|
|
Sob
o signo do prazer: contribuições da estética da recepção para
o ensino de literatura
Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira – UNESP –
Assis/São Paulo – Brasil
Resumo:
Pretende-se neste artigo apresentar uma análise da recepção do
filme Os goonies. Objetiva-se com essa análise compreender quais
são os conceitos prévios, bem como o horizonte de expectativa do
jovem leitor que o levam a considerar atraente e prazeroso um
produto da cultura de massa que apresenta contenção
comunicativa.
Palavras-chave:
estética, recepção, prazer.
Este texto tem por
objetivo apresentar uma reflexão acerca das contribuições da
estética da recepção para a literatura e seu ensino. Para
embasar esta reflexão pretende-se neste artigo apresentar uma análise
crítica do filme Os goonies. Esse filme foi eleito, em 1999, por
51 alunos de 6ª série, em uma pesquisa desenvolvida de 1998 a
2000, que embasou uma dissertação de mestrado voltada para a
formação do leitor, no ensino de literatura. Nessa pesquisa,
indagou-se esses alunos sobre quais filmes vistos por eles eram
considerados atraentes. Entre os indicados, destacou-se Os
goonies, assistido por todos os entrevistados na “Sessão da
tarde” da Rede Globo, com 100% de aprovação. Objetivou-se
detectar com esse questionamento quais eram os conceitos prévios
desses alunos, bem como seu horizonte de expectativas.
Norteia
a análise desse filme, a concepção, em consonância com o
pensamento de Regina Zilberman (1984, p.133-4), de que um texto,
por ser uma unidade concomitantemente composicional e dialógica,
é portador de um fenômeno literário, que circula do plano
ficcional ao ideológico a partir de sua estrutura,
independentemente da sociedade
que o
produz ou
o reflete.
Para tanto, procura-se analisar
a construção
do
_________________________________
*Profª
Mestra em Literaturas de Língua Portuguesa pela UNESP, campus de
Assis – SP. Atualmente, ministra aulas de Língua Portuguesa e
Literatura, Redação Forense e Comunicação e Expressão, no
Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis – IMESA/FEMA.
narrador,
enquanto ente ficcional, capaz de exercer um poder sobre a atuação
da personagem e
das disposições
do leitor implícito.
Este fato revela o trânsito do âmbito ficcional ao social
– da personagem ao leitor implícito, que embora seja uma projeção
do texto, ocupa um lugar que vem a ser preenchido por um indivíduo
real: o leitor empírico. Portanto, da manipulação do leitor
implícito passa-se ao controle sobre um ser humano – o leitor
empírico, nesse caso, o aluno-leitor.
Objetiva-se
ainda neste artigo detectar o efeito produzido pelo filme nos
alunos leitores e quais são seus conceitos prévios ao eleger
esse texto.
Em
entrevistas realizadas com os alunos sobre o que tornava o filme
Os goonies atraente, pôde-se observar a predominância das
seguintes respostas: “é um filme emocionante”, “é de
aventura”, “dá um pouco de medo”.
O
filme registra as “travessuras” de um grupo de jovens amigos,
moradores de um mesmo bairro que, graças ao acaso, ingressam em
uma aventura com o objetivo de salvar suas famílias de uma crise
financeira. Caso não descubram um antigo tesouro de um lendário
pirata que aportara naquela região há pelo menos quatro séculos,
perderão suas casas financiadas por um sistema habitacional
desumano e terão que mudar de bairro e/ou de cidade,
distanciando-se assim.
Dessa
forma, no filme Os goonies, o “chamado” da aventura é
provocado pelas pressões sociais, entretanto o desenvolvimento da
narrativa ocorre devido à existência do acaso. Esse elemento
avulta no texto quando os protagonistas entediados encontram por
acaso um mapa no sótão da casa de uma das personagens, onde se
reuniram.
O
espaço da aventura situa-se no interior de um morro constituído
por câmaras no subsolo, lagos e caminhos labirínticos, ele se
aproxima ao das narrativas de mistério, de terror, de aventuras e
de pirataria. A constituição desse espaço permite a expansão e
exploração do imaginário. O espaço se configura por corredores
repletos de enigmas, armadilhas mortais, cascatas e cachoeiras;
por túneis que desembocam ou em sorvedouros e vórtices, ou em um
navio pirata repleto de tesouros guardados por esqueletos e
caveiras. Por isso, o espaço é atraente para o leitor.
A
exploração dos espaços na narrativa se caracteriza pelos pares
antitéticos: conhecido/desconhecido; interno/externo; e
alto/baixo. Os protagonistas saem do espaço interno conhecido, o
domiciliar, e vão para o externo desconhecido, o da aventura, em
busca de um tesouro. Nesse espaço desconhecido, eles encontram
uma passagem para o interior de um morro. Essa passagem os conduz
ao subsolo, ao espaço da provação, das armadilhas e da prisão.
Enquanto os protagonistas estão nesse espaço, as personagens
adultas circulam no espaço externo, acima de suas cabeças.
Assim, os espaços se dividem entre os dominados pelos adultos, o
espaço externo, situado no alto, e os conquistados pelos jovens,
o interno, situado no baixo. Uma vez dominado e desvendado, o espaço
da aventura confere aos protagonistas o poder de regressar e
salvar suas casas da demolição.
Pode-se
observar que a exploração espacial do filme torna-o atraente ao
apresentar para o leitor o entrecruzamento de passagens
aparentemente sem saída. Esse entrecruzamento revela o arquétipo
que as sustentam: o desejo do ser humano de realizar uma expedição
em direção a si mesmo. Nessa expedição tão complexa, os
caminhos entrecruzados constituem impasses que só serão
resolvidos se o grupo heróico, por meio de uma espécie de viagem
de iniciação, atingir o centro do labirinto. Para tanto, esse
grupo deve se mostrar qualificado, competente. Uma vez dotado
desse poder, os eleitos chegam ao centro do mundo, ou seja, ao símbolo
desse centro.
O
labirinto avulta na narrativa como estrutura comum, arquetípica.
Ele conduz o homem ao interior de si mesmo, ao seu inconsciente.
Esse interior só pode ser atingido pela consciência, depois de
longos desvios ou de uma intensa concentração, até esta intuição
final em que tudo se simplifica por uma espécie de iluminação.
É ali, nessa cripta, que se reencontra a unidade perdida do ser,
que se dispersara na multidão dos desejos. Quanto mais difícil a
viagem, quanto mais numerosos e árduos os obstáculos, mais os
adeptos se transformam e, no curso desta iniciação itinerante,
adquirem um novo ser. Conforme Joseph Campbell (2000, p.41-3), a
jornada sofre poucas variações no plano essencial. A procura é
sempre motivada por uma deficiência simbólica, e aquilo que é
revelado sempre estivera presente no coração do grupo heróico.
O
espaço constituinte da narrativa exerce o mesmo papel: o de
isolar os protagonistas do mundo conhecido, do meio social, do
“exterior” e levá-los às origens, aos primeiros elementos da
paisagem imaginária da infância: a ilha, o barco, a água, a
casa, a caverna, que remetem, segundo Jacqueline Held (1980,
p.82), à idéia do redondo, do abrigo, do ninho, do retorno à
posição fetal, à mãe. E
remetem ainda à idéia da viagem como condição da aventura e do
sonho. De acordo com Jacqueline Held (1980, p.78), a paisagem
imaginária tem origem na nostalgia, em nosso lugar de infância
real e nos elementos naturais de que tivemos vontade. Assim, ela
reúne também os desejos e nostalgias tanto do leitor adulto
quanto do jovem. A paisagem afetiva, por possuir a dialética
aventura-proteção, perigo-segurança, é atraente.
Segundo
Joseph Campbell (2000, p.26), retomando Arnold J. Toynbee, o
renascimento propicia o novo. Dentro do espírito e do organismo
social deve haver, quando se pretende obter uma longa sobrevivência,
uma contínua “recorrência de nascimento” (palingenesia)
destinada a anular as recorrências ininterruptas da morte.
Justifica-se, então, a presença do sol, antítese da escuridão,
no final da narrativa, quando os heróis saem da caverna labiríntica.
O sol conota o término da escuridão, representada pela ignorância
e pela ameaça de morte, e a chegada da luz. Essa luz, por sua
vez, conota a sabedoria adquirida e a felicidade de ter
sobrevivido.
O filme Os goonies
encerra-se com os vitoriosos protagonistas observando o surgimento
de um navio pirata que, à medida em que se distancia, vai
desaparecendo no horizonte ensolarado. Assim, eles podem provar
aos adultos a origem do tesouro adquirido e a validade de um
antigo mapa do tesouro pertencente a um pirata denominado “Willy
Caolho”.
A
aventura no filme, embora não proporcione às personagens uma
revelação que permita a aquisição de um novo ser, produz no
leitor implícito o prazer. Esse prazer, segundo Jacqueline Held
(1980, p.85), advém da fantasia, do imaginário, da
projeção no herói, do partilhar de suas angústias e de seus
perigos, que os alunos realizam. Essa projeção e partilhamento,
por sua vez, propiciam o medo. Apesar disso, os alunos sabem que
estão seguros, pois permanecem eles mesmos.
No
texto, os heróis, buscando sobreviver, vivem experiências
amedrontadoras; logo sentem medo. Justificam-se, então, as afirmações
dos alunos, “dá um pouco de medo”, como elemento motivador da
eleição desse filme. Esse medo é desejado pelo aluno leitor
porque é tranqüilizante. Por meio da aprendizagem lúcida,
consciente, ele sabe que os “monstros” do filme Os goonies e
os esqueletos de viajantes e náufragos que morreram por inanição
pertencem ao imaginário. Eles são objetos mentais dominados pelo
aluno-leitor, com os quais ele pode interagir, quando desejar, por
meio da leitura.
Segundo
Jacqueline Held (1980, p.98), o leitor empírico tem necessidade
de mitos, de símbolos, de situações imaginárias compensadoras
para superar dificuldades transitórias, para atingir um equilíbrio
real-imaginário. Esse equilíbrio é particular a cada um e
estabelecer-se-á, em cada caso, de maneira diferente. O prazer
encontrado pelos alunos nesse filme, descrito como “o mais
legal”, provém do método catártico. O medo simbólico
propicia o enfrentamento de medos não simbólicos existentes nas
relações sociais.
O
medo produzido pelo filme é proporcionado pela constatação
tanto pelas personagens quanto pelo leitor implícito do risco de
morte. A aventura é marcada pela imprevisibilidade produzida pelo
risco, justamente por isso, ela é atraente, rompe com a mesmice,
com a rotina, com o dia-a-dia convencional, com a segurança e com
o tédio.
A
morte dá à narrativa de aventura concomitantemente uma carga de
atração e de repulsão, tanto para a personagem quanto para o
leitor. Retomando Jankélévitch, José Paulo Paes (1990, p.19)
afirma que o par antitético atração/repulsão parece ter raízes
fundas na psique humana, já que o homem anseia por fazer o que
mais teme. Mas, como
não pode na vida real satisfazer seus anseios, os heróis
enfrentam a um passo da morte por ele e para ele as situações
mais arriscadas. Testemunhar os heróis enfrentarem a morte produz
tanto prazer no leitor quanto vê-los escapar dela no último
momento.
O
leitor implícito é induzido a passar pelo mesmo tipo de experiência
vivenciada pelos protagonistas. Ele é levado a avaliar formas e
conteúdos diferentes e, baseando-se nessa visão da
multiplicidade, reflexo da amplitude e diversidade do mundo e do
universo, formar-se e aperfeiçoar-se. Assim, ao lado da
autoridade afetuosa, mas rigorosa dos adultos, acatada como
absoluta entre as personagens do filme, traduzida pela dependência
e conseqüente submissão, que gera o tédio e a mesmice, está a
necessidade de partir para romper com o status quo em busca de emoções
e aventuras que promovam competência.
A
obtenção de riqueza representa a vitória no espaço da
aventura. Assim, graças às performances desenvolvidas pelos
protagonistas, eles são sancionados positivamente, adquirindo uma
competência que antes não possuíam. Desse modo, os heróis obtêm
o desejado equilíbrio e a paz.
De
acordo com Anatol Rosenfeld (2000, p.43), há dois tipos de prazer
ofertados por uma obra a um leitor: o prazer do conhecimento e o
prazer estético. Na ficção em geral e também na de cunho
trivial, o raio de intenção se dirige à camada imaginária, sem
passar diretamente às realidades empíricas possivelmente
representadas. Entretanto, boa parte dos leitores põe o mundo
imaginário quase imediatamente em referência com a realidade
exterior à obra, já que as objectualidades puramente
intencionais, embora tendam a prender a intenção, são tomadas
na sua função mimética, como reflexo do mundo empírico. Assim,
o que ocorre após a leitura do filme, de acordo com os
alunos-leitores, é um prazer imediato associado à aquisição de
“conhecimentos” pragmáticos, pois lhes é negado o prazer estético.
Pode-se
observar que, ao término do filme, os protagonistas retornam para
casa, assim a narrativa é circular: o ponto de chegada coincide
com o de partida. Ela se constitui por um círculo no centro do
qual os heróis são aprisionados em seus lares. Entretanto, esses
lares para os quais os heróis regressam não aparecem
idealizados. Desse modo, os protagonistas retornam aos seus
familiares, mas graças à aventura tornam-se capazes de melhorar
as condições financeiras deles, não sendo mais um fardo, antes
uma benção, porque trazem os tesouros adquiridos.
As
personagens do filme Os goonies são cômicas, imperfeitas e
espontâneas, assim não atuam como modelos de conduta.
Entretanto, apresentam comportamentos que destacam uma concepção
estereotipada dos adolescentes. Elas se definem psicologicamente
como superficiais, desastradas, gulosas, distraídas, tímidas
diante do sexo oposto, curiosas, desorganizadas e rebeldes, mas fiéis
à família e aos amigos. Em momentos de tensão, elas reagem com
desespero. Têm baixa auto-estima quanto à aparência física ou
porque usam aparelhos nos dentes e/ou óculos, ou porque se
consideram feias, de baixa estatura, gordas etc. São ambíguas,
pois ao mesmo tempo em que se imaginam invencíveis, sentem-se
acovardadas diante do perigo, embora não o admitam. Elas são
desprovidas de complexidade psicológica, principalmente porque não
lhes é permitido o questionamento. Assim, salvam as suas famílias
e todo o bairro da demolição, mas não questionam o porquê de
morarem em casas financiadas ou de suas famílias não conseguirem
saldar as prestações. Uma vez definidas, não se alteram;
apresentam características físicas e psicológicas
unidimensionais e caricaturais. Desse modo, compõem o grupo de
jovens protagonistas aventureiros e amigos: o gordinho engraçado
e mentiroso, Bolão; o garoto aventureiro e asmático, irmão mais
novo de Brand, Mikey; o descendente de chineses e inventor
desastrado, Data; e o garoto espertalhão e brincalhão, Bocão.
Integram ainda esse grupo três adolescentes mais velhos: a bela
garota superficial, objeto da paixão de Brand, Andy; a sua melhor
amiga, a feia e inteligente, Stef; o rapaz forte, bem-humorado e
irmão dedicado, Brand.
O
mundo em que as personagens se movem é determinado por uma
minoria que detém o poder aquisitivo. Embora as personagens conheçam
o seu mundo, ainda não o conquistaram; para tanto precisam
ingressar na aventura. Em busca desse ingresso, realizam o
percurso da aventura: saem do espaço doméstico, conhecido,
adentram o desconhecido, no interior de um morro, e na saída
desse espaço, graças à euforia com o modelo familista, correm
para os braços de seus pais. Essa euforia levada para o discurso
das personagens revela a utilização de uma linguagem trivial
constituída por clichês. Assim, pode-se observar na saída do
espaço da aventura, quando os protagonistas reencontram suas famílias,
o emprego de fórmulas prontas, como as utilizadas pelo
protagonista Mikey, que acredita não ter obtido a fortuna necessária
para saldar as dívidas da família: “–Desculpe, pai. Tínhamos
a salvação nas mãos. Mas largamos para salvar nossas vidas.
Desculpe.” E a utilizada pelo seu pai: “– Tudo bem. Está são
e salvo comigo e com sua mãe. Somos as pessoas mais afortunadas
daqui.”
Ainda,
o mesmo emprego de fórmulas prontas avulta no diálogo entre o
protagonista Data e seu pai. O pai, feliz em rever o filho, tenta
utilizar um de seus inventos, uma máquina fotográfica para
registrar a família novamente reunida, mas o aparelho fracassa.
Diante disso, o protagonista diz: “- Tudo bem, pai. Não pode
abraçar uma fotografia.” Ao que o pai responde: “- Você é a
minha melhor invenção.”
As personagens do filme, embora sejam determinadas em
atingir seus objetivos e se ajudem mutuamente, necessitam de ajuda
no espaço da aventura. A ajuda é obtida quando os jovens salvam
um dos filhos da senhora Fratelli do porão, onde é mantido
acorrentado por ela e seus outros dois filhos. Essa personagem é
portadora de deficiências físicas e mentais, e por isso,
incompreendida e maltratada pelos seus familiares. Embora
grotesca, tida a princípio pelas jovens personagens como um
“monstro”, essa personagem intitulada Preguiça revela-se uma
grande auxiliar e orientadora, capaz de ajudar as demais a lutarem
no espaço da aventura com a família Fratelli e guiá-las, por
meio de uma pequena abertura na rocha para a saída do interior do
morro. Assim, pelo seu poder orientador, esse comparsa conota o
“fio” de Ariadne. Ecoam nessa personagem outros “monstros”
ambíguos conhecidos pelos alunos que, ao mesmo tempo em que
fornecem ajuda, também necessitam dela: a Fera, do conto de fadas
A Bela e a Fera, o corcunda, de O corcunda de Notre Dame, de
Victor Hugo, e Hagrid, de Harry Potter e a pedra filosofal, de J.
K. Rowling.
Ao
término da narrativa, o valor da personagem Preguiça é
reconhecido pelas famílias das jovens personagens. Assim, ele
serve de justificativa para reforçar o bom caráter e a compreensão
delas e de suas famílias. Ainda, Preguiça é adotado por uma
dessas famílias. Sua mãe e seus dois irmãos, graças à ajuda
das jovens personagens aos incompetentes policiais, são presos.
Essa cena reforça a eficácia das ações dessas personagens e
seu bom caráter moldado pelo poder de discernimento e capacidade
de julgamento.
A
admiração dos alunos pelos “heróis positivos ativos”
conota, segundo Maria Alice Faria (1999, p.47), a pressão
moralizante que recebem por parte dos adultos em sua própria
educação em casa, na escola e sobretudo nos livros que lhes são
dados a ler. Justifica-se, então, o predomínio no filme dessas
personagens tão ajuizadas e algumas até sem caráter, mas
detentoras de poderes que as capacitam a optar, quando necessário,
por ações eficazes que promovam o bem comum e favoreçam a obtenção
do objeto de desejo, no espaço da aventura e, no regresso, a
alteração de estatuto e reconhecimento.
O
filme é atraente para os alunos, principalmente porque
proporciona a sensação de conforto, produzida pela manutenção
do horizonte de expectativa do leitor que espera encontrar
personagens heróicas. Justamente, porque não rompem esse
horizonte de expectativa, as personagens são negativas para o
leitor, pois não lhe proporcionam o questionamento e a revisão
de valores. Ainda, por não surpreenderem pelas suas ações e
serem facilmente compreendidas pelo leitor, essas personagens o
consolam e dão a ele a ilusão de que as domina.
Ao
término da aventura, o leitor percebe que foi necessário às
personagens percorrer o espaço da aventura, pois as experiências
vivenciadas nele foram decisivas. Entretanto, sua permanência no
espaço da aventura configura-se como um perigo latente: o de
romper com as coordenadas do sistema social em que devem viver.
Esse sistema determina que devem permanecer junto à família.
A
narrativa do filme é ainda atraente pela exploração do humor e
pela inversão do papel do líder no espaço da aventura. Embora o
protagonista Brand seja o “mais velho” e manifeste em seu
discurso que deve ser o líder, ele não atinge seu intento, pois
as demais personagens ignoram essa afirmação. O líder do grupo
é justamente o “mais novo”: o protagonista Mikey. Ele alcança
esse estatuto por ser um profundo conhecedor, o que também o
torna narrador, da lenda do pirata Willy Caolho. Ainda, pela sua
capacidade de convencimento, o protagonista Mikey atua como
manipulador das ações das demais personagens. No início da
narrativa, o protagonista Mikey é o único que acredita na existência
de um tesouro enterrado próximo às docas Goon, que dão nome à
região em que habitam e determinam a nomeação das personagens
em goonies. Essa nomeação é ambígua; ao mesmo tempo que é
motivo de orgulho para os protagonistas, por representar o espaço
onde habitam, valorizado por eles pelos amigos que contém, também
os envergonha diante de outros adolescentes provenientes de uma
classe social prestigiada que os vê como inferiores.
O
filme é marcado pela intenção básica do narrador tradicional
de contar uma história interessante. Acrescente-se, ainda, que o
tema da aventura no interior de uma mina, de um morro, em espaços
desconhecidos, compostos por labirintos e galerias, faz parte da
linha heróico-aventuresca que no transcorrer dos tempos tem
encontrado a mais alta ressonância entre leitores diversos. O
filme, por meio da técnica da efabulação, aguça a curiosidade
do leitor, transportando-o imaginativamente da segurança do seu
dia-a-dia para os terrores do escuro e do labirinto. Assim, a
narrativa leva-o a participar emocionalmente de todas as peripécias
vividas pelos heróis.
No
universo paradoxal construído pelos pares antitéticos
vida/morte, perigo/segurança, obediência/desobediência estão
presentes todos os componentes que atraem o pré-adolescente e o
adolescente, como o desconhecido, a liberdade de aventurar-se e o
impulso em quebrar a rotina e as regras estabelecidas.
No
filme, o papel do narrador é relativizado. Recorrendo à fórmula
mais corrente do cinema, a objetiva, o narrador transfere para as
personagens o papel do comentário e do discurso didático.
Segundo Paulo Emílio Salles Gomes (2000, p.107), a objetiva leva
o narrador a se retrair ao máximo para deixar o campo livre às
personagens e suas ações. A focalização é dada pelo
narrador-câmera. A câmera, por meio de seu movimento, exerce uma
função nitidamente narrativa. Ela focaliza, comenta, recorta,
aproxima, expõe e descreve. Para tanto, utiliza-se dos seguintes
recursos: close-up, travelling e panorâmica.
Em
Os goonies, o papel de narrador das aventuras do pirata Willy
Caolho é transferido para a personagem Mikey. Esta personagem não
só comenta as aventuras, como também manipula as demais
personagens, por meio de seu discurso, para que ingressem na busca
ao tesouro. Durante o desenrolar do filme, as ações predominam,
as personagens reagem a elas com comentários imediatistas e
elucidativos de suas decisões. As personagens, ao elucidarem o
porquê de suas tomadas de decisão para as demais,
estrategicamente também o elucidam para o leitor, conotando uma
concepção de receptor incapaz de realizar deduções. Como as
reações das personagens são motivadas pela sucessão de
eventos, elas também realizam pouquíssimas deduções,
mimetizando o lugar do leitor implícito no relato. A focalização
apresentada pela câmera é panorâmica e total, tanto em espaços
abertos quanto em fechados. Assim, em espaços abertos pode-se ver
toda a costa em que as personagens habitam, a amplitude do
horizonte e do mar. Uma vez no cenário fechado da aventura, a câmera
domina todos os espaços. Ela expõe para o leitor o que os
protagonistas e antagonistas podem ou não ver, utilizando como
recursos tanto o travelling quanto o close-up. Desse modo, ela
assume o papel de narrador onisciente diretivo, conduzindo as possíveis
interpretações do leitor, impedindo a apresentação de vazios.
Dessa forma, a exclusão da decodificação pelo leitor expõe a
intenção do narrador de apresentar um produto pronto,
previamente interpretado e facilmente consumível. Ao término da
narrativa, o leitor sabe o destino final dos heróis: eles saldam
suas dívidas, podem morar no mesmo bairro e continuar a ser
amigos.
O
filme Os goonies, graças à adesão da câmera aos eventos, à
sucessão de ações e aos protagonistas, produz no leitor a sensação
de imediatismo, de que lê exatamente o que está acontecendo, ou
seja, de concomitância entre o tempo da diegese e o tempo da
enunciação dada pela apresentação do narrador-câmera. Embora,
a linguagem empregada pelas personagens seja a trivial, própria
da cultura de massa, há a exploração criativa na caracterização
do discurso da personagem Mikey. O discurso desse protagonista
consegue produzir efeito de humor e de comoção no leitor quando
revela uma personagem que, preocupada com a situação financeira
de sua família e irritada com os amigos que não compreendem a
gravidade da situação e não acreditam na lenda do pirata
caolho, se confunde com a pronúncia de palavras homófonas.
Alguns exemplos dessa confusão aparecem nas seguintes frases:
“Meu pai vai devolver para o museu ou ao assistente do
cortador... contador... (curador) essas coisas...”; “Estava só
tentando me engasgar... engastar... (enganar).” Essas frases são
proferidas respectivamente quando a personagem quer impedir
seus amigos de destruírem os objetos que acusam a existência do
pirata Willy Caolho colocados no sótão de sua casa; e quando
afirma ao irmão mais velho que está fingindo não se importar
com a mudança de bairro. As frases proferidas pelo protagonista
Mikey conotam o enfrentamento precoce de problemas que deveriam se
restringir ao universo adulto; justamente por isso comovem o
leitor.
O
filme Os goonies, embora seja atraente para o leitor, apresenta
contenção comunicativa. Essa contenção tem por objetivo expor
ao leitor um produto voltado para a facilidade de consumo e para o
entretenimento, desprovido, portanto, de situações e/ou de
personagens que favoreçam a questionamentos existenciais. O grau
de contenção comunicativa desse filme conota a concepção de
leitor. Assim, o filme pressupõe um jovem leitor desprovido de
consciência crítica, que busca na aventura evasão do tédio
cotidiano e divertimento. Desse modo, o leitor desse filme quer
ser conduzido por um produto que ilusoriamente o entretém e
consola, pois o satisfaz pela oferta de um universo organizado e
compreensível, enquanto lhe incute a ideologia da classe
dominante. Essa ideologia avulta na estrutura profunda desse texto
quando se observa que os protagonistas não anseiam pela alteração
do status quo, ou seja, da sociedade em que vivem; antes, como ela
é imutável e “perfeita”, buscam meios que lhes facultem o
ingresso nessa sociedade: o poder aquisitivo. Assim, não é a
sociedade a qual as personagens pertencem que possui problemas;
elas é que não se enquadram. Pode-se observar, então, que, sob
a aparência de diversão dessas narrativas, há a legitimação
da estrutura social vigente.
Pode-se
concluir que o consumo do filme está assegurado por diversos
fatores. Esses fatores atendem aos adultos e aos jovens leitores
com pouco contato com textos diversos. Ele agrada aos adultos pelo
seu caráter ideológico. Graças a esse caráter, introduz as
normas do mundo adulto no âmbito da infância e da juventude e as
endossam. Agrada aos jovens com pouco hábito de leitura ao
apresentar processos formais próprios da cultura de massa: uma
história passada em um ambiente natural que associa medo e
aventura, contenção comunicativa pela condução interpretativa
das ações desenvolvidas na narrativa, sedução ao consumo fácil
pela ausência de novidade formal e de questionamentos
existenciais. Ainda, por agradar aos adultos, estes o
disponibilizam em seus lares. As emissoras, por sua vez, cientes
de que o filme tem consumo assegurado, mantêm-no em circulação
no mercado. Assim, o consumo assegurado não se deve ao fato do
filme sintetizar, por meio dos recursos da ficção, uma realidade
que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive
cotidianamente, nem por se comunicar com esse leitor, estabelecer
com ele um diálogo, falando-lhe de seu mundo, dificuldades e soluções,
mas porque é fácil, consumível.
O
filme define-se, devido à repetição excessiva das mesmas ações
em um único espaço, pelo tédio. Este não é mencionado pelos
alunos; antes, é negado, porque é preferido. Graças ao pouco
contato dos alunos com textos diversos e à excessiva exposição
a produtos da literatura trivial, o filme os conforta, porque
atende aos seus anseios, ou seja, ao seu horizonte de expectativa.
Ao elegerem esse filme, eles evitam realizar um complexo exercício
de raciocínio e interpretação geralmente exigido por textos
mais questionadores, mais críticos e provocadores. Assim, esse
filme ao não permitir que a produtividade do leitor implícito
entre em jogo na leitura, ultrapassa o limite de tolerância
quanto à produtividade, pois lhe nega a possibilidade de exercer
a sua capacidade. Nele, o narrador diz tudo claramente ao leitor,
gerando o tédio, situação-limite que indica o fim da participação
do leitor.
O
filme, ao reduzir os vazios, sob a promessa de diversão,
apresenta um discurso produzido por um emissor que conhece e prevê
com bastante exatidão a enciclopédia, os códigos e volitivas do
leitor ideal ou modelo. Esse leitor ideal, construído ou
projetado pelo filme, é aquele habituado ao mínimo esforço, que
deseja ser conduzido pelo narrador, pela estrutura formal da obra,
enfim o que busca entretenimento e consumo fácil. Ao atender a
esse leitor, o filme limita o número de vazios, determinando uma
menor atividade imaginativa. Por conseqüência, há no filme um
estreitamento de relação projetiva, realizado pelo controle da
participação do leitor. Desse modo, o leitor recebe o filme de
tal forma pronto, estruturado e fechado à sua interpretação que
ele não tem condições de projetar uma nova realidade àquela
que lhe é apresentada. Então, guiado pela ótica do narrador, o
leitor só pode manifestar uma atitude de aceitação ou rejeição
acerca das normas e valores expressos na narrativa.
O
filme ao se subordinar ao horizonte de expectativa de seus
leitores e às “necessidades” desses leitores, definidas por
pesquisas de mercado voltadas para o marketing, objetivou que os
leitores também se subordinassem ao ponto de vista da narrativa.
Assim,
a atuação do narrador no filme impede que a narrativa tenha uma
natureza renovadora e apresente um índice de ruptura quanto ao
tratamento do relato. Ao centralizar a interpretação e
dirigi-la, o narrador não possibilita ao leitor implícito uma
participação no universo ficcional e uma identificação com
este universo. Por restringir as modalidades de deciframento de
seu produto, o narrador não lhe garante a constante atualização,
independente do transcurso do tempo. Ao criar um narrador
controlador, o filme opta pela perda da qualidade da narrativa em
favor do consumo imediatista. Desse modo, resulta uma assimetria
que impossibilita amenizar o contraste entre o poder do narrador e
a dominação do leitor implícito, condenando o filme, por não
ter uma solução esteticamente convincente para este dilema, a não
atingir o estatuto estético.
Pelas
respostas dos alunos, pode-se observar que não há propriamente
uma interação entre eles e o texto, uma revitalização do mundo
ficcional e uma aquisição de um saber. Essas operações ocorrem
quando o leitor implícito, figura que vem a ser preenchida pelo
leitor empírico, oferece algo ao texto e recebe em troca um
conhecimento. Esse conhecimento propiciado pelo texto posiciona o
leitor implícito mais adequadamente em sua circunstância,
libertando-o de preconceitos, suplantando a norma vigente, impondo
novos padrões, tornando-se, enfim, um saber emancipatório. Esse
saber, obtido pela atividade do leitor implícito, concede ao
processo de leitura uma legitimação de ordem existencial,
segundo Zilberman (1984, p.79). Entretanto, o que resulta da
leitura do filme não é uma liberação de preconceitos ou de
normas, mas sim um manual de regras, de valores aceitos como
positivos quando mantêm um compromisso com os ideais da sociedade
capitalista.
Após
a análise do filme, pode-se observar que ele conota o anseio dos
alunos de obterem narrativas que os consolem e confortem. Enfim,
que lhes apresentem personagens compreensíveis, heróicas, redimíveis,
capazes de realizar ações eficazes, desprovidas de complexidade
psicológica e principalmente da capacidade de questionamento.
Pode-se concluir que, voluntariamente, os alunos não elegem
textos portadores da literatura clássica européia, como o conto
dos irmãos Grimm, ou da mitologia clássica, como os das lendas
de Teseu e Ariadne, ou um filme que lhes requer o exercício da
dedução, como O náufrago. Justifica-se, então, a indicação
desses textos e das obras de Monteiro Lobato, em todos os anos em
que se desenvolveu a pesquisa, com o objetivo de propiciar aos
alunos uma ampliação do seu horizonte de expectativa. As obras
de Lobato incorporam um lastro sólido
de cultura proveniente das narrativas orais, de cunho local, por
meio do aproveitamento de certas personagens: fantásticas, como o
Saci Pererê; históricas, como Hans Staden; próprias de relatos
populares, com a presença do ciclo das lendas relativas à onça
ou ao jaboti; da mitologia clássica, como em O minotauro e em Os
doze trabalhos de Hércules; da literatura européia, como Peter
Pan e D. Quixote; da religião, como São Jorge, em Viagem à Lua.
Além disso, apresentam personagens dotadas da capacidade de
questionamento. Suas obras proporcionam também ao leitor, além
dos aspectos lingüísticos inovadores e do caráter intertextual,
a discussão de temas pertencentes exclusivamente ao mundo adulto.
Por exemplo, discutem-se, no Sítio, as conseqüências das
guerras, os problemas do desenvolvimento brasileiro e o
conhecimento intuitivo frente ao predomínio da lógica e da razão.
Dessa forma, as obras de Lobato diferem do filme Os goonies,
porque estimulam o leitor a ver a realidade por meio de seus próprios
conceitos.
Embora
o filme Os goonies não seja emancipatório, pois apresenta heróis
que, desprovidos de complexidade psicológica e principalmente da
capacidade de questionamento, não rompem o horizonte de
expectativa dos alunos, quanto à caracterização de uma
personagem, conhecê-lo foi importante. Ao analisá-lo, pôde-se
detectar quais são os conceitos prévios dos alunos que
determinam suas eleições de textos atraentes. Ainda, o filme
proporcionou o avanço do debate em sala de aula sobre os valores
que ele transmite, bem como a ausência de questionamentos que
apresenta. Graças a esse filme, desenvolveu-se um trabalho
articulado às eleições dos alunos que lhes propiciou, por meio
da oferta de textos diversos portadores de aspectos formais básicos
do texto literário, uma ampliação de seu horizonte de
expectativa.
BIBLIOGRAFIA
AZEVEDO,
Carmen L. de; CAMARGOS, Marcia; SACCHETTA, Vladimir. Monteiro
Lobato: furacão na Botocúndia. 2. ed. São Paulo: Editora SENAC
São Paulo, 1998.
CAMPBELL,
Joseph. O herói de mil faces. Trad. Adail U. Sobral. 6.ed. São
Paulo: Cultrix, 2000.
FARIA,
Maria Alice. Parâmetros curriculares e literatura: as personagens
de que os alunos realmente gostam. São Paulo: Contexto, 1999.
GOMES,
Paulo Emílio Salles. A personagem cinematográfica. In:
CANDIDO, Antonio et. al. A
personagem de ficção.10.ed. São Paulo: Perspectiva, 2000,
p.103-9.
HELD,
Jacqueline. O imaginário no poder: as crianças e a literatura
fantástica. Trad. Carlos Rizzi, São Paulo: Summus, 1980.
ISER,
Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Trad.
Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34,
1996. vol. 1.
___.
O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Trad.
Johannes Kretschmer. São
Paulo: Ed. 34, 1999. vol. 2.
JAUSS,
Hans Robert. A história da literatura
como provocação à teoria literária. Trad. Sérgio Tellaroli. São
Paulo: Ática, 1994.
PAES,
José Paulo. A aventura literária: ensaios sobre ficção e ficções.
São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
ROSENFELD,
Anatol. Literatura e personagem. In:
CANDIDO, Antonio et. al. A personagem de
ficção.10.ed. São Paulo: Perspectiva, 2000, p.9-49.
The
goonies (filme-vídeo). Os goonies. Dir. Richard Donner. Estados
Unidos da América, 1985. Warner
Bros. 115 min, color., son., VHS, v. o. inglês, leg.
português.
ZILBERMAN,
Regina. A literatura infantil e o leitor. In: ___; MAGALHÃES,
Ligia Cadermatori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação.
2.ed. São Paulo: Ática, 1984, p.61-134.
Datos
del Autor: Eliane Aparecida Galvão Ribeiro Ferreira – UNESP –
Assis/São Paulo – Brasil Profª Mestra em Literaturas de Língua
Portuguesa pela UNESP, campus de Assis – SP. Atualmente,
ministra aulas de Língua Portuguesa e Literatura, Redação
Forense e Comunicação e Expressão, no Instituto Municipal de
Ensino Superior de Assis – IMESA/FEMA.
|