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Considerações
sobre os resultados da pesquisa de recepção:a construção dos
sentidos do trabalho pelos receptores dos meios de comunicação
Roseli
Fígaro (ECA-USP/Brasil)
Resumo:
Este artigo relata aspectos dos resultados da pesquisa Comunicação
e Trabalho. A construção dos sentidos do trabalho pelos
receptores dos meios de comunicação, realizada no período de
2002-2004, com o apoio da Fapesp. O objetivo da pesquisa é
analisar a construção dos sentidos do trabalho pelos receptores
dos meios de comunicação, inclusive dos meios de comunicação
da empresa, e ver como o universo do trabalho contribui para que a
recepção se configure na construção desses sentidos. O enfoque
teórico toma a comunicação como processo de mediações e o
pressuposto de que a comunicação na atualidade faz parte das forças
produtivas, ou seja, foi incorporada pelo mundo do trabalho. Apóia-se
para esta discussão nas Teorias de Comunicação, especificamente
nos Estudos de Recepção, na Sociologia do Trabalho e na
Filosofia da Linguagem, através da Análise do Discurso. A
pesquisa empírica está estruturada no cruzamento de métodos
quantitativos e qualitativos de levantamento de dados primários e
em métodos qualitativos de recorte e análise de dados secundários,
com os procedimentos da análise temática e do discurso do objeto
recortado para estudo. A conclusão geral confirma a hipótese do
mundo do trabalho como mediação da comunicação. Demonstra a
importância do cotidiano no trabalho e da interação com os
colegas de trabalho para a recepção dos meios de comunicação,
inclusive da empresa. E mostra como a homogeneização das opções
culturais feitas pelos receptores inviabiliza posições mais críticas
em relação às mudanças no mundo do trabalho. Estas constantes
mudanças causam os sentimentos de dúvida, medo, estresse, solidão
e contrapõem-se aos sentimentos de realização, auto-estima,
reconhecimento e bem-estar que o trabalho e a relação com o
mundo do trabalho trazem. É uma relação dúbia e conflituosa. A
falta de acesso a pontos de vista diferenciados não permite que o
receptor tenha explicação para os problemas enfrentados no mundo
do trabalho.
Palavras-chave:
Comunicação, estudo de recepção, mundo do trabalho,
comunicação
corporativa, meios de comunicação, sentidos do trabalho
Apreender a realidade, em ambas acepções da palavra: tomá-la
e entendê-la, é o objetivo de todo o pesquisador. O drama e a
beleza do trabalho científico estão no fato de que ao tomar um
recorte da realidade como objeto de estudo ela, a realidade, já
está transformada. À medida que é um recorte, de um momento e
de um lugar específicos que serão estudados no intento de
transformá-los ainda mais. O conhecimento é ação, é mudança.
Desta feita, pode-se afirmar que todo pesquisador está condenado
a reiniciar seu trabalho assim que ele se encerra, conhecer melhor
leva a novas perguntas, outros problemas e assim a parcialidade do
conhecimento sempre se renova e se coloca como um aspecto da dialética
da prática da pesquisa.
É a consciência da parcialidade do conhecimento que o
pesquisador produz que renova o desafio de tentar aproximar-se do
objeto de estudo por vários recursos e técnicas de pesquisa.
COMUNICAÇÃO
E TRABALHO: A CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS DO TRABALHO PELOS
RECEPTORES DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO é o título da pesquisa
recentemente concluída e sobre a qual trataremos neste artigo. Os
objetivos que nortearam o trabalho foram basicamente dois:
compreender como se dá a mediação do mundo do trabalho no
processo de recepção dos meios de comunicação; e compreender
como as inter-relações que se dão neste espaço atuam na
constituição do ponto de vista dos sujeitos que nele trabalham.
Orientaram
teoricamente os objetivos da pesquisa principalmente o panorama
das novas estratégias de gestão dos recursos humanos e da gestão
da comunicação nas empresas; as mudanças ocorridas e em
processo no mundo do trabalho; a comunicação produzida pelas
empresas; e a recepção dos produtos culturais veiculados pelos
meios de comunicação de massa.
Conforme
destacado no Projeto, a pertinência dessa pesquisa justifica-se
devido à importância da compreensão das profundas mudanças que
ora se dão na sociedade contemporânea, principalmente em torno
do binômio comunicação e trabalho. O mundo do trabalho é um
espaço privilegiado para se entender como os processos
comunicacionais estão sendo incorporados aos métodos e rotinas
das empresas, constituindo-se em requisito fundamental para o
desempenho delas. No tocante ao cidadão, o que se quer destacar
é a mediação do mundo do trabalho nos processos de recepção
dos meios de comunicação, pois a categoria trabalho tem se
mostrado de grande relevância para a compreensão crítica da
sociedade capitalista globalizada e para a apreensão de seus
processos de mudança.
Destacamos,
na oportunidade, as áreas do saber que fundamentam teoricamente
nossos objetivos e hipóteses – Teoria da Comunicação,
Sociologia do Trabalho e Análise do Discurso – às quais
propomos inter-relacionar para o desenvolvimento da pesquisa.
Partimos
da hipótese de que as relações que se dão no trabalho são as
mediações privilegiadas na construção dos sentidos para a
leitura do mundo e, portanto, para a recepção das mensagens dos
meios de comunicação. Os resultados da desorganização da lógica
do trabalho industrial da linha de produção do modelo
Taylorista/Fordista, passando-se para a organização flexível,
diversificada da economia de escopo, da produção horizontal, da
desespecialização e da polivalência da mão-de-obra, não se
limitam à esfera da grande empresa mas abarcam o conjunto da
sociedade. Tais transformações estão alterando as relações
inter-pessoais, tornando mais delicadas e subliminares as estratégias
da dinâmica discurso dominante/discurso de resistência, na
construção da hegemonia dos discursos que circulam nos meios de
comunicação. Dito de outra forma, a lógica do mercado se sobrepõe
e privilegia os discursos voltados ao consumidor em detrimento do
cidadão.
Resultados
da pesquisa
Cabe
salientar os avanços conquistados com o trabalho, comprovando a
pertinência do cruzamento de técnicas de coleta e observação
para que o Estudo de Recepção se dê de maneira aprofundada e
coerente com o protocolo conceitual a que se afilia. As hipóteses
de pesquisa foram confirmadas e pôde-se comprovar que o mundo do
trabalho além de ser locus de mediação da comunicação é
lugar de acesso a tecnologias de comunicação, como, por exemplo,
o computador e a internet, extrapolando as função operacional e
de trabalho que elas adquirem na empresa para tornarem-se também
meios de inserção social. O trabalho significa meio de conquista
de objetivos, sustento, realização profissional e pessoal,
significa continuidade de vida. Mas ele também significa
estresse, tensão, solidão. Significa ainda pesadelo, palavra não
mencionada mas presente no medo constante com a possibilidade de
que uma nova estratégia, meta ou mudança na empresa corte o vínculo
de trabalho com a mesma. O lugar de trabalho e os colegas de
trabalho são o universo privilegiado das trocas comunicacionais,
da sociabilidade, lugar com o qual se busca construir identidade,
no qual se dão conflitos e se constroem relações afetivas. O
mundo do trabalho pauta interesses, escolhas e relações. O uso
do tempo no trabalho e do tempo fora do trabalho são orientados
pelo trabalho. A família
também se relaciona a partir da lógica do trabalho. Estas são
algumas das conclusões a que a pesquisa nos possibilitou chegar[1].
A proposta metodológica que se construiu neste projeto é
diferenciada no campo da comunicação em termos do que se tem
efetivamente realizado como estudos de recepção. Construir o
objeto científico a partir do locus de mediação da comunicação
coloca de maneira renovada a questão: de que maneira se pode
pensar a comunicação como processo, sem contextualizar o tempo,
o lugar, os sujeitos e os discursos que aí circulam? A pergunta
inicial remete a outras: que tempo, que espaço, que sujeitos?
Destas questões surgiram as inquietações teóricas e metodológicas
que dão sustentação à pesquisa.
Tratá-las teoricamente, coloca-nos diante do problema da
compreensão da sociedade contemporânea e de suas mudanças.
Coloca a questão de que perspectiva o pesquisador vê os
problemas desta sociedade e de que maneira seria produtivo conhecê-los
melhor. Desta forma, o cientista, o pesquisador, que constrói
conhecimento a partir do objeto empírico de pesquisa, tem de
tomar distância do discurso hegemônico, mesmo sabendo-se
impregnado dele. Tem de buscar o conhecimento para a mudança, no
sentido da melhoria da sociedade.
Estes pontos de vista sobre o trabalho científico
orientaram a enunciação do seguinte problema teórico: será que
a sociedade contemporânea, a chamada pós-modernidade, rompeu de
fato com o paradigma do trabalho para sustentar-se no paradigma da
comunicação? Que
tipo de trabalho e que tipo de comunicação?, podem ser as
perguntas posteriores à inicial. O trabalho mudou. A comunicação
também mudou. A sociedade contemporânea adotou os meios, as
tecnologias, os processos e as linguagens da comunicação como
meios e formas de trabalho.
O
tempo e o espaço transformaram-se ao longo dos séculos à medida
que os meios de comunicação aproximavam as pessoas
independentemente da distância objetiva que as separavam. A noção
de tempo, regulado pelo dia e pela noite, a depender da posição
da Terra em relação ao Sol, também mudou independentemente do
planeta e do astro, hoje muito mais relacionada à quantidade de
informação que se pode perceber ou obter.
O
trabalho, tanto como ação humana (pela defesa e sobrevivência)
quanto como atividade econômica, ao apoderar-se do conceito de
comunicação trouxe a revolução nos meios, métodos,
tecnologias, relações a que estamos vivenciando na
contemporaneidade. É esta compreensão que conforma toda a
pesquisa e, inclusive, a introduz.
Esta compreensão obriga a discutir conceitos consolidados
pela autoridade intelectual, por exemplo, de Habermas. Teórico
que há algumas décadas nega o trabalho como categoria teórica
importante na compreensão da sociedade. Desconectando o conceito
de trabalho do conceito de linguagem e, portanto, de comunicação,
para sobrelevar este último.
Ao fazer a opção por compreender as transformações no
mundo do trabalho, partindo da afirmação de que a comunicação
foi incorporada como parte das forças produtivas, conforme também
está enunciado na
introdução deste artigo, colocou-se a necessidade de tomar o
mundo do trabalho como contexto de observação, como problema a
ser estudado. Mas, em que acepção estudar o mundo do trabalho
(da economia, da administração, da sociologia)? Na perspectiva
da comunicação, na acepção dos estudos de recepção. O mundo
do trabalho é tomado como lugar de mediações no qual o processo
de comunicação se estabelece. Uma outra linha poderia ser
adotada, por exemplo a investigação do quanto de processo
comunicacional existe no mundo do trabalho além das relações
interpessoais face-a-face, desde a incorporação de tecnologias,
softwares às estratégias de persuasão para a organização e a
gestão das relações no mundo trabalho.
Mas não é este o objetivo desta pesquisa.
O recorte a que nos propusemos, orientado pelos princípios
teóricos sinteticamente expostos aqui, permitiu, devido ao
problema central enunciado, ou seja, quais os sentidos do trabalho
para os receptores dos meios de comunicação, colocar o sujeito
que está no mundo do trabalho como centro da pesquisa. Desta
forma, o sujeito, receptor dos meios de comunicação, que
interessa à pesquisa é o sujeito no contexto do mundo trabalho.
Aí está mais um eixo teórico da pesquisa, pois demanda
responder como apreender este sujeito que está no mundo do
trabalho do ponto de vista da comunicação. A linguagem verbal,
através da análise do discurso, mostrou-se como a melhor indicação,
visto que, nos permite refletir
sobre a subjetividade e a conformação do sujeito social. É nas
ciências da linguagem também que se vai
encontrar a origem da discordância com os conceitos de
Habermas. São, no fundamental, estes os aspectos teóricos que
conformaram a pesquisa e vão orientar a abordagem metodológica.
No aspecto metodológico, recortou-se o universo da
pesquisa, centrando-o em duas empresas, Siemens e BCP, cujos negócios
estão vinculados diretamente à comunicação como tecnologias e
serviços. Estudou-se o contexto de ambas empresas, no sentido, de
propiciar a compreensão de quem são seus empregados e de como
elas se organizam. Vale destacar como a própria pesquisa sofreu
com um dos aspectos que aponta como característico das mudanças
no mundo do trabalho, ou seja, a volatilidade das ações e das
situações. Durante a pesquisa, a Siemens passou por nova
reengenharia (apesar de a nomenclatura não ser mais utilizada,
por ser considerada defasada). Toda a diretoria de recursos
humanos foi reorganizada, passando a ter uma direção única para
América Latina, com um diretor vindo da Argentina. O executivo
que ocupava o cargo e fez carreira dentro da empresa foi convidado
a aposentar-se e os seus assessores próximos que não se
aposentaram foram demitidos. A direção da unidade Lapa da
empresa, local onde realizamos a pesquisa, também foi mudada.
A
outra empresa, a BCP, mudou tanto, que mudou de dono. Foi
totalmente incorporada pela Telecom America e mudou inclusive de
nome, passando a denominar a marca de Claro. O antigo diretor de
recursos humanos também foi demitido embora, até a data do último
contato, novembro/2003, seus assessores mais diretos permanecessem
na empresa. Os veículos de comunicação e as políticas de
comunicação durante as mudanças também mudaram. A responsável
pela comunicação interna da ex-BCP não sabia dizer se a política
de comunicação e os veículos seriam mantidos. E afirmou estar
impossibilitada de fazer qualquer afirmação sobre como seriam as
novas diretivas, mediante a solicitação de entrevista para a
pesquisa.
Este é um retrato do mercado de trabalho. As mudanças de
estratégias, as fusões e alterações no mercado são
constantes, o que torna o espaço e a relação com as empresas
nada estáveis. Imagine-se como não se sentem os empregados em um
meio ambiente tão instável. Como nos disse um entrevistado, não
é possível fazer planos sequer para o próximo mês.
O contexto de ambas empresas e os aspectos que foram
ressaltados acima conformaram o recorte dos receptores centro da
investigação, bem como do recorte dos veículos de comunicação
das empresas escolhidos para análise.
A pesquisa de recepção foi feita a partir de duas formas
de coleta de dados: questionário fechado para a fase quantitativa
da pesquisa, com o objetivo de construção do perfil sócio-cultural
dos receptores; e a fase qualitativa, com entrevista em
profundidade, com uma amostra menor de entrevistados que
participaram da fase quantitativa.
Paralelamente, recortou-se, no período da pesquisa, os veículos
de comunicação das empresas, e realizou-se com eles análise do
discurso. A partir dos resultados do perfil de consumo cultural,
com o qual a fase quantitativa nos brindou, recortaram-se os veículos
de comunicação mais citados pelos entrevistados, bem como
recortaram-se estes veículos no período de realização da fase
qualitativa da pesquisa e, posteriormente, selecionou-se, destes
veículos, os temas que mais apareceram como preocupação dos
entrevistados. O conjunto de objetos de estudo e o volume de
informações armazenadas constituíram-se como desafio para a
pesquisa e, certamente, poderão reverter-se em material para
outros pesquisadores, contribuindo para o aprofundamento e ampliação
dos resultados.
A problematização dos métodos e das técnicas adotadas
para a pesquisa sempre são úteis no sentido de se ter dimensão
de sua abrangência e também limites. O mapa de perfil socioeconômico
e de consumo cultural que construímos a partir do questionário
da fase quantitativa é muito rico e os cruzamentos feitos até
aqui se, por um lado, nos permitem fazer uma série de afirmações,
por outro, são indicativos de quantos outros cruzamentos e dados
podem ser dele retirados.
Alguns
dos resultados da pesquisa quantitativa
No
contexto do mundo do trabalho, há muita homogeneização e há
muita diversificação. Paradoxo que se pode entender ao tomar
como base que as escolhas dos meios e veículos de comunicação,
bem como de outras opções de cultura e lazer são muito
parecidas: boletins da empresa, TV, rádio, internet, jornais e
revistas fazem parte do universo das escolhas dos entrevistados.
Também o são as opções de lazer e de participação social. No
entanto, existe uma hierarquização diferenciada de opções
entre estes meios. Diferenciação entre o que é primeiro e o que
é segundo, o que é mais importante e menos importante; o que
gosta mais ou gosta menos. Tais opções ficam ainda mais
evidentes na segmentação por sexo, faixa etária e escolaridade.
Mas a diferenciação se dá dentro de um mesmo universo de opções.
Resultados
que surpreendem como o fato de as mulheres assistirem a menos TV
do que os homens e de lerem mais, são alguns exemplos que chamam
atenção e podem ser aprofundados ao serem realizados outros
cruzamentos que não nos foram possível neste momento, tais como,
por exemplo, segmentar a variável sexo feminino a partir das opções
culturais. Os mais jovens também têm, dentro de um mesmo
universo de opções, hierarquização diferenciada.
Os
veículos de comunicação da empresa são de consumo unânime,
embora os entrevistados com posições mais altas na hierarquia da
empresa, sejam aqueles que menos se interessam por essa comunicação.Eles
têm outras fontes informativas que permitem o conhecimento prévio
ou mais aprofundado daquilo que esta sendo veiculado. Outro fato
relevante é de que o universo de trabalho permite o acesso a
computador e a internet a uma larga faixa dos empregados, quase a
totalidade. Fato que não seria possível a se depender dos
recursos próprios dos entrevistados. O universo do trabalho
regula inclusive que tipo de informação se acessa, pois a
Siemens havia disponibilizado o acesso a internet (Cybercafé) a
todos os empregados e depois de alguns meses voltou atrás. Outro
fato que a pesquisa revela, é o quanto do tempo das pessoas é
dedicado à empresa, inclusive nos mais altos cargos. Há pequena
participação em instituições como igreja, academia de ginástica,
instituições de caridade, grupos de teatro, coral etc... A vida
dos entrevistados se dá no espaço do trabalho, da casa e, para
alguns, da escola. A sociabilidade com os colegas de trabalho é
privilegiada, à medida que são raros outros grupos de amizade, não
há tempo disponível para isso. O tempo fora do trabalho é o
tempo da família e/ou do namorado(a), ou ainda da escola (no caso
dos mais jovens). Aspecto que faz do mundo do trabalho o locus
privilegiado do processo de recepção. Confirma-se, mais uma vez,
a importância dos colegas de trabalho no processo de recepção.
Eles são fonte de informação privilegiada pelos entrevistados,
mais do que os veículos de comunicação da empresa e até mesmo
da internet, pois constituem seus laços de sociabilidade.
Os
sentidos do trabalho na fase qualitativa da pesquisa
Na fase qualitativa da pesquisa, a entrevista em
profundidade com os receptores em seus locais de trabalho,
revelou-nos um discurso matizado pelo orgulho de ser escolhido
para trabalhar na empresa e ao mesmo tempo preocupado com o
futuro, do que mais se terá que fazer para se continuar na
empresa na dinâmica incessante de mudanças, cortes de custos e
de cargos. O trabalho é a maneira de se ganhar a vida e a empresa
é a materialização dessa possibilidade para uns, mas para
outros, principalmente os de menor salário, o trabalho e a
empresa significam a própria continuidade de vida. Por outro
lado, a preocupação com o futuro no trabalho, faz com que o
discurso seja perpassado por um sentido de dor, sofrimento. Para
alguns, a solidão é parte da escolha feia por permanecer na
empresa e no tipo de trabalho. Uma fatalidade à qual se precisa
adaptar. Para outros, o fantasma do desemprego e de permanente
crise do mercado de trabalho são fatores de inconformidade, mas
de difícil solução. Não visualizada pela maioria. Chega-se à
conclusão de que não havia e não há outro caminho para as
empresas. A crise do mundo do trabalho é uma fatalidade que deve
ser suportada e, na medida do possível, esquivar-se dela para
manter-se na ativa. Aqueles que conseguem elaborar, um ou dois dos
entrevistados somente, de maneira mais clara e objetiva uma
explicação para a situação que se vive e sobre o acerto dos
rumos tomados, vão buscar as bases de seus discursos nos compêndios
teóricos dos cursos de especialização em diferentes instituições
universitárias. O discurso da empresa e de sua comunicação não
supre tal necessidade e nem se propõe a tanto, como se não
existisse qualquer possibilidade ou questionamento sobre alterações
dos rumos econômicos das grandes corporações e da economia
mundial.
A
perspectiva limitada dos veículos de comunicação
Esta afirmação é fruto da análise do discurso dos veículos
de comunicação interna de ambas as empresas no período da
pesquisa. O recurso à retórica da persuasão é muito utilizado
pelo discurso da comunicação das empresas; como também o é a
utilização da modalidade discursiva da publicidade, acompanhada
das estruturas do discurso autoritário e do raciocínio apodítico,
ou seja, no qual os silogismos partem de premissas antecipadamente
irrefutáveis.
Mesmo com
acesso permanente a este tipo de discurso da comunicação das
empresas, o receptor vislumbra sentidos diferentes, tenta confrontá-los
na comunicação com seus colegas de trabalho e no ambiente de
trabalho permeado pelas conversas, comentários e boatos da
chamada rádio peão.
Os
meios de comunicação extramuros da empresa. Os jornais,
revistas, programas televisivos e radiofônicos mais citados na
fase quantitativa da pesquisa e analisados a partir dos temas
trabalho, desemprego e violência mostraram-se, primeiro, muito
homogêneos no tratamento das pautas. Aqueles que mais se
diferenciam são os programas televisivos, a partir da linha
editorial da Rede Globo, que concebe o fato como história e
torna-o estético ao tratá-lo com a estrutura da ficção. A
regra da notícia boa, ou dada de maneira a relevar seus aspectos
emocionais, feita pela emissora, tira da abordagem dos fatos seu
potencial crítico, no entanto, eles não são tão contaminados
pelo viés opinativo que sobressai nas revistas Veja e Exame.
Quando os fatos não interessam à linha editorial da empresa ele
não aparece ou se aparece é explicitamente editado com a versão
da empresa (há exemplos clássicos como o movimento pelas Diretas
Já e do debate Collor e Lula).
Mas,
também não é na pauta dos meios de comunicação analisados (no
período) que os receptores entrevistados encontrarão respostas
aos anseios que permearam tais temas em seus discursos. A
superficialidade e unilateralidade das matérias que trataram dos
temas acima mencionados não permitem maiores esclarecimentos aos
receptores.
Na
falta de outras fontes, na incapacidade de vislumbrar outros
interlocutores com pontos de vista diferenciados sobre os temas
trabalho, desemprego e violência, os entrevistados buscam
na experiência do cotidiano e com a mediação das relações que
se dão no mundo do trabalho construir seus próprios pontos de
vista sobre os assuntos. São, muitas vezes, visões fragmentadas
e contraditórias e quanto mais distantes os fatos estiverem do
universo das experiências pessoais deles mais se encontrarão
relatos fragmentados e contraditórios. A defesa que os
entrevistados fazem das estratégias das empresas contradiz com a
crítica ao desemprego, à pressão e ao estresse no emprego, por
exemplo.
Diferentemente
da pesquisa que realizamos entre 1997/1998, na Mercedes Benz, em São
Bernardo do Campo, não encontramos nas falas dos entrevistados a
leitura assídua dos boletins sindicais, fato demonstrado por
aquela pesquisa como fundamental para a construção de um ponto
de vista mais crítico no e sobre o mundo do trabalho. Esta ausência
fica explícita porque não há um interlocutor que se coloque
como contraponto aos veículos e discursos das empresas. Mesmo
assim o receptor entrevistado apropria-se de maneira particular
dos discursos da empresa e os organiza a partir de seu lugar na
produção, do círculo de colegas no trabalho e de outras experiências
adquiridas ao longo da vida de cada um.
O
discurso da racionalidade apresentado pelas empresas, muitas vezes
com estrutura silogística, e incorporando o jargão do marketing
da responsabilidade social para reafirmar a razão de suas ações
e diretrizes, não apagam as marcas de conflito e mal-estar no
discurso, embora contraditório, enunciado pelos receptores
entrevistados. A insatisfação imanente nos discursos dos
receptores e de seus colegas de trabalho é que acaba por orientar
como determinados assuntos serão incorporados e compreendidos.
A
racionalidade discursiva das estratégias de gestão baseadas na
persuasão é instrumento fortíssimo para implantação e consecução
dos objetivos das empresas. Mas tal racionalidade é uma
plataforma ideológica, não tem nada a ver com a busca de uma
sociedade que se rege por normas racionais construídas a partir
do consenso e da negociação entre cidadãos iguais. Tal estratégia
discursiva só tem apelo devido ao medo e insegurança que permeia
o universo do mundo do trabalho. E tais discursos se alimentam da
própria crise. Os receptores desconfiam disso, mas pouquíssimos
são capazes de enunciá-lo, falta-lhes o acesso a outros pontos
de vista. Falta-lhes despertar o interesse por formações
discursivas/ideológicas diferenciadas. Os meios de comunicação
de maior circulação não se propõem a esta atividade.
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Datos
de la Autora: Roseli Fígaro: Professora doutora do departamento
de Comunicações e Artes da ECA-USP, São Paulo, Brasil Autora do
livro Comunicação e Trabalho. Estudo de Recepção: o mundo do
trabalho como mediação da comunicação. São Paulo: Anita
Garibaldi/Fapesp, 2001
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