta contenção comunicativa.

 

Palavras-chave: estética, recepção, prazer.

 

 

Este texto tem por objetivo apresentar uma reflexão acerca das contribuições da estética da recepção para a literatura e seu ensino. Para embasar esta reflexão pretende-se neste artigo apresentar uma análise crítica do filme Os goonies. Esse filme foi eleito, em 1999, por 51 alunos de 6ª série, em uma pesquisa desenvolvida de 1998 a 2000, que embasou uma dissertação de mestrado voltada para a formação do leitor, no ensino de literatura. Nessa pesquisa, indagou-se esses alunos sobre quais filmes vistos por eles eram considerados atraentes. Entre os indicados, destacou-se Os goonies, assistido por todos os entrevistados na “Sessão da tarde” da Rede Globo, com 100% de aprovação. Objetivou-se detectar com esse questionamento quais eram os conceitos prévios desses alunos, bem como seu horizonte de expectativas.

 Norteia a análise desse filme, a concepção, em consonância com o pensamento de Regina Zilberman (1984, p.133-4), de que um texto, por ser uma unidade concomitantemente composicional e dialógica, é portador de um fenômeno literário, que circula do plano ficcional ao ideológico a partir de sua estrutura, independentemente da sociedade  que  o  produz  ou  o  reflete.   Para tanto,  procura-se  analisar  a  construção  do

 

 

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*Profª Mestra em Literaturas de Língua Portuguesa pela UNESP, campus de Assis – SP. Atualmente, ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, Redação Forense e Comunicação e Expressão, no Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis – IMESA/FEMA.

 

narrador, enquanto ente ficcional, capaz de exercer um poder sobre a atuação da personagem  e  das  disposições  do  leitor implícito.  Este fato revela o trânsito do âmbito ficcional ao social – da personagem ao leitor implícito, que embora seja uma projeção do texto, ocupa um lugar que vem a ser preenchido por um indivíduo real: o leitor empírico. Portanto, da manipulação do leitor implícito passa-se ao controle sobre um ser humano – o leitor empírico, nesse caso, o aluno-leitor.

Objetiva-se ainda neste artigo detectar o efeito produzido pelo filme nos alunos leitores e quais são seus conceitos prévios ao eleger esse texto.

Em entrevistas realizadas com os alunos sobre o que tornava o filme Os goonies atraente, pôde-se observar a predominância das seguintes respostas: “é um filme emocionante”, “é de aventura”, “dá um pouco de medo”.

O filme registra as “travessuras” de um grupo de jovens amigos, moradores de um mesmo bairro que, graças ao acaso, ingressam em uma aventura com o objetivo de salvar suas famílias de uma crise financeira. Caso não descubram um antigo tesouro de um lendário pirata que aportara naquela região há pelo menos quatro séculos, perderão suas casas financiadas por um sistema habitacional desumano e terão que mudar de bairro e/ou de cidade, distanciando-se assim.

Dessa forma, no filme Os goonies, o “chamado” da aventura é provocado pelas pressões sociais, entretanto o desenvolvimento da narrativa ocorre devido à existência do acaso. Esse elemento avulta no texto quando os protagonistas entediados encontram por acaso um mapa no sótão da casa de uma das personagens, onde se reuniram.

O espaço da aventura situa-se no interior de um morro constituído por câmaras no subsolo, lagos e caminhos labirínticos, ele se aproxima ao das narrativas de mistério, de terror, de aventuras e de pirataria. A constituição desse espaço permite a expansão e exploração do imaginário. O espaço se configura por corredores repletos de enigmas, armadilhas mortais, cascatas e cachoeiras; por túneis que desembocam ou em sorvedouros e vórtices, ou em um navio pirata repleto de tesouros guardados por esqueletos e caveiras. Por isso, o espaço é atraente para o leitor.

A exploração dos espaços na narrativa se caracteriza pelos pares antitéticos: conhecido/desconhecido; interno/externo; e alto/baixo. Os protagonistas saem do espaço interno conhecido, o domiciliar, e vão para o externo desconhecido, o da aventura, em busca de um tesouro. Nesse espaço desconhecido, eles encontram uma passagem para o interior de um morro. Essa passagem os conduz ao subsolo, ao espaço da provação, das armadilhas e da prisão. Enquanto os protagonistas estão nesse espaço, as personagens adultas circulam no espaço externo, acima de suas cabeças. Assim, os espaços se dividem entre os dominados pelos adultos, o espaço externo, situado no alto, e os conquistados pelos jovens, o interno, situado no baixo. Uma vez dominado e desvendado, o espaço da aventura confere aos protagonistas o poder de regressar e salvar suas casas da demolição.

Pode-se observar que a exploração espacial do filme torna-o atraente ao apresentar para o leitor o entrecruzamento de passagens aparentemente sem saída. Esse entrecruzamento revela o arquétipo que as sustentam: o desejo do ser humano de realizar uma expedição em direção a si mesmo. Nessa expedição tão complexa, os caminhos entrecruzados constituem impasses que só serão resolvidos se o grupo heróico, por meio de uma espécie de viagem de iniciação, atingir o centro do labirinto. Para tanto, esse grupo deve se mostrar qualificado, competente. Uma vez dotado desse poder, os eleitos chegam ao centro do mundo, ou seja, ao símbolo desse centro.

O labirinto avulta na narrativa como estrutura comum, arquetípica. Ele conduz o homem ao interior de si mesmo, ao seu inconsciente. Esse interior só pode ser atingido pela consciência, depois de longos desvios ou de uma intensa concentração, até esta intuição final em que tudo se simplifica por uma espécie de iluminação. É ali, nessa cripta, que se reencontra a unidade perdida do ser, que se dispersara na multidão dos desejos. Quanto mais difícil a viagem, quanto mais numerosos e árduos os obstáculos, mais os adeptos se transformam e, no curso desta iniciação itinerante, adquirem um novo ser. Conforme Joseph Campbell (2000, p.41-3), a jornada sofre poucas variações no plano essencial. A procura é sempre motivada por uma deficiência simbólica, e aquilo que é revelado sempre estivera presente no coração do grupo heróico.

O espaço constituinte da narrativa exerce o mesmo papel: o de isolar os protagonistas do mundo conhecido, do meio social, do “exterior” e levá-los às origens, aos primeiros elementos da paisagem imaginária da infância: a ilha, o barco, a água, a casa, a caverna, que remetem, segundo Jacqueline Held (1980, p.82), à idéia do redondo, do abrigo, do ninho, do retorno à posição fetal, à mãe.  E remetem ainda à idéia da viagem como condição da aventura e do sonho. De acordo com Jacqueline Held (1980, p.78), a paisagem imaginária tem origem na nostalgia, em nosso lugar de infância real e nos elementos naturais de que tivemos vontade. Assim, ela reúne também os desejos e nostalgias tanto do leitor adulto quanto do jovem. A paisagem afetiva, por possuir a dialética aventura-proteção, perigo-segurança, é atraente.

Segundo Joseph Campbell (2000, p.26), retomando Arnold J. Toynbee, o renascimento propicia o novo. Dentro do espírito e do organismo social deve haver, quando se pretende obter uma longa sobrevivência, uma contínua “recorrência de nascimento” (palingenesia) destinada a anular as recorrências ininterruptas da morte. Justifica-se, então, a presença do sol, antítese da escuridão, no final da narrativa, quando os heróis saem da caverna labiríntica. O sol conota o término da escuridão, representada pela ignorância e pela ameaça de morte, e a chegada da luz. Essa luz, por sua vez, conota a sabedoria adquirida e a felicidade de ter sobrevivido. 

O filme Os goonies encerra-se com os vitoriosos protagonistas observando o surgimento de um navio pirata que, à medida em que se distancia, vai desaparecendo no horizonte ensolarado. Assim, eles podem provar aos adultos a origem do tesouro adquirido e a validade de um antigo mapa do tesouro pertencente a um pirata denominado “Willy Caolho”.

A aventura no filme, embora não proporcione às personagens uma revelação que permita a aquisição de um novo ser, produz no leitor implícito o prazer. Esse prazer, segundo Jacqueline Held (1980, p.85), advém da fantasia, do imaginário, da projeção no herói, do partilhar de suas angústias e de seus perigos, que os alunos realizam. Essa projeção e partilhamento, por sua vez, propiciam o medo. Apesar disso, os alunos sabem que estão seguros, pois permanecem eles mesmos.

No texto, os heróis, buscando sobreviver, vivem experiências amedrontadoras; logo sentem medo. Justificam-se, então, as afirmações dos alunos, “dá um pouco de medo”, como elemento motivador da eleição desse filme. Esse medo é desejado pelo aluno leitor porque é tranqüilizante. Por meio da aprendizagem lúcida, consciente, ele sabe que os “monstros” do filme Os goonies e os esqueletos de viajantes e náufragos que morreram por inanição pertencem ao imaginário. Eles são objetos mentais dominados pelo aluno-leitor, com os quais ele pode interagir, quando desejar, por meio da leitura. 

Segundo Jacqueline Held (1980, p.98), o leitor empírico tem necessidade de mitos, de símbolos, de situações imaginárias compensadoras para superar dificuldades transitórias, para atingir um equilíbrio real-imaginário. Esse equilíbrio é particular a cada um e estabelecer-se-á, em cada caso, de maneira diferente. O prazer encontrado pelos alunos nesse filme, descrito como “o mais legal”, provém do método catártico. O medo simbólico propicia o enfrentamento de medos não simbólicos existentes nas relações sociais.

O medo produzido pelo filme é proporcionado pela constatação tanto pelas personagens quanto pelo leitor implícito do risco de morte. A aventura é marcada pela imprevisibilidade produzida pelo risco, justamente por isso, ela é atraente, rompe com a mesmice, com a rotina, com o dia-a-dia convencional, com a segurança e com o tédio.

A morte dá à narrativa de aventura concomitantemente uma carga de atração e de repulsão, tanto para a personagem quanto para o leitor. Retomando Jankélévitch, José Paulo Paes (1990, p.19) afirma que o par antitético atração/repulsão parece ter raízes fundas na psique humana, já que o homem anseia por fazer o que mais teme.  Mas, como não pode na vida real satisfazer seus anseios, os heróis enfrentam a um passo da morte por ele e para ele as situações mais arriscadas. Testemunhar os heróis enfrentarem a morte produz tanto prazer no leitor quanto vê-los escapar dela no último momento. 

O leitor implícito é induzido a passar pelo mesmo tipo de experiência vivenciada pelos protagonistas. Ele é levado a avaliar formas e conteúdos diferentes e, baseando-se nessa visão da multiplicidade, reflexo da amplitude e diversidade do mundo e do universo, formar-se e aperfeiçoar-se. Assim, ao lado da autoridade afetuosa, mas rigorosa dos adultos, acatada como absoluta entre as personagens do filme, traduzida pela dependência e conseqüente submissão, que gera o tédio e a mesmice, está a necessidade de partir para romper com o status quo em busca de emoções e aventuras que promovam competência.

A obtenção de riqueza representa a vitória no espaço da aventura. Assim, graças às performances desenvolvidas pelos protagonistas, eles são sancionados positivamente, adquirindo uma competência que antes não possuíam. Desse modo, os heróis obtêm o desejado equilíbrio e a paz. 

De acordo com Anatol Rosenfeld (2000, p.43), há dois tipos de prazer ofertados por uma obra a um leitor: o prazer do conhecimento e o prazer estético. Na ficção em geral e também na de cunho trivial, o raio de intenção se dirige à camada imaginária, sem passar diretamente às realidades empíricas possivelmente representadas. Entretanto, boa parte dos leitores põe o mundo imaginário quase imediatamente em referência com a realidade exterior à obra, já que as objectualidades puramente intencionais, embora tendam a prender a intenção, são tomadas na sua função mimética, como reflexo do mundo empírico. Assim, o que ocorre após a leitura do filme, de acordo com os alunos-leitores, é um prazer imediato associado à aquisição de “conhecimentos” pragmáticos, pois lhes é negado o prazer estético.

Pode-se observar que, ao término do filme, os protagonistas retornam para casa, assim a narrativa é circular: o ponto de chegada coincide com o de partida. Ela se constitui por um círculo no centro do qual os heróis são aprisionados em seus lares. Entretanto, esses lares para os quais os heróis regressam não aparecem idealizados. Desse modo, os protagonistas retornam aos seus familiares, mas graças à aventura tornam-se capazes de melhorar as condições financeiras deles, não sendo mais um fardo, antes uma benção, porque trazem os tesouros adquiridos.

As personagens do filme Os goonies são cômicas, imperfeitas e espontâneas, assim não atuam como modelos de conduta. Entretanto, apresentam comportamentos que destacam uma concepção estereotipada dos adolescentes. Elas se definem psicologicamente como superficiais, desastradas, gulosas, distraídas, tímidas diante do sexo oposto, curiosas, desorganizadas e rebeldes, mas fiéis à família e aos amigos. Em momentos de tensão, elas reagem com desespero. Têm baixa auto-estima quanto à aparência física ou porque usam aparelhos nos dentes e/ou óculos, ou porque se consideram feias, de baixa estatura, gordas etc. São ambíguas, pois ao mesmo tempo em que se imaginam invencíveis, sentem-se acovardadas diante do perigo, embora não o admitam. Elas são desprovidas de complexidade psicológica, principalmente porque não lhes é permitido o questionamento. Assim, salvam as suas famílias e todo o bairro da demolição, mas não questionam o porquê de morarem em casas financiadas ou de suas famílias não conseguirem saldar as prestações. Uma vez definidas, não se alteram; apresentam características físicas e psicológicas unidimensionais e caricaturais. Desse modo, compõem o grupo de jovens protagonistas aventureiros e amigos: o gordinho engraçado e mentiroso, Bolão; o garoto aventureiro e asmático, irmão mais novo de Brand, Mikey; o descendente de chineses e inventor desastrado, Data; e o garoto espertalhão e brincalhão, Bocão. Integram ainda esse grupo três adolescentes mais velhos: a bela garota superficial, objeto da paixão de Brand, Andy; a sua melhor amiga, a feia e inteligente, Stef; o rapaz forte, bem-humorado e irmão dedicado, Brand.

O mundo em que as personagens se movem é determinado por uma minoria que detém o poder aquisitivo. Embora as personagens conheçam o seu mundo, ainda não o conquistaram; para tanto precisam ingressar na aventura. Em busca desse ingresso, realizam o percurso da aventura: saem do espaço doméstico, conhecido, adentram o desconhecido, no interior de um morro, e na saída desse espaço, graças à euforia com o modelo familista, correm para os braços de seus pais. Essa euforia levada para o discurso das personagens revela a utilização de uma linguagem trivial constituída por clichês. Assim, pode-se observar na saída do espaço da aventura, quando os protagonistas reencontram suas famílias, o emprego de fórmulas prontas, como as utilizadas pelo protagonista Mikey, que acredita não ter obtido a fortuna necessária para saldar as dívidas da família: “–Desculpe, pai. Tínhamos a salvação nas mãos. Mas largamos para salvar nossas vidas. Desculpe.” E a utilizada pelo seu pai: “– Tudo bem. Está são e salvo comigo e com sua mãe. Somos as pessoas mais afortunadas daqui.”

Ainda, o mesmo emprego de fórmulas prontas avulta no diálogo entre o protagonista Data e seu pai. O pai, feliz em rever o filho, tenta utilizar um de seus inventos, uma máquina fotográfica para registrar a família novamente reunida, mas o aparelho fracassa. Diante disso, o protagonista diz: “- Tudo bem, pai. Não pode abraçar uma fotografia.” Ao que o pai responde: “- Você é a minha melhor invenção.”

   As personagens do filme, embora sejam determinadas em atingir seus objetivos e se ajudem mutuamente, necessitam de ajuda no espaço da aventura. A ajuda é obtida quando os jovens salvam um dos filhos da senhora Fratelli do porão, onde é mantido acorrentado por ela e seus outros dois filhos. Essa personagem é portadora de deficiências físicas e mentais, e por isso, incompreendida e maltratada pelos seus familiares. Embora grotesca, tida a princípio pelas jovens personagens como um “monstro”, essa personagem intitulada Preguiça revela-se uma grande auxiliar e orientadora, capaz de ajudar as demais a lutarem no espaço da aventura com a família Fratelli e guiá-las, por meio de uma pequena abertura na rocha para a saída do interior do morro. Assim, pelo seu poder orientador, esse comparsa conota o “fio” de Ariadne. Ecoam nessa personagem outros “monstros” ambíguos conhecidos pelos alunos que, ao mesmo tempo em que fornecem ajuda, também necessitam dela: a Fera, do conto de fadas A Bela e a Fera, o corcunda, de O corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo, e Hagrid, de Harry Potter e a pedra filosofal, de J. K. Rowling.

Ao término da narrativa, o valor da personagem Preguiça é reconhecido pelas famílias das jovens personagens. Assim, ele serve de justificativa para reforçar o bom caráter e a compreensão delas e de suas famílias. Ainda, Preguiça é adotado por uma dessas famílias. Sua mãe e seus dois irmãos, graças à ajuda das jovens personagens aos incompetentes policiais, são presos. Essa cena reforça a eficácia das ações dessas personagens e seu bom caráter moldado pelo poder de discernimento e capacidade de julgamento.

A admiração dos alunos pelos “heróis positivos ativos” conota, segundo Maria Alice Faria (1999, p.47), a pressão moralizante que recebem por parte dos adultos em sua própria educação em casa, na escola e sobretudo nos livros que lhes são dados a ler. Justifica-se, então, o predomínio no filme dessas personagens tão ajuizadas e algumas até sem caráter, mas detentoras de poderes que as capacitam a optar, quando necessário, por ações eficazes que promovam o bem comum e favoreçam a obtenção do objeto de desejo, no espaço da aventura e, no regresso, a alteração de estatuto e reconhecimento.

O filme é atraente para os alunos, principalmente porque proporciona a sensação de conforto, produzida pela manutenção do horizonte de expectativa do leitor que espera encontrar personagens heróicas. Justamente, porque não rompem esse horizonte de expectativa, as personagens são negativas para o leitor, pois não lhe proporcionam o questionamento e a revisão de valores. Ainda, por não surpreenderem pelas suas ações e serem facilmente compreendidas pelo leitor, essas personagens o consolam e dão a ele a ilusão de que as domina. 

Ao término da aventura, o leitor percebe que foi necessário às personagens percorrer o espaço da aventura, pois as experiências vivenciadas nele foram decisivas. Entretanto, sua permanência no espaço da aventura configura-se como um perigo latente: o de romper com as coordenadas do sistema social em que devem viver. Esse sistema determina que devem permanecer junto à família.

A narrativa do filme é ainda atraente pela exploração do humor e pela inversão do papel do líder no espaço da aventura. Embora o protagonista Brand seja o “mais velho” e manifeste em seu discurso que deve ser o líder, ele não atinge seu intento, pois as demais personagens ignoram essa afirmação. O líder do grupo é justamente o “mais novo”: o protagonista Mikey. Ele alcança esse estatuto por ser um profundo conhecedor, o que também o torna narrador, da lenda do pirata Willy Caolho. Ainda, pela sua capacidade de convencimento, o protagonista Mikey atua como manipulador das ações das demais personagens. No início da narrativa, o protagonista Mikey é o único que acredita na existência de um tesouro enterrado próximo às docas Goon, que dão nome à região em que habitam e determinam a nomeação das personagens em goonies. Essa nomeação é ambígua; ao mesmo tempo que é motivo de orgulho para os protagonistas, por representar o espaço onde habitam, valorizado por eles pelos amigos que contém, também os envergonha diante de outros adolescentes provenientes de uma classe social prestigiada que os vê como inferiores.

O filme é marcado pela intenção básica do narrador tradicional de contar uma história interessante. Acrescente-se, ainda, que o tema da aventura no interior de uma mina, de um morro, em espaços desconhecidos, compostos por labirintos e galerias, faz parte da linha heróico-aventuresca que no transcorrer dos tempos tem encontrado a mais alta ressonância entre leitores diversos. O filme, por meio da técnica da efabulação, aguça a curiosidade do leitor, transportando-o imaginativamente da segurança do seu dia-a-dia para os terrores do escuro e do labirinto. Assim, a narrativa leva-o a participar emocionalmente de todas as peripécias vividas pelos heróis.

No universo paradoxal construído pelos pares antitéticos vida/morte, perigo/segurança, obediência/desobediência estão presentes todos os componentes que atraem o pré-adolescente e o adolescente, como o desconhecido, a liberdade de aventurar-se e o impulso em quebrar a rotina e as regras estabelecidas.

No filme, o papel do narrador é relativizado. Recorrendo à fórmula mais corrente do cinema, a objetiva, o narrador transfere para as personagens o papel do comentário e do discurso didático. Segundo Paulo Emílio Salles Gomes (2000, p.107), a objetiva leva o narrador a se retrair ao máximo para deixar o campo livre às personagens e suas ações. A focalização é dada pelo narrador-câmera. A câmera, por meio de seu movimento, exerce uma função nitidamente narrativa. Ela focaliza, comenta, recorta, aproxima, expõe e descreve. Para tanto, utiliza-se dos seguintes recursos: close-up, travelling e panorâmica. 

Em Os goonies, o papel de narrador das aventuras do pirata Willy Caolho é transferido para a personagem Mikey. Esta personagem não só comenta as aventuras, como também manipula as demais personagens, por meio de seu discurso, para que ingressem na busca ao tesouro. Durante o desenrolar do filme, as ações predominam, as personagens reagem a elas com comentários imediatistas e elucidativos de suas decisões. As personagens, ao elucidarem o porquê de suas tomadas de decisão para as demais, estrategicamente também o elucidam para o leitor, conotando uma concepção de receptor incapaz de realizar deduções. Como as reações das personagens são motivadas pela sucessão de eventos, elas também realizam pouquíssimas deduções, mimetizando o lugar do leitor implícito no relato. A focalização apresentada pela câmera é panorâmica e total, tanto em espaços abertos quanto em fechados. Assim, em espaços abertos pode-se ver toda a costa em que as personagens habitam, a amplitude do horizonte e do mar. Uma vez no cenário fechado da aventura, a câmera domina todos os espaços. Ela expõe para o leitor o que os protagonistas e antagonistas podem ou não ver, utilizando como recursos tanto o travelling quanto o close-up. Desse modo, ela assume o papel de narrador onisciente diretivo, conduzindo as possíveis interpretações do leitor, impedindo a apresentação de vazios. Dessa forma, a exclusão da decodificação pelo leitor expõe a intenção do narrador de apresentar um produto pronto, previamente interpretado e facilmente consumível. Ao término da narrativa, o leitor sabe o destino final dos heróis: eles saldam suas dívidas, podem morar no mesmo bairro e continuar a ser amigos.

O filme Os goonies, graças à adesão da câmera aos eventos, à sucessão de ações e aos protagonistas, produz no leitor a sensação de imediatismo, de que lê exatamente o que está acontecendo, ou seja, de concomitância entre o tempo da diegese e o tempo da enunciação dada pela apresentação do narrador-câmera. Embora, a linguagem empregada pelas personagens seja a trivial, própria da cultura de massa, há a exploração criativa na caracterização do discurso da personagem Mikey. O discurso desse protagonista consegue produzir efeito de humor e de comoção no leitor quando revela uma personagem que, preocupada com a situação financeira de sua família e irritada com os amigos que não compreendem a gravidade da situação e não acreditam na lenda do pirata caolho, se confunde com a pronúncia de palavras homófonas. Alguns exemplos dessa confusão aparecem nas seguintes frases: “Meu pai vai devolver para o museu ou ao assistente do cortador... contador... (curador) essas coisas...”; “Estava só tentando me engasgar... engastar... (enganar).” Essas frases são  proferidas respectivamente quando a personagem quer impedir seus amigos de destruírem os objetos que acusam a existência do pirata Willy Caolho colocados no sótão de sua casa; e quando afirma ao irmão mais velho que está fingindo não se importar com a mudança de bairro. As frases proferidas pelo protagonista Mikey conotam o enfrentamento precoce de problemas que deveriam se restringir ao universo adulto; justamente por isso comovem o leitor.    

O filme Os goonies, embora seja atraente para o leitor, apresenta contenção comunicativa. Essa contenção tem por objetivo expor ao leitor um produto voltado para a facilidade de consumo e para o entretenimento, desprovido, portanto, de situações e/ou de personagens que favoreçam a questionamentos existenciais. O grau de contenção comunicativa desse filme conota a concepção de leitor. Assim, o filme pressupõe um jovem leitor desprovido de consciência crítica, que busca na aventura evasão do tédio cotidiano e divertimento. Desse modo, o leitor desse filme quer ser conduzido por um produto que ilusoriamente o entretém e consola, pois o satisfaz pela oferta de um universo organizado e compreensível, enquanto lhe incute a ideologia da classe dominante. Essa ideologia avulta na estrutura profunda desse texto quando se observa que os protagonistas não anseiam pela alteração do status quo, ou seja, da sociedade em que vivem; antes, como ela é imutável e “perfeita”, buscam meios que lhes facultem o ingresso nessa sociedade: o poder aquisitivo. Assim, não é a sociedade a qual as personagens pertencem que possui problemas; elas é que não se enquadram. Pode-se observar, então, que, sob a aparência de diversão dessas narrativas, há a legitimação da estrutura social vigente.

Pode-se concluir que o consumo do filme está assegurado por diversos fatores. Esses fatores atendem aos adultos e aos jovens leitores com pouco contato com textos diversos. Ele agrada aos adultos pelo seu caráter ideológico. Graças a esse caráter, introduz as normas do mundo adulto no âmbito da infância e da juventude e as endossam. Agrada aos jovens com pouco hábito de leitura ao apresentar processos formais próprios da cultura de massa: uma história passada em um ambiente natural que associa medo e aventura, contenção comunicativa pela condução interpretativa das ações desenvolvidas na narrativa, sedução ao consumo fácil pela ausência de novidade formal e de questionamentos existenciais. Ainda, por agradar aos adultos, estes o disponibilizam em seus lares. As emissoras, por sua vez, cientes de que o filme tem consumo assegurado, mantêm-no em circulação no mercado. Assim, o consumo assegurado não se deve ao fato do filme sintetizar, por meio dos recursos da ficção, uma realidade que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive cotidianamente, nem por se comunicar com esse leitor, estabelecer com ele um diálogo, falando-lhe de seu mundo, dificuldades e soluções, mas porque é fácil, consumível.

O filme define-se, devido à repetição excessiva das mesmas ações em um único espaço, pelo tédio. Este não é mencionado pelos alunos; antes, é negado, porque é preferido. Graças ao pouco contato dos alunos com textos diversos e à excessiva exposição a produtos da literatura trivial, o filme os conforta, porque atende aos seus anseios, ou seja, ao seu horizonte de expectativa. Ao elegerem esse filme, eles evitam realizar um complexo exercício de raciocínio e interpretação geralmente exigido por textos mais questionadores, mais críticos e provocadores. Assim, esse filme ao não permitir que a produtividade do leitor implícito entre em jogo na leitura, ultrapassa o limite de tolerância quanto à produtividade, pois lhe nega a possibilidade de exercer a sua capacidade. Nele, o narrador diz tudo claramente ao leitor, gerando o tédio, situação-limite que indica o fim da participação do leitor.

O filme, ao reduzir os vazios, sob a promessa de diversão, apresenta um discurso produzido por um emissor que conhece e prevê com bastante exatidão a enciclopédia, os códigos e volitivas do leitor ideal ou modelo. Esse leitor ideal, construído ou projetado pelo filme, é aquele habituado ao mínimo esforço, que deseja ser conduzido pelo narrador, pela estrutura formal da obra, enfim o que busca entretenimento e consumo fácil. Ao atender a esse leitor, o filme limita o número de vazios, determinando uma menor atividade imaginativa. Por conseqüência, há no filme um estreitamento de relação projetiva, realizado pelo controle da participação do leitor. Desse modo, o leitor recebe o filme de tal forma pronto, estruturado e fechado à sua interpretação que ele não tem condições de projetar uma nova realidade àquela que lhe é apresentada. Então, guiado pela ótica do narrador, o leitor só pode manifestar uma atitude de aceitação ou rejeição acerca das normas e valores expressos na narrativa.

O filme ao se subordinar ao horizonte de expectativa de seus leitores e às “necessidades” desses leitores, definidas por pesquisas de mercado voltadas para o marketing, objetivou que os leitores também se subordinassem ao ponto de vista da  narrativa.

Assim, a atuação do narrador no filme impede que a narrativa tenha uma natureza renovadora e apresente um índice de ruptura quanto ao tratamento do relato. Ao centralizar a interpretação e dirigi-la, o narrador não possibilita ao leitor implícito uma participação no universo ficcional e uma identificação com este universo. Por restringir as modalidades de deciframento de seu produto, o narrador não lhe garante a constante atualização, independente do transcurso do tempo. Ao criar um narrador controlador, o filme opta pela perda da qualidade da narrativa em favor do consumo imediatista. Desse modo, resulta uma assimetria que impossibilita amenizar o contraste entre o poder do narrador e a dominação do leitor implícito, condenando o filme, por não ter uma solução esteticamente convincente para este dilema, a não atingir o estatuto estético.   

Pelas respostas dos alunos, pode-se observar que não há propriamente uma interação entre eles e o texto, uma revitalização do mundo ficcional e uma aquisição de um saber. Essas operações ocorrem quando o leitor implícito, figura que vem a ser preenchida pelo leitor empírico, oferece algo ao texto e recebe em troca um conhecimento. Esse conhecimento propiciado pelo texto posiciona o leitor implícito mais adequadamente em sua circunstância, libertando-o de preconceitos, suplantando a norma vigente, impondo novos padrões, tornando-se, enfim, um saber emancipatório. Esse saber, obtido pela atividade do leitor implícito, concede ao processo de leitura uma legitimação de ordem existencial, segundo Zilberman (1984, p.79). Entretanto, o que resulta da leitura do filme não é uma liberação de preconceitos ou de normas, mas sim um manual de regras, de valores aceitos como positivos quando mantêm um compromisso com os ideais da sociedade capitalista.

Após a análise do filme, pode-se observar que ele conota o anseio dos alunos de obterem narrativas que os consolem e confortem. Enfim, que lhes apresentem personagens compreensíveis, heróicas, redimíveis, capazes de realizar ações eficazes, desprovidas de complexidade psicológica e principalmente da capacidade de questionamento. Pode-se concluir que, voluntariamente, os alunos não elegem textos portadores da literatura clássica européia, como o conto dos irmãos Grimm, ou da mitologia clássica, como os das lendas de Teseu e Ariadne, ou um filme que lhes requer o exercício da dedução, como O náufrago. Justifica-se, então, a indicação desses textos e das obras de Monteiro Lobato, em todos os anos em que se desenvolveu a pesquisa, com o objetivo de propiciar aos alunos uma ampliação do seu horizonte de expectativa. As obras de Lobato incorporam um lastro sólido de cultura proveniente das narrativas orais, de cunho local, por meio do aproveitamento de certas personagens: fantásticas, como o Saci Pererê; históricas, como Hans Staden; próprias de relatos populares, com a presença do ciclo das lendas relativas à onça ou ao jaboti; da mitologia clássica, como em O minotauro e em Os doze trabalhos de Hércules; da literatura européia, como Peter Pan e D. Quixote; da religião, como São Jorge, em Viagem à Lua. Além disso, apresentam personagens dotadas da capacidade de questionamento. Suas obras proporcionam também ao leitor, além dos aspectos lingüísticos inovadores e do caráter intertextual, a discussão de temas pertencentes exclusivamente ao mundo adulto. Por exemplo, discutem-se, no Sítio, as conseqüências das guerras, os problemas do desenvolvimento brasileiro e o conhecimento intuitivo frente ao predomínio da lógica e da razão. Dessa forma, as obras de Lobato diferem do filme Os goonies, porque estimulam o leitor a ver a realidade por meio de seus próprios conceitos.

Embora o filme Os goonies não seja emancipatório, pois apresenta heróis que, desprovidos de complexidade psicológica e principalmente da capacidade de questionamento, não rompem o horizonte de expectativa dos alunos, quanto à caracterização de uma personagem, conhecê-lo foi importante. Ao analisá-lo, pôde-se detectar quais são os conceitos prévios dos alunos que determinam suas eleições de textos atraentes. Ainda, o filme proporcionou o avanço do debate em sala de aula sobre os valores que ele transmite, bem como a ausência de questionamentos que apresenta. Graças a esse filme, desenvolveu-se um trabalho articulado às eleições dos alunos que lhes propiciou, por meio da oferta de textos diversos portadores de aspectos formais básicos do texto literário, uma ampliação de seu horizonte de expectativa.

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

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Datos del Autor: Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira – UNESP – Assis/São Paulo – Brasil Profª Mestra em Literaturas de Língua Portuguesa pela UNESP, campus de Assis – SP. Atualmente, ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, Redação Forense e Comunicação e Expressão, no Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis – IMESA/FEMA.

 

 



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